Em busca da Libertação Final - 4

Pessoalmente, já encontrei as respostas para as questões apresentadas neste post. O que vem a seguir é um convite à reflexão profunda e destemida sobre o inevitável e maior problema da fé. Um passo difícil mas necessário para todo buscador da Verdade.


Sendo este um espaço que pretende tratar de espiritualidade, filosofia, religião e fé, - e principalmente de busca pela Verdade, - seria inevitável que este momento chegasse. O momento para abordar a pergunta mais difícil de todas as perguntas. Não há buscador da Verdade que não tenha se perdido nesse deserto terrível, e não uma vez, mas muitas. Um deserto de trevas que parece infinito, inescapável. Não há buscador que não tenha se sentido profundamente frustrado por não conseguir encontrar essa resposta. Nenhuma questão perturbou tantos, durante tanto tempo. Nenhum mistério suscitou tanta angústia. Nenhum outro pesadelo atormentou o sono de tantos, por tanto tempo. Nenhuma lacuna tão incômoda perturbou as consciências dos santos de maneira tão avassaladora. Foram (e continuam sendo) inúmeras tentativas de resposta. As maiores e mais brilhantes mentes de todos os tempos tentaram, fizeram o seu melhor, e não tiveram sucesso. A filosofia não foi capaz de resolver este enigma. Nem os livros sagrados (estou falando de todos os livros sagrados) e nem mesmo a santidade mais luminosa foi capaz de fornecer à humanidade inquieta uma resposta definitiva, - direta e reconfortante, - à pergunta mais difícil de todas as perguntas.

Por que existe o sofrimento? Se Deus é bom e perfeito, por que criou um mundo mau e imperfeito? Se Deus é Amor, por que permite que soframos? Por que existe o mal? Como podemos ser maus, se Deus, sendo infinitamente bom, nos criou à sua imagem e semelhança? Se Deus é bom, onipotente e onipresente, como podem existir o mal e o sofrimento?

Entre as inúmeras tentativas de resposta que os inúmeros sábios, religiões e filosofias trouxeram, - todas imperfeitas, - uma em particular me vem à mente, principalmente por ser sempre defendida por um leitor deste blog que eu considero um amigo. Essa resposta-padrão, adotada entre outros pela filosofia Seicho-No-Ie, seria mais ou menos a seguinte: “O mal e o sofrimento não existem. São apenas ilusões da mente, apegada à ilusão do mundo fenomênico. Se despertarmos da ilusão dos sentidos para a realidade maravilhosa do Mundo Verdadeiro, isto é, o Reino de Deus, veremos que tudo que realmente existe é perfeição e plenitude. Assim, não precisamos 'buscar' absolutamente nada. Tudo já é perfeito e divino do jeito que é. O mal, a dor, o sofrimento, as injustiças... Tudo isso não existe realmente. A Verdade é uma só, e a Verdade apenas É. Em última análise, portanto, não é preciso buscar explicações para o mal e o sofrimento, porque essas coisas simplesmente não existem”.

Embora eu tenha combatido essa visão das coisas por aqui, por mais contraditório que possa parecer, num nível profundamente íntimo e inexplicável, eu sempre acreditei nisso tudo. Difícil entender? Bem, eu sempre acreditei no Reino de Deus como uma Realidade separada do nosso mundo ordinário; obviamente sempre acreditei que nessa realidade não existem o mal e o sofrimento, e que essa realidade, mesmo separada deste mundo de dores, deve ser vivida , imediatamente, a partir daqui e de agora.

Mas de modo algum eu poderia dizer que ‘o mal não existe’ num sentido absoluto, porque o mal é evidente na realidade que me cerca, a realidade em que eu vivo, e que para todos os efeitos é a única em que posso concretizar meu existir e meus ideais. Se estou neste mundo, partilhando desta realidade palpável e visível, dura e cruel, junto com toda a humanidade, e é somente aqui que posso interagir com o meu próximo, não posso simplesmente fechar meus olhos e tentar me convencer de que 'nada disto é real'. Nesta realidade, o mal e o sofrimento são muito reais, evidentes, estão bem diante dos meus olhos a cada momento, e é nesta realidade que eu vivo.

Olho para baixo e vejo que o teclado do meu computador está sujo. Meu filho derrubou sorvete nas teclas, e as letras ‘R’, e ‘T’ estão grudentas. Outras teclas por onde os dedinhos dele deslizaram também estão manchadas. Percebo que vou ter que desmontar este teclado para limpar. Também o monitor do meu computador não está bom. Tem alguns anos de uso e começa a apresentar defeitos: a imagem treme e há variação de cores, o que atrapalha a visualização. Além disso, por algum desses motivos que técnico algum consegue explicar, a navegação na internet anda bastante lenta nestes últimos dias, o que dificulta o meu trabalho. Penso que num mundo divino, perfeito e maravilhoso, tais dificuldades não existiriam. Mas eu vejo o meu próximo sofrendo, todos os dias, e não posso e não quero me tornar insensível a esse sofrimento, pois vejo a mim próprio (e a Deus) nos meus próximos. Se tornou um clichê dizer que “somos todos um”, mas até que ponto estamos conscientes (nós, humanidade) do significado profundo dessa afirmação?

Então, percebam que não basta dizer que ‘o mal não existe’ para os que despertam da armadilha das ilusões, porque a imensa maioria de nós simplesmente não compartilha dessa percepção. Para bilhões de seres humanos ao redor deste planeta, o mal e o sofrimento não só existem como representam a única realidade que conhecem. Há algum tempo recebi um email com um filminho em slides que mostrava cenas pavorosas da fome nos países pobres da África. Havia cenas extremamente terríveis daquelas crianças famintas, com ossos visíveis por baixo da pele e moscas nos olhos. Os slides se sucediam, mostrando populações inteiras de gente faminta. Gente sem nenhum futuro. Imagens de miséria extrema, que a alguns comovem e a outros revoltam. A miséria pelo mundo, seja em Uganda, no Haiti, no sul da Ásia, no Ceará, na Índia ou em Bogotá, é massacrante. Ao final do festival de horrores daquele filme, a legenda concluía afirmando que todos nós deveríamos nos sentir muito gratos a Deus por termos o que comer, o que beber, o que vestir, quando há tantos miseráveis no mundo. Curioso, mas ver esse tipo de coisa causa um efeito completamente oposto em mim. Ver aquelas atrocidades tão cruamente expostas é uma experiência que me deixa totalmente arrasado, me afasta de Deus, me faz rever minhas certezas, questionar minhas posturas, perguntar "por que, por que, por que, por que, por que, por que..."





Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo. Resolver, entendem? Extinguir. Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta. Não sei como calcularam este número, mas digamos que esteja subestimado. Digamos que seja o dobro. Ou o triplo. Com 120 bilhões, o mundo seria um lugar socialmente justo. Não houve, no entanto, passeata, discurso político, filosófico ou foto artística (fotos de gente morrendo de fome ganham prêmios em museus, como obras de arte) que sensibilizasse os grandes líderes do mundo. Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão humanitária que resolvesse. Mas no prazo corrido de uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram 'da cartola' 2,2 TRILHÕES de dólares para “salvar” de prejuízos comerciais com a queda da Bolsa uma elite de ricos empresários e investidores que com certeza já estavam de barriga bem cheia.




A foto acima ficou famosa no mundo inteiro há alguns anos. Foi tirada por um repórter de campo norte-americano no Sudão. Ele retratou, de passagem, um garotinho que literalmente morria de fome tentando rastejar até um posto de assistência da ONU, instalado algumas centenas de metros adiante dali. Ao lado, um urubu espera até que a refeição pare de se mover. Lembrei que os urubus nem sempre esperam a vítima morrer para começar a bicar. Basta que pare de oferecer resistência. Será que alguém poderia dizer a este menininho que o sofrimento simplesmente não existe?

Ainda que considerássemos que o mal e o sofrimento não possuam existência verdadeira, que apenas façam parte de um mundo de ilusões, ainda assim seríamos forçados a admitir que o mal e o sofrimento existem, efetivamente, para bilhões de seres humanos (e animais) ao redor deste planeta, que ainda não 'despertaram' para o mundo perfeito real. O mal e o sofrimento, portanto, existem, são reais, para bilhões de pessoas. Conclusão inexorável: o mal e o sofrimento são reais. Terrivelmente reais.




Crianças suplicam pela vida nas ruas de Uganda. Outras imagens de agências internacionais mostram crianças com os rostos enfiados nos ânus de vacas, numa busca desesperada por qualquer fonte de nutrientes.


Criança morre de fome em via pública durante a II Grande Guerra, sob os pés de transeuntes preocupados demais com seus próprios problemas para ajudar.


Crianças vítimas de "experiências" genéticas nazistas em Auschwitz. A segunda menina sentada, da esquerda para a direita, apresenta extensas queimaduras por todo o corpo, provavelmente provocadas por testes químicos.


O sofrimento dessas crianças é real? Ou a culpa é delas mesmas, por não terem 'despertado' do sonho de ilusões que é esta vida? Mas, ainda que seja este o caso, de onde vieram estas ilusões, que nos desconectam do Mundo Real, do Reino de Deus, do Paraíso perfeito, para sermos submetidos a coisas assim tão horríveis? Por que uma criança precisa sofrer tanto? Crianças também nascem com defeitos congênitos todos os dias, e antes que alguém diga que isso é consequência de algum processo reencarnatório, lembrem-se que animais também nascem com defeitos congênitos, e até plantas nascem defeituosas. Basta olhar de perto para ver que vivemos num mundo imperfeito, cruel e injusto. É simples assim. O que poderia justificar isso? Por que existem pessoas com problemas mentais? Seres humanos mentalmente incapazes, estão sendo submetido a maus tratos, neste exato momento. Como um Deus bom pode permitir tal estado de coisas?

Ronald Nash, reconhecido autor e professor de Teologia e Filosofia no Reformed Theological Seminary de Orlando, Flórida, escreveu que “o mais sério desafio ao teísmo foi, é e continuará sendo a questão da existência do mal”. [1]

Thomas B. Warren consagrado autor de obras teológicas, acredita “não haver acusação mais freqüente e poderosa ao teísmo (...) do que as complicações decorrentes da existência do mal”. [2]

David Elson Trueblood, autor e filósofo, chega a sustentar que "o obstáculo representado pela existência do mal e do sofrimento no mundo é uma forte evidência em favor do ateísmo”. [3]


Eu poderia acrescentar centenas de citações a respeito deste assunto, sempre com as mesmas conclusões. Mas talvez nenhuma seria tão impactante quanto as declarações dos próprios autores bíblicos, - que também não fugiram do tema relação entre Deus e o mal. - O Profeta Habacuque queixou-se diretamente a Deus:

“Por que olhas para os que procedem traiçoeiramente e te calas enquanto o ímpio destrói aquele que é mais justo do que ele?” (Habacuque 1,13)


Gideão, o quinto Juiz e Libertador do povo de Israel, perguntou:

“Oh, Senhor meu! Se o Senhor é conosco, por que todo este sofrimento nos sobreveio?” (Juízes 6,13).


De acordo com a Bíblia é Deus, Onipotente e Bom, que decreta, - desde toda a Eternidade, - tudo o que acontece neste e em todos os mundos. A Bíblia declara que "não cai uma folha da árvore sem a permissão do Criador". É Deus que, soberana e providencialmente, controla todas as coisas. E é assim que a nossa pergunta se torna mais e mais insuportável: como se pode crer num Deus bom, um Deus que é Amor, e ao mesmo tempo admitir o mal no mundo? Como justificar as ações de Deus como causa de todo o imenso mal e sofrimento que vemos?

Ao longo da História filósofos, sábios, andarilhos e santos, místicos ou não, lutaram bravamente e nos deixaram diversas tentativas de resposta para a pergunta das perguntas, mas a verdade mais pura é que nenhum deles, - nenhum sequer, - foi bem sucedido na tarefa de nos dar uma solução que ao menos chegasse perto de ser considerada satisfatória. Vamos aprofundar esta pergunta sem resposta e sem sentido. Estou falando de ir fundo nessa viagem, por mais que doa. Um lembrete: enquanto a conclusão não chega, lembrem-se de nunca sentir medo de encontrar a Verdade.


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Notas:

1 - NASH, Ronald H. Faith and Reason, Nova York: Zondervan, 1988, p. 177.
2 - WARREN, Thomas B. Have Atheists Proved There is No God? Nova York: Gospel Advocate Co., 1972, cap. VII.
3 - TRUEBLOOD, David Elson. Philosophy of Religion, New York: Harper and Row Publishers, 1975, p. 231.




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