Mito, Filosofia Perene, logos e evolução

vimos que os seres humanos sempre foram criadores de mitos. Arqueólogos escavaram túmulos do homem de Neandertal que continham armas, ferramentas e ossadas de animais sacrificados. Isso sugere a crença num mundo futuro similar àquele em que viviam. Esses mitos, cujo significado está inscrito nos túmulos dos neandertais, retém aspectos muito importantes: os túmulos dos homens de Neandertal nos revelam cinco aspectos básicos do mito:

Primeiro, ele se baseia sempre na experiência da morte e no medo da extinção.

Segundo, os ossos de animais indicam que o sepultamento foi acompanhado de um sacrifício. A mitologia em geral é inseparável do ritual. Muitos mitos não fazem sentido separados de uma representação litúrgica que lhes dá a vida, sendo incompreensíveis num cenário profano.

Terceiro, o mito dos Neandertais foi invocado ao lado de um túmulo, no limite da vida humana.

Quarto, o mito não é uma história que nos contam por contar. Ele nos mostra como devemos nos comportar.

Quinto, toda a mitologia fala de um outro plano, que existe paralelamente ao nosso mundo, e em certo sentido o ampara. A crença nessa realidade invisível, porém mais poderosa que a nossa, por vezes chamada de 'mundo dos deuses', é um tema básico da mitologia. A estruturação mental de um grupo, baseada nesse sistema de crenças, tem sido chamada de ‘Filosofia Perene’, pois alimentou a organização mitológica, social e ritual de todas as sociedades até o advento da modernidade científica, e ainda continua a influenciar todas as sociedades humanas da atualidade.

Melhor dizendo, apenas pela participação na realidade divina os frágeis homens mortais podem realizar inteiramente seu potencial. Infelizmente, atualmente à palavra 'mito' é sempre associada a uma convenção negativa ('mito' sendo equiparado a 'mentira'), quando o correto é que o mito só é eficaz quando verdadeiro ou quando representa aspectos fundamentais da verdade. Um mito, portanto, é verdadeiro por ser eficaz, correspondente à verdade e/ou símbolo da verdade, e não por fornecer, necessariamente, dados factuais. Contudo, se não permitir uma nova visão do significado mais profundo da vida, o mito fracassa. Se funciona, ou seja, se nos força a mudar nossos orações e mentes, nos dá novas esperanças e nos impele a viver de modo mais completo, é um mito válido.

O período em que a humanidade criou seus primeiros mitos foi o paleolítico (de 20.000 a 80.000 aC), no qual foi completada a evolução biológica da raça humana. Ainda não havia a agricultura e os povos eram coletores/caçadores, que julgavam que qualquer coisa, por mais inferior que fosse, seria capaz de personificar o Sagrado, ao qual desejavam se unir completamente. Algo difícil para os modernos, para quem um símbolo está essencialmente separado da realidade invisível para a qual chama nossa atenção. O termo grego ‘symballein’, no entanto, significa ‘colocar junto’: dois objetos até então distintos se tornam inseparáveis.

Essas primeiras mitologias ensinaram as pessoas a enxergar algo além, uma realidade invisível descrita nos termos do que se convencionou chamar 'Filosofia Perene'. Os mitos mais primitivos estavam associados ao céu, que dava aos homens uma noção do divino, do remoto, a realidade superior, separada da insignificância de suas vidas. A maior parte dos panteões daquele período contava com a sua própria versão de 'Deus do Céu', que ainda é encontrado, até hoje, entre os pigmeus australianos e os pigmeus da Terra do Fogo, jamais representado por imagens e dispensando sacerdotes. Era um Deus sempre ausente das decisões diárias das pessoas, e por isso 'fracassou' relativamente, ao não cumprir todos os quesitos para o sucesso do mito (na Mesopotâmia, novos deuses como Enlil e Baal se impuseram, e na Grécia, Uranos, o Céu, foi castrado pelo filho Cronos).

Já nesta longínqua Era, paralelamente ao desenvolvimento do mito irracional, os coletores/caçadores formaram o embrião da idéia do logos, que viria a assumir importância capital milênios depois. Os seres humanos superaram suas desvantagens físicas desenvolvendo o raciocínio e o cérebro e, mesmo nesse estágio inicial, o homo sapiens já desenvolvia o que os gregos chamariam de logos, o modo de pensar lógico, pragmático e científico que lhe permitiria atuar com sucesso no mundo. Ou seja: desde o princípio, o homo sapiens compreendeu instintivamente que o mito e o logos tinham tarefas diferentes a desempenhar, mas que ambas eram necessárias . Usou o logos para aprimorar equipamentos, e o mito, com seus consequentes rituais, para se reconciliar com os fatos trágicos da vida que ameaçavam sufocá-lo e o impediam de agir com eficiência.


Quem não é o maior, nem o mais forte e nem mais rápido,
tem que ser muito melhor com o cérebro!


Com o período neolítico e a inovação da agricultura (8.000 a 4.000 aC), mudou o foco principal do mito. Não obstante tenha resultado do logos, ao contrário do que seria de se esperar, assim como parece ocorrer hoje, as grandes revoluções tecnológicas (nos métodos de cultivo da terra) levaram a uma maior consciência espiritual, e os seres humanos tornaram-se tão sacramentais quanto os dos períodos anteriores.

A colheita era uma epifania, uma demonstração da Energia Divina, e quando os agricultores cultivavam a terra e produziam comida para a comunidade, sentiam que haviam penetrado no Reino Sagrado e participado de sua milagrosa abundância. A terra sustentava todas as criaturas – plantas, animais e humanos – como se fosse um útero vivo.

Nesse contexto, os rituais visavam a abastecer a força da natureza, evitando que se exaurisse. Mesmo a sexualidade humana chegou a ser considerada similar à energia de origem divina que proporcionava frutos à terra, e as pessoas eram vistas como pertencentes a ela. Assim como no paleolítico o Céu era venerado e personificado como 'Deus Céu', no neolítico a terra nutriz e maternal se tornou a Deusa Mãe.

Com o advento das primeiras civilizações, entre 4.000 a 800 aC, mais uma vez a visão do divino iria se alterar, agora com outra novidade: a invenção da cidade. As primeiras cidades surgiram na Mesopotâmia; depois no Egito, em seguida na China, depois na Índia e em Creta. O ritmo da mudança se acelerava e a sequência lógica de causa e efeito era mais evidente para as pessoas. O homem finalmente tinha uma sensação de domínio do ambiente, e mitos como o da Torre de Babel (que muito provavelmente se referia ao grande Zigurate da Babilônia) bem ilustram o quão arrogantes aquelas nações se tornaram em sua nova condição.

Assim como seus ancestrais haviam considerado a caça e a agricultura atividades sacramentais e sagradas, os primeiros urbanos viam suas conquistas culturais como essencialmente divinas. Na Mesopotâmia, os deuses haviam ensinado aos homens construir os zigurates, e Enki, deus da sabedoria, era patrono dos coureiros, ferreiros, barbeiros, pedreiros, oleiros, técnicos em irrigação, médicos, músicos e escritores. Eles compartilhavam a criatividade divina dos deuses, que haviam levado ordem para onde, antes, só havia a confusão e o caos.

Permanecia a adesão dos cidadãos à Filosofia Perene, e aquelas sociedades conservavam a crença de que tudo o que ocorria na Terra era uma réplica da realidade celestial. Assim como sua cultura urbana evoluíra a partir de diminutas comunidades agrícolas, os deuses haviam atravessado uma evolução análoga, concepção que penetra a fundo os mitos da criação babilônicos descritos no 'Enuma Elish' (segundo milênio AC), cuja teogonia mostra como a partir de Apsu, o rio, Tiamat, o mar e Mummu, a nuvem opaca, surgiram os outros deuses, aos pares.

O mito examina o processo humano de mudança, que reproduz o desenvolvimento dos deuses. Ele reflete a evolução da cidade-Estado Mesopotâmia, que havia dado as costas para a sociedade agrária anterior (agora tida como lenta e primitiva) e se estabelecera pela força militar. Segundo o mito, após sua vitória, Marduk fundou a Babilônia. A cidade era chamada ‘Bab-ilani’ ('o portão dos Deuses'), o lugar onde o divino entrava no mundo dos homens. A cidade, portanto, poderia substituir o antigo axis mundi, o modo de pensar segundo o qual o mundo era ligado ao Céu, na Idade do Ouro.

Após o período paleolítico despontou a Era Axial (800 a 200 aC), termo cunhado pelo filósofo Karl Jaspers que designa o desenvolvimento espiritual que caracterizou esse período. São séculos misteriosos, em que nasceram as grandes religiões e filosofias que orientaram e continuam orientando milhões de pessoas durante milênios. Não se sabe porque envolveu chineses, indianos, gregos e judeus, e por que outros povos permaneceram de fora (como a Mesopotâmia e o Egito). O ponto central desta Era consistiu na interpretação de natureza ética e intimista dos velhos mitos: o homem e seu ser adquirem renovada dimensão e o Sagrado volta à sua transcendência original.

