História do Cristianismo - 5

Como se formou o cânon do Novo Testamento


Pergaminho de mais de 1.000 anos de idade,
contendo um trecho do livro do Êxodo


Os apóstolos e discípulos de Jesus, de fato, cumpriram o seu mandamento e levaram aos quatro cantos do mundo a sua mensagem, as Boas Novas (Evangelhos) do Reino de Deus.

Vimos que o Didaqué, o mais antigo conjunto de textos cristão, anterior a diversos livros da própria Bíblia, prescrevia jejum e oração para os que quisessem seguir o Caminho de Cristo. E a prece era ainda mais enfatizada nas comunidades monásticas. A recitação melodiosa dos textos então considerados sagrados (oração cantada) garantia a sua memorização e suavizava a raridade dos manuscritos disponíveis. Como vimos, os textos sagrados dos primeiros cristãos não eram necessariamente os que compõem a Bíblia cristã que conhecemos hoje, visto que nas primeiras décadas do Cristianismo o Novo Testamento ainda não existia, estando ainda em formação. Sem dúvida já existiam manuscritos contando a vida de Jesus Cristo, e é bem provável que entre estes já figurassem as primeiras versões dos Evangelhos canônicos que conhecemos hoje, mas é também provável que existissem outros relatos com detalhes diferenciados, muitos dos quais podem ter sido perdidos com o passar dos séculos, e uma outra grande parte preservada mas que permanece desconhecida do público leigo.

O desenvolvimento do cânon do NT (Novo Testamento) foi complicado, embora bem menos tortuoso que o do AT (assunto para uma outra oportunidade)...

A Segunda Epístola de Pedro (2ª Pe) coloca as cartas de Paulo ao lado das "outras escrituras" (2ª Pe 3,16). Logo, entendemos que no final do século I algumas cartas paulinas já eram tidas como inspiradas. Em meados do séc. II, Justino fala dos Evangelhos que são usados nas assembléias litúrgicas, e a segunda carta de Clemente aos Coríntios (de cerca de 150 dC) cita um versículo do Evangelho de Mateus.

Por volta do ano 170, Melitão de Sardes chamou, pela primeira vez, os livros da Bíblia hebraica de "Antigo Testamento", em contraposição ao Novo Testamento da Igreja. Mas o primeiro a usar o termo "Novo Testamento" foi Tertuliano, em torno do ano 200.


Emologoumenoi, Antilegomenoi e Notha

Nenhum autor do séc. II ou do séc. III cita todos os livros do NT, e há livros que não são citados por ninguém (Filemon e 3ª João). A lista mais antiga do NT é o famoso Fragmento Muratoriano, que indica o NT usado pela igreja cristã central, a de Roma, de onde partiam as orientações para as demais comunidades cristãs no final do segundo século. Mas é importante salientar que nela não estão incluídos Hebreus, Tiago, 1ª e 2ª Pedro, e 3ª João (canônicos), o Apocalipse de Pedro (apócrifo) e Sabedoria de Salomão (deuterocanônico)... A lista feita por Orígenes no séc. III levanta dúvidas sobre a inspiração de 2ª Pedro e de 2ª e 3ª João. Por volta do ano 310 dC, Eusébio distingue entre "os livros reconhecidos por todos" (‘emologoumenoi’), "os livros discutidos" (‘antilegomenoi’) e "os livros espúrios" (‘notha’). Tiago e Judas estão entre os discutidos.

O Cânone Claromontano, datado do séc. IV, não menciona Hebreus. O Cânone Momseniano, de mais ou menos 360, não fala de Hebreus e Judas. O Códice Sinaítico, do séc. IV, inclui também a carta de Barnabé e o Pastor de Hermas. O Códice Alexandrino, do séc. V, traz 1ª e 2ª Clemente. E no Oriente, as igrejas da Síria e de Antioquia ainda usavam, no séc. IV, um cânone restrito do NT com apenas 17 livros. Alguns livros eram discutidos porque não se podia ter certeza de sua autoria apostólica, por causa de aspectos doutrinários controvertidos ou por sua brevidade.

Como sabemos quais livros pertencem à Bíblia? A resposta da Igreja primitiva era: aqueles livros que são apostólicos pertencem ao cânon da Escritura; se um livro foi transmitido pelos Apóstolos como Escritura (exemplo: os livros do Antigo Testamento) ou se foi escrito por um dos Apóstolos ou por um de seus companheiros, então pertence à Bíblia. A apostolicidade foi, assim, a prova para a canonicidade.

Porém, como se poderia saber quais livros eram apostólicos? Certamente que não através de um livro que pretendesse ser apostólico, pois já haviam muitos falsos evangelhos e cartas falsas que circulavam com o nome dos Apóstolos. Tampouco o Espírito Santo prometeu a cada cristão uma revelação particular quanto aos livros que pertenceriam à Bíblia...

Como era, então, a prova de apostolicidade considerada na Igreja primitiva? Basicamente, havia duas provas:

Primeiro, eram reconhecidos como apostólicos aqueles livros que estavam de acordo com os ensinamentos dos Apóstolos transmitidos à Igreja. Os escritos gnósticos e outros escritos que não coincidiam com a Tradição apostólica eram deixados de lado. Isto é algo que os autores neotestamentários admitem.

Segundo, eram considerados como apostólicos aqueles livros que eram pregados em várias igrejas como provenientes boca ou da pena de um Apóstolo ou de um de seus companheiros - Se uma certa obra não era considerada apostólica e não se pregava como tal nas igrejas, então era rejeitada. Este era um recurso da tradição cristã primitiva, pois tinha em vista a tradição das igrejas como guia para a apostolicidade.

"É digno de nota - quando alguém pensa nisso - que os quatro Evangelhos canônicos são anônimos, embora os evangelhos que proliferavam no fim do século segundo, e mais tarde, afirmassem ter sido escritos por Apóstolos e outras testemunhas oculares. Eclesiásticos católicos viram, então, que era necessário defender a autenticidade apostólica dos Evangelhos (...) A autoria apostólica de Mateus e João estava bem estabelecida na tradição.

F.F.Bruce, Escriturista protestante


Até que o cânon do Novo Testamento fosse estabelecido pelo Concílio de Roma, no ano 382, durante o papado de Dâmaso I, os livros específicos (do cânon) não estavam firmemente estabelecidos. No Ocidente, foi somente (e finalmente) com as listas do final do séc. IV, feitas por Atanásio e Agostinho, pelos concílios de Hipona e de Cartago, que se chegou a um consenso. Elas coincidem com o cânone definido do Concílio de Trento.


Antigo papiro contendo trechos de 2 Coríntios


Portanto, um apologeta protestante deverá concordar que os eclesiásticos presentes ao Concílio de Roma incluíram no cânon todos os livros verdadeiros, e somente os verdadeiros. Mas, se discordar, estará discordando também do cânon do Novo Testamento existente na Bíblia que ele mesmo usa, já que foi o Concílio de Roma que estabeleceu o citado cânon. Porém, se aceitar que o Concílio de Roma incluiu todos os livros verdadeiros, então deverá admitir que a Igreja primitiva emitiu uma decisão infalível (porque incluiu somente os livros verdadeiros, tomando, assim, uma decisão inequívoca sob a condução providencial de Deus, a qual é infalível). - E que esta decisão infalível foi tomada 300 anos após a morte do último Apóstolo. E se os Concílios da Igreja são capazes de chegar a decisões infalíveis 300 anos após a morte do último Apóstolo, não há motivos para se afirmar que os Concílios seriam incapazes de fazer o mesmo mais tarde na História da Igreja.


O Cânon da Tradição

O fato de a Igreja ter decidido sobre questões fundamentais 300 anos depois da morte do último Apóstolo é significativo, tanto quanto o fato de que, quando tomou esta decisão, a fez com base na Tradição. Como já dissemos, a Igreja tinha à sua frente tradições opostas acerca dos livros que deveriam ser incluídos na Escritura. Algumas delas diziam que Hebreus estaria incluído no cânon; outras diziam que não. Uma destas tradições (a que apontava a sua inclusão no cânon) era apostólica; a outra (partidária da exclusão), era meramente especulativa. Para decidir se a carta aos Hebreus pertencia ou não à Escritura, a Igreja teve que decidir em favor de uma tradição sobre a outra. Assim, para estabelecer a apostolicidade de um escrito, teve que estabelecer a apostolicidade da tradição.

Como resultado, a Igreja não apenas pôde estabelecer regras sobre o que é apostólico - ainda que centenas de anos após a morte do último Apóstolo - como também pôde regulamentar quais tradições são apostólicas e quais não são - o que pode ser feito em qualquer época da História da Igreja. Com efeito, a Igreja pode estabelecer regras sobre o cânon da Tradição do mesmo modo que fez com relação ao cânon da Escritura. O mecanismo pelo qual estabelecemos o cânon da Tradição é, então, o mesmo pelo qual estabelecemos o cânon da Escritura. O mesmo princípio vale para ambos os contextos. A Igreja é testemunha de ambos os cânones.


Provas para o cânon da Tradição

Obviamente, a Igreja se utilizou de provas para reconhecer quais tradições são apostólicