Joseph Campbell, o sacrifício e a unidade

O multifacetado Joseph Campbell


Joseph Campbell nasceu e cresceu em White Plains, Nova York, numa família católica de classe média-alta. Quando criança, ficou fascinado pela cultura ameríndia, depois que seu pai o levou para conhecer as coleções do Museu de História Natural de NY, onde ele viu um quadro com as coleções de artefatos de nativos americanos. Acabou por dedicar sua vida ao estudo dos mitos e ao mapeamento das semelhanças que aparentemente existiam entre as mitologias das mais diversas culturas humanas. Chegou a estudar biologia e matemática, mas acabou se decidindo definitivamente pelos estudos nas áreas humanas. Transferiu-se para a Universidade de Columbia, onde completou sua graduação em literatura inglesa em 1925 e o mestrado em Literatura medieval em 1927.

Uma de suas grandes contribuições foi associar a recorrência de mitos semelhantes nas mais diversas tradições, traçando assim o que chamou 'Caminho do Herói': descobriu que muito antes dos cavaleiros medievais se encarregarem de matar dragões no imaginário popular, os contos de aventuras heróicas já faziam parte de todas as culturas mundiais. Campbell lançou então um desafio: vermos a jornada heróica em nossas próprias vidas, cada um de nós.

Joseph Campbell compara a história da criação do Gênesis com as diversas histórias de criação das múltiplas culturas ao redor do mundo. Percebeu que, por causa das constantes mudanças que acontecem na história do mundo, a religião vai sendo transformada, e novas mitologias são criadas. Chegou à conclusão de que, hoje em dia, as pessoas continuam se apegando aos mitos, mesmo que não estes não lhes tenham mais serventia.

Campbell trouxe também à discussão o papel do sacrifício no mito, que representa a necessidade do renascimento simbólico e da renovação. Ele enfatizou a necessidade de cada um encontrar o seu 'lugar sagrado' neste mundo tecnológico e acelerado. - Esse grande pensador proporcionou ao mundo novas e interessantes visões sobre conceitos como Deus, religião e eternidade, e como foram revelados nos ensinamentos das religiões e nas crenças, além de se aprofundar no estudo de Schopenhauer e Jung, entre outros.

Seu exaustivo trabalho de quatro volumes, intitulado As Máscaras de Deus, trata da mitologia através do mundo, desde a antiguidade até os tempos atuais, focando as variações históricas e culturais do monomito, com bases antropológicas e históricas. Já a obra O Herói de Mil Faces foca as idéias elementares da mitologia, baseando-se principalmente na psicologia.

Em outras postagens, eu andei citando Joseph Campbell por aqui, e nem teria como ser diferente. Agora estou postando um trecho de uma famosa entrevista que ele concedeu ao jornalista Bill Moyers. Enjoy now!




Campbell: Há um magnífico ensaio de Schopenhauer em que ele pergunta como um ser humano pode participar tão intensamente do perigo ou da dor que aflige o outro a ponto de, sem pensar, espontaneamente, chegar a sacrificar a própria vida por esse outro. Como pode acontecer a brusca anulação daquilo que normalmente concebemos como a primeira lei da natureza, a autopreservação?

No Havaí, há cerca de quatro ou cinco anos, deu-se um evento extraordinário que ilustra bem a questão. Há um lugar lá chamado Pali, onde os ventos do norte passam rápidos através de uma grande cadeia de montanhas. As pessoas gostam de ir lá em cima, para ver seus cabelos agitados ou, às vezes, para cometer suicídio -– você sabe, algo como saltar da Golden Gate Bridge.

Um dia, dois policiais dirigiam pela estrada de Pali quando viram, encostado à amurada que protege os carros do perigo do despenhadeiro, um jovem que se preparava para saltar. O carro de polícia parou e o policial à direita pulou para agarrar o jovem; mas o fez no instante em que este saltava, e acabou sendo carregado pelo outro; o segundo policial chegou a tempo de puxar os dois.

Você se dá conta do que subitamente aconteceu àquele policial que quase morreu junto com o jovem desconhecido? Tudo o mais em sua vida foi esquecido -– seus deveres para com a família, seus deveres para com o trabalho, seus deveres para com sua própria vida –- todos os seus desejos e esperanças em relação à vida simplesmente tinham desaparecido. Ele estava a ponto de morrer.

Mais tarde, um repórter lhe perguntou: “Por que você não o deixou cair? Você teria morrido com ele”. Sua resposta foi: “Não podia. Se tivesse deixado aquele jovem cair, não poderia viver nem mais um dia da minha vida”. Como é possível?

A resposta de Schopenhauer é que tal crise psicológica representa a abertura para a consciência metafísica de que você e o outro são um, de que você é um dos aspectos de uma só vida, e que a sua aparente separação é apenas resultado do modo como vivenciamos as formas, sob as limitações de tempo e espaço. Nossa verdadeira realidade reside em nossa identidade e unidade com a vida total. Esta é uma verdade metafísica, que pode surgir espontaneamente em circunstâncias de crise. Pois esta é, de acordo com Schopenhauer, a verdade da sua vida.

O herói é aquele que deu sua vida física em troca de alguma espécie de realização dessa verdade. A idéia de amar seu próximo é pôr você em sintonia com esse fato. Mas, quer ame ou não o seu próximo, quando a realização o pega, você pode arriscar a própria vida. Aquele policial havaiano não sabia quem era o jovem a quem ele tinha oferecido a própria vida. Schopenhauer declara que, em proporções reduzidas, você vê isso acontecer todos os dias, o tempo todo, movendo a vida na terra -– pessoas tendo gestos desprendidos em relação a outras pessoas.


Moyers: Então, quando Jesus diz “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, ele na verdade está dizendo: “Ama o teu próximo porque ele é tu mesmo”.


Campbell: Há uma bela figura na tradição oriental, o bodhisattva, cuja natureza é a compaixão ilimitada e de cujos dedos diz se que escorre ambrosia até as profundezas do inferno.


Moyers: Qual é o significado disso?


Campbell: No final da Divina Comédia, Dante se dá conta de que o amor de Deus impregna todo o universo, até as mais fundas cavernas do inferno. É aproximadamente a mesma imagem. O bodhisattva representa o princípio da compaixão, o princípio curativo que torna a vida possível. A vida é dor, mas a compaixão é que lhe dá a possibilidade de continuar. O bodhisattva é aquele que atingiu a consciência da imortalidade, por meio da sua participação voluntária no sofrimento do mundo. Participação voluntária no mundo é muito diferente de apenas ter nascido nele. Este é exatamente o tema da declaração de Paulo sobre Cristo em sua Epístola aos Filipenses, segundo a qual Jesus “não pensou na condição divina como algo a ser conservado, mas tomou a forma de um servo aqui na terra, para morrer na cruz”. É uma participação voluntária na fragmentação da vida.


l l l


Este pequeno 'aperitivo' dá uma idéia do muito que há para ser dito a respeito do trabalho de Joseph Campbell. É mais uma promessa de postagem que fica...



Fonte:
As informações a respeito da biografia de Joseph Campbell são do portal oficial da
Fundação Joseph Campbell.



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários