Argumentações céticas




Argumento cético: 'Eu não sei nada'. Ora, se nada sei, não sei coisa nenhuma. Eu não posso afirmar que nada se pode afirmar. A não ser que afirmar tenha duplo sentido. Por exemplo, 'Não se pode afirmar nenhuma regra geral sobre nada'. Mas então, isto é um regra geral. Mas, e se colocarmos da seguinte forma: 'Não se pode proferir nenhuma regra geral sobre nada, exceto esta regra'? Sabemos que há alguma regra geral que é uma exceção à regra geral, segundo a qual, não há regra geral. A pergunta seria: 'De qual das duas regras ela seria a exceção? Ela é exceção da regra geral, ou é exceção da inexistência de regra geral?' No primeiro caso, sendo ela uma exceção, nega a generalidade de regra. No segundo caso, ela nega a si mesma. Seria a negação da negação.

Assim, os argumentos céticos representam algo como o pré-Mobral. Os argumentos céticos são jogos de palavras, e justamente por isso, exercem um certo fascínio. Principalmente para quem não sabe que eles existem há séculos, e acredita que alguém acabou de inventar isso. O adolescente está numa fase de ampliar o vocabulário, dominar a terminologia e aprender a dominar as palavras. Então ele é facilmente encantado pela arte de argumentar.

Muita gente diz que existe uma instância superior, que seria a própria Física ou talvez a Matemática, que pode fazer uma crítica geral dos sentidos, e estabelecer a jurisdição de que isso é uma impossibilidade lógica, ou seja, que daqui não dá para passar. Isso é um erro. A idéia de que o homem possa estabelecer limites para a sua própria memória é um absurdo completo. É, mais ou menos, como a história do Barão de Munchausen, que contou que “se puxou pelo cabelo para sair da água”. Achar que as faculdades superiores da inteligência ou da razão podem retroagir sobre a memória, verificar que ela tem uma falha essencial e corrigi-la, é impossível, porque a razão se sustenta na própria memória.

O homem não tem outro remédio senão confiar na sua memória. Mesmo que ela falhe. Mesmo sabendo que ela vai falhar nesse ou naquele caso. Também não há outro remédio senão confiar nos sentidos, mesmo sabendo que eles irão falhar em vários casos.

Seguindo esse raciocínio podemos também dizer que os sentidos falham às vezes, ou que os sentidos falham muito, mas não podemos dizer que eles falham na maioria ou na minoria das vezes. Nós não podemos quantificar o erro geral dos sentidos. Se eu disser que os sentidos falham quase sempre, eu já entrei em non-sense, porque estou supondo que existe uma maneira de conhecer os objetos sensíveis, a qual é melhor que os cinco sentidos. Assim, eu conheceria qualidades sensíveis melhor que os meus próprios cinco sentidos, através da razão. Acontece que a razão não conhece qualidades sensíveis. Isto significa que as faculdades superiores se assentam nas faculdades inferiores e as pressupõe, às vezes. Não teria jeito de se sair delas.

Até que ponto pode ser absurdo as pessoas acharem que o homem geralmente erra? Que a espécie humana é falha, que ela não consegue conhecer a realidade? Isto é um pensamento comum em certos círculos brasileiros, que está muito em moda, que é o ceticismo: que a espécie humana não é capaz de conhecer quase nada. Ora, só se medir o restante que ela não conhece. Se você conhece efetivamente tudo que ela desconhece, então, você tem uma idéia da ignorância dela. Só que, para isso, você se coloca numa posição sobre-humana.

Colocar-se, hipoteticamente, numa posição sobre-humana, só lhe permitiria emitir um juízo hipotético sobre o conhecimento humano. Ou seja, se eu fosse Deus, eu saberia tudo aquilo que a humanidade não sabe, e eu saberia como ela é ignorante. Mas, esse juízo também seria hipotético: supondo que eu fosse Deus, e eu emitisse os seguinte parecer categórico: “A humanidade nada pode conhecer”. Isso seria a negação de uma evidência, porque hipótese é hipótese. E isso quer dizer que qualquer tipo de ceticismo é absurdo! Qualquer filosofia que negue a possibilidade de se conhecer o que quer que seja é absurda, auto-contraditória, demente. A única coisa certa a dizer é “existem limites reais, efetivos e empíricos ao conhecimento humano”. Isso porque eu sei que não conheço tudo, e eu sei que a humanidade não conhece tudo. Porém, não existe nenhuma possibilidade de se fixar limites do que ela pode vir a conhecer.


