Em busca da Libertação Final - 7

A segunda de 5 tentativas: provação


Na postagem anterior, vimos como a primeira reação da humanidade diante da questão do mal e do sofrimento no mundo foi a de explicá-la como sendo a consequência do mal que fazemos, isto é, dos desagrados a Deus ou aos deuses. Parecia sensato crer que sofremos por contrariar as determinações da Divindade, e essa foi, em essência, a conclusão dos primeiros mestres espirituais da humanidade.

Mas o tempo passou (o tempo nunca para, apesar de ser estático como um rolo de filme gravado e desenrolado, segundo a física quântica); e quanto mais o tempo passava, mais ia ficando claro que alguma coisa estava errada com essa solução. A humanidade não parava de evoluir e... bem, não havia mais como ignorar: esse era um modo no mínimo incompleto de ver as coisas. - Acontece que, nos primórdios da civilização humana, por muito tempo, a grande massa foi conduzida e dominada por líderes político-religiosos que usavam de truques, armadilhas psicológicas e todo tipo de coerção para que pudessem continuar no comando da situação. Sua arma principal era o medo: 'Não desobedeçam, não se rebelem, não pensem por vocês mesmos... Façam tudo o que dissermos, senão Deus irá castigá-los sem piedade'. – Certo. Mas, se cremos em Deus, temos que reconhecer também que foi esse mesmo Deus que nos deu a todos a capacidade de pensar e analisar as coisas por nós mesmos, e não havia, como nunca houve, um jeito de encobrir a verdade, o tempo todo, das vistas de todo mundo...

E as pessoas fatalmente começaram a perceber, através da simples observação, que os bons também sofriam... e muito. Pior ainda: muitos dentre os que mais pareciam se esforçar em seguir a Vontade de Deus, não raro, eram justamente os que mais sofriam. Já os corruptos, os mentirosos, os falsos, os inescrupulosos... Estes pareciam se dar bem! Ímpios prosperavam, enquanto justos sofriam. Muitos dentre os mais honrados viviam explorados (assim como hoje) por senhores e patrões cruéis e egoístas, e as moléstias mais terríveis nunca escolheram os maus para atacar. Como era possível?

Alguma outra explicação se fazia urgentemente necessária, e foi assim que surgiu um novo conceito universal para explicar a existência do mal e do sofrimento no mundo: este dizia que todas as injustiças experimentadas pelos justos seriam, na verdade, provas divinas de nossa fé e fidelidade. Você é fiel a Deus? Pois Ele vai testá-lo. E quanto maiores as virtudes do ser humano, maiores as provas que deverá enfrentar. Afinal, que melhor maneira de testar o caráter e a fidelidade de um súdito, de um servo ou mesmo de um filho, do que colocando-o á prova? Mas que ninguém se preocupasse: ao final, a justiça triunfaria, e os bons seriam infalivelmente recompensados.

A respeito dessa teoria já falamos bastante na postagem "Em busca da Libertação Final parte 5 - O mal e o sofrimento como testes de fé". A história do Livro de Jó foi provavelmente a maneira mais criativa de apresentar aos buscadores da Verdade essa segunda explicação clássica para o mal e o sofrimento, - até por confrontar a primeira das explicações universais, a do castigo pelos pecados. - É interessante observar como a Bíblia, que foi escrita por diversos autores, de diversas épocas e escolas hebraicas diferentes, ao longo dos séculos, nos apresenta formas de pensamento bastante diferentes entre si. A explicação do autor da história de Adão e Eva não é a mesma da do autor do Livro de Jó, assim como não é a mesma do autor dos Livros do Profeta Samuel, por exemplo; que por sua vez não é a mesma explicação de quem escreveu o Livro de Eclesiastes (como veremos a seguir).


Rama, herói do Ramayana


Sou obrigado, uma vez mais, a falar do forte paralelo que existe entre a tradição espiritualista/religiosa ocidental e a oriental. - Se os autores bíblicos ilustraram magistralmente a nova explicação para o problema através da história de Jó, os hindus, por sua vez, fizeram algo muito parecido, e talvez ao mesmo tempo(!). - Um antigo conto religioso hindu narra as aventuras de um devoto do deus Rama. Para efeito de comparação, transcrevo abaixo um resumo dessa conhecida história:

Há muitos anos existiu um lavrador, que trabalhava alegremente todos os dias, entoando hinos de louvor ao seu Bem-amado Rama... Agradecia pela vida, agradecia pela oportunidade de compartilhar o Prana (energia vital presente na respiração) com todos os seres viventes, pela oportunidade de trabalhar... Agradecia por tudo que tinha e pelo que não tinha. Ao contrário de Jó, este era um homem simples, de poucas posses materiais. Mas, assim como Jó, ele vivia toda sua vida como se fosse uma prece, como um ato de adoração ao Deus Uno, - na pessoa de Rama. - Sua devoção se refletia na figura temporal de Rama, que segundo a fé hindu veio ao mundo eras atrás como um avatar de Vishnu, servir como exemplo de retidão à humanidade. E lá no mundo dos deuses, Rama também amava especialmente a esse seu devoto humilde e dedicado, que lhe prestava uma adoração assim tão pura e sincera.

Isso durou até o demônio Andhaka procurar Rama, para confrontá-lo com um desafio. Ele falou do lavrador e disse: "Este teu devoto te é dedicado, em sua vida humilde, somente porque nunca teve que passar por uma verdadeira provação. Permita que eu o teste, e verá o quão depressa se esgota toda fidelidade. Sei que o tens protegido desde o nascimento, mas o amor e a devoção dele por ti não resistiriam se postos à provação..." Rama aceitou o desafio e então firmou uma espécie de aposta com o demônio, aceitando que este fosse até seu devoto para prová-lo. - Qualquer semelhança com a história de Jó é mera coincidência(?).

E assim, numa bela manhã, quando ia para a roça, o lavrador teve uma grande surpresa: no meio do caminho ele se deparou com ninguém menos que seu bem-amado Rama, recostado tranquilamente numa frondosa árvore, reluzindo e sorrindo para ele. Transbordando de alegria, mal podendo acreditar em sua sorte, o lavrador correu até o ser divino e se prostrou aos seus pés, debulhando-se em lágrimas e se declarando indigno. Mas Rama lhe sorriu e respondeu, dizendo que ouvia seus louvores e sentia seu amor transbordante e sincero, por isso tinha resolvido visitá-lo. Disse, ainda, que por sua fidelidade ganharia um presente: um desejo, qualquer um, seria realizado por Rama. O lavrador, exultante, não ousava sequer tocar os pés azuis e sagrados de seu mestre, era todo alegria. Logo a seguir, porém, Rama, dizendo sentir sede, pediu a seu devoto que lhe trouxesse um pouco de água fresca. Um rio cristalino passava perto dali, e o lavrador partiu na mesma hora, levando uma cuia de casca de coco, a buscar água para seu bem amado. - Pelo caminho, mal podia acreditar em sua sorte. Rama em pessoa havia surgido em seu caminho, e prometera que lhe concederia um desejo! Não poderia haver graça maior.

Nosso herói chegou rapidamente à margem do rio. Ao se curvar para encher a cuia com água fresca, porém, sua atenção foi desviada para o outro lado da margem, de onde partia um angustiante ruído de soluços. Olhou e viu uma belíssima jovem, que chorava copiosamente. Com muita dificuldade ela segurava uma pesada pedra, e esta pedra estava atada, com uma corda, a um de seus pés. O homem imediatamente percebeu que aquela moça pretendia se suicidar, lançando-se no rio. Ele gritou, mas como não obtivesse resposta, e ela parecia realmente determinada a dar fim em sua vida, lançou-se na água e atravessou o rio a nado. Chegando perto da jovem, num gesto rápido abraçou-a, e logo a seguir desfez o nó que a prendia à pesada pedra. Então conversou com ela e tentou consolá-la. Acabou por fazer com que desistisse do suicídio. Descobriu, afinal, que ela tinha acabado de perder toda a sua família num terrível incêndio... Enquanto conversavam, o rapaz se impressionava mais e mais com a estonteante beleza da jovem. E se apaixonou. Ali estava ela, tão carente, tão desesperada e perdida... e tão linda, com aquela cabeleira negra, os olhos brilhantes, a pele suave, o corpo jovem... e sem ninguém no mundo, nem para onde ir. O homem acabou por levá-la para sua casa, onde os dois se entregaram aos desejos da paixão...

A história é longa e cheia de detalhes, mas o que acontece a partir daí, resumidamente, é que o tempo passa e os dois se casam. Eles constroem juntos uma casa aconchegante às margens do mesmo rio, onde vivem felizes e acabam tendo um filho muito amado. E desde aquele dia, em que conhecera sua esposa, o herói dessa história raras vezes voltou a pensar em Rama. Com o correr dos anos, acabou por decidir que o tal presente prometido pelo deus de sua devoção não poderia ser outro, afinal, que sua linda e perfeita esposa, seu filho e a vida feliz com que fora agraciado; e assim, apenas aceitou o desenrolar das coisas, naturalmente.

Um belo dia, porém, quando o lavrador estava no campo, uma terrível tempestade se abateu sobre aquela região. O homem precisou se abrigar numa caverna até que a fúria das águas e dos trovões se aplacasse. Mas assim que pôde correu até o local de sua casa, temeroso por sua família. Mas, ao chegar à casa onde fora feliz por tantos anos , encontrou-a totalmente destruída. - A tempestade havia feito o rio transbordar e as águas avançaram sobre a construção, destroçando-a. Pior: sua esposa e seu filho haviam sido arrastados e mortos, como ele comprovou logo depois, ao encontrar seus corpos, algumas centenas de metros adiante.

Desesperado, completamente arrasado, o pobre lavrador se lança por terra, um nó terrível a crescer na garganta, uma dor insuportável a tomar conta do corpo e da alma, a impedi-lo de sequer se mover ou pensar. Nesse exato momento clama aos céus e ao seu esquecido Rama, sem obter resposta. Entende que foi ingrato, que deixou seus pensamentos se voltarem muito mais aos cuidados deste mundo do que à Realidade Divina. Há anos não mais cantava louvores, não elevava preces de gratidão nem sentia mais a presença de Rama nas coisas simples da vida, em sua respiração, no trabalho, no existir... Os corpos de sua linda esposa e de seu filho querido ainda lhe pareciam vivos, apenas dormindo, estirados entre a lama e os detritos, bem diante dele. Mas era tarde demais. Tomado de uma angústia mortal, mais pesada que o mundo inteiro, acabou pegando no sono ali mesmo, - o tipo de sono que funciona como uma resposta orgânica a um sofrimento grande demais para ser suportado. Diante dos corpos, encharcado pela água da chuva e por suas lágrimas, ao lado do rio, ele dormiu... - Curiosamente, se encontrava no exato local onde havia conhecido, anos antes, sua esposa amada.

Dormindo, ele sonha. Um sonho estranho, que lhe pareceu mais com um despertar: estava no mesmo lugar, deitado à margem do velho rio. Mas levanta a cabeça e vê o mesmo rio agora muito calmo, com múltiplos reflexos dourados a dançar na superfície, iluminado pela luz do sol de um lindo dia. Percebe que sua mão segura uma cuia. A mesma que ele, há tempos, levara para buscar água para Rama, e da qual nem se lembrava mais. Nesse momento, o próprio Rama mais uma vez aparece diante dele, porém em sua forma real e esplendorosa. O homem cai de joelhos, sem nada entender. Rama então diz:

"Achei que fosses um devoto fiel, como me juraste. Mas diante da primeira distração de Andhaka, que te fez ver uma jovem que nunca existiu, e experimentar uma vida de coisas que nunca existiram, rapidamente me esqueceste! Eu te prometi a realização de um desejo e minha glória poderia ter te concedido a revelação da Verdade Suprema, o despertar definitivo da tua consciência ou o perdão de tuas dívidas cármicas. E tudo que te pedi foi um pouco de água, mas nem isso fizestes por mim. Mesmo assim, pedi a Andhaka que esperasse: te dei muitas chances. Te dei oportunidades por anos seguidos, mas nem assim te lembraste de mim, cego estavas por teus desejos e teu egoísmo. É assim que me amas? Com que rapidez me esqueceste! Saibas que nenhum tempo se passou, desde aquele instante em que chegaste a este lugar para buscar-me um pouco de água. Estamos ainda no mesmo dia, que é um só: o mesmo dia de hoje e de sempre. Ainda te espero debaixo daquela árvore. Quando chegaste a este ponto, Andhaka te induziu a um pesado sono, e dormindo sonhaste com uma bela mulher, pela qual prontamente me trocaste. Tua casa, teu filho, tua vida de prazeres fúteis, nada disso foi real. Achava eu que serias forte e fiel para despertar deste sonho, por mim. Mas assim que viste a mulher dos teus sonhos, me esqueceste. Quantas vezes pensaste em mim, durante todos estes anos de gás estéril? Quantas vezes cantaste meu nome, quando vivias teus prazeres de mentira? Nenhuma sequer. Vejo que o teu amor nunca foi real, porque se fosse, serias livre. Te fiz despertar para que me visses novamente e compreendas a tua tolice. Mas agora terás que voltar a dormir e sonhar este mesmo sonho, chorar por mentiras e se alegrar por mentiras. Não te preocupes, porém, pois levarás algo da minha lembrança contigo, até que reúnas forças suficientes e voltes a despertar, mas por tuas próprias forças. Enquanto isso, continuarei te esperando, neste mesmo dia, que é o único dia que existe."



Fim. Essa história é contada de diferentes maneiras, com algumas variações nos detalhes aqui e ali, mas a base é a mesma e o sentido também. O devoto foi submetido a um teste pela própria Divindade. - Um homem sendo posto à prova por Deus. - Talvez, à primeira vista, o estudante ocidental desavisado entenda que esta seja uma história bem diferente da do Livro de Jó, porque nesse caso a devoção prestada era a um deus particular, enquanto Jó foi posto à prova diretamente pelo Deus Uno, o Criador do Universo. Mas aprofundando a questão, antes de tirarmos conclusões precipitadas, vemos que para os hindus Rama é um avatar de Vishnu, ou seja, uma manifestação de Vishnu, uma das formas pelas quais este se apresenta. E Vishnu é um dos componentes da Trindade Hindu, juntamente com Brahma e Shiva. - Dentro desta escola, estes três representam a personificação máxima da Divindade Una, o único Deus que é Tudo em todos. A partir dessa perspectiva, fica fácil entender que, mais uma vez, as duas tradições ancestrais estão ensinando, - cada qual segundo usos e costumes da cultura onde surgiram, - o mesmo princípio: Deus nos põe a prova. Somos testados em nossa fidelidade, e isso explicaria o sofrimento dos justos.



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