Em busca da Libertação Final - 5

O mal e o sofrimento como testes de fé


Com a proposta de enriquecer a reflexão sobre o mal e o sofrimento no mundo, trago um trecho do livro 'God's Problem: How the Bible Fails to Answer Our Most Important Question', de Bart Ehrman. - Só para corajosos. - Este autor é presidente do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, conhecido por suas várias publicações sobre o início do Cristianismo, e é considerado um dos maiores especialistas internacionais da atualidade sobre temas bíblicos. Segue:


Se há no mundo (a atuação de) um Deus todo-poderoso e amoroso, por que há tanta dor excruciante e tanto sofrimento indizível? O problema do sofrimento me atormentou durante muito tempo. Foi o que me levou a pensar na religião quando jovem, e foi o que me fez questionar minha fé quando mais velho. Por fim, foi a razão pela qual eu perdi minha fé. Este livro tenta estudar alguns aspectos do problema, especialmente do modo como ele é refletido na Bíblia, cujos autores também lidaram com a dor e os infortúnios do mundo.

Para explicar por que o problema tem tanta importância para mim, preciso fornecer um breve histórico pessoal. Durante a maior parte da vida eu fui um cristão devoto e praticante. Fui batizado em uma igreja congregacionalista e criado como episcopaliano, tornando-me coroinha aos 12 anos e assim permanecendo até o curso secundário. Nos primeiros dias como secundarista, comecei a frequentar um clube de 'Jovens em Cristo', e tive uma experiência de “renascimento” - que retrospectivamente soa um pouco estranho: eu tinha estado envolvido com a Igreja, acreditado em Cristo, orado a Deus, confessado meus pecados, e assim por diante ao longo de anos. Do que exatamente eu tinha que me converter? Achava que estava me convertendo do inferno - eu não queria experimentar o sofrimento eterno junto com as pobres almas que não tinham sido “salvas”; eu preferia muito mais a opção do paraíso. Seja como for, quando "renasci", era como se estivesse subindo um grau em minha religião. Eu passei a levar muito a sério minha fé, e decidi ingressar em um seminário fundamentalista — o Moody Bible Institute, em Chicago, — onde comecei a me preparar para me tornar pastor.

Eu me esforcei muito para aprender a Bíblia - decorei diversas partes dela. Até hoje posso citar livros inteiros do Novo Testamento, versículo a versículo, de memória. Depois que me me formei no Moody, com um diploma em Bíblia e Teologia (na época o Moody não oferecia bacharelado), prossegui meus estudos em Wheaton. Não me considero um ateu e não acho que estou fazendo a mesma coisa que autores como Dawkins, Harris, e outros. Eles estão atacando a religião sem conhecer muito. Quando eu escrevo, faço isso como alguém que já esteve profundamente envolvido com a Cristandade, mas que agora a rejeitou. Por isso, a minha perspectiva é completamente diferente. Fui criado na Igreja Protestante e fui um cristão muito ativo por vários anos. Mas eu deixei a cristandade não por conta dos meus estudos históricos sobre a Bíblia, mas por não conseguir mais acreditar que poderia haver um Deus no comando deste mundo cheio de dor e sofrimento.

Um dos meus livros traz o título Jesus, Interrupted (Jesus, interrompido) significa que há inúmeras vozes diferentes falando no Novo Testamento. São autores diferentes, que possuem pontos de vista diferentes e que, muitas vezes, são conflitantes entre si. Com tantas vozes falando no mesmo livro, muitas vezes é impossível escutar a voz do Jesus histórico, porque ele foi interrompido por outras pessoas.

Todos já experimentaram o sofrimento, e irão experimentar ainda mais antes de morrer. De unhas quebradas a ossos fraturados, de arteriosclerose a câncer e falência de órgãos; doenças curáveis ou incuráveis. Meu pai foi levado pelo câncer há 18 anos com a bela idade de 65 anos. Em agosto daquele ano estávamos em uma viagem de pesca, e ele parecia bem. Seis semanas depois estava em seu leito de morte no hospital. A sua aparência tinha mudado de modo inacreditável. Seis semanas depois, após uma dor excruciante, - um médico disse que não queria aumentar a dose de morfina para que ele não se tornasse viciado, - ele estava morto.

Exatamente agora, muitos anos depois, eu estava esboçando este capítulo no aeroporto da Pensilvânia, voltando de uma palestra que tinha feito na universidade da Pensilvânia em homenagem a um velho amigo e colega, Bill Petersen, um brilhante linguista e historiador especializado em primórdios do Cristianismo, morto de câncer no auge da carreira. O câncer pode atingir qualquer um de nós a qualquer momento. E mesmo a doença mais prosaica pode levar à morte. De fato, muitas pessoas morrem de gripe. A pior epidemia da história americana foi a epidemia de gripe de 1918, colocada às sombras da História pela I Guerra Mundial, mas muito mais mortal que a própria guerra para os soldados americanos, sem falar nos civis. De fato, ela matou mais americanos que todas as guerras do século XX juntas. Ela surgiu num quartel do exército em Fort Riley, Kansas, em março de 1918: os médicos pensaram que era um novo tipo de pneumonia. Então pareceu desaparecer. Mas voltou com fúria, tanto entre civis quanto militares, que acabaram levando-as à Europa quando transferidos para a linha de frente da guerra, de modo que soldados de outros países a contraíam e levavam pra casa. Virou uma epidemia mundial de proporções apocalípticas. Os sintomas eram diferentes de tudo que se conhecia. Parecia afetar mais os jovens e saudáveis - aqueles entre 21 e 29 anos de idade eram o principal grupo de risco - que os muito jovens, muito velhos ou muito fracos. Os sintomas apareciam sem aviso, e pioravam rapidamente. Os pulmões se enchiam de fluido, dificultando a respiração; a temperatura do corpo aumentava tanto que o cabelo começava a cair. As pessoas ficavam azuis e depois pretas; acabavam morrendo afogadas no líquido acumulado nos pulmões. Tudo isso podia acontecer em 12 horas. Alguém que você tinha visto bem no café-da-manhã poderia estar morto na hora do jantar. E o número de pessoas infectadas foi impressionante.

Em setembro de 1918, 12 mil pessoas morreram nos Estados Unidos - e depois piorou. Certas unidades do exército na guerra perderam 80% de seus soldados; Woodrow Wilson teve de decidir se enviava reforços, sabendo que o vírus poderia matar a maioria daqueles nos navios antes que eles chegassem ao teatro de operações, com a impossibilidade de uma quarentena e sem nenhuma vacina. No plano doméstico, lugares como a cidade de Nova York e Filadélfia estavam em crise: em outubro de 1918, Nova York registrava mais de oitocentas mortes por dia; na Filadélfia, 11 mil morreram em um mês. Eles ficaram sem caixões, e sem conseguir enterrar os caixões que eram usados.

Apesar de esforços intensos, os cientistas não conseguiram produzir uma vacina (parte do problema: eles supunham que a doença era causada por uma bactéria, quando na verdade era um vírus). Mas a doença acabou seguindo seu curso normal e parou de matar, misteriosamente, por conta própria. Mas não antes que a maioria da espécie humana tivesse sido infectada. Nos dez meses de epidemia, a gripe matou 550 mil americanos, e assustadores 50 milhões de pessoas em todo o mundo(!!).


*Nota: O autor, a partir da visão norte-americana, está se referindo a terrível epidemia que por aqui ficou conhecida como 'gripe espanhola'. Descrita como uma peste que rivalizava com as epidemias de cólera e febre amarela em seus horrores, a gripe espanhola chegou ao Brasil entre 1916 e 1917. Só em 1917 matou 21 milhões de pessoas. Na época a epidemia foi chamada de influenza (hoje é o nome dado à gripe comum). Há relatos da população se trancando em casa, apavorada com a moléstia mortal; em algumas cidades, através do vidro das janelas era possível ver passar filas de caminhões cheios de cadáveres amontoados em direção aos cemitérios. Coveiros chegaram a abandonar o seu trabalho, temerosos do contágio. Os médicos negavam-se a ir à casa dos pacientes contaminados pela terrível moléstia. O pavor era geral.

Em 1918, quando a Europa ainda chorava seus milhões de mortos vítimas da Primeira Guerra Mundial, os primeiros casos da desconhecida enfermidade surgiam na Espanha. Em números gerais, o conflito, que durou seis anos, matou 50 milhões de pessoas, entre militares e civis. Os sintomas da misteriosa gripe eram idênticos aos uma pneumonia, era muito contagiosa, e o vírus se propagava pelo ar. Não existiam antibióticos e quem pegava a doença dificilmente conseguia sobreviver. Segundo se soube, o vírus espalhou-se pelo mundo principalmente através dos navios de carga e de passageiros espanhóis. - Daí o nome. - Em 1920, tal como surgiu, a gripe espanhola desapareceu. Misteriosamente. A partir daí, os mais competentes virologistas do mundo passaram a trabalhar intensamente na tentativa de descobrir o que causara a pandemia. Os recursos, porém, eram escassos. Não existiam microscópios capazes de localizar o vírus nem enfermos que pudessem fornecer os germes causadores da enfermidade.

Somente em 1997 a causa da gripe foi finalmente descoberta por médicos dos Estados Unidos e anunciada pelo Instituto de Patologia das Forças Armadas americanas. Especialistas liderados pelo Dr. Jeffery Taubenberger estudaram as vísceras preservadas em formol de 43 mil soldados mortos pela gripe espanhola e autopsiados em 1918. Nos pulmões de um deles os virologistas encontraram 30 espécimes do vírus mortal, que foi isolado teve seu material genético estudado. Descobriram, assombrados, que era bem semelhante ao vírus da gripe suína, que normalmente não ataca humanos. Os Estados Unidos foram invadidos pelo vírus da gripe espanhola em 1918, trazido pelos soldados que regressavam da Primeira Guerra Mundial. Constam de registros históricos que um em cada quatro americanos adoeceu.

No Brasil, só no Rio de Janeiro e São Paulo morreram 20 mil enfermos em apenas dois meses, entre eles o presidente Rodrigues Alves (1832-1919). - Em 1918 fora eleito para um segundo mandato, mas não chegou a tomar posse. - Na verdade nunca se soube ao certo quantos brasileiros foram vítimas da gripe espanhola.

Fonte: Fonte: portal Jornal da Cidade, seção Caderno C / Mário Moraes, 2008 em http://www.jornaldacidade.net/2008/noticia.php?id=17949#, acesso em 28/03/2009.



Como explicar um surto como esses? Devemos buscar uma resposta bíblica? Na época, em todo o Hemisfério Ocidental, muitas pessoas o fizeram. Será que Deus estava punindo o mundo? Algumas pessoas acharam que sim, e rezaram pedindo trégua. Seria uma tragédia infligida aos humanos? Havia também o boato de que os alemães tinham iniciado a epidemia utilizando uma arma química secreta. Havia algo de redentor no sofrimento? Algumas pessoas o viram como um apelo ao arrependimento antes do Armagedom, que estava se aproximando com o conflito europeu.

Ou talvez não fosse nada demais. Talvez o que aconteceu não tivesse nada a ver com um ato divino que intervém em prol de seu povo ou contra seus inimigos. Afinal, haviam muitos precedentes na história humana. A chamada Peste de Justiniano, no século VI, foi ainda pior que a epidemia de gripe de 1918, destruindo algo como 40% dos habitantes de Constantinopla, capital do Império Bizantino, e até um quarto da população de todo o Mediterrâneo oriental. E houve a famosa Peste Negra, a peste bubônica de meados do século XIV que pode ter matado até um terço da população da Europa. Nós mesmos não estamos livres, como bem sabemos. Apesar de alguma evolução nos tratamentos, a crise de Aids continua a ser um pesadelo para milhões.

Os números da Alert, uma instituição internacional de caridade dedicada ao HIV e à Aids com sede no Reino Unido, são chocantes. Desde 1981, mais de 25 milhões de pessoas em todo o mundo morreram de Aids. Em 2005, cerca de 40 milhões de pessoas viviam com HIV/Aids (aproximadamente metade delas, mulheres). Três milhões de pessoas morreram apenas naquele ano. Mais de 4 milhões foram infectados. Ainda hoje, com toda a conscientização, cerca de 6 mil jovens (com menos de 25 anos de idade) são infectados com o HIV todos os dias. Atualmente, a África tem 12 milhões de órfãos da Aids. - Apenas na África do Sul, mais de mil pessoas morrem de Aids todos os dias, um após o outro.

É um fato que práticas inseguras podem disseminar a doença - mas, para começar, por que a doença existe? Aqueles que sofrem a terrível agonia emocional e física da Aids são mais pecadores e merecedores de punição que o resto de nós? Deus escolheu punir todos aqueles órfãos da Aids? Francamente, não vejo como as respostas bíblicas ao sofrimento podem ser úteis para compreender seus apuros - ou as mortes daqueles ceifados pela gripe de 1918 ou pela peste bubônica em 1330. Não é Deus que está criando dor excruciante e infelicidade. Certamente também não é algo que seres humanos fizeram contra outros seres humanos; e não vejo nada de redentor nas crianças inocentes que contraem Aids, sem terem absolutamente culpa alguma, e que nada podem esperar a não ser os tormentos assombrosos produzidos pela doença. Há outras explicações para o sofrimento no mundo? Há, e algumas delas estão na Bíblia. A mais conhecida abordagem do problema do sofrimento está no livro de Jó.


O livro de Jó: uma panorâmica

A maioria das pessoas que lê Jó não se dá conta de que na forma que chegou a nós o livro é obra de pelo menos dois autores diferentes, e que esses autores tinham compreensões diferentes, - e contraditórias, - de por que as pessoas sofrem. Mais importante ainda, o modo como a história começa e termina, com a prosa narrativa do sofrimento do justo Jó, cuja resistência paciente à provação é recompensada por Deus - está em contradição com os diálogos poéticos que compõem a maior parte do livro, no qual Jó não é paciente, mas desafiador, e nos quais Deus não recompensa aquele que fez sofrer, mas se impõe a ele e o obriga a se submeter.




São duas visões diferentes do sofrimento, e para compreender o livro temos de compreender suas duas mensagens distintas. Na forma que tem, com a prosa narrativa e os diálogos poéticos somados em um longo relato, o livro pode ser resumido assim: começa com uma descrição em prosa de Jó, um homem rico e devoto, o homem mais rico do Oriente. A ação então é transferida para o Céu, onde Deus fala com Satanás - a palavra hebraica para “o adversário” - e faz elogios a Jó. Satanás diz que Jó só é devoto a Deus por causa das recompensas que tem por sua devoção. Deus permite que Satanás tire tudo aquilo que Jó tem: seus bens, seus servos e seus filhos - e depois, em uma segunda rodada de ataques, sua saúde. Jó se recusa a amaldiçoar Deus pelo que aconteceu a ele. Três amigos vão visitá-lo e confortá-lo. Mas é pouco o consolo. Em seus discursos, dizem a Jó que ele está sendo punido por seus pecados (ou seja, eles assumem a visão clássica do sofrimento, a de que os pecadores recebem o que merecem). Jó continua a insistir em sua inocência, e pede a Deus que permita que ele apresente sua defesa. Ao final dos diálogos com os amigos (que tomam a maior parte do livro), Deus se manifesta e esmaga Jó com sua grandeza, atacando-o violentamente por pensar que ele, Deus, tem algo a explicar a um mero mortal. Jó se arrepende de seu desejo de defender seu caso perante Deus. No epílogo, que retoma a narrativa em prosa, Deus elogia Jó por seu comportamento justo e condena os amigos pelo que disseram. Ele devolve a Jó toda a sua antiga riqueza, e ainda dá a ele mais um punhado de outros filhos; e Jó leva uma vida próspera, morrendo com idade avançada.