Extraído de Edmund Husserl Contra o Psicologismo: preleções informais em torno de uma leitura da Introdução às Investigações Lógicas. Olavo de Carvalho, 1996.


Otto Hahn


No ano de 1945, o físico alemão Otto Hahn, inventor da fissão do átomo de urânio, encontrava-se internado num campo de concentração inglês, junto com outros eminentes cientistas. Quando, em agosto, recebeu a notícia de que Hiroshima tinha sido arrasada por uma bomba atômica, experimentou um insuportável sentimento de culpa. As suas pesquisas sobre a fissão do urânio haviam acabado por ser utilizadas para produzir um massacre terrível. Foi tão grande a sua angústia que tentou abrir as veias dos braços nos arames farpados que cercavam o campo.

Seus companheiros, porém, conseguiram dissuadi-lo, enquanto o velho professor lhes fazia, desolado, a seguinte confissão: “Acabo de perceber que a minha vida não tem mais sentido. Pesquisei pelo puro desejo de revelar a verdade das coisas, mas todo o meu conhecimento científico acaba de se converter num enorme poder assassino”.

A experiência pessoal de Otto Hahn foi, na realidade, a experiência amarga de toda uma época. Uma aflitiva impressão de fracasso invadiu os espíritos de muitos dos grandes gênios do século XX, que tanto tinham lutado por levar o conhecimento científico à máxima altura possível, convencidos de fazer com isso um grande bem à humanidade. Tinham trabalhado penosamente, com a profunda convicção de que o aumento do saber teórico e o incremento da felicidade humana eram duas coisas intrinsecamente vinculadas. Acreditavam que fomentar o conhecimento científico teria sempre um valor positivo, que significaria automaticamente a conquista de cotas mais elevadas de felicidade e de dignidade para todos os povos. Pensaram que se aprimorar a ciência humana só poderia resultar num bem geral inquestionável, que se traduziria em bem-estar e, no futuro, em perfeição para a humanidade.

Esse entusiasmo, porém, ruiu estrepitosamente com os horrores da Segunda Guerra Mundial. O temível poder destruidor das armas nucleares, os constantes bombardeios da população civil, o extermínio sistemático e inacreditavelmente cruel e racista que resultou num saldo de cinquenta milhões de mortos(!), tudo isso demonstrou, tragicamente, que o saber técnico pode resultar, sim, num amplo poder sobre a realidade, mas, por desgraça, todo esse domínio não leva automaticamente a uma maior felicidade dos homens, se aqueles que detêm esse poder não possuem uma consciência ética proporcional à sua responsabilidade.

Após séculos de obsessivo incremento do saber científico, a ideia de que o progresso humano é sempre contínuo e não pode haver retrocesso revelou-se uma tola farsa. O ideal do domínio científico como forma de humanismo desfez-se em pedaços ao entrar em colisão com a pura e simples realidade da História. Era patente que o futuro não devia caracterizar-se por essa ingênua crença no progresso como princípio motor de uma civilização, mas que era preciso alicerçá-lo em valores mais elevados e seguros.


A fé desaparecerá quando a sociedade amadurecer?


A magnífica Catedral de Notre Dame, Paris
(clique sobre a imagem para ampliar).


Num de seus livros, López Quintás conta que um dia, ao entardecer, depois de visitar a belíssima Catedral de Notre Dame, enquanto vagueava pela velha Paris, deparou-se, sem querer, com um pequeno edifício abandonado, com as suas velhas janelas cruzadas por sarrafos de madeira. Aquela construção quase em ruínas era o famoso “Templo da Nova Religião da Ciência” que o filósofo francês Augusto Comte havia erigido um século e meio antes.

O contraste foi tão brusco como expressivo. O templo com o qual se pretendera dar culto ao progresso científico estava em ruínas. A velha Catedral, pelo contrário, irradiava viçosamente sua beleza atemporal, tal como na época de sua inauguração, eras antes. A música combinava nela com a harmonia das linhas arquitetônicas, com as belas palavras dos oradores, com o magnífico esplendor litúrgico em meio ao qual, num dia de Natal, anos antes, o grande poeta ateu Paul Claudel encontrou sua conversão.

Os antigos ilustrados se erguiam com o sonho de “despojar o homem dos grilhões irracionais das crenças e conhecimentos supersticiosos baseados na autoridade e nos costumes”. O pensamento ilustrado considerava os conhecimentos religiosos como “simples e ingênuas explicações sobre a vida dadas pelo homem não-científico”. Na sua aversão à fé, uma multidão de pensadores deleitava-se em atribuir origens as mais baixas possíveis ao sentimento religioso. Viam a Deus como um simples “produto do medo das civilizações primitivas, num tempo em que esses espíritos atrasados ainda acreditavam em fábulas”. Sentiam-se chamados a “libertar toda a humanidade daquele lamentável estado de ignorância”. Acreditavam que a fé acabaria por desaparecer, à medida que a sociedade fosse amadurecendo. “A deusa Razão encostaria num canto essa ignorância, iluminaria o caminho e dirigiria com mão segura os destinos da humanidade”. Pensavam que a tendência que levava a buscar nos deuses uma razão de existir pertencia a um estágio primitivo da vida humana, destinado a dar passagem ao pensamento filosófico e, mais adiante, a ceder o lugar ao conhecimento científico, que conferiria ao homem a primazia absoluta no Universo e o situaria na maioridade.

A teoria de Comte sobre a evolução humana evoluindo através dos três estados: - religiosidade, pensamento filosófico e conhecimento científico, – gozou na sua época de grande aceitação e em sua honra foi erigido aquele templo dedicado à “Nova Religião da Ciência”. E não é curioso que a ciência adquirisse essa faceta religiosa?

Foi efetivamente um curioso fenômeno de substituição. Fascinado pela ciência, o homem elevou-a até que passasse a ocupar o lugar do sagrado. Mas não era um simples conflito entre a ciência e a fé. Com efeito, entronizar uma bonita mocinha parisiense na catedral de Notre Dame, – como fizeram durante a Revolução Francesa, – dando-lhe o título de “Deusa da Razão”, não se parecia com algo que fizesse parte das ciências experimentais. Por trás de tudo aquilo latejava o empenho ateu de proclamar a salvação da humanidade por si mesma, o advento de uma sociedade iluminada unicamente pela razão humana.

Passado um século e meio, o estado de abandono em que se encontra hoje aquele templo laico é talvez um reflexo do abandono de uma concepção: aquela ilusão segundo a qual o advento da era científica permitiria eliminar o mal do mundo, por si só. As suas hipóteses acabaram por estar mais impregnadas de ingenuidade do que a que eles atribuíam aos espiritualistas das épocas anteriores.

A história da ciência adverte: poucas teorias científicas conseguem se manter em pé, mesmo que por poucos séculos; muitas vezes, só por alguns anos, e em alguns casos, menos ainda. As afirmações ditas científicas, em sua maioria, vão sendo substituídas, uma atrás da outra, pouco a pouco, por outras explicações mais complexas e mais fundamentadas dessa mesma realidade. Hipóteses são tidas como certas durante algumas décadas, até que um dia se descobre que eram enganos. Algumas vezes são englobadas dentro de teorias mais completas. Outras, ficam obsoletas e desapareceram por completo do âmbito científico. A postura própria da ciência experimental deve ser, portanto, extremamente cautelosa em suas próprias afirmações, e são os próprios homens da ciência que dizem isso, mas infelizmente nem sempre a prática é coerente com o discurso.


“O cientista não deve pensar que possui um conhecimento certo de toda a verdade. O máximo que nós, os cientistas, podemos fazer, é chegar mais perto de um entendimento verdadeiro dos fenômenos naturais mediante a eliminação de erros em nossas hipóteses. É da maior importância para os cientistas que apareçam perante o público como o que realmente são: humildes buscadores da Verdade.

Karl Popper (1902-1994)



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