O Dhammapada: conversando com Buda

A exemplo do que acontece com os Evangelhos, os textos do Dhammapada terão que ser postados em doses homeopáticas, em pequenas partes. Se não for assim, a reflexão profunda poderá ser perdida. E as reflexões que essa leitura possibilitam são muito profundas, se você se concentrar. Segue o primeiro capítulo dos versos ditados por Sidarta Gautama - Sakiamuni, o Buda histórico. Boa meditação.




NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMA SAMBUDDHASSA

"Homenagem ao exaltado, o digno, o plenamente iluminado"


Capítulo I

Yamaka Vagga

"Os Versos Duplos"
ou
"Caminhos Opostos"


1. A mente é o precursor de todos os maus estados. A mente é o chefe; todos os estados são confeccionados pela mente. A aquele que fala e age a partir de uma mente má, por causa disso, o sofrimento seguirá, assim como a roda segue a pata do boi que puxa a carroça.

2. A mente é precursor de todos os bons estados. A mente é o chefe; todos os estados são confeccionados pela mente. A aquele que fala e age com uma mente pura, por causa disso, a felicidade seguirá, assim como a sombra que nunca a abandona.

3. “Ele(a) me fez mal, ele(a) me bateu, ele(a) me derrotou, ele(a) me roubou...” – Naqueles que dão guarida a tais pensamentos, o ódio não é apaziguado.

4. “Ele(a) me fez mal, ele(a) me bateu, ele(a) me derrotou, ele(a) me roubou...” - Naqueles que não dão guarida a tais pensamentos, o ódio é apaziguado.

5. Ódios nunca cessam pelo ódio neste mundo; somente através do que é oposto ao ódio eles cessam. Essa é uma lei eterna.

6. Os outros não sabem que nessa luta morremos; aqueles que o percebem têm, por isso, suas lutas acalmadas.

7. Aquele que vive somente contemplando as coisas agradáveis aos sentidos, ocioso, descontrolado nos emoções e nos sentidos, imoderado na comida, indolente, inativo, esse verdadeiramente é derrubado por Mara[1], assim como o vento derruba uma pequena árvore.

8. Aquele que contempla as coisas desagradáveis aos sentidos, bem disposto, com as emoções e os sentidos regulados, moderado na comida, cheio de fé e de energia sustentada, esse Mara não derruba, como o vento não derruba uma montanha de pedra.

9. Quem quer que, cheio de máculas, sem autocontrole e Verdade, envergue o manto amarelo[2], não é digno dele.

10. Aquele que foi livrado de toda mácula, vive fundamentado em moral e foi agraciado com autocontrole e Verdade, esse é de fato digno do manto amarelo.

11. No que não é essencial muitos imaginam o essencial, e no essencial muitos veem o não-essencial. Aqueles que, dentro de si mesmos, dão guarida a tais pensamentos errados, nunca realizam a Verdade.

12. Mas os que veem o verdadeiramente essencial como essencial e o que não é essencial como não-essencial, - aqueles que dão guarida a tais pensamentos corretos realizam a essência.


13. Assim como a chuva penetra numa casa que tenha furos no telhado, assim também a cobiça penetra uma mente não-cultivada.

14. Assim como a chuva não penetra uma casa que tem um telhado bem coberto, assim também a cobiça não penetra a mente cultivada.

15. Aquele que aqui se lamenta, no além se lamenta. Em ambos os estados, aquele que faz o mal se lamenta. Ele se lamenta e se entristece, pois percebe a impureza das próprias ações.

16. Aquele que aqui se alegra, no além se alegra. Em ambos os estados, aquele que faz o bem se alegra. Ele se alegra, e muito, percebendo a pureza das próprias ações.

17. Aquele que aqui sofre, no além sofre. Em ambos os estados aquele que faz o mal sofre. Pensando no mal que fez ele sofre. Além disso, sofre por ter se colocado num estado de sofrimento e dores.

18. Aquele que aqui é feliz, no além é feliz. Em ambos os estados aquele que faz o bem é feliz. Pensa no bem que fez e é feliz. Além disso, ele é feliz por ter se colocado num estado de felicidade e paz.

19. Mesmo falando e recitando muito os textos sagrados, aquele que não age de acordo com eles é insensato: é como o cuidador de gado que confunde seus bois com os de seus vizinhos. Ele não partilha os frutos de uma vida pura e sagrada.

20. Falar e recitar menos os textos sagrados, mas praticá-los, libertando-se da cobiça, da ira e de toda ilusão, com verdadeira sabedoria, com a mente livre dos vínculos deste mundo: este homem verdadeiramente participa da vida pura e sagrada.


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Notas:

1. Mara é o demônio tentador e pai das ilusões, representadas no budismo na forma de suas três filhas: Volúpia, Cobiça e Inquietude. De acordo com o budismo, Mara luta constantemente com o homem, tentando impedir que alcance o Nirvana. No ocidente, não sem razão, Mara é constantemente associado ao Satanás hebreu: ambos são chamados de 'pai da mentira', ambos são tentadores e inimigos da humanidade e ambos tentam afastar o ser humano do Caminho da Verdade.

2. Manto amarelo se refere ao manto tingido usado pelos monges renunciantes, símbolo externo da renúncia, pobreza e humildade. A idéia inicial de tingir os mantos dos monges de amarelo era torná-los sem valor.




Fontes e Bibliografia:

SILVA, Georges da. Dhammapada Atthaka, 4ª edição. São Paulo: Ed. Pensamento, 1989;

FRONSDAL, Gil. The Dhammapada: A New Translation of the Buddhist Classic with Annotations‎, Boston: Shambhala Publications, 2006.




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