Em busca da Libertação Final - 6

A primeira de 5 tentativas: castigo ou consequência




A análise anterior sobre o livro de Jó pretendia servir como preparação para o nosso máximo aprofundamento naquilo que as religiões e a filosofia nos permitiram avançar na busca por uma resposta satisfatória para a mais inquietante das questões atemporais: a existência do mal e do sofrimento. O estudo comparado demonstra que tudo que conseguimos avançar nesse campo, até o momento presente, pode ser resumido em 5 tipos essenciais de (tentativas de) solução para o problema. Todas as muitas teorias de que dispomos podem ser enquadradas numa destas opções:

1) Castigo pelos pecados ou consequência de más ações;

2) Prova de fé e fidelidade;

3) Redenção, purificação ou depuração;

4) Consequência inevitável do livre arbítrio;

5) Mistério absoluto.


A partir de agora passaremos ao estudo isolado e detalhado de cada uma dessas 5 concepções fundamentais. Começando pelo começo...


Castigo pelos pecados ou consequência de nossas más ações

Ao contrário do que muitos imaginam, a ideia do mal e do sofrimento como consequência da desobediência à Vontade Divina, - que é perfeita e espera que também sejamos perfeitos (Mateus 5,48), - do declínio moral da humanidade, do pecado ou das más ações cometidas, não é uma exclusividade da tradição judaico/cristã. Todas as religiões ancestrais o afirmaram, de maneiras diferentes (ou nem tanto), assim como também as religiões mais 'recentes'. Poderíamos afirmar que todas as religiões, sem exceção, quer o reconheçam ou não, ensinam ou em algum momento ensinaram que o mal e o sofrimento tem como causa os pecados ou más ações da humanidade.

É também um fato que certos representantes de algumas religiões relutam em reconhecer esta realidade, que no entanto está muito clara para os pesquisadores acadêmicos; - que nesse caso se encontram um passo além em conhecimento, justamente por possuírem uma visão mais global do problema. - Tal imparcialidade não pode ser atribuída à maioria dos religiosos, que conhecem bem, apenas, cada qual a sua própria doutrina. Assim sendo, todo julgamento que fazem é a partir de suas próprias convicções (e não poderia ser diferente). Partindo desta premissa, e para que a nossa análise se torne completa, uma apreciação mais refinada do hinduísmo (ou brahmanismo) se faz necessária. O hinduísmo é um ponto-chave em nossa apreciação da matéria por razões que veremos adiante. É comum que o estudante das religiões, ao adquirir um conhecimento superficial a respeito do hinduísmo, entenda que essa antiga tradição represente uma filosofia de vida completamente diferente e até mesmo contrária aos conceitos de pecado e castigo da tradição judaico-cristã. Uma apreciação mais próxima, no entanto, demonstra o contrário: mudam as formas e os nomes, mas não a matéria em si, e a ideia permanece a mesma. Senão, vejamos:

Conceitos do hinduísmo - O hinduísmo ensina que o homem está unido à Natureza e ao Universo, sendo que nesta concepção o Universo é Deus. Estando o homem (isto é, a humanidade) unido ao Universo infinito (como parte dele), todos são deuses. Tudo é Deus e Deus é tudo. Mas este Deus absoluto é impessoal, assim como uma Energia Cósmica, e tal Realidade assim infinita e ilimitada não pode se envolver em nossos problemas humanos, ilusórios e insignificantes. Acontece, porém, que os seres humanos sempre precisaram de um contato íntimo com a Divindade, e isso só seria possível com um Deus pessoal. Foi assim que surgiu o imenso panteão de deuses hindus, uma matéria complexa, como já vimos aqui. Além da trindade absoluta, formada por Brahma (criador), Vishnu (preservador) e Shiva (destruidor), com o passar dos tempos começaram a pulular deuses hindus de todos os tipos e cores: deuses que vivem no leito dos rios e nas copas das árvores; deuses especializados em cada pequeno e corriqueiro problema de família e deuses generalistas, deuses guerreiros e deuses de paz, deuses materialistas e deuses especializados em questões espirituais. E entre os muitos deuses adorados pelos hindus, alguns são bons, outros maus, e outros são as duas coisas, simultaneamente.

É exatamente a partir daqui que a coisa começa a ficar interessante, porque a pergunta que não quer calar é exatamente a mesma: se o homem é Deus e Deus é tudo, e se tudo que existe é harmonia e perfeição, como explicar a existência do mal e do sofrimento no mundo? Ainda que para os hindus esta seja uma dimensão ilusória, como veremos, nesta dimensão o mal existe, o que seria por si só inadmissível. E porque haveria esta dimensão de sombras e ilusões, pra começo de conversa, se o Criador é Verdade e Perfeição? Se a pergunta é a mesma, chegamos aqui a uma encruzilhada, porque a resposta encontrada também é a mesma, embora possa não parecer à primeira vista. Observe: para o hinduísmo, a dor e o sofrimento só existem, para nós, porque acreditamos neles. É uma concepção bastante elaborada, e as interpretações dos Vedas (livros sagrados que compõem as bases do hinduísmo) são diversas. Basicamente, porém, afirmam que o mundo físico em que vivemos é uma emanação de Brahma; - mas uma ilusão, designada como um Véu de Maya. - Assim, a existência desta vida passageira, juntamente com a nossa personalidade, não passam de sonho. A única maneira de o ser humano se libertar do mal e do sofrimento é vencer a ilusão da sua existência pessoal e física. Como fazer isso? Transcendendo sua própria condição humana, indo além das fraquezas dos desejos e das aparências, através dos seis sistemas ortodoxos, que também já vimos aqui.

É exatamente por isso que o ascetismo é tão valorizado no hinduísmo. Ocidentais veem na TV, sem entender, homens magérrimos e estranhos perambulando pelas ruas da Índia com seus corpos cobertos de cinzas. Alguns deles perfuram seus corpos com objetos pontiagudos, outros contorcem seus membros como se fossem feitos de borracha, outros ainda se deitam sobre cacos de vidro ou penduram grandes pesos em seus órgãos. A autoflagelação dos sadhus é um sinal de sua busca pela superação das limitações físicas. Se cobrir de cinzas e perfurar o corpo são maneiras de tentar demonstrar que superaram a ilusão da existência física, - que seus espíritos já alcançaram a dimensão divina além do corpo e das limitações aparentes.

Como dito antes, achar que o sistema de crenças hindu tenha pouco ou nada a ver com a concepção judaico-cristã do pecado original é um engano comum. - Vejamos o que o hinduísmo tem a dizer, claramente, a respeito da incômoda pergunta sobre o mal e o sofrimento:

"A razão do mal e do sofrimento em nosso mundo, segundo o hinduísmo, é acreditarmos neles, isto é, acreditarmos numa mentira, já que o mal e o sofrimento não possuem existência real. Estamos, porém, presos a esta realidade por determinação divina, já que o Criador quis que alguns nascessem como Brâmanes (saídos dos lábios de Brahma), outros como nobres e guerreiros privilegiados, os Xátrias (originários dos braços ou do peito de Brahma), outros como comerciantes e agricultores abastados; os Vaisyas (oriundos do ventre ou das pernas de Brahma), e outros ainda como lavradores, servos e artesãos, os Sudras (saídos dos pés de Brahma). Além destes (como sabemos) existem os Párias, que não pertencem a nenhuma casta, que não podem viver nas cidades, ler os livros sagrados e nem se banhar no Rio Ganges. Apesar disso, a realidade da existência é completamente diferente daquilo que vemos e experimentamos no mundo das ilusões (Véu de Maya), o mundo físico. O homem é parte do Universo, consequentemente parte de Deus. Em última análise, o homem é Deus, já que Deus é tudo e tudo é Deus. O mal e o sofrimento só existem para o homem porque ele acredita nas falsas aparências deste mundo de sombras. Atingir a liberação do mundo de sofrimentos é possível para aquele que vence a ilusão da existência pessoal e física, transcendendo a condição humana, indo além das fraquezas, dos desejos e das aparências..." [1]




Para os hindus, porém, uma só vida não seria suficiente para que se pudesse atingir tal grau de perfeição. Seriam necessárias muitas e muitas vidas pra isso, - na verdade, milhões delas. Mas, ora, os habitantes do Vale do Indo sempre tinham acreditado na imortalidade da alma, e se a existência física e o tempo não passam de ilusão... A solução estava próxima, e foi encontrada numa época entre 1.000 e 600 aC. Enquanto o Rei Davi e seus descendentes, não tão longe dali, governavam a terra de Israel, os sábios do norte da Índia criaram a doutrina da reencarnação. Agora as pessoas já podíam se sentir consoladas quanto às dores e injustiças deste mundo. Com a gradual elaboração e desenvolvimento de seu corpo doutrinário, o hinduísmo passou a ensinar que uma vida de boas ações determinaria uma nova encarnação de riqueza e prazeres, numa casta mais elevada. Mas uma vida de faltas graves infalivelmente acarretaria uma reencarnação ruim, fosse como um pária (dalit), como um animal ou mesmo como vegetal. Para entender porque isso não é diferente do conceito de pecado e castigo, analisemos com atenção este breve resumo:

"Os ensinamentos do hinduísmo, segundo os Vedas, revelam-nos que estamos separados de Deus ou da Realidade Divina, presos num mundo de ilusão, por acreditarmos em mentiras. A única maneira de nos libertarmos é por meio da fé, ou seja, a aceitação da verdade, da autopurificação e da prática das boas ações. Seremos recompensados de acordo com as nossas escolhas e segundo o nosso modo de vida. Ações boas ou corretas implicam em honra, felicidade e paz futuras. Ações más implicam em humilhação e sofrimento futuros. Esta é a lei suprema, da qual ninguém escapa."[2]


Agora compare a essência dos ensinamentos hinduístas, expostos acima, com o resumo da doutrina judaico-cristã segundo a Torá ou o Antigo Testamento da Bíblia, abaixo:

"No princípio, o homem era um com Deus. Satanás, o pai da mentira, desviou o homem, fazendo com que se extraviasse do Paraíso divino. O homem, por acreditar numa mentira, perdeu a sua privilegiada condição inicial, de Comunhão com Deus, e assim foi banido e condenado a viver num mundo de dores, isolado da realidade divina, ficando sujeito ao sofrimento, velhice e morte. A partir desse momento e até hoje, a única maneira de reconquistar a Comunhão perdida é viver uma vida de obediência e virtudes. Com base no Antigo Testamento da Bíblia, a Torá, isto é, antes do advento do Cristo, que trouxe uma revisão radical dos antigos conceitos, fazer o bem implica recompensa, e fazer o mal implica castigo."[3]


Observe como está clara a relação, - direta e explícita, - entre as duas abordagens doutrinais clássicas. – Essas tradições ancestrais podem ser realmente diferentes ou mesmo opostas em outros aspectos, mas não neste particular. – Ambas ensinam exatamente o mesmo princípio: a) O mal e o sofrimento são consequência das nossas escolhas e atos. b) A única maneira de nos libertarmos deste ciclo é através da mudança de atitudes, da fé, da aceitação da Verdade, da autopurificação espiritual, dos esforços pessoais.

Interessa saber que o hinduísmo original não demonstra nenhum pudor para falar de castigo e punição; a sensibilidade atual é que tende a refutar esses conceitos primordiais. Assim também algumas religiões modernas, surgidas a partir do século XXIII, adotaram princípios hinduístas, mas procuraram moldá-lo ao gosto ocidental da era do cavalheirismo: seus fundadores não gostavam de palavras como ‘pecado’, ‘punição’ e ‘castigo’; - destaque para o espiritismo e a teosofia. - Basta uma breve análise, porém, para percebermos que ensinam os mesmíssimos conceitos, apenas fazendo uso de outras palavras. Senão, observemos os principais supostos pontos de discordância:

“Deus não castiga”. Não. Mas obriga aqueles que falham a renascer em condições de sofrimento, para depurar seus erros. Eles vão ter que reencarnar e sofrer indefinidamente, num longo e penoso processo de purificação espiritual (a palavra 'purgar' também está proibida, embora tenha exatamente o mesmo significado), até que estejam amansados evoluídos e se tornem dignos de alçar algum plano de existência mais elevado. - O que mudou? Os nomes dados às mesmas coisas. Antes se falava em castigo, agora se fala em consequência, mas continuamos falando de causa e efeito;

Uma observação irresistível: não deixa de ser irônico ver tanto pudor para se falar em castigo nos dias de hoje, uma época em que os nossos melhores educadores comprovam a cada dia que a melhor maneira de educar os filhos é justamente através do sistema castigo e recompensa... “Não bata, não ameace, não grite nem perca a calma. Castigue quando ele (seu filho) errar e recompense quando acertar.” - Dr. Içami Tiba (Quem Ama Educa - Integrare Editora).

“Não existe pecado”. Não. O que existem são transgressões às Leis de Deus, ou seja, às leis naturais, cometidas por ignorância ou medo, por espíritos que ainda não evoluíram o bastante. - O que mudou? Mais uma vez, apenas os nomes. O sentido continua o mesmo. Quando a Bíblia fala em pecado, sem dúvida se refere à transgressão das leis divinas, e sendo Deus o Criador, contrariar suas leis é ir contra os princípios naturais universais. Absolutamente nada de novo está sendo dito;

“Não existe 'punição'”. Não. Só existe um lugar chamado “Umbral”, onde vivem espíritos que se encontram num grau de evolução inferior, apegados à matéria ou a sentimentos ruins, onde sofrem com dores carnais (pois ali a alma vive temporariamente com um corpo semelhante ao físico, o ‘perispírito’, que tem as mesmas necessidades que temos aqui na terra), remoendo rancores e mágoas. Ficam lá até que sofram o suficiente para se arrependerem... - Pergunta: o que mudou? Resposta: as palavras. Opinião deste autor: a crueldade nessa visão me parece até mais requintada...

Fica claro que o conceito de mal e sofrimento como castigo, punição ou consequência pelas nossas ações, embora não seja a única explicação disponível, é universal e atemporal. Mudam os nomes que damos às ideias, mas as ideias em si permanecem exatamente as mesmas. Autores recentes enfeitaram e criaram termos ‘modernos’, mas a velha lógica permaneceu: faça o bem e se dê bem, faça o mal e se dê mal. Ponto. É um fato que a maioria dos problemas inter-religiosos com relação ao tema do mal e do sofrimento estão muito mais na interpretação de certas palavras do que no significado das palavras em si. - Castigo pelos pecados ou consequência de más ações. - Esta foi (e continua sendo) a primeira das explicações universais para a existência do mal e do sofrimento no mundo. Uma explicação que acabou por se revelar imperfeita, para dizer o mínimo. Como veremos na próxima postagem.

Concluindo este tópico, importa dizer que a comparação entre o hinduísmo e a tradição judaico-cristã foi necessária, logo no começo deste estudo, porque desse modo englobamos a totalidade absoluta dos sistemas de crenças existentes no mundo. Cada uma das doutrinas existentes hoje, sem exceção, tem suas raízes numa ou noutra destas tradições-mães. - A tradição ocidental seguiu pelo caminho do Gênesis, da história de Adão e Eva e da pregação dos Profetas do Antigo Testamento, que proclamavam os sofrimentos do povo de Israel como consequência dos seus pecados e da sua infidelidade. Já a tradição oriental seguiu os passos dos primeiros rishis hindus, que ensinaram que todo o mal e sofrimento surgiram em consequência da nossa identificação com nossos desejos e paixões, sendo que todo ato de egoísmo e ignorância faz reforçar os grilhões que nos prendem a esta dimensão ilusória.


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Notas:

1. PEIRANO, Mariza G. S. A Índia das Aldeias e a India das Castas: Reflexões Sobre um Debate, Brasília: Instituto de Ciencias Humanas, 1987;
2. Idem;
3. PAIVA, R. Catecismo Católico Bíblico, São Paulo: Loyola, 2004.


Fontes e bibliografia:

PEIRANO, Mariza G. S. Dados - Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro/ Sociedade Brasiliera de Instrução, 1987, p. 359;
PAIVA, R. Catecismo Católico Bíblico, São Paulo: Loyola, 2004;
BOWKER, John. Para Entender as Religiões, São Paulo: Editora Ática, 1997.




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