Em busca da Libertação Final - 8




A terceira de 5 tentativas: A noção do Sofrimento Redentor


Além dos mestres das principais tradições religiosas, foi o sábio grego Epicuro (341 aC - 270 aC) quem lançou pela primeira vez, ao menos oficialmente, a questão teodicéica, que como vemos no estudo dos livros sagrados já estava presente na cabeça dos pensadores desde que o mundo é mundo: "Se existe um Deus bom, e Ele criou o mundo, como é possível haver o mal no mundo?".. E com o desenrolar da História inúmeros outros grandes pensadores se detiveram sobre o tema: de Platão a Fichte, passando por Sto. Agostinho, Kant, Hegel, etc, etc, etc... Veremos algumas dessas teses no decorrer desta série, mas por ora vamos nos ater a terceira das 5 soluções universais básicas, que como vimos são: castigo pelos pecados ou consequência de nossas más ações; prova de fé e fidelidade; redenção, purificação ou depuração; consequência inevitável do livre arbítrio ou simplesmente um completo e absoluto mistério. Com esta postagem, chegamos ao estudo da terceira opção...


“Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, nem te desanimes quando por ele és repreendido; pois o Senhor corrige ao que ama, e açoita a todo o que recebe por filho. É para disciplina que sofreis; Deus vos trata como a filhos; pois qual é o filho a quem o pai não corrija? Mas se estais sem disciplina, da qual todos se têm tornado participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além disto, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e os olhávamos com respeito; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, e viveremos? Pois aqueles por pouco tempo nos corrigiam como bem lhes parecia, mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados. Portanto levantai as mãos cansadas, e os joelhos vacilantes, e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que é manco não se desvie, antes seja curado. Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem.”

(Carta aos Hebreus 12, 6-8)


Todo pai sempre quer ver crescer seu filho, levá-lo à plena maturidade, e nesse processo muitas vezes é preciso ser duro. No primeiro dia de aula muitas crianças choram, esperneiam, se agarram às pernas dos pais... Eles não querem a separação, não querem deixar seus brinquedos e muito menos o conforto psicológico do ambiente familiar. Enfrentar o primeiro dia de aula sozinho, longe da barra da saia da mamãe, é um dos mais importantes rituais de passagem da sociedade contemporânea. Um ritual muitas vezes penoso, mas necessário em nosso processo de amadurecimento. Agora imagine o que aconteceria se cada criança que chorasse na hora de ir para a escola conquistasse o direito de não estudar... Um pai e uma mãe 'bonzinhos', - na mentalidade da criança, - não obrigaria seus filhos a ir para a escola, ficar longe deles, obrigá-los a assistir aulas "chatas".

'No pain no gain', diz o conhecido ditado, que em português seria algo como 'sem dor, sem ganho'. Isto é, sem experimentar um pouco de dor, nada de bom se consegue nesta vida. Casualmente, nestes últimos dias estou passando por um processo de intensificação nos meus treinamentos físicos (depois dos 40, não existe atividade física mais completa que a musculação), e posso dizer que meu corpo inteiro dói. Não é agradável acordar cedo nesses dias de frio para ir à academia, levantar pesos cada vez maiores, com um treinador que 'pega no pé' a todo momento, exigindo sempre mais de você. Não é agradável acordar dolorido, não é agradável seguir uma dieta balanceada, ter que deixar de comer as coisas que gosta sem censura, controlando quantidades e horários. Mas, apesar do sacrifício, é muito boa a sensação após os treinos, e os resultados de todo o esforço, a médio/longo prazo, são simplesmente fantásticos. É bom perceber, nas pequenas tarefas do dia-a-dia, que a sua força está aumentando, que a sua disposição está muito melhor do que antes... E, vá lá, também é bom ganhar elogios (da esposa, no meu caso), olhar no espelho e ver seus braços cada vez mais grossos e rígidos e sua cintura cada vez mais enxuta. Mas para isso é preciso penar, suar muito, ter disciplina e uma determinação de ferro, além de fazer alguns sacrifícios extras, também, como espremer ainda mais os horários da sua agenda diária. Então, no fim, é sempre uma questão de escolha: decidir se, para mim, é compensador o sacrifício para me manter em forma. Um bom exemplo (como tantos e tantos outros que poderia citar) para ilustrar a validade do velho ditado: No pain, no gain.

O que isso tem a ver com o assunto? Bem, é exatamente este o princípio da terceira explicação clássica para o mal e o sofrimento no mundo. - Uma teoria que começou a ser formulada logo depois de os grandes pensadores perceberem a fragilidade da explicação que vimos na postagem anterior (a da provação), que coloca tudo de ruim que acontece no mundo como obras da Divindade aplicando testes de fidelidade à humanidade.

Mas por que a visão do mal e do sofrimento como provação acabou por redundar em mais uma tentativa de explicação que não convenceu? Vejamos... Cris, minha leitora das antigas, recentemente nos deixou um comentário muitíssimo pertinente: "Ninguém vai matar um filho (...) ou arrancar um braço para testar a fé. (...) Concordo que seja um teste para nós mesmos, porque é muito fácil confiar em Deus quando estamos bem e felizes. Mas mesmo assim, tem algo (nessa explicação) que não fecha.

Fico muito lisonjeado e satisfeito ao perceber que as reflexões que venho trazendo para este espaço acabam gerando, por aqui, os mesmos argumentos e contraargumentos a que chegaram os maiores pensadores da humanidade, desde muitos milênios até hoje. Sim, foi exatamente esse tipo de raciocínio que levou a humanidade a questionar a teoria da provação. - Ora, Jó foi posto à prova por Deus, logo, todo o seu sofrimento era uma espécie de teste, certo? Certo, mas isso não explica tudo, longe disso. - Acontece que os filhos de Jó simplesmente morreram nesse processo. Eram crianças e jovens inocentes, que não tinham nada a ver com a história, e pagaram com a vida! Como explicar isso? É muito importante notar que, certamente, a história de Jó foi desenvolvida com base na observação daquilo que acontecia no mundo. Era comum naquela época (assim como hoje), ver crianças inocentes padecendo e morrendo, acometidas por moléstias terríveis ou vitimadas por catástrofes naturais, entre outras coisas. Como se explica? Se Jó estava sendo posto à prova, porque seus pobres filhos morreram? E a história também nos conta que seus empregados e pastores foram assassinados. Por que? Para atingir Jó? Diversos inocentes tiveram que padecer, somente para que um homem fosse testado?? * E bem neste ponto cabe uma observação primordial: no período histórico em que o Livro de Jó foi escrito, a sociedade hebraica ainda não acreditava em ressurreição (e muito menos tinha ouvido falar em reencarnação - só vieram a travar contato com essa doutrina muitos séculos depois). Portanto, não podemos apelar para nenhuma explicação do tipo "essas pessoas teriam a sua compensação numa outra vida". A ideia do autor era simplesmente explicar o mal no mundo e o sofrimento humano como provações de nossa fé e caráter, impostas por Deus.

Espero que esteja muito claro que não estamos agora discutindo o Livro de Jó em si, mas sim a ideia por trás da história que ele conta. Se Deus nos põe à prova, - e é por isso que existe tanta dor e sofrimento no mundo, - isso não explica porque crianças inocentes também são expostas a todo tipo de mal e sofrimento. Estariam elas sendo testadas, também? Crianças que não adquiriram ainda discernimento e nem consciência de certo e errado, poderiam ser testadas? Se o seu caráter ainda não foi desenvolvido, como poderia ser provado? Bebês que não fazem a menor ideia do significado da palavra "Deus" poderiam ter a sua fidelidade a Deus posta à prova??

Na época em que os primeiros livros do Antigo Testamento (ou Bíblia Hebraica) foram escritos, os povos daquela região do Oriente Médio e circunvizinhanças viviam em constante conflito (ainda pior do que é hoje) e não existia a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Quando o exército de uma civilização mais poderosa conquistava uma cidade inimiga, o destino das mulheres e das crianças era muito cruel. Os bebês, em especial, eram considerados inúteis e dispendiosos. Eram prontamente sacrificados, e das maneiras mais tenebrosas: uma das favoritas (relatada na Bíblia) era atirá-los contra as rochas, despedaçando-os, na frente de suas mães. - Que por sua vez eram levadas (ao menos as mais formosas) para servirem como escravas sexuais, até que seus novos 'donos' se enjoassem delas. Mas nos concentremos nas crianças, porque é nelas que a dor se faz mais aguda: por que terrores tão pavorosos acontecendo para seres puros e inocentes? E além de tudo, por que tantas crianças nascendo doentes, aleijadas ou mesmo mortas? Ora, até mesmo entre os animaizinhos, alguns nasciam defeituosos. Estariam as ovelhas, jumentos e cabritos nascendo aleijados como uma forma de teste? Estariam os bichos sendo postos à prova?

Perguntas difíceis, muito difíceis, mas que existia um Deus (ou alguns, ou muitos deuses), assistindo à humanidade confusa, isso era inquestionável. Nenhuma civilização antiga, nenhuma sequer, jamais questionou isso. A religião sempre foi o mais presente e mais forte ponto em comum entre todos os povos que já existiram em nosso planeta. Então, como explicar essas questões urgentes? Como visto no começo, embora a pergunta primordial tenha sido pela primeira vez formulada, oficialmente e com todas as letras, por Epicuro, 300 anos antes de Cristo, ela já vinha incomodando as melhores cabeças muito antes do filósofo grego nascer. E continuou sendo feita muito tempo depois dele. Os sábios dos sábios não desistiram; e acabaram por chegar a uma nova conclusão: a noção do Sofrimento Redentor, adotada, absorvida e aperfeiçoada principal e especialmente pelo Cristianismo. - Como veremos na próxima postagem.


Ler a conclusão desta postagem...



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