Discutindo o significado de autoestima

Olha eu ali no canto, de pé com o livro na mão...

A primeira coisa que eu faço questão de esclarecer é que não tenho formação em psicologia. Não estou abalizado e nem autorizado a explicar os seus conceitos e princípios. Tenho, porém, duas ótimas amigas psicólogas e psicoterapeutas, sendo que ambas dirigem um grupo de terapia comunitária do qual participei, e uma delas é também psiquiatra e diretora da 'Clínica Bresser', à rua Ipanema, 434, na Mooca, São Paulo (ela merece a publicidade gratuita). Esta última se encontra em vias de entrar, junto comigo, num projeto que talvez envolva este blog (assunto para uma outra oportunidade). - Em minha busca, tive uma fase de me interessar, e muito, por psicologia. Do modo como eu vejo, essa ciência da mente tem tudo a ver com as coisas do espírito. - Mas o que nos interessa, neste momento, é avaliar o surpreendente desdobramento do post anterior, uma entrevista com o Dr. Flávio Gikovate a respeito do tema autoestima. Posto que o meu conhecimento em psicologia vem daquilo que aprendi nos livros, como autodidata, da assessoria das citadas amigas e das terapias que fiz ao longo da minha vida, passemos à nossa análise...

Os meus queridos leitores e já 'antigos' participantes deste blog, nicknames 'Cris' e 'Mizi' (Ad Infinitum), trouxeram alguns questionamentos bastante fortes e até radicais às declarações do Dr. Gikovate: Cris falou em "salada de conceitos", e Mizi chegou a usar palavras como cilada, forçado, superficial... Outros participantes, inclusive eu próprio, não concordamos e replicamos, mas os dois responderam e a conversa cresceu. Achei isso bastante curioso: na minha cabeça, o que foi dito naquela postagem foi tão claro, simples e direto que eu nunca poderia imaginar que poderia gerar qualquer polêmica. Mas, bem, como todos sabem, o meu sobrenome é questionamento: gosto de questionamentos e sempre achei que é por meio deles que crescemos, evoluímos, saímos do lugar comum e chegamos cada vez mais perto da Verdade. Sendo assim, lá vamos nós:

Ao meu ver, o que aconteceu foi uma confusão de conceitos, e as argumentações trazidas estão completamente desvinculadas daquilo que foi dito no post. Vamos analisar juntos essas argumentações, por partes.


Mizi diz: "...o texto da entrevista ficou confuso justamente por misturar esses conceitos, como se a causa do egoísmo e do ciúme fosse a baixa autoestima, o que nem sempre é verdade. Se pessoas com boa autoestima não são egoístas, então pessoas com baixa autoestima são egoístas, sim? É isso que o texto diz. E é isso que ficou confuso. Afinal, onde é que existe essa relação entre egoísmo e autoestima? (...) 'A baixa autoestima torna as pessoas ciumentas e dominadoras' (...) Ele usou a palavra determinista 'torna', excluindo outras possibilidades. Então, não ficaria melhor a locução 'pode tornar'?"


É importante notar que o texto não afirma que a baixa autoestima é a única e exclusiva causa do egoísmo e do ciúme. Ele diz apenas que baixa autoestima gera egoísmo e ciúme. - O que é a mais pura verdade. - Vejam bem que essa conclusão está partindo de um reconhecido pesquisador da psique humana, que já tratou mais de 7 mil pacientes e que tem 'apenas' 38 anos de carreira. Creio que não há nenhuma dúvida quanto ao fato de que o egoísta e o ciumento são, antes de tudo, pessoas que não gostam de si mesmas. O indivíduo que se ama e 'se garante' dificilmente será uma pessoa ciumenta; ao menos não será ciumento além da medida do saudável. Acho que, até aí, ninguém discorda.

Segundo ponto: o texto nunca disse que todas as pessoas que sofrem de baixa autoetima são egoístas. - Dizer que "a baixa autoestima torna as pessoas ciumentas e dominadoras" não é o mesmo que dizer que sempre, em todos os casos, isso acontece. Por exemplo, se eu disser que beber cachaça provoca cirrose alcoólica, não estou com isso dizendo que todo aquele que consome cachaça será vítima de cirrose, certo? Se eu disser que o cigarro gera dependência psicológica, isso não é a mesma coisa que dizer que todos os que puserem um cigarro na boca se tornarão psicologicamente dependentes. Da mesma maneira, poderíamos citar milhares de exemplos, mas é sempre o mesmo caso. Em afirmações como essas, fica subentendido que se está referindo a um resultado potencial, não absoluto. A obviedade pressupõe que não há necessidade da explicação detalhada.


Continua: "Pessoas com boa autoestima tb se descontrolam, podem ser agressivas e tb sentem ciúmes, podem ser egocêntricas e egoístas."


A mesma relação inexistente. Podemos ler e reler o texto várias vezes: ele não contém nenhuma afirmação no sentido de que pessoas com boa autoestima são perfeitas, que nunca erram, que jamais sentem ciúmes e/ou não podem ser egocêntricas/egoístas. O que ele faz subentender é que um indivíduo que tem boa autoestima dificilmente será ciumento ou egocêntrico. E a razão é muito simples: quando eu estou feliz comigo mesmo, quando eu gosto e acredito em mim, tenho muito mais segurança para poder conviver bem com o meu próximo. Simples assim!


Continua: "Aliás, muito mais provável uma pessoa cheia de si mesmo se tornar insensível ao outro do que o contrário. A entrevista ficou muito crua. Se ter boa autoestima não significa ser egoísta, então é o contrário do que ele está afirmando, olha lá (está em vermelho). Não fui que disse isso. Está no texto. Eu não estou afirmando isso ou aquilo."


Aqui ficou claríssima a confusão: alguém "cheio de si mesmo" não tem absolutamente nada a ver com alguém que tem uma boa autoestima! Percebo nitidamente que está se confundindo egoísmo, soberba, prepotência e arrogância com autoestima. São sentimentos completamente diferentes, eu diria até antagônicos. Mesmo o mais humilde dos homens, o servidor de todos, precisa de autoestima, isto é, precisa gostar de si, precisa acreditar que está fazendo o certo, o melhor que pode, que é digno. Se não for assim, haverão problemas psicológicos graves.


Continua: "Não tenho a palavra autoestima como sinônima de confiança em si mesmo, mas sim como sentimento de 'rejeição' ou 'ostracismo' por parte da sociedade."


Nesse caso, vou falar do modo mais direto possível (como convém aos amigos e como espero ser tratado também): você está completamente enganado! O seu conceito de autoestima, - isto é, aquilo que você chama de autoestima, - não é o que a psicologia chama de autoestima. Aí, você pode até dizer: "dane-se a psicologia!", e eu diria que tudo bem, é seu direito descartar o que é aceito 'oficialmente' e criar os seus próprios conceitos para as coisas. Mas veja, isso seria o mesmo que começar a chamar macaco de banana e vice versa. Um passarinho passa voando sobre a sua cabeça e você diz: "Lá vai um avião!". Alguém que está ao lado retruca: "Não, é um passarinho", e você: "Para mim, a palavra avião tem um outro significado"... Percebe o que estou dizendo? O significado real da palavra autoestima não tem a ver com rejeição ou aceitação pela sociedade. Claro, você pode até dizer que pra você o significado é esse, mas isso seria como chamar o azul de vermelho. O significado real simplesmente não é esse. Só para colocar uma pedra definitiva sobre essa questão, vejamos o que diz o dicionário Michaelis:


"au.to-es.ti.ma (auto+estima): sf A aceitação que o indivíduo tem de si mesmo."


É muito interessante notar que, se apenas esse ponto tão simples ficar claro, todas as dificuldades em entender aquela postagem acabam!


Continua: "Não me sinto infeliz por ter baixa autoestima. Sinto-me chateado e frustrado algumas vezes. Mas nunca fui agressivo, nem ciumento, nem possessivo. Consigo ser exatamente o contrário de tudo isso, mas ainda assim me sinto rejeitado. O que tenho? Baixa ou boa autoestima? É o conceito de egoísmo que vai dizer? Pq se for, eu terei muito boa autoestima. No entanto, esse sentimento de rejeição se chama o que? Boa autoestima?"


Essa parte é bem interessante. Admiro a humildade e a confiança que você, querido e já 'velho' amigo, deposita em mim e nas pessoas que frequentam este blog. Como você está se abrindo e fazendo essas perguntas, vou arriscar um palpite: você, sem dúvida, tem uma baixa autoestima! Qualquer pessoa que dependa de aprovação externa para se sentir bem consigo mesma, demonstra baixa autoestima. E mais uma vez você fala em "egoísmo"... Digo que, para começar a entender (e no caso, se entender), é preciso esquecer, colocar de lado esse conceito de egoísmo. Egoísta é aquele que só pensa em si mesmo, que se acha o centro do Universo, que quer tudo apenas para si sem se preocupar com o bem-estar do próximo. Já autoestima significa simplesmente gostar de si, estar feliz consigo, satisfeito com o que é, com o que recebeu de Deus ou da natureza. De novo, perceba bem como uma coisa não tem nada a ver com a outra.


Continua: "Como posso pensar numa relação comigo mesmo se não penso nos reflexos que isso repercute no outro?"


Você, assim como qualquer pessoa, não só pode como deve buscar e cultivar uma boa relação consigo mesmo, antes de se preocupar com a maneira como isso vai repercutir nas mentes alheias! Isso é egoísmo? Não! Veja, eu sei que você é um cristão devotado, então vou usar um exemplo bem prático: imagine se Jesus e todos os santos se importassem primeiro com o que os outros iriam achar, antes de fazer aquilo que sabiam que era certo. Se tivessem feito isso, o cristianismo não existiria!

São Paulo, inicialmente, foi uma pessoa muito bem quista pela sociedade a que pertencia. Mas depois que ele mudou radicalmente os seus conceitos, tudo se transformou. Ele, como cidadão romano, passou a ser odiado pelos romanos. Como judeu e discípulo destacado do venerado rabino Gamaliel, se tornou odiado pelos judeus. Isso o deteve? Não. E ele mesmo repete, em suas cartas, que se sentia realizado, dá a entender que estava muito feliz consigo mesmo, diz até que "se gloriava" na Cruz de Cristo. Em outras palavras, sua autoestima era ótima, e sabe porque? Ele estava bem com Deus e com ele mesmo. Ele se propôs uma (grande) missão e a cumpriu. Não importava o que a sociedade pensava dele, o que a família pensava, e nem mesmo o que o bispo pensava (literalmente, pois ele brigou até com São Pedro!): ele sabia que estava fazendo o que devia fazer. Ele estava em paz com a sua consciência, ele estava em paz consigo mesmo. - Sua autoestima estava em dia.


Continua: "Mas até agora ninguém me respondeu quem é que é egoísta? Quem tem boa autoestima ou quem tem baixa autoestima?


Como acho que já ficou bem claro, tanto um quanto outro podem ser ou não egoístas, porque uma coisa não está necessariamente atrelada a outra; ao contrário. A entrevista indicou, apenas, que o indivíduo com baixa autoestima tende a se tornar egoísta, o que é um fato mais do que comprovado em consultório. E isso pode representar uma tentativa de compensar um sentimento de inferioridade: você sabia que uma pesquisa (infelizmente não tenho a fonte original - mas saiu no site do Geraldo Freire) demonstrou que a maior parte dos homens proprietários de cães pitbull - e outras raças potencialmente perigosas e/ou que provocam medo - sofrem de algum grau de disfunção erétil ou possuem pênis de tamanho abaixo da média? Isto é, ele tenta compensar o que (acha que) lhe falta em masculinidade carregando uma fera assustadora na coleira. Como você acha que é a autoestima de um cara desses?

Voltando ao ponto, vou dizer mais uma vez, para que fique bem claro: corte essa conexão (inexistente) que você criou entre autoestima e egoísmo, e tudo ficará claro.


Continua: "...há pessoas com baixo autoestima (insegurança) que não são agressivas, são tímidas, possuem valores morais, são felizes, mas que simplesmente se sentem rejeitadas e depressivas por não terem lugar na coletividade (como Jesus)? Pois Jesus dizia: 'os pássaros têm ninhos, as raposas têm suas tocas, mas o Filho do homem não tem onde encostar sua cabeça'. Percebe que Jesus não tinha lugar naquela sociedade e se sentia rejeitado? Mas nem por isso era infeliz ou era agressivo ou ciumento ou possessivo ou deixava de saber se relacionar com o outro. Pois ele se sentia rejeitado, e queria sim ser aceito e reconhecido. É só ler os evangelhos."


Ser verdadeiramente feliz com baixa autoestima me parece impossível. Mais uma vez, fica evidente uma troca de conceitos: associar 'ser aceito' com autoestima. Curiosamente, você usou o mesmo exemplo que eu, só que com base numa interpretação desvinculada do contexto. Você acha que Jesus, por ser rejeitado, tinha baixa autoestima? Ora, eu diria que ele tinha a melhor autoestima de todos os tempos, independente de ser aceito ou não! E, já que se insistiu tanto nessa tecla, acho muito importante esclarecer, também, que raramente alguém será total e completamente rejeitado por todos. Jesus foi rejeitado pelos fariseus, sacerdotes e doutores do seu tempo, mas ele era amado e seguido por multidões, que se acotovelavam para ao menos ter a oportunidade de tocar na orla de suas vestes!

Todo indivíduo que prioriza a Verdade passa por isso. Buda abandonou sua família e seus amigos, se aventurou solitário na floresta, mas logo encontrou muitos e muitos seguidores, discípulos e amigos, inclusive reis e príncipes. O mesmo aconteceu com São Francisco. Quando iniciou a sua vida religiosa, era desprezado como louco, mas depois de algum tempo passou a ser admirado, amado, seguido, e até o Papa lhe beijou os pés! Nossos amigos poderão nos rejeitar por causa das nossas ideias, mas se formos corajosos e fiéis a essas ideias, em breve estaremos cercados de novos (e verdadeiros) amigos. Falo por experiência própria. Então, mais uma vez, não há nenhuma relação entre o conceito de autoestima e a aceitação ou não por parte da sociedade. Qualquer pessoa que se sinta abatida por não ser 'reconhecida' pelos outros, sofre de baixa autoestima.


Continua: "O conceito de 'autoestima' é que ficou muito superficial e não atinge a riqueza espiritual que possui um ser humano. Só isso. Tentar engessar isso vai gerar uma salada. Ou cilada..."


Com toda humildade e carinho, eu diria que aqui se faz necessário um adendo: seria importante especificar que para você o conceito ficou superficial e digno de ser comparado a uma "salada" (sei que quem fez essa relação primeiro foi a Cris) ou "cilada". Para mim, a entrevista foi profunda e muito esclarecedora. Aliás, foi por isso que fiz questão de publicar aqui no a Arte das artes. Achei a explanação reveladora! Outros, como '
Chad Crusemire', 'Fiat Lux', 'J. Laércio Egídio', 'Tato Anderson' e até o cético 'Helder' parecem ter entendido assim, também. Então, talvez seja o caso de parar um pouco e analisar se o texto está realmente confuso, forçado, suicida, superficial (todas expressões usadas nos seus comentários), ou se o seu real significado é que não está sendo captado. - Porque essa é sempre uma possibilidade, para qualquer um de nós. - Digo isso porque acho complicado chegar e já ir classificando alguma coisa assim, com tanta pressa. Mas não me entenda mal: que fique bem claro que eu aprecio os questionamentos e me sinto sempre gratificado quando eles acontecem. Este post é fruto de um questionamento, e como seria chato se todo mundo concordasse com tudo, sempre...


Continua: "...eu acredito que vcs, por serem pessoas com muito boa autoestima, não estejam se preocupando se eu penso ou não diferente de vcs, certo?"


De minha parte, errado! Autoestima não é sinônimo de apatia nem de "tenho a minha verdade e quero que os outros se danem"...




Chega Cris e diz: "Talvez eu tenha uma autoestima baixa, mas mesmo assim acho confuso o conceito, porque não o vejo como um sentimento interior, isolado.


Engraçado como a Cris teve uma impressão parecida com a do Mizi. Cris, se você não vê autoestima como um "sentimento interior", você está vendo errado! Simples assim, porque é exatamente isso que a palavra significa. Trata-se de um sentimento, e todo sentimento humano é algo que só acontece e só existe em nosso interior. Altruísmo, egoísmo, Amor, ódio, compaixão, angústia, serenidade, medo... Qualquer sentimento nosso é nosso, algo interior, e nem haveria como ser diferente. Não consigo entender a dificuldade em ver isso! "Ah, mas o que eu sinto se reflete no outro", você pode dizer. E aí eu respondo: "Claro que sim, porque nós somos seres sociáveis, vivemos em sociedade e, num certo sentido, dependemos um do outro". Mas o seu sentimento nunca deixa de ser só seu. Sempre será assim.

Ter autoestima não é ser apático. Eu amo minha esposa, e o que ela pensa ao meu respeito é importante pra mim. Amo minha família, quero estar bem com todos eles. Mas o que eles pensam ou deixam de pensar ao meu respeito não interfere na minha autoestima. Não quer dizer que não me importo, que não estou nem aí, mas eles não têm o poder de abalar a minha autoestima, que é uma questão só minha. Agora imaginemos que, de repente, pessoas que eu amo briguem comigo, me rejeitem, me excluam do seu convívio. O que vai acontecer comigo? Eu vou ficar arrasado, é claro! Vou me sentir deprimido e triste. Estar triste, porém, não é sinônimo de autoestima baixa.

Para esclarecer melhor: é possível estar de mal com o mundo e manter uma boa autoestima? Essa pergunta, em si mesma, encerra dois aspectos interessantes: primeiro, não existe ninguém que consiga brigar com o mundo inteiro. Cada um de nós acaba encontrando a 'sua turma', principalmente se for honesto e coerente com os seus princípios. Entre os seres humanos, ocorre o contrário que na física: os iguais se atraem, e isso é muito bom.

O segundo aspecto da questão é o seguinte: por um lado, sim, o desprezo e a exclusão radical dos meios sociais poderiam abalar a nossa autoestima. Mas isso, no que se refere ao conceito de autoestima, aconteceria mais pelo inconformismo com a nossa própria incompetência, - por não nos acharmos 'bons o suficiente' para participar daquele grupo (segundo nossos próprios conceitos), - do que propriamente em razão do que nos fazem. Isso me lembra uma história:

Quando eu era um aluno de karatê, conheci um rapazinho que era excluído do grupo dos aprendizes de samurai machões. Isso acontecia porque suas características não pareciam muito compatíveis com as de um guerreiro bushidô: era um garoto um pouco... diferente. Efeminado, pra ser direto. Mas ele gostava de karatê, e eu percebia o quanto tentava se integrar, sendo sempre rejeitado. Eu era muito jovem na época, imaturo e machista, e confesso que também não queria muito papo com esse jovem. Até o dia em que o vi chorando no vestiário, um pouco depois de ter sido alvo de piadinhas maldosas na hora do treino. Nesse exato instante, meu coração amoleceu. - Homem, há vinte anos, não chorava à toa, como hoje. Se você visse um homem chorando, - mesmo um que fosse efeminado, - a coisa era séria. Vê-lo chorar foi chocante; eu me aproximei e quis saber o que havia, pensando em reconfortá-lo, e sabe o que ele respondeu? "Estou com raiva de mim mesmo porque não consigo ser igual a vocês"!

Precisa dizer mais alguma coisa? Este é um exemplo clássico de indivíduo com baixa autoestima. O problema não era a reação do grupo. Na cabeça do rapaz, o problema era ele mesmo. Se, numa outra situação hipotética, ele estivesse chorando de raiva por causa das grosserias, aí não seria uma questão de baixa autoestima, mas apenas de indignação e mágoa, pura e simplesmente. Óbvio que, mesmo tendo uma ótima autoestima, eu posso me sentir magoado, indignado, triste, deprimido... No entanto, segundo a minha assessoria (Clínica Bresser - tel.: 11 2693 8120), é raro que um indivíduo com uma boa autoestima sofra com depressão. Já o contrário é comum e frequente.


Continua: "...essas pessoas que vc menciona, que foram desencorajadas pela família, pela sociedade, mas foram atrás do sonho e se tornaram vencedores (...) elas não deram ouvidos aos desencorajamentos iniciais e foram atrás. Mas são consideradas vencedores pois a própria sociedade as reconheceu como tal, após terem realizado um grande feito. (...) Embora tenha existido um desencorajamento incial, a pessoa bateu o pé e conseguiu o reconhecimento depois. Não interno, mas o aplauso da sociedade. Não um sentimento de 'eu posso', mas chegaram a um resultado concreto que as fez serem consideradas vencedores. O termo 'vencedor' fala por si só. (...) Quando a gente fala que uma pessoa é vencedora, o que vc, Merton, entende por vencedor?"


Essa parte é muito importante, me dá abertura para uma série de esclarecimentos essenciais. Em primeiro lugar, eu gostaria que você me respondesse com o máximo de sinceridade: do que adianta conquistar "o aplauso da sociedade" se você não está bem consigo mesmo(a)? Quantas pessoas conhecemos, em especial artistas, amados e admirados pela sociedade, mas que demonstram possuir péssima autoestima, são completamente infelizes, estão eternamente deprimidos? Quantos se suicidaram no auge da carreira? Quantos tombaram, vítimas de overdoses fatais? Preciso citar nomes? Acho que não. De nada adianta a sociedade aplaudir, de nada adianta o reconhecimento dos outros, se a sua autoestima não está em dia.

Uma outra pergunta: o que é um "resultado concreto" pra você? Ser popular? Ser famoso? Ter um cargo importante numa grande empresa, ganhar muito dinheiro, um bom carro na garagem, uma casa luxuosa?.. Perceba como isso tem a ver com o que eu lhe disse num outro comentário: o seu bem-estar pode não ser uma coisa muito clara para os outros, mas é algo que está sempre muito claro para você mesma! De nada adianta você sorrir o dia inteiro, ser popular, se vestir bem, manter um belo corpo, parecer estar feliz e resolvida... se à noite, sozinha na cama, você tem medo, se sente insegura, frustrada, chora... É só você mesma que sabe quem você é de verdade, a sua real situação. Quando você está bem consigo mesma, sua autoestima está bem.

Um terceiro e importantíssimo ponto: esse conceito do "vencedor" e do "perdedor" foi uma das piores contribuições que os EUA legaram ao mundo! - Não sou antiamericano, longe disso; acho que essa grande nação contribuiu com muita coisa boa para o mundo, incluindo o aperfeiçoamento da democracia e o rock'n roll (=p~), mas essa coisa de classificar e rotular seres humanos entre winners e loosers foi uma verdadeira maldição! Acreditar nesses conceitos infantis é algo muito, mas muito nocivo para a alma humana. Milhares de pessoas se suicidam todos os anos, por causa dessa estupidez tremenda que incutiram nas nossas cabeças. Me 'inclua fora' dessa! Perante o mundo, com certeza sou um perdedor: não tenho casa própria, não tenho um bom emprego, não tenho posses, vivo (muito) simplesmente... Mas sou feliz, estou satisfeito com o que sou e o que faço. Sou um perdedor para o mundo, mas sou um grande e magnífico vencedor para mim mesmo, e no fim, essa é a única coisa que realmente importa! O que a sociedade pensa não me interessa a mínima! E, paradoxo dos paradoxos, é só por pensar assim que eu posso ser útil de fato para essa mesma sociedade, de um jeito que me realiza.


Continua: "...conheço o trabalho do Dr. Flávio faz tempo, de ler livros dele, assistir entrevistas, artigos e na TV. (...) Mas eu posso respeitar e admirar o trabalho de alguém, e ainda assim discordar de alguma posição dele."


Amém. Continue assim, porque ninguém é perfeito. Só acho interessante a gente levar seriamente em consideração a opinião de alguém que possui uma experiência tão grande no assunto, antes de descartar como salada, confusão, viagem na maionese ou coisa do gênero (risos...).


Continua: "Todo ciumento carrega em si a possessividade, a possessividade é um de seus componentes. Mas a possessividade pode se apresentar de outras formas que não o ciúme, não são sinônimos, ao menos não no dicionário."


Eu diria que a possessividade e a insegurança (outro sintoma da baixa autoestima) são os principais e mais básicos componentes do ciúme. Aliás, não sei quais seriam os outros componentes. - Amor com certeza não é um deles; ao menos não o amor verdadeiro. - Então, se você tirar o sentimento de posse e a insegurança, que são frutos da baixa autoestima, o ciúme já não existe mais. Por isso, possessividade e ciúme podem até não aparecer como sinônimos no dicionário, mas penso que estão tão intimamente ligados que mal dá pra separar um do outro.


Mizi volta à carga: "...tem a questão de se separar o individual do coletivo. Como eu disse, acho que no fundo o que todo ser humano almeja é ser aceito pela sociedade. É por isso que ele se esforça por se inserir em um padrão de comportamento. O pior é quando a própria sociedade possui valores frívolos, como é o caso da nossa. Pessoas como eu e a Cris, que temos valores diferentes, sempre nos sentiremos rejeitados. Nossos valores não batem com os da sociedade."


Se é assim, eu não sou humano! Estou 'andando' para o que a sociedade espera de mim. Já disse e repito que não me considero uma ilha, não sou egoísta e preciso da convivência com os meus semelhantes para me sentir completo. Mas os meus iguais me bastam! Você, Mizi, diz: "Eu e a Cris somos diferentes, então somos rejeitados"... Ora, mas vocês se encontraram, então não estão mais sozinhos! Se você parar de tentar ser igual aos outros (não estou dizendo que faça isso, falo genericamente) e firmar posição nas coisas em que acredita, fatalmente vai encontrar outras pessoas que pensam como você, que têm os mesmos valores e acreditam nas mesmas coisas... e aí, sim, surgem as verdadeiras amizades. O erro está em ceder, fingir ser o que não é, só para se sentir fazendo parte de algo. Isso é ilusão!

Posso dizer que tenho pouquíssimos amigos, além da grande graça que é ter uma esposa que se parece comigo, que cultiva os mesmos valores que eu... E sabe como a descobri e 'conquistei'? Selecionando! Não me deixei encantar só pela beleza, nem por afinidades apenas sexuais ou qualquer outra coisa desse tipo. Se era pra começar uma relação séria, ela tinha que ter valores e princípios parecidos com os meus. Casamento não é loteria. É afinidade! E ter (poucas) amizades verdadeiras e uma esposa que busca as mesmas coisas que eu é mais do que suficiente para mim. Minha autoestima não pode depender - e não depende, jamais - do que a sociedade pensa!


Para encerrar (com chave de ouro), volta Cris: "O Merton dá abertura pra gente conversar. Eu gosto e acho válido ler posições, mesmo contrárias as minhas. (...) Se a gente pode conversar e ouvir opiniões diferentes, por que não? (...) Mizi, pra mim não foi desnecessário o que vc disse. Me ajudou. Se for pra fingir que concorda, ou então pensar diferente e não falar, não somos buscadores."


Amém, amém, amém! Aqui vai o meu muito obrigado aos dois, um obrigado muito sincero e satisfeito. Obrigado e obrigado! Tenho orgulho de ter pessoas como vocês participando deste blog. Desejo um fim de semana de Luz a todos os questionadores.





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