Um convite ao pensamento, apesar da pressa do mundo

Uma pausa na série de postagens Em busca da libertação final para um respiro e uma ótima dica...


Por Francisco Quinteiro Pires


A estreante revista Dicta&Contradicta propõe estimular a reflexão na época em que o ato de ler é considerado uma renúncia ao viver. - Ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1973, o austríaco Konrad Lorenz dizia que a mente, para estar em forma, precisa testar e rejeitar cinco hipóteses antes do café da manhã. Antes de ter uma opinião, é preciso estudar seriamente, ler bastante e refletir ainda mais. Nos dias atuais, essa parece uma convicção na contracorrente, quando fluxos de informação e produção se aceleraram de modo nunca visto. E, quando consumir na hora em que se deseja é obrigação, fica no ar a pergunta que o aceleramento da história suscita: Ler ou refletir é renunciar a viver?

A proposta da Dicta&Contradicta, que lançou em 06/2008 o seu primeiro número, apóia-se na necessidade de refletir para melhor viver. A publicação aposta em ensaios longos sobre filosofia, poesia, literatura, cinema, música e artes plásticas, sem se submeter à ditadura da novidade pela novidade. A Dicta&Contradicta (210 págs., R$ 22,50) "não pretende ensinar ao leitor o que deve pensar, mas oferecer-lhe estímulo para pensar”. Os textos não podem ser "barateados", segundo os editores. A exigência que há no ato da reflexão, no entanto, não pode ser confundida com hermetismo ou academicismo, eles alertam.

Patrocinada pelo Banco Fator e Instituto Bovespa e feita pelo Instituto de Formação e Educação, a Dicta&Contradicta traz, na seção Do Lado de Lá, dois artigos traduzidos das revistas The New Criterion e First Things. (Os editores dizem que The New Criterion é uma das inspirações de Dicta&Contradicta). No primeiro ensaio, o editor da The New Criterion, Roger Kimball, fala das relações entre Friedrich Hayek e os intelectuais, a partir das quais se discutem idéias sobre governo, liberdade individual e civilização. No segundo, o editor da First Things, Joseph Bottum, fala de política e morte.


Capa da edição n°2


A revista começa semestral, mas pretende tornar-se trimestral. Vem com uma seção dedicada a contos e poesias inéditos, tanto nacionais quanto internacionais. Nesta edição, Antonio Fernando Borges, autor de Memorial de Buenos Aires, escreve o conto Agostinho, e o ensaísta Rodrigo Duarte Garcia publica o poema Torres da Memória.

O ponto alto da estréia foi um artigo - Do Enigma ao Mistério - com a edição das últimas três aulas dadas pelo poeta Bruno Tolentino, morto em junho de 2007. As aulas foram gravadas por Guilherme Malzoni Rabello em maio do mesmo ano. Elas tratam do mistério da vida e da morte, - Bruno Tolentino parecia sentir o fim próximo, - e da necessidade de o homem ter epifanias para responder à espessura impenetrável dos enigmas que parecem compor a travessia da existência. Tolentino dá transcendência à vida. O poeta, preocupado com o esvaziamento cultural do País, empenhava-se por meio da poesia a despertar as pessoas para a realidade, sem excluir o que há de grotesco e sublime no ser humano, e de certa maneira ensinava que viver é aprender a morrer. "Se a festa está acabando, muito bem, vamos acabá-la da melhor maneira possível”.

Sua reflexão parte da visita do papa Bento XVI ao Brasil no ano passado, a qual foi um chamado ao silêncio do pensamento. Autor de O Mundo Como Ideia e A Imitação do Amanhecer, Tolentino diz que, num mundo conturbado, "temos todas as razões para buscar um cantinho, um momento de calma, mas praticamente não o fazemos nunca. Estamos sempre ocupados em ter ideias, respostas e tudo o mais”. Tolentino afirma que a vida dá lá as suas voltas, por vezes assustadoras, por vezes maravilhosas, o que não impede ninguém de levá-la a sério. Ler, pensar, sentir, tudo isso leva o homem a viver - e a morrer - melhor, não sem antes aprender a amar mais a si mesmo e ao semelhante.


Publicado em O Estado de São Paulo



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