Em busca da Libertação Final - 2

Constestações religiosas e racionais


O que é religião? Certo, todo mundo já sabe que a etimologia mais aceita é a do latim religare (religar), mas outras versões indicam que poderia derivar do latim relegere (ler de novo / colher de novo) ou ainda do verbo grego alegeyn ('eligião': venerar). Mas descobrir a origem real da palavra não faria diferença, já que todas as alternativas apresentam a ideia de dois termos que se religam, ou uma realidade final que volta a se unir a uma realidade inicial. - O significado da palavra religião só me parece interessante porque faz perceber que há uma realidade transcendente sendo exposta aí, já no significado da palavra em si: a tradução do termo já ensina muita coisa.

É que todas as grandes religiões desde planeta, desde as ancestrais, como o judaísmo e o hinduísmo, até as mais (relativamente) 'recentes' como o zoroastrismo, o jainismo, o budismo e o cristianismo, entre muitas outras, são unânimes em afirmar que o homem se encontra separado da Fonte, que se afastou de sua origem divina e que precisa urgente retornar a ela. Algumas tradições, como o hinduísmo, dizem que tudo que experienciamos nesta realidade é ilusão, e que a Arte das artes seria o aprendizado da visão que vai além dos véus ilusórios que nos cercam. - Não por acaso, no cabeçalho deste blog você vê alguém tateando por trás de um véu, buscando alcançar o que está além. - Este seria o caminho para o Yoga, isto é, a Re-União com Deus, uma outra maneira de dizer 'religião'. Outras tradições, como o judaísmo, dizem que o homem primordial, em algum momento, falhou na sua missão cósmica, quebrando a harmonia perfeita que um dia existiu entre ele e a Deidade, e é por isso que nos encontramos atualmente neste estado inferior, submetidos a toda sorte de limitações.

Na verdade, essas são as duas visões clássicas da Metafísica, e todas as linhas de pensamento espiritualistas, em maior ou menor grau, com enfeites e diferenças formais superficiais, concordam com uma dessas propostas. Mas o fato realmente interessante, que não pode deixar de ser percebido, é que essas duas visões não são assim tão diferentes: em essência, não chegam a se contradizer. Os mestres hindus (hinduísmo: raiz de todas as tradições orientais, inclusive o budismo) ensinam que "pecado" é se distanciar da Verdade e acreditar no que é falso; já os rabinos (judaísmo: raiz de todas as religiões ditas ocidentais, inclusive o cristianismo) ensinam que o pecado entrou no mundo através de uma mentira/ilusão. Estamos diante de definições que, se por um lado não são idênticas, por outro não podem ser consideradas antagônicas. Por que razão e de que maneira não sabemos, - se por acreditar na ilusão ou em consequência do pecado, sendo que o pecado é crer na ilusão, e a ilusão é a raiz de todos os pecados, - mas o fato é que todas as tradições concordam que o homem se distanciou e se encontra separado da sua Fonte Divina Primordial, que chamamos Deus, e as formas religiosas servem para nos auxiliar a retornar a ela.

A grande questão que surge, e é aqui que começam as contestações, é que eu tenho descoberto, na minha experiência de vida, que na verdade não existe religião formal. Penso que nunca existiu e nunca existirá de fato uma escola formal que possa ensinar, profunda e definitivamente, a Arte das artes.




As muitas e diferentes mentes, mesmo dentro de um mesmo templo, precisam de coisas diferentes, anseiam por coisas diferentes e pensam de maneiras diferentes. Além disso, inevitavelmente entendem o que está sendo dito de modos diferentes, às vezes até mesmo a respeito das questões mais básicas. E isto implica dizer que, assim como existem maneiras diferentes de se entender Deus, devem existir também diferentes posturas ideológicas/espiritualistas autênticas. O que descubro é que cada ser humano sobre a Terra tem a sua própria religião particular. - Cada um de nós. - Dentro de cada indivíduo existe um universo de crenças, identificações, rejeições e condicionamentos que constroem a sua religião única e particular.

Resumindo: mesmo dentro de uma mesma comunidade, cada mente é uma mente, cada indivíduo tem a sua própria religião, que é única e diferente de todas as demais. E as diferenças podem se referir até mesmo às questões mais básicas dessa fé comum. Os membros de uma mesma comunidade, que aceitam comunalmente os mesmos preceitos e bases de fé, via de regra carregam, em seu íntimo, inúmeras divergências, algumas essenciais. Isso é algo para se pensar.

