O Dhammapada - conversando com Buda 2



Capítulo II

Appamada Vagga
[1]

"Vigilância"


1. A vigilância é o caminho daquele que se livra da morte. O descuido é o caminho da morte. O vigilante não morre, mas os descuidados são como os que já estão mortos.

2. Distintamente compreendendo essa diferença, os sábios concentrados na vigilância se alegram, cheios de cuidados, seguem felizes nos caminhos dos nobres (árias).

3. O que medita constantemente[2], é perseverante e, sem nunca se cansar, persevera no Caminho, alcança por fim a realização do Nirvana, a suprema paz sem ligaduras[3].

4. A glória daquele que é enérgico, concentrado, puro em sua conduta, reflexivo, vigilante e atento, aos poucos e sempre aumenta.

5. Pelo esforço, reflexão, vigilância e autocontrole, o sábio se tornará uma ilha que inundação alguma destruirá.

6. Os ignorantes da Verdade e os tolos se permitem o descuido, mas os sábios guardam a vigilância, - a plena atenção, - como o maior dos tesouros.

7. Não te permitas descuidar, não tenhas intimidade com os deleites sensuais. Somente na vigilância e na plena atenção pode ser encontrada a verdadeira e suprema Alegria.

8. Quando, pela vigilância, o homem deixa de ser negligente e descuidado, ele eleva às alturas da Sabedoria e se liberta do sofrimento. Então ele pode observar com serenidade a multidão sofredora, como um escalador das montanhas que vê, somente ele, do alto, as divisas da planície.

9. Vigilante entre os desatentos, desperto entre os indolentes, o sábio avança rápido como um corcel veloz que deixa atrás de si um pobre e fraco pangaré.

10. Graças à vigilância, Indra conquistou o posto mais alto entre os deuses[4]. A vigilância é sempre admirada, mas a negligência é para sempre desprezada.

11. O monge (bhikkhu) que se alegra na vigilância e olha com temor os descuidados avança como o fogo, queimando todo tipo de ligaduras, as maiores e as menores.

12. O que se alegra na vigilância e teme a negligência não pode se perder no Caminho: está próximo do Nirvana.


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Notas:

1.
Appamada, a sinceridade em fazer algo bom. A essência ética do budismo pode ser resumida com esta palavra. As últimas palavras do Buda histórico (Sidarta Guatama- Sakiamuni) foram: "Appamada sampadetha", isto é: "Sejam vigilantes, lutem com diligência".

2.
A meditação aqui referida é uma prática específica que inclui o termo samatha, que significa concentração, e também o termo vipassana, que quer dizer contemplação ou penetração no objeto da meditação.

3.
Sannojanam ou samyojana: são as dez ligaduras ou obstáculos que prendem os seres à roda da existência material. São dez os tipos de ligaduras: 1) autoilusão; 2) dúvidas; 3) indulgência em rituais equivocados; 4) desejos dos sentidos; 5) ódio; 6) apego às reino das coisas deste mundo; 7) apego ao reino das não-formas (como o imaginamos); 8) convencimento; 9) desassossego, 10) ignorância.

4. Antes de se tornar um renunciante, o Buda histórico foi um príncipe hindu da casta sakia, criado e educado na tradição hindu, que viveu toda a sua vida como peregrino na Índia. Ocasionalmente faz uso de termos alusivos às crenças hinduístas. - O Buda não afirma nem nega a existência de Deus ou dos deuses (aspectos de Deus) hindus, mas às vezes faz uso dos temas da mitologia hindu em suas explanações.


Fontes e Bibliografia:

SILVA, Georges da. Dhammapada Atthaka, 4ª edição. São Paulo: Ed. Pensamento, 1989;

FRONSDAL, Gil. The Dhammapada: A New Translation of the Buddhist Classic with Annotations‎, Boston: Shambhala Publications, 2006.



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