Post sem título

Essa noite eu tive um sonho bem inquietante. Resolvi escrever sobre isso enquanto as lembranças ainda estão frescas...
O sonho começa meio sem pé nem cabeça, como costumam ser os sonhos. Estou andando pelas ruas, num lugar que não conheço, passando por cenários idílicos e sossegados. Estou levando um pequeno carrinho de mão feito de madeira clara e polida, cheio de maçãs, até em cima.

Normalmente, não tenho grande atração por maçãs. Numa lista de minhas frutas preferidas, elas sem dúvida não apareceriam. Acho-as um pouco sem graça, talvez. Mas aquelas maçãs, que eu levava no carrinho, eram especialmente apetitosas: as cascas eram muito vermelhas, de um tom bem escuro e vivo, beirando o vinho, quase púrpura, de casca brilhante e com aspecto de frescor agradabilíssimo. O suave perfume que essas maçãs emanavam me assaltava os sentidos e me transportava. Sentia uma vontade quase irresistível de escolher uma daquelas maçãs para nela cravar os meus dentes, sem dó nem piedade. Mas, no sonho, eu sabia que não podia fazer isso, porque eu estava ali para vendê-las; eu precisava vender aquelas maçãs. Sem entender bem o motivo, como costuma acontecer no reino dos sonhos, eu sabia que era muito importante vender as maçãs.

Caminhei mais um pouco e parei numa esquina daquela cidade que eu nunca tinha visto. Estava então numa encruzilhada de várias ruas, todas pavimentadas com pedras arredondadas e graciosamente encaixadas. A esquina onde parei dava de frente para o que parecia uma espécie de largo, com uma pequena praça no centro e rodeado de casas comerciais. Havia um grande movimento de pessoas entrando e saindo das lojas, passeando pela praça, cavalheiros com seus chapéus e senhoras com seus carrinhos de bebê, entre jovens, meninos e meninas, moços e moças... Mas o movimento era apenas moderado: bastante gente, mas não alvoroço.

Ajeitei o carrinho com as maçãs ali mesmo, na esquina, e me recostei na parede de uma casa, um pouco tímido, esperando que a beleza e o perfume das frutas atraísse uma multidão de compradores. Estranhamente, porém, todos passavam incólumes.

Minha mente começou a se dispersar, e como costuma acontecer nos sonhos, senti que dali já ia para algum outro lugar estranho, esquecendo do carrinho, das maçãs, do largo, da responsabilidade de vender aquelas lindas frutas... Mas, nesse momento, senti um leve toque em minha mão direita. Minha atenção foi imediatamente retomada, voltei para o mesmo lugar e, olhando para baixo, vi um menino meio estranho, parado diante de mim, tocando minha mão direita. Era uma criança muito séria, que me olhava bem fundo nos olhos. Pensei que naquele lugar as palavras talvez não fossem tão importantes, e até achei que aquele menino estava me dizendo alguma coisa, mesmo sem falar nada. Mas eu não pude entender o que era. Olhando para ele me sentia desarmado. Então tentei me comunicar com um sorriso, mas me pareceu inútil, pois ele não esboçou nenhuma reação. Não reagiu ao meu gesto simpático, não sorriu de volta, só me olhava com aquele olhar penetrante. Eu tentei balbuciar alguma coisa, talvez aproveitar para tentar vender uma maçã, mas ele, sempre muito sério, me disse:

“Essas maçãs não são bonitas. Vai ser difícil vendê-las.” E eu respondi: “Como assim? São as frutas mais lindas e perfumadas que eu já vi na vida”!

Mas o menino ignorou a minha observação, e balançando a cabeça negativamente, com aquela expressão grave, concluiu:

“O seu inimigo não é sincero. Ele não tem moral nenhuma”.