Mas o que realmente me chateia dentro da esfera religiosa é a falta de questionamento (outras vezes de inteligência, mesmo) da grande maioria dos assim chamados "religiosos". O movimento ateísta cresce, e eu digo que esse movimento é importante e precisa acontecer neste momento. Por quê? Porque nós estamos vivendo atualmente na era da razão, uma era de grandes descobertas da ciência, de conquistas jamais sonhadas. A humanidade evoluiu mais nos últimos 30 anos mais do que nos 30.000 anos anteriores juntos! Hoje se fala em inteligência artificial, na descoberta da Teoria do Tudo, nas novas drogas que já estão sendo produzidas e que vão turbinar o cérebro humano... E nada disso é ficção científica! Estamos nos tornando mais espertos, estamos vivendo mais, e cada nova descoberta da ciência parece derrubar uma antiga crença da religião. Parece brincadeira, mas não é: há menos de um século, uma grande parte da população ainda acreditava que Deus vivia no céu, literalmente, logo acima de nós, entre nuvens e anjos voadores.

Minha avó contava para minha mãe a história bíblica da Torre de Babel, quando os seres humanos tentaram construir uma torre para chegar até o céu, a morada do Todo Poderoso, e já estavam quase conseguindo! Deus então resolveu confundir as línguas dos homens, e a partir daí eles já não se entendiam mais. Sem conseguir se entender, a construção da gigantesca torre não pôde ser concluída... Entendam bem que, segundo o relato do Gênesis, se nada fosse feito, a torre teria sido construída e os homens teriam conseguido chegar ao céu, morada dos anjos! Deus precisou usar desse artifício para que os homens não pudessem alcançá-lo... Me impressiona saber que até há pouco tempo muita gente ainda acreditava nisso, literalmente! Agora, você quer saber de uma coisa ainda mais incrível? Ainda tem gente que hoje, neste exato momento, em pleno século 21, ainda insiste em aceitar essas histórias literalmente, parágrafo por parágrafo!

Acontece que os povos antigos, incluindo os hebreus, acreditavam que o "céu" era formado por uma imensa abóbada azul que cobria a crosta terrestre, que por sua vez era limitada por abismos e mares. Hoje, porém, o homem não precisa mais construir torres para saber o que há além do azul visível: hoje temos foguetes que superam os limites do "céu" com a maior facilidade, e vão muito além disso! E é claro que, bem antes disso já existia o telescópio (inventado em 1608), que nos permitiu descobrir, entre outras coisas, que a Terra não era o centro do Universo e que o azul do céu era apenas uma ilusão. Aquilo que os antigos entendiam por "céu", na verdade não existe, e o que está acima das nossas cabeças é coisa muito diferente do que descreve o livro do Gênesis.


A concepção hebraica do Universo na época do Gênesis
(clique sobre a imagem para ampliar)


É por isso que o movimento ateísta cresce tanto no mundo. As pessoas mais inteligentes estão preocupadas com a onda de fundamentalismo que toma conta do planeta. E eles estão certos! A verdade é que a espiritualidade anda muito mal representada. Pergunta que não quer calar: se todas as grandes religiões do mundo pregam a paz, o Amor e a fraternidade entre os homens, porque a religião (todas elas, até as mais pacifistas, como o budismo) gera tantos grupos de fanáticos fundamentalistas?

Isso leva muita gente à percepção falsa de que a religião é um fenômeno nocivo e que a salvação só pode estar na ciência... O que também é um engano terrível e um tipo de fundamentalismo tão ridículo quanto o religioso. A ciência, assim como a religião, pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Afinal de contas, foi a ciência, e não a religião, que legou à humanidade a bomba atômica, as armas químicas, os agrotóxicos e a poluição ambiental que ameaça destruir o planeta. - Se por um lado a religião, quando incompreendida, pode trazer problemas, é claro que o materialismo também não é a resposta final. "Religião é veneno!" - Gritam os ateus idiotas... "O nosso livro sagrado é a única fonte da verdadeira ciência!" - respondem os zumbis fundamentalistas da religião...

Onde vamos parar? Quem disse que para ser espiritualizado é preciso ser irracional? Quem foi que disse que para ser racional é preciso recusar a religião? Por que precisamos viver eternamente vagando entre os extremos opostos? A harmonia entre esses aparentes opostos é não só possível, como, mais do que isso, representa a solução para uma vida mais bela, mais rica, com sentido e com propósito! A coisa mais bela acontece quando alguém descobre essa chave da vida, como aconteceu com Antony Flew, o ateu ativista mais importante do século 20, uma figura antirreligiosa legendária que recentemente descobriu que "sim, sim... Deus existe!" Ele finalmente entendeu a razão inescapável do argumento da Causa Primeira ou Causa Não Causada. Se para tudo que existe é preciso que exista uma causa, necessário se faz que exista uma Causa Primeira, uma Causa Não Causada, que foi a origem de todas as outras coisas. Em caso contrário, seríamos levados a uma regressão infinita de causas causadas e à inevitável pergunta: "Quem criou Deus?" - É por isso que Causa Não Causada é a melhor definição (científica) possível para Deus. Deixo uma breve explicação:

Sabe-se que toda causa é anterior ao seu efeito. Assim sendo, por exemplo, uma planta nasce (efeito) porque uma semente foi plantada (causa). Para uma coisa ser causa de si mesma teria de ser anterior a si mesma, por isso não há coisa alguma que seja causa de si mesma. Desse modo, se for supressa uma causa, fica supresso o seu efeito. Supressa a causa não haverá o efeito. Se a série de causas concatenadas fosse indefinida, não existiria causa eficiente primeira, nem causas intermediárias nem efeitos desta, e nada existiria. Ora, se coisas existem, a série de causas eficientes tem que ser definida. Existe então uma Causa Primeira que tudo causou e que não foi causada. Em algum momento, alguma coisa tem que ter surgido de uma Causa não causada.




Stephen Hawking, em "Uma Breve História do Tempo" reconheceu que a teoria do Big-Bang exige um Criador. Diz a tradição que Sócrates morreu dizendo: "Causa das causas, tem pena de mim". A negação da Causa Primeira leva a ciência materialista a se contradizer a si mesma, pois ela concede que tudo tem que ter uma causa, mas ao mesmo tempo nega que haja uma Causa do próprio Universo! Isso para mim não é ciência, mas uma nova espécie de religião irracional.

A Causa Primeira é a única resposta possível para aquelas perguntas que surgem, inevitavelmente, quando se fala das origens de tudo: Se o Universo surgiu do Big Bang, o que provocou o Big Bang? O que havia antes do Big Bang? "Um ponto ínfimo de energia absurdamente compactada, sem volume, mas com densidade e temperatura monstruosos, quase incalculáveis", é a resposta-padrão. Ok, mas o que gerou o ponto de energia? Como surgiu?? Qual a causa de tamanha compactação de densidade??? Qual a origem do ponto????

Por mais que se tente, não há para onde fugir, a tese da Causa Primeira é de uma lógica inescapável, da qual nem aquele que é considerado o homem mais inteligente do mundo (Stepehn Hawking, e não o Ozymandias de 'Watchmen') consegue fugir: "Em algum momento, alguma coisa tem que ter surgido do Nada". E não há como não reconhecer que o 'Nada' em questão, no mínimo, se parece muito com o que o conceito religioso convencionou chamar 'Deus'.

Sou um apaixonado pela ciência, e não poderia ser diferente, porque sou absolutamente, desvairadamente, perdidamente apaixonado por Deus. Eu amo minha esposa, o que me faz amar mais a Deus. Amo meus filhos, o que me faz amar a Deus mais e mais, pois considero que tudo me foi dado por Ele, inclusive a capacidade de amá-los. - Regredindo no raciocínio, por amar minha esposa, acabo amando tudo o que vem dela e as coisas que ela faz. Hoje mesmo fui agraciado com um café na cama, e eu amei aquele café. A ciência estuda a Natureza e o mundo natural, que na minha concepção vem de uma Causa Maior e não causada que chamo Deus. Por extensão, amo a ciência! Preciso amá-la. Acho mesmo que tanto as formas religiosas tradicionais quanto a ciência são, ambas, formas de religião no seu sentido original. Para mim, não há nenhuma contradição entre a boa e verdadeira ciência e o caminho religioso.

E se a ciência comprovou que acima de nós não há uma abóbada por cima da qual flutuam os anjos, isso só pode ser bom! Estamos nos aperfeiçoando em nossa maneira de nos relacionarmos com Deus. A cada antigo mito que a ciência derruba, isso nos coloca mais perto de Deus! O que pode haver de negativo nisso? A Natureza é criação de Deus. Se eu sei disso, tenho que aceitar que conhecer e interpretar a Natureza é como ler o mais sagrado de todos os livros, pois "é obra de Suas Mãos"... Os que temem o avanço da ciência demonstram não estar verdadeiramente seguros na sua fé. Se o Deus em que eu creio é real, não tenho nada a temer. Quanto mais eu souber a respeito do Universo natural, mais perto de Deus estarei.



Aspectos da 'religião': a primeira imagem não precisa de legenda. Logo abaixo dela, doações
enviadas por entidades religiosas aos desabrigados de Santa Catarina. - Foram tantas que a
Defesa Civil precisou pedir que parassem, pois não havia espaço para guardar tanta coisa...


A possibilidade (e até a necessidade) da existência de um Criador, como você deve saber, é uma visão que está sendo compartilhada por cada vez mais grandes homens de ciência do nosso tempo. Por isso, religiosos, não tenham medo! Sejam verdadeiros! Vocês podem confiar tanto (ou até mais) na ciência quanto em seus livros sagrados e em suas experiências místicas. O que deve ser combatido é o cientificismo, aquela falsa ciência panfletária que um dia foi a bandeira de Francis S. Collins e do próprio Antony Flew, entre tantos ex-ateus convictos. Talvez um dia Dawkins consiga chegar lá.

Ateísmo é sinônimo de inteligência? Óbvio que não, e essa discussão seria uma tolice, mas, por Amor ao que é sagrado, a fé também não deve ser sinônimo de ignorância! Até que ponto nós, homens e mulheres de fé, estamos contribuindo para que o mito do 'religioso ignorante' se propague?



( Comentar este post