História do Cristianismo - 7

A Palestina no tempo de Jesus


No século I, - época de Jesus, - a Palestina tinha uma superfície de 34 mil Km2 e 650 mil habitantes. Fazia já muito tempo que havia perdido sua independência política. Durante o domínio romano, no ano 37 aC, Herodes, um aventureiro sem escrúpulos, foi proclamado rei da Judéia pelo senado Imperial. Com extraordinária astúcia, o apoio de mercenários e a aprovação de Roma, ele se tornou um monarca poderoso, impondo sua realeza sobre um território que se estendia da Síria ao Egito. Seu cognome, - ‘o Grande’, - deveu-se principalmente ao fabuloso programa de obras urbanísticas e arquitetônicas promovido por ele. A História nos mostra que Herodes, além de um tirano cruel e astucioso, era também um gênio criativo e grande empreendedor.


'Herodes Atticus', Museu do Louvre


Após a menção do nome Herodes, a pergunta que deveria imediatamente se seguir é: ‘qual deles?’. A história dessa malfadada família percorre todo o relato dos Evangelhos e chega ao livro de Atos. Segue a árvore genealógica resumida:

Herodes, ‘o Grande’: segundo a Bíblia, assassinou as crianças de Belém, numa tentativa de encontrar e matar o Messias prometido, aquele que viria a se tornar o novo 'Rei dos Judeus' (Mateus 2,1-16).

Herodes Arquelau - Herodes Antipas - Herodes Filipe: todos estes eram filhos de Herodes o Grande. Arquelau assumiu o trono quando seu pai morreu. Foi a respeito deste que, segundo a Bíblia, José foi avisado, em sonho, que o evitasse: assim, mudou-se com Maria e o pequeno Jesus para a Galiléia, ao retornarem do Egito (Mateus 2, 19-23). Arquelau foi mais tarde banido pelos romanos e substituído por supervisores nomeados (um dos quais foi Pilatos). Herodes Antipas e Herodes Filipe não receberam territórios menores (Lucas 3,1). Herodes Antipas era o tetrarca da Galiléia, aquele que tomou parte no julgamento de Jesus.

Herodes Agripa I - Herodes Agripa II: Neto e bisneto de Herodes o Grande, respectivamente. Agripa I matou o Apóstolo Tiago e aprisionou S. Pedro, nas primeiras perseguições à Igreja. Ele foi "ferido com vermes" e morreu (Atos 12,1-23). Agripa II ouviu o Apóstolo Paulo se defender e "quase foi persuadido" a se tornar um cristão (Atos 25,13 e 26,32).

Sabemos um pouco a respeito de como Herodes Antipas era antes de participar do julgamento de Jesus. Sua perversidade era conhecida, e o próprio Cristo advertiu quanto à sua influência: "Vede, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes" (Marcos 8,15). João Batista o condenou quanto ao modo com que se conduziu no caso de Herodias, que era esposa de Filipe, irmão de Antipas, mas este a seduziu e desposou (Marcos 6, 17-18). Em consequência, foi João aprisionado. Herodias queria vê-lo morto, mas Herodes "temia a João, sabendo que era homem justo e santo". Mais tarde, porém, devido a um juramento feito à filha de Herodias, ordenou a decapitação do grande Profeta. (Mateus 14,8).

Assim como várias outras cidades judaicas, Jerusalém, a cidade santa, havia sido reurbanizada ao estilo romano, cortada por grandes avenidas e embelezada com palácios, anfiteatros, hipódromos, piscinas e jardins. O preço desse ambiciosos empreendimentos foi uma opressão ilimitadas sobre o povo já sofrido. Por ocasião da morte de Herodes o Grande, no ano 4 aC, o reino foi dividido entre os filhos Arquelau, Filipe e Herodes Antipas, que, apesar de não possuírem nem o poder e nem a genialidade do pai, seguiram sua carreira de crueldades.

A submissão política e a extorsão econômica, por meio de pesados impostos, geraram uma forte oposição ao domínio romano, que culminaria em revolta generalizada: em consequência, no ano 70 dC a população judaica foi dispersa, e Jerusalém, destruída pelas legiões comandadas por Tito, futuro imperador de Roma. - Conforme predito pelos Profetas e pelo próprio Cristo.

Jesus viveu, portanto, em um contexto extremamente conturbado. As principais forças político-religiosas de seu tempo estavam reunidas nos seguintes partidos e seitas:


Saduceus - Representavam o poder, a nobreza e a riqueza. Grandes proprietários de terras e membros da elite sacerdotal, controlavam o Sinédrio, o conselho supremo de Israel. Em matéria religiosa, negavam a imortalidade da alma e aceitavam apenas o texto escrito da Lei (Torá), e não as suas interpretações orais, feitas pelos rabinos. Foram os principais responsáveis pela condenação de Jesus.


Escribas - Sem ligação com uma atividade econômica ou partido específico, gozavam, no entanto, de enorme autoridade, por terem entre seus membros os intérpretes abalizados das Escrituras. Detinham forte influência no Sinédrio, nas Sinagogas e nas escolas rabínicas.


Fariseus - Separavam-se do resto da comunidade judaica pelo cumprimento rigoroso das numerosas regras de pureza prescritas na Torá. Reuniam representantes de todas as classes sociais, principalmente as dos artesãos e comerciantes. Foram criticados por Jesus por desprezarem a essência e sentido da Lei, dando maior importância e ênfase às suas minúcias formais e deixando de lado o real significado por trás de todas regras e prescrições formais. A sua crença na imortalidade da alma e na ressurreição, porém, era um ponto em comum entre os membros deste grupo e os seguidores de Jesus.


Zelotes ou Zelotas - Dissidentes radicais da seita dos fariseus, expressavam os sentimentos dos pequenos camponeses e dos pobres em geral. Religiosos e ultranacionalistas radicais, resistiam aos dominadores pagãos e contavam com a iminente chegada do Messias para desencadear uma guerra contra os romanos. Por isso, eram duramente perseguidos pelo invasor.


Essênios - Compostos por sacerdotes dissidentes e leigos exilados, viviam em comunidades ultra fechadas, como as que foram descobertas nas cavernas de Qumran. Consideravam-se os únicos puros de Israel e levavam uma vida em comunidade extremamente austera. Praticavam rituais como o batismo e dedicavam-se aos trabalhos na lavoura. Combatiam tanto aos romanos quanto ao poder do Templo de Jerusalém, e propunham uma guerra santa para instaurar o que chamavam de “Reino dos Justos”.


Representação artística do magnífico Templo de Jerusalém, cujos átrios
podiam comportar um milhão(!) de peregrinos (clique para ampliar).


Muito mais que um local de culto, o Templo de Jerusalém era o centro econômico, político e religioso de Israel. Lucrava com a arrecadação de impostos, tendo em seu cadastro cerca de 1 milhão de contribuintes, dentro e fora da Palestina. Além disso, auferia somas fabulosas com o sacrifício de animais (bois, carneiros e pombos), criados por grandes proprietários de terras ligados às famílias sacerdotais. Calcula-se que, na época de Jesus, por ocasião da Páscoa, foram imolados, em suas dependências, mais de 250 mil cordeiros(!).

Para pagar pelos animais a serem sacrificados, os fiéis eram obrigados a trocar o dinheiro corrente, altamente inflacionado, pela tetradracma tíria, uma moeda forte, cunhada na Fenícia, que não sofreu nenhuma desvalorização num período de 300 anos. Os cambistas cobravam ágio de 8% pela operação e formavam uma máfia poderosa, mancomunada com a elite sacerdotal. Quando expulsou os vendedores de animais e cambistas do Templo, Jesus golpeou de frente essa poderosa rede econômica. Provavelmente tenha sido esse confronto, mais do que quaisquer outros, que tenha provocado a sua condenação.



Este post foi baseado num artigo do historiador Prof° José Tadeu Arantes para 'Arquivos - História Viva' n°4, acervo Ed. Duetto.


Fontes e bibliografia:
THOMPSON, John A. A Bíblia e a Arqueologia, São Paulo: Arte Editorial, 2000;
COUTO, Sérgio Pereira. A Incrível História da Bíblia, São Paulo: Universo dos Livros, 2004;
SCHARBERT, Josef. O Mundo da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1974.



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