O Dhammapada

Quando comecei a escrever este blog, eu já tinha uma perfeita idéia do que eu queria, e sabia exatamente aonde esperava chegar com ele. E, graças a Deus, as minhas expectativas se confirmaram. Mas quando comecei a abordar a história das religiões por aqui, eu achava que a internet não seria um ambiente ideal para aprofundar demais os temas. Me diziam que blog é "coisa de jovem", que seria preciso usar de uma linguagem ágil e rápida, que este não seria um espaço para tratados acadêmicos. Com o passar do tempo, porém, e com o retorno que tive e continuo tendo com este humilde blog, descobri que um espaço na internet é como qualquer outro meio de comunicação: ele será o que você fizer dele. Digo isso porque, nas minhas abordagens iniciais sobre as religiões, acabei deixando alguns tópicos de lado, tentando postar artigos que fossem os mais breves possíveis. Nunca fui superficial neste blog, mas ultimamente tenho aperfeiçoado as minhas postagens, aprimorado a pesquisa e acrescentado fontes bibliográficas de acordo com as normas padrão. - Essa atitude vai implicar na revisitação e/ou ampliação de alguns assuntos já estudados. O primeiro destes é o budismo. Achava antes que não seria viável um estudo mais aprofundado dos textos sagrados budistas, pelas razões expostas acima. Eu estava errado.


Pronto para bater um papo com Buda?

Dhammapada é o mais sagrado livro para os budistas. E é também a mais famosa e mais publicada obra sobre budismo em todo o mundo, pois é atribuído diretamente ao Buda. É formado por 423 versos ditados pelo próprio Sidarta Gautama Sakiamuni, distribuídos em 26 capítulos.

Cada capítulo do Dhammapada é uma unidade em si, e em cada um deles aprendemos mais sobre o que 'O Desperto' (Buda) tem a dizer e sobre o seu entendimento da vida. Mas esse livro não deixa de ser, também, uma obra de poesia e sensibilidade.

Reverenciado e presente em todas as escolas budistas, no Sri Lanka os meninos aprendem a decorá-lo a partir dos 8 anos de idade(!): ‘Dhammapada’ significa, literalmente, ‘Caminho da Verdade’. - Existem outros sinônimos possíveis, como ‘Caminho da Purificação’ e ‘Caminho da Perfeição’. - Trata-se de uma antologia escrita em páli (língua derivada do sânscrito, usada pelo Buda em seus discursos), o mesmo idioma em que foram escritos os cânones budistas da escola Theravada, considerada pelos especialistas como a mais fiel aos ensinamentos de Buda. Segue uma brevíssima história da Tradição Budista Theravada:

O buddhismo Theravada é a maior escola budista existente, sendo praticada predominantemente no Sri Lanka, Thailândia, Myanmar (Birmânia), Laos e Cambodja e com expressiva presença em países como o Vietnam, Malásia, Estados Unidos e Inglaterra. O Theravada atribui sua origem aos ensinamentos diretos do próprio Buda, e é a única das escolas antigas que permanece até hoje, e com um corpo canônico integral.

Por volta de 380 aC., cerca de 100 anos após a morte do Buddha, deu-se a primeira divisão da Sangha (comunidade monástica) budista, e partir daí surgiram dois grandes blocos: o Sthaviravada e o Mahasanghika. Nas décadas subseqüentes esses dois grupos iriam também se subdividir, até se formarem por volta de 18 escolas.

Por volta de 280 aC. aconteceu o Terceiro Concílio Budista, exclusivo do ramo Sthaviravada, onde o grupo Sarvastivada se isolou, o que definiu a doutrina Sthaviravada como visão ortodoxa do budismo, isto é, aquela que segue fielmente a doutrina do Buda histórico. Ashoka, o grande imperador que unificou a Índia, enviou emissários para difundir o budismo aos quatro cantos do mundo (existem indícios de missionários budistas até mesmo na Grécia e no Egito!) e uma dessas correntes missionárias chegou ao Sri Lanka, encabeçada pelo próprio filho de Ashoka, o Arahant Mahinda. Lá, o Sthaviravada assumiu o nome páli Theravada. Utilizando-se do dialeto indiano páli, que significa 'texto das escrituras', o Theravada, então, expandiu-se para vários outros países.

Na escola do budismo Theravada aprende-se o modo direto e completo dos ensinamentos originais do Buda, a meditação budista samatha e vipassana. Das escolas budistas antigas, a do budismo theravada é a única que existe até os dias de hoje. É o budismo praticado na tailândia, sri lanka (ceilão), birmânia (myanmar), laos e camboja.





Os livros originais do budismo, que constituem o cânone budista, são chamados ‘Corbelhas’, ou ‘Coleções de Leis’, - Pitakas, - e são três, daí o nome ‘Tipitaka’, que quer dizer ‘Três Coleções de Leis’. Essas três coleções são:

O Vinaygua-Pitaka, que trata da disciplina monástica,
O Sutta-Pitaka, que trata da doutrina,
O Abidhamma-Pitaka, que trata da parte especulativa da doutrina, ou seja a metafísica.


Mas o Dhammapada é o livro que contém em si mesmo o extrato da doutrina e da ética budistas, por essa razão é a obra recomendada aos que desejam obter conhecimentos ao mesmo tempo iniciais e aprofundados sobre os ensinamentos budistas. É um verdadeiro testamento espiritual do Buda, e os monges e praticantes o consideram como um guia de vida, um amigo de todas as horas. Dizem que, para os que procuram a Verdade, o Dhammapada é como um conselheiro sempre próximo.

O Dhammapada é universal. Nele podemos encontrar o fio condutor dos ensinamentos morais que norteiam o budismo, a maior parte com o foco centrado na autotransformação do indivíduo, e muita coisa pode ser descoberta a partir de uma análise aprofundada dos seus versos. Existem diversas versões publicadas na forma de livros, que podem ser encontradas nas boas livrarias, mas aqui, no a Arte das artes, você vai conhecer o Dhammapada, a partir de agora. De graça!



A seguir: conversando com Buda.



Fontes e Bibliografia:
SILVA, Georges da. Dhammapada Atthaka, 4ª edição. São Paulo: Ed. Pensamento , 1989;
Portal da Comunidade Buddhista Nalanda/Seção Buddhismo Theravada, 2009: em http:http://nalanda.org.br/sobre/theravada.php, acesso em 09/03/2009.