Algumas das discrepâncias básicas entre a narrativa em prosa com a qual o livro começa e termina (em apenas três capítulos) e os diálogos poéticos (quase podem ser percebidas já nesse rápido resumo. As duas fontes que foram aglutinadas para criar o produto final são escritas em diferentes gêneros: uma narrativa popular em prosa e um conjunto de diálogos poéticos. Os estilos de escrita são diferentes entre esses dois gêneros. Uma análise mais detalhada mostra que os nomes do ser divino são diferentes na prosa (quando é usado o nome SENHOR) e na poesia (em que a divindade é chamada de El, Elói e Shaddai). Ainda mais marcante, o perfi l de Jó é distinto nas duas partes do livro: na prosa, é um sofredor paciente; na poesia, completamente desafiador e impaciente. Coerentemente, na prosa ele é elogiado; e na poesia, atacado. A narrativa popular em prosa indica que Deus lida com seu povo de acordo com seu mérito; na poesia ele não faz isso — e não está disposto a fazê-lo. Finalmente, e o mais importante: a visão de por que o inocente sofre difere nas duas partes do livro: na narrativa em prosa, o sofrimento é um teste para a fé; na poesia, o sofrimento permanece um mistério que não pode ser compreendido ou explicado. Portanto, para lidar adequadamente com o livro de Jó, precisamos estudar as duas partes do livro separadamente e investigar as duas explicações para o sofrimento do inocente.

A narrativa popular: o sofrimento de Jó como um teste para a fé - A ação da narrativa popular em prosa alterna cenas na Terra e no Céu. A história começa com o narrador indicando que Jó vivia na terra de Uz; normalmente ocalizada em Edom, a sudeste de Israel. Jó, em outras palavras, não é israelita. Sendo um livro sapiencial, este relato não está preocupado com tradições especificamente israelitas, mas em compreender o mundo de modos que fizessem sentido para todos seus habitantes. Seja como for, Jó é descrito como “íntegro e reto, que temia Deus e se afastava do mal” (Jó 1:1). Em outros livros sapienciais, como Provérbios, a riqueza e a prosperidade são dadas aos justos perante Deus. Aqui o ditado é confirmado. Jó é definido como estupendamente rico, com 7 mil ovelhas, 3 mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentos jumentos e muitos servos. Sua religiosidade se manifesta na devoção diária a Deus; toda manhã cedo ele faz uma oferenda a Deus por todos os seus filhos, - sete filhos e três fi lhas, - para o caso de eles terem cometido algum pecado.

O narrador então se transfere para um cenário celestial em que os “seres celestiais” (literalmente: os filhos de Deus) se apresentam perante o Senhor. Satanás está entre eles. É importante perceber que aqui Satanás não é o anjo caído que foi expulso do paraíso, o inimigo cósmico de Deus. Aqui ele é retratado como um dos membros do conselho divino de Deus, um grupo de seres divinos, habitantes do Céu que regularmente se reportam a Deus e, que percorrem o mundo fazendo a sua Vontade.

Apenas em um estágio posterior da religião israelita (como veremos numa postagen subsequente) Satanás se torna “o Diabo”, inimigo mortal de Deus. O termo Satanás em Jó não parece ser tanto um nome quanto uma descrição de sua função: literalmente, significa o Adversário ou o Acusador. Mas ele não é adversário de Deus: Deus é o detentor do Poder Absoluto, e nenhuma força no Universo, que tivesse sido crida por ele mesmo, seria capaz de desafiá-lo. Satanás pode impor barreiras aos seres humanos, mas o faz com um propósito divino, sempre cumprindo a Vontade do Criador. Satanás é um entre outros seres celestiais que se reportam a Deus. É um "adversário", no sentido de que faz o papel de acusador da humanidade.

Naquele momento exato da narrativa, seu desafi o tem a ver com Jó. O Senhor fala a Satanás da vida impecável de Jó, e Satanás desafia Deus: Jó é probo apenas porque em troca é altamente abençoado. Se Deus tirar o que Jó tem, Jó “te lançará maldições em rosto” (Jó 1:11). Deus não concorda, para provar que Satanás está errado, o autoriza a tirar tudo de Jó. Em outras palavras, este é um teste para a justeza de Jó: teria ele uma devoção desinteressada ou sua devoção a Deus depende inteiramente do que consegue ganhar com o acordo?

Satanás ataca violentamente a casa de Jó. Em um dia os bois são roubados, as ovelhas são queimadas pelo fogo dos céus, os camelos são atacados e levados, todos os servos são mortos e até mesmo os filhos e filhas são desapiedadamente destruídos por uma tempestade que arrasa sua casa. A reação de Jó? Como Deus previra, ele não pragueja por seu azar; fica de luto: "Então Jó se levantou, rasgou seu manto, raspou sua cabeça, caiu por terra, inclinou-se no chão e disse: 'Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor o deu, o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor'.” (Jó 1:20)

O narrador nos assegura de que nem mesmo com tudo isso, “Jó não cometeu pecado nem imputou nada de indigno contra Deus” (Jó 1:22). Nesta história, o fato de Jó preservar sua justeza signifi ca continuar a confiar em Deus, seja lá o que Deus faça a ele. A narrativa então se transfere para uma cena celestial de Deus e seu conselho divino. Satanás aparece perante o Senhor, que mais uma vez engrandece seu servo Jó. Satanás retruca que é claro que Jó não amaldiçoou Deus - ele mesmo não sofreu dor física. Mas, diz Satanás a Deus, “estende a mão, fere-o na carne e nos ossos; eu garanto que te lançarás maldições em rosto” (Jó 2:5). Deus permite então que Satanás faça isso, prevenindo, contudo, que não tire a vida de Jó. Satanás feriu Jó com “chagas malignas desde a planta do pé até o cume da cabeça” (Jó 2:7). Jó se senta em um monte de cinzas e esfrega suas feridas com um caco de cerâmica. Sua esposa o estimula a seguir o caminho natural: “Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre duma vez!” Mas Jó se recusa: “Se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Jó 2:10). Apesar de tudo, Jó não peca contra Deus. Três amigos de Jó vão até ele - Elifaz de Tema, Baldad de Suás e Sofar de Naamat. E fazem a única coisa que amigos de verdade podem fazer nesse tipo de situação: choram com ele, compartilham sua dor e se sentam com ele, sem dizer uma palavra. Sofredores não precisam de conselhos, mas de presença humana reconfortante.

É nesse ponto que começa o diálogo poético, no qual os amigos não se comportam como amigos, muito menos reconfortam, insistindo em que Jó simplesmente teve o que merecia. Falarei sobre esses diálogos depois, já que são de um autor diferente. A narrativa popular só é retomada na conclusão do livro, ao final do capítulo 42. É óbvio que um pouco da narrativa popular se perdeu no processo de somá-la aos diálogos poéticos, pois quando ela reinicia Deus dá sinais de que está com raiva dos três amigos pelo que eles disseram, em oposição ao que Jó tinha dito. Isso não pode ser uma referência ao que os amigos e Jó disseram nos diálogos poéticos, porque neles são os amigos que defendem Deus, e Jó que o acusa. Assim, uma parte da narrativa popular deve ter sido eliminada quando os diálogos poéticos foram adicionados. Não há como saber o que os amigos disseram que ofendeu Deus.

O que fica claro, porém, é que Deus recompensa Jó por passar no teste: ele não o amaldiçoou. Jó recebe a ordem de fazer um sacrifício e orar por seus amigos, e obedece. Deus então devolve a Jó tudo o que tinha sido perdido, e ainda mais: 14 mil ovelhas, 6 mil camelos, mil juntas de bois, mil jumentos. E dá a ele mais sete filhos e três filhas. Jó vive seus dias em paz e prosperidade, cercado dos fi lhos e netos.

A visão do sofrimento nessa narrativa popular é bem nítida: algumas vezes o sofrimento se abate sobre o inocente de modo a revelar se sua devoção a Deus é genuína e desinteressada. As pessoas são fiéis apenas quando as coisas vão bem ou são fiéis independentemente das circunstâncias? Para o autor é óbvio: não importa como as coisas estejam ruins, Deus ainda merece devoção e louvor. Mas é possível apresentar sérias objeções quanto a essa perspectiva, questões levantadas pela própria narrativa popular. Para começar, muitos leitores ao longo dos anos sentiram que Deus não está envolvido no sofrimento de Jó; afi nal, é Satanás que o causa. Mas uma leitura mais atenta do texto mostra que não é assim tão simples. É exatamente Deus que autoriza Satanás a fazer o que faz; ele não poderia fazer nada sem a ordem de Deus. Além disso, em dois pontos o texto indica que Deus é, em última instância, o responsável. Após a primeira rodada de sofrimento para Jó, Deus diz a Satanás que Jó “persevera em sua integridade, e foi por nada que me instigaste contra ele para aniquilá-lo” (Jó 2:3). Nesse ponto, Deus é o responsável pelo sofrimento do inocente Jó. Deus também destaca que não havia nada pelo que Jó tivesse de sofrer. Isso coincide com o que acontece no final da história, quando a família de Jó o consola depois que a provação termina, mostrando simpatia por ele “pela desgraça que o Senhor lhe tinha enviado” (Jó 43:11).

O próprio Deus tinha provocado a infelicidade, a dor, a agonia e a perda que Jó experimentara. Não é possível culpar apenas o Adversário. E é importante lembrar o que essa perda implica: não apenas perda de propriedade, o que já seria bastante ruim, mas uma devastação do corpo e a morte violenta dos dez filhos de Jó. E para quê? Nada a não ser provar a Satanás que Jó não iria amaldiçoar Deus mesmo que tivesse todo o direito de fazê-lo. Ele tinha o direito de fazê-lo? Lembrem-se, Jó não fi zera nada para merecer tal tratamento. De fato era inocente, como o próprio Deus declara. Deus fez isso a ele para vencer uma aposta com Satanás. Esse obviamente é um Deus acima, além e em nada submetido aos padrões humanos. Qualquer outro que destruísse todos os seus bens, o ferisse fisicamente e assassinasse seus filhos - simplesmente por uma aposta - estaria sujeito à punição mais severa que a justiça pudesse impor. Mas Deus obviamente está acima da justiça e pode fazer o que quiser para provar uma tese.


Outros testes na Bíblia

A idéia de que o sofrimento é um teste de Deus apenas para descobrir se seus seguidores irão obedecer também pode ser encontrada em outros pontos da Bíblia. Poucas histórias exemplificam essa visão mais nítidamente que o episódio do Sacrifício de Isaque, contado em Gênesis 22. O contexto da história é a seguinte: o pai dos judeus, Abraão, havia muito recebera de Deus a promessa de um filho, que depois se tornaria o ancestral de um grande e poderoso povo. Mas apenas quando ele e sua esposa estavam em idade muito avançada a promessa foi cumprida.




Abraão era um homem maduro, e obviamente fértil, de cem anos de idade quando Isaque nasceu (Gn 21:1-7). Mas quando Isaque, a promessa cumprida de Deus, ainda era um jovem, ou possivelmente um menino, Deus dá uma ordem horrível a Abraão: ele deve levar seu filho único e oferecê-lo em holocausto a Deus. O Deus que prometera a ele um filho queria então que ele destruísse aquele filho; o Deus que ordena que seu povo não mate ordenava então que o pai dos judeus sacrificasse seu próprio filho.

Abraão pega o filho Isaque e parte para o deserto com dois servos e um jumento carregado de lenha para o holocausto (ou seja, a pira no qual ele deve sacrificar o corpo de seu filho). Enquanto seguem para o local determinado, Isaque pensa no que estava acontecendo: ele vê a madeira e o fogo, mas onde está o animal a ser sacrificado? Abraão diz a ele que Deus proverá, não deixando o filho saber o que estava para acontecer. Mas então pega o filho, amarra-o, coloca-o sobre a madeira e se prepara para matá-lo com uma faca. No último instante, Deus intervém mandando um anjo deter a faca antes do golpe. O anjo diz a Abraão: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único filho” (Gn 22:12)... Abraão nesse momento ergue os olhos e vê um cordeiro preso em um arbusto; ele captura o cordeiro e o oferece em holocausto, no lugar de Isaque (Gn 22:13-14).

Tudo tinha sido um teste, um horrível teste para descobrir se Abraão faria o que Deus pedia, mesmo que fosse matar o próprio filho.


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Observação: o texto deste post foi retirado do 6° capítulo da obra de Bart Ehrman, com excertos da entrevista concedida por ele à Revista Época em maio de 2009.


Fonte bibliográfica:
EHRMAN, Bart. O Problema com Deus - as Respostas que a Bíblia Não Dá ao Sofrimento, São Paulo: Ed. Agir, 2008, C 6.




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