As pessoas nos países axiais ainda ansiavam pela transcendência, mas o Sagrado parecia agora mais remoto, estranho até. Um golfo passou a separar os mortais dos deuses. Eles não compartilhavam mais da mesma natureza; não era possível acreditar que os deuses e os homens se originaram da mesma substância divina.

Os primeiros a partir rumo ao 'etos axial' foram os chineses, com a chamada 'Regra de Ouro' ('não fazer aos outros o que queremos que nos façam') tendo sido formulada, pela primeira vez, por Confúcio. No fulcro do novo pensamento axial, via de regra, estava a concepção de que não bastava realizar os rituais, mas adotar um comportamento ético correto. Haviam diferenciações na maneira de vislumbrar a herança do passado, mas entre os mais radicais inimigos dos mitos antigos – os israelitas – brotou a primeira religião essencialmente monoteísta, firmada pelo Segundo Isaías na Babilônia.

Na Grécia, as idéias da Era Axial foram alimentadas pelo logos (razão), estabelecendo-se a Verdade por meio da indagação permanente e da consciência crítica aguçada. Sócrates firma seu método (a maiêutica) e o apelo à dialética contribui para ampliar o fosso entre o racional (o logos) e o imanente, o mito.


Ruínas do zigurate da cidade de Borsipa:
ideia aproximada da construção da Torre de Babel


Após a Era Axial, assumiram posição de destaque – sobretudo no Ocidente – as fés monoteístas, no período chamado de Pós Axial (200 aC a 1500 dC) por autores importantes como Karem Armstrong. Nesse momento, as três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), inspiradas pelos sábios, filósofos e profetas axiais, reivindicavam se basearem na história e não mais no mito. O judaísmo, em particular, possui relação conflituosa e paradoxal com a mitologia de outros povos, às vezes antagonizando-os, outras apropriando-se de histórias estrangeiras para ilustrar sua própria visão. Mas, sem dúvida, inspirou muitos outros mitos. Em todas esta tradições (monoteístas) o mito continuava exercendo seu papel.

Em virtude da dimensão mítica dessas religiões históricas, judeus, cristãos e muçulmanos continuaram a usar a mitologia para explicar suas visões ou reagir a uma crise. Todos os seus místicos recorreram ao mito. As palavras misticismo e mistério se vinculam a um verbo grego que significa ‘fechar os olhos ou a boca’. Ambas se referem a experiências obscuras e indescritíveis, pois estão além da palavra e se relacionam com o mundo interior, em vez do exterior. Como a mitologia oculta essa dimensão interior, profunda, é natural que os místicos descrevam suas experiências em mitos que podem parecer, à primeira vista, inimigos da ortodoxia e sua tradição, o que está especialmente claro na Cabala, a tradição mística judaica.

Mas no século XVI de nossa própria Era, transformações sem precedentes na organização econômica – a revolução mercantil e capitalista – levaram a uma nova configuração das sociedades; primeiramente na Europa Ocidental, e, aos poucos, no resto do mundo. Simultaneamente, ocorreram modificações na estrutura religiosa. Esta modernidade ocidental era filha direta do logos, afirmando o triunfo do espírito científico pragmático e baseando-se na 'eficiência'. Os novos heróis não eram homens de espírito, mas inventores. A sensação de domínio do ambiente era maior e aumentava a percepção da incompatibilidade entre mito e logos. Em suma, o logos científico e o mito se tornavam incompatíveis. Até então a ciência fora praticada dentro de uma mitologia abrangente que explicava sua importância. O matemático francês Blaise Pascal (1623-62), um homem profundamente religioso, enchia-se de horror ao contemplar o ‘silêncio eterno’ do Universo infinito, aberto pela ciência moderna.

Tão brusca separação entre logos e mito é problemática, no entanto. A crença em algo superior e a prática mística auxiliaram homens e mulheres a suportar a dor do mundo e encarar a realidade da extinção com menor desespero. Nosso mundo, sem o mito, não tem sido melhor para todos os povos, ao contrário (como nos países chamados do Terceiro Mundo), e está longe do prometido pelos iluministas do passado. Contrariamente ao previsto, as piores e mais dramáticas degradações da condição humana ocorreram no século XX, e a irracionalidade se revestiu das formas mais sombrias. Por isso, o que nos reservará o futuro? A reconstrução do mito em bases mais sólidas, promovendo sua reconciliação com o logos? Só podemos aguardar para ver.


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Fonte:
ARMSTRONG, Karen. Breve História do Mito, São Paulo: Companhia das Letras, 2005.



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