Auto-observação e vigilância

Este post demorou um pouco a ser publicado, mas eu comecei a escrevê-lo no mesmo dia da última postagem sobre o Dhammapada. Quando terminar a leitura, você vai entender os porquês...




É impossível se acostumar com algumas coisas, ou melhor, é impossível um buscador sincero deixar de se maravilhar com certas coisas.

Na manhã do dia 22 de Abril eu fiz uma meditação curta, sozinho, no quintal da minha casa, antes de começar a trabalhar. Durante a prática, algumas vezes abri meus olhos e elevei o olhar. Era um dia nublado, mas num determinado instante eu pude ver uma abertura se formando entre as nuvens, o azul do céu surgindo por trás do cinza e um raio de luz solar muito sutil que descia para a terra, como se fosse uma espécie de escada para o Paraíso a se oferecer. Ao mesmo tempo, o movimento de tudo a minha volta pareceu acelerar: os pássaros passavam voando muito rapidamente, de um jeito quase anormal. Uma mariposa passou ao meu lado, e parecia estar voando em câmera acelerada. A copa da pequena árvore do jardim se movia com o vento, mas muito rápido, com movimentos que me pareceram beirar o sobrenatural. Olhando de novo para o céu, os movimentos das nuvens eram como uma alegre dança em honra à Natureza. Mas não me lembrava de ter visto nuvens se moverem assim, a não ser em filmes.

E eu me senti como se não pudesse mover meu corpo. - Eu não queria me mexer, e não tentei fazê-lo, mas por alguns instantes tive a sensação de estar 'congelado'. Achava que não seria capaz de me mover, mesmo que quisesse; ao menos não normalmente: era como se eu estivesse criando raízes, conectado à terra, ao mundo e tudo que nele há.

E percebi que o mundo não estava realmente mais rápido; então supus que eu é que devia estar mais lento: respirando lentamente, me movendo lentamente, sendo mais lentamente do que de costume. Isso foi uma sensação maravilhosa e indescritível, pois assim podia apreciar meus próprios pensamentos como se não fossem meus. Pude me 'desidentificar' de mim mesmo e me vigiar como quem assiste a um filme na TV ou coisa do gênero. Não sei porque, mas viver aquela experiência foi como receber uma injeção de Amor divino, concentrada, diretamente na alma...

Quando encerrei a prática, voltei a pensar no tempo, imaginando o quanto poderia ter permanecido ali sentado, porque tinha muito a fazer naquele dia, e temi não dar conta de todas as tarefas assumidas. Mas olhei no relógio e vi que estivera 'desligado do mundo' por apenas uns vinte minutos. Estava tão relaxado e tranquilo que precisei de mais alguns minutos para voltar ao mundo das responsabilidades... E imaginei como seria bom se não fosse preciso 'voltar'. - Será que é mesmo preciso? Bem, falar sobre isso agora seria um outro mergulho, e o que importa dizer neste momento é que, naqueles preciosos instantes, me aconteceu uma iluminação repentina.




Minha mente e minha consciência começavam a voltar, lentamente, para o mundo das coisas temporárias, egoístas e mesquinhas; - para o medo dos 'fracassos' e para as cobiças de 'sucessos' deste mundo. Minha 'sanidade' humana começava a retornar, as peças do quebra-cabeças da minha vida comum e mediana começavam a retomar, lentamente, seus devidos lugares. Nesse exato intante, quando a luz que me fazia esquecer das misérias humanas começava a perder intensidade, dentro de mim, cedendo lugar às costumeiras densidades e sombras da monotonia dos receios, eu pensei: "Por quê? Por quê não pode ser sempre assim? Por que tenho que voltar a ser fraco depois de ter conhecido tamanha glória? Por que sempre volto para as trevas depois de caminhar na luz??"

E logo depois de formuladas as perguntas, - porque é preciso que as perguntas sejam feitas, - a resposta estalou como um relâmpago no mais profundo do meu entendimento: meu ser e minha consciência foram assaltados por uma certeza perfeita e súbita, de um modo totalmente incomum, maravilhoso, e eu entendi:

"Só é preciso manter a consciência atenta, alerta, vigilante... Mesmo diante do maior de todos os tesouros, mesmo diante da Beleza que excede a todo o entendimento, o homem comum desvia sua atenção. Se eu me vigiar, vou alcançar a libertação definitiva que procuro. Vigiar sem cessar é preciso."


Essas palavras me vieram como se um anjo as soprasse aos meus ouvidos. Mas não foi como ouvir um ensinamento precioso, porque as vezes ouvimos coisas divinas e não entendemos. Estas coisas, porém, eu entendi, de um modo tão perfeito e inapelável que pude apenas sorrir. Entrei num estado de êxtase que durou todo o dia, e, ah! Como eu queria poder dividir tal maravilhoso entendimento com outras pessoas, que eu sei que sofrem por não entender...