Eu não entendi, não fazia ideia do que ele estava falando, mas não sei porque, assenti com a cabeça. Acho que eu queria que ele fosse embora, sua presença tinha um quê de incômoda, apesar de... Não sei, apesar de que ele me transmitia algo de muito bom, também. Quando ele disse aquilo, me passou a sensação de que não queria que eu respondesse, e que se o fizesse, seria ignorado. Ele queria apenas que eu entendesse. Mas eu não entendi, ao menos não totalmente. Ele se afastou, e eu olhei para vê-lo se afastanto, porque estava curioso e queria ver o seu jeito, o modo como andava, sua roupa, sua altura, a direção que ia tomar. Mas não pude vê-lo indo embora. Alguém entrou na minha frente, impedindo a minha visão. Ou alguma coisa desse tipo.

Havia um degrau na construção em que eu estava apoiado, recostado, que aliás era toda feita de grandes tijolos vermelhos: um pequeno degrau de pedra bruta. Eu então me sentei, tentando entender o que acabara de acontecer. E aconteceu uma coisa muito interessante, que acontece muito comumente comigo, transformando meus sonhos num outro tipo de experiência, que de uma certa maneira eu aprecio: eu me conscientizei que aquilo era um sonho, que eu estava no meio de um sonho, que meu corpo físico estava bem acomodado em minha cama, naquele momento, e que tudo estava acontecendo apenas na minha mente, ou numa outra realidade fora desta que consideramos normal...

Ter me conscientizado disso fez com que a minha atenção fosse redobrada para o que poderia acontecer a seguir. Sonhos às vezes são sinais. E eu me senti tranquilo.

Comecei a apreciar a vista, vi que o céu estava limpo, mas era meio amarelado, como num pôr de sol de um dia de verão. Estava frio, porém, e além disso, eu tenho certeza, era de manhã. Olhei para as maçãs, e ainda pareciam deliciosas... Mais uma vez senti vontade de comê-las. Então aconteceu um salto, eu me vi numa casa muito simples, e estava diante do meu velhinho, meu pai querido. Era meu pai, só que ele estava mais jovem, forte e bonito, como nas memórias da minha infância e nas poucas fotos antigas que restam dele. Estávamos sentados ao redor de uma mesa redonda, de madeira muito grossa, de aparência pesada e antiga, e sobre ela havia uma pequena toalha verde, bordada. Ele estava vestindo uma camisa de mangas longas, desbotada. Xadrez, como convém a um bom parente de ameríndios. Seus olhos pretos estavam bem fixos nos meus, e ele me dizia com a sua voz mansa: “Filho, você precisa vender todas estas maçãs. É a nossa última esperança, e eu só confio em você”. Lá estavam aquelas lindas maçãs empilhadas sobre a mesa, todas arrumadas sobre uma travessa de metal fosco, formando uma pirâmide.

Me emocionei ao ver meu pai, novamente jovem, depois de tantos anos. Ele estava forte, bonito e cheio de classe, como sempre. E tinha aquele olhar triste, típico dele... Num lampejo me lembrei de quando eu era um bebê e ele cantava para mim, e das vezes em que brincávamos no chão, sobre o tapete, eu pulando sobre a sua barriga, como se fosse um trampolim... Me lembrei também de quando ele se sentava para contar os seus ‘causos’ de assombração, para mim e para o meu irmão, sempre à noite, antes de dormir, o que nos fazia passar divertidas noites em claro, um dando susto no outro... Mas isso tudo foi antes da separação traumática dos meus pais, que nos afastaria por décadas. Uma outra história, que não será contada. Importa é dizer que, naquele instante, ficou claro que o compromisso de vender as maçãs era mesmo muito sério.

E lá estava eu de volta à esquina movimentada, diante do carrinho com as maçãs, esperando que alguém se interessasse pela mercadoria...

Surgiu então uma linda moça, de cabelos louros e longos, com tranças bem arrumadas e olhos castanhos claros, grandes e expressivos. A energia sexual que emanava dela era tão intensa que parecia quase palpável, como se pudesse ser cortada com uma faca. Era tão bonita que só estar perto dela era quase como uma agressão. Aproximou-se sorrindo, com um andar que era uma dança, me olhou com uma expressão enigmática e depois olhou as maçãs. Alegrei-me com a chegada de uma compradora em potencial, porque eu estava realmente ansioso para vendê-las. Ela se curvou devagar e começou a apalpar os frutos, sensualmente, e eu tentava manter, seguindo o conselho de Buda, os meus pensamentos firmemente controlados. Por maluco que pareça, no entanto, naquele momento eu comecei a sentir o meu desejo de devorar uma maçã ser fortemente intensificado. Mas ainda me mantinha firme no propósito de cumprir a minha missão de vendê-las, agora que sabia o quanto era importante.

Então a moça se ergueu e abriu sua pequena bolsa. Pude ver, contendo um sorriso, que ela manuseava um grosso maço de notas, e então ela me olhou e fez uma estranha proposta:

“Eu compro todas as maçãs, mas só se você comer todas elas”.


Havia algo de malícia na proposta, mas eu não pude ver nada de errado em unir o meu desejo de devorar aquelas belezas à minha responsabilidade de vendê-las. Para ser direto, era simplesmente perfeito! Olhei para a quantidade de maçãs, que não era tão grande, e elas me pareciam cada vez mais deliciosas. Concordei. Ela sorriu e eu comecei a comer. Quando mordi a primeira maçã, a casca vermelha escura se rompeu e se liquefez, escorrendo pelos meus lábios, pingando pelo meu queixo, e o sabor era doce, delicioso. Estranho, como todo o resto. Comi mais uma e mais outra e outra, e não me sentia empanturrado. Afinal peguei a última maçã, a casca estava grudenta, grudava nas minhas mãos... O sabor ainda era muito bom, extremamente doce, mas essa última grudava nos meus dentes, no céu da boca e na garganta, quando eu tentava engolir. Cansei de mastigar, os músculos do meu maxilar se entorpeceram, mas com muita dificuldade engoli a maçã, em pedaços inteiros, quase sufocando, engasgando, com grande agonia... Mas afinal consegui comer todas.

Olhei para a moça, orgulhoso. Estava me sentindo mal por ter comido tanto, mas feliz por ter conseguido vender todas as maçãs. Eu tinha vendido todas, não tinha? A moça estava sorrindo, e o sorriso suave virou uma risada meio divertida, meio debochada, quando ela... Simplesmente foi embora. Sem pagar, sem explicações, sem mais nada. Eu tentei correr atrás dela, mas estava com o estômago tão pesado que mal podia me mexer. Tentava me mover e parecia pregado; meus membros, meus braços, meus joelhos... mal se moviam. Vi um policial logo adiante, pensei em pedir ajuda, mas... O que eu diria? Eu mesmo tinha comido a minha própria mercadoria.

Fui tomado por um desespero profundo, cortante, uma angústia pesada, sombria. Só então percebi que a venda daquelas maçãs era mais do que apenas importante, era mesmo "a última esperança". E eu acabara de ser enganado, estupidamente... A essa altura eu tinha me esquecido completamente que aquilo era um sonho; minha garganta fechou, meus olhos pesaram, senti um grande soluço chegando, e, mesmo não querendo, comecei a chorar. Assim acordei, chorando, no meio de uma noite fria, em minha cama quente, mas não fiquei aliviado, mesmo depois de constatar que tudo tinha sido só um sonho. Ainda era madrugada, mas aquela sensação amarga de ter falhado numa missão essencial permaneceu por angustiantes minutos, até eu pegar novamente no sono.

Pela manhã, contei tudo para Hana, e ela me perguntou: "Você não sabe porque sonhou isso?" Eu disse que não, e ela me lembrou do trecho de um livro do Nilton Bonder que ela tinha lido pra mim, há alguns dias, numa livraria, e que na hora não me fez pensar em nada. O trecho era sobre um antigo provérbio rabínico envolvendo um vendedor de pães. Agora eu quero comprar aquele livro...



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários