Algumas respostas - parte 2

Por que, mesmo se declarando cristão, você assume posturas não compatíveis com as de um cristão?


Para responder, seria preciso, antes de tudo, determinar o que seria exatamente uma “postura cristã”. Para mim, a essência do Cristianismo poderia ser resumida em 3 pontos principais:

# A íntima Comunhão com a Força Absoluta, Criadora, Todo-poderosa e Todo-amorosa que é a Fonte do Universo e da Vida, a que chamamos simplesmente Deus;

# A prática diária das virtudes morais e espirituais (não ficar só no estudo, na meditação e na palavra);

# Ver Deus em mim mesmo e no meu próximo, o que se reflete numa vivência em comunidade ampla, rica e amorosa. Não há prática espiritual mais perfeita ou mais valiosa.


Como se vê, tudo isso poderia ser dito de modo ainda mais resumido, no princípio mais primordial do Cristianismo: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. – O tipo de coisa que se ouve de muitas bocas, mas que (infelizmente) pouco ressoa na prática. A grande chave está em usar o tempo que você perderia para julgar os outros, se irritar com os erros dos outros e criticar os outros, fazendo a sua parte, o melhor possível. Agora.

Então, respondendo objetivamente à pergunta: entre erros e acertos eu procuro, com toda a sinceridade da alma, incorporar e praticar na minha vida, o tempo todo e a cada minuto, as bases essenciais que citei acima. - Por isso não vejo incompatibilidade entre as minhas ações neste blog e esse protótipo, esse rótulo que existe nas cabeças dos que me fazem perguntas como essa. Não me importo nem um pouco com os rótulos. Se por pensar assim não sou um cristão, então ok: não sou, e com orgulho. Não tenho nenhum problema com isso.




Se você encontrou a sua religião, porque continua falando em 'busca'? Você já não achou o que procurava?

Essa é uma boa pergunta, eu diria. Eu encontrei uma religião que satisfez os meus anseios e me trouxe respostas e confirmações mais que importantes, como já andei contando por aqui. E também já falei, muitas e muitas (e muitas) vezes, mas nunca é demais repetir que eu não acho que nenhuma religião seja a única válida ou a única que ‘salva’. Eu pratico uma religião dentro da qual pude realizar e exercer, como nunca antes, tudo que existia de melhor em mim. Dessa forma pude vivenciar uma Comunhão com Deus de maneiras que seriam inimagináveis quando eu vivia como um 'errante', entre as muitas tradições. Eu pude sentir que a minha humanidade foi 'divinizada' em algum sentido, e esta é a maior, mais transformadora e mais tremenda experiência que um ser humano pode viver, - variando de um indivíduo para outro, segundo me diz a experiência, apenas em nível de intensidade, conforme seu grau da entrega.

Em minha existência, hoje, tudo está diferente, melhor, tudo foi transformado, uma etapa inicial da busca foi ultrapassada e tudo ficou mais fácil na minha vida. Minhas orações são atendidas, alcancei uma paz serena (com a qual antes não poderia sequer sonhar) que permanece comigo todos os dias. Um ponto importante é que essa paz e essa centralidade me fazem respeitar e conviver muito bem e tranquilamente com os que pensam diferente, os que tiveram outras histórias de vida e exercem a sua espiritualidade de outras formas.

Ainda falo em 'busca' porque, no meu entender, a vida do(a) homem/mulher é uma busca eterna. Quando você para, vem a estagnação. Eu encontrei o Caminho, mas estar a caminho não é o mesmo que 'sentar em cima' das minhas próprias certezas e achar que não há mais nada para aperfeiçoar em mim... O espírito humano precisa ser constantemente dilapidado, daí a importância da auto-vigilância. - Vigiar e orar, sempre. - Vejo pessoas tentando enfiar suas próprias verdades nas cabeças alheias, na marra, porque acham que já encontraram todas as respostas, já alcançaram tudo que havia para ser alcançado e agora são pequenos 'salvadores' para os pobres pecadores, são como mestres de perfeição. Quanto a mim, quanto mais aprendo, mais percebo que ainda há mais a aprender. Isso mantém o meu ego no lugar, mas também é muito estimulante! Como é bom descobrir coisas novas! Esta é a grande aventura do Conhecimento.


Como alguém que escreve um blog sobre busca espiritual e fala de todas as religiões pode ter uma só religião? Isso não é incoerente?

A melhor pergunta para o final. E eu preciso me controlar para não dar apenas a resposta mais sucinta e clara possível: Não.

Concordo que fazer parte de uma comunidade religiosa pode provocar a limitação da visão geral das coisas. - Em algumas mentes. - Mas é um erro generalizar, porque ocorrer ou não esse efeito depende muito mais do indivíduo do que da religião que ele pratica. A História nos trouxe padres cientistas, santos filósofos, líderes religiosos importantes (de tradições absolutistas) que trouxeram grandes avanços para o ecumenismo e a tolerância religiosa no mundo... Então, no fim, tudo depende do indivíduo, da consciência individual de cada um, da abertura da sua consciência. Tudo depende do quanto você é capaz de manter a atenção no que está fora tanto quanto no que está dentro, e do quanto é realmente capaz de compreender que as diferenças podem ser apenas aparentes. Aprimorar a visão para a percepção dessas realidades é como ajustar a sintonia fina de um aparelho de TV, só que infinitamente mais complexo e mais delicado. Leva tempo, é trabalhoso e exige dedicação e profunda atenção. É uma grande arte.

Pergunta: Como eu posso praticar uma religião? Resposta: Existe mesmo alguém que não tenha religião? Tem certeza?

Hoje sabemos que, no sentido mais puro da palavra, isso é impossível, e os místicos já o haviam entendido bem antes de a antropologia descobrir que, além de racional, psíquico, social, político e inacabado, o homem é um ser religioso. Se formos fundo na questão, perceberemos que negar as formas religiosas é apenas mais uma forma religiosa. - Da mesma forma que dizer que "tudo é Deus e Deus é tudo" é adotar o princípio essencial de uma religião específica bem definida, denominada panteísmo (do grego pân, pantóspan = tudo + teísmo = Deus); uma doutrina segundo a qual só Deus é real e o mundo é um conjunto de manifestações ou emanações suas. Atenção: não estou colocando em discussão a validade ou não dessa forma religiosa, estou apenas demonstrando o óbvio: que crer nisso também é adotar um forma religiosa específica.

Muitos são os que buscam assumir uma postura definitivamente arreligiosa, isto é, uma espiritualidade própria, sem seguir religião alguma, porque crêem que a religião limita. Mas se você parar e refletir vai perceber que essa atitude é tão limitante quanto qualquer outra, em tudo que se refere à religião. Sim, pode ser que para você seja melhor, mesmo acreditando em Deus, não frequentar nenhum templo, não fazer parte de nenhuma comunidade religiosa, procurando integrar elementos de diversas tradições na sua vida. Ok, uma opção particular que deve ser respeitada. Mas entenda que isso é só mais uma forma de religião, se compreendemos que religião é religação, reconexão. E uma religião é tão limitante quanto qualquer outra, - e tão limitante quanto negar a religião. - Dizer que Deus está em tudo é tão limitante quanto dizer que Ele vive num templo, que é propriedade exclusiva de uma comunidade 'escolhida' ou que pode ser encontrado somente numa única tradição. E tão inútil quanto.


Abraço você, querido irmão na busca, que me acompanhou até este ponto. Por favor me perdoe por ser limitado e não saber me expressar como gostaria. Amo todos vocês tão profundamente que não posso definir em palavras. Vocês, meus semelhantes, meus irmãos, são a razão final da existência deste espaço. Esse Deus de que tanto falo, eu o vejo e encontro em vocês. Tudo o que espero é que sejam felizes, e que um dia possamos nos reencontrar e voltarmos a ser, efetivamente, UM.



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