Aquelas suas fraquezas, aqueles seus medos, as angústias que o(a) perturbam, irritam, fazem perder a calma? Elas só existem porque você presta atenção nelas. Preste atenção ao que realmente importa, - DEUS, - e todas essas limitações desaparecerão. Observe-se, vigie-se, perscrute suas profundezas, e você se entenderá. Saia do automático. Quando algum comportamento reativo, automático, se manifestar, quando alguma daquelas suas reações instantâneas, que o(a) leva a fazer o que sempre faz, e chegar aos mesmos resultados indesejáveis a que sempre chega, e se arrepender depois, como sempre se arrepende... Pare, resista e observe-se. Entenda porque está agindo assim, e então... Mude! Faça diferente! Etendendo-se a si mesmo, a Verdade aparecerá. E a Verdade liberta.

Nesse mesmo dia, sentei ao computador para escrever o próximo post do a Arte das artes, e resolvi que seria o capítulo seguinte do Dhammapada, que eu não me lembrava qual era. Abri o livro e dei de cara com o título: 'VIGILÂNCIA'.

"A vigilância é o caminho daquele que se livra da morte. O descuido é o caminho da morte. O vigilante não morre, mas os descuidados são como os que já estão mortos. Somente na vigilância e na plena atenção pode ser encontrada a verdadeira e suprema Alegria."

"Quando, pela vigilância, o homem deixa de ser negligente e descuidado, ele se eleva às alturas da Sabedoria e se liberta do sofrimento. Então ele pode observar com serenidade a multidão sofredora, como um escalador das montanhas que vê, somente ele, do alto, as divisas da planície."

"Vigilante entre os desatentos, desperto entre os indolentes, o sábio avança rápido como um corcel veloz que deixa atrás de si um pobre e fraco pangaré."


Dhammapada - capítulo 2


Nunca havia entendido tão bem estes versos! Jamais havia lido estes princípios de modo tão perfeito, e nunca havia compreendido o seu real sentido, até aquele dia!

Mas as revelações do meu dia ainda não tinham acabado. Eu tenho um pequeno calendário muito especial em minha casa, com preceitos bíblicos diários para meditação. - Logo depois de escrever e publicar o post sobre o Dhammapada, que falava exatamente a mesma coisa que eu havia descoberto durante a minha meditação, não sei porquê, minha atenção se voltou para esse calendário, que fica num móvel ao lado mas um pouco distante do lugar onde me sento para escrever. E vi que Hana, nesse dia, não tinha virado a página para o dia 22 nesse dia. Ela faz isso todas as manhãs, infalivelmente, mas não o fez naquele dia. Por quê? Sentado à escrivaninha, podia ver o número do dia, - 21, - mas não conseguia enxergar o preceito do dia, escrito em letra pequena. Me levantei para virar a página para o dia certo, - 22, - mas estava curioso para ler o preceito do dia 21, que não tinha sido virado. Me aproximei, e lá estava:

"Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.
O espírito está pronto, mas a carne é fraca."

Mc 14,38


Todo esse meu dia foi luz ininterrupta e sem sombras. E nos dias seguintes, a luz permaneceu, mas devido ao trabalho, acabei não entrando neste blog para acompanhar os novos comentários. Por isso demorei um pouco para saber que, apenas um dia depois da postagem, meu nobre amigo Daniel, aquele mesmo, tinha deixado a seguinte mensagem (grifos meus):

"Toda vez que nos distraímos, nos desconectamos da nossa essência e é como se morrêssemos. Todas as vezes que voltamos ao centro da nossa consciência é como um renascimento. Aquele que se mantém alerta, consciente, desperto, livra-se desses ciclos de morte e renascimento. Todo o tempo que passamos no automatismo, descuidados, é desperdício do tempo e da energia de Deus. Como estando diante do maior e mais belo tesouro do mundo, o homem ainda consegue desviar sua atenção? Grande parte da humanidade atribui valor ao que não tem valor algum e despreza o verdadeiro tesouro.

Aquele que vigia sem cessar vive num estado de entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta.

Deus não quer nossa atenção somente aos sábados, nas missas dominicais ou em nossos momentos de oração e meditação. Ele nos quer plenamente e todo o tempo. Tudo que acontece enquanto você não está centrando suas ações e pensamentos em Deus é distração, ilusão, pura perda de tempo, é 'não vida'. Só há Vida em Deus.

Henrique, meu nobre amigo. Enquanto eu meditava hoje, sua imagem me veio à mente, na verdade eu senti sua presença... e isso me alegrou muito. Resolvi deixar uma mensagem, daquelas que nos lembram das coisas que já sabemos, para que você tenha certeza que continuo sempre por aqui e que sou muito grato por toda luz que o Artes trouxe e traz para minha vida. E amo especialmente cada um daqueles que vitalizam esse espaço.



O que mais há para se dizer depois disso? Talvez apenas ALELUIA! AMEM.




Dedicado ao amigo/irmão Daniel. Aquele.



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