O viajante


Segundo certas ordens herméticas, Winderlieb era o nome pelo qual ficou conhecido o filho de um rico proprietário de terras da antiga Gália, que viajou o mundo inteiro em busca do sentido da vida, e após muitas aventuras encontrou a suprema Verdade, tornando-se um grande sábio e 'mestre de si mesmo'.

Bem nascido, ele viveu uma curta vida de prazeres e futilidades até a sua juventude; depois de presenciar o violento assassinato de sua mãe, porém, à época da invasão romana, perdeu a vontade de continuar com o seu modo de vida materialista, abandonou tudo e saiu a percorrer o mundo em busca da Verdade.

Conta-se que numa de suas primeiras excursões como peregrino, pela primeira vez longe de sua vila e ainda inexperiente, nas terras da antiga Germânia ouviu falar de Bart Wanderer, considerado um grande mestre de sabedoria. Ansioso por aprender grandes verdades, Winderlieb descobriu onde ele morava e foi vê-lo. Mas ao chegar às remotas paragens onde, segundo as indicações, se localizava a morada do famoso mestre, para sua surpresa, Winderlieb encontrou apenas uma modestíssima choupana...

Tocou na porta e esta se abriu. Já pensando em ir embora, - não poderia ser aquele o lugar certo, - resolveu chamar; ouviu a voz de um velho, mandando que entrasse. Entrou. No tosco aposento não haviam móveis, nem cortinas ou tapetes, apenas uma velha mesa e uma cadeira a um canto, e na parede oposta algumas prateleiras malfeitas, abarrotadas de rolos de papiro. Ao seu lado, sentado no chão, um ancião de longos e dessarrumados cabelos e barba grisalha, vestido com farrapos, como um mendigo. Estava rodeado de papéis amarelados, que folheava calmamente. Achando que se tratava de alguma brincadeira ou engano, Winderlieb pensou mais uma vez em ir embora, mas antes perguntou ao velho:

"O senhor é o chamado Bart Wanderer?" - O velho levantou a cabeça, afastou os cabelos brancos amarfanhados que caíam pelo rosto e respondeu calmamente: "Me chamam desse jeito, sim". Incrédulo, Winderlieb complementou a pergunta: "Ouvi dizer que o senhor é um grande sábio, que encontrou as chaves da vida e da morte"... Winderlieb falou rispidamente, pois estava ficando irritado com a situação. "Acho que dizem isso ao meu respeito, também", respondeu o velho, erguendo-se de modo surpreendentemente ágil para a sua aparente idade avançada.

"Isso é verdade?" - prosseguiu Winderlieb, incrédulo. O velho ajeitou os cabelos atrás da nuca e o encarou, curioso: "Bom, a minha sabedoria depende muito mais das suas perguntas do que das minhas respostas, meu jovem. E se está procurando respostas que o ajudem na sua jornada, você não começou muito bem..." - Isso deixou Winderlieb mesmo irritado. Ele respondeu, então, com uma provocação: "Talvez seja porque eu não posso acreditar que o senhor seja um grande sábio. Se o senhor possui tanto conhecimento, como pode viver neste lugar, desse jeito, sem nada? Onde está a sua mobília, onde estão seus criados, suas armas, seus tesouros?"

E Winderlieb já ia dando às costas ao velho, quando ouviu sua réplica: "Bem, e onde estão as suas próprias coisas?" - Winderlieb, ainda mais irritado, se voltou. O velho o encarava, tranquilo. O jovem então respondeu, grosseiramente: "Ora, eu não estou carregando nada comigo, porque estou em pereginação pelo mundo. Como poderia carregar tanta coisa? Eu estou aqui só de passagem!" - Ao ouvir isso, o velho Bart Wanderer sorriu, parecendo satisfeito. Coçando a cabeça, sem conter uma expressão divertida, concluiu: "Eu também, meu jovem. Eu também".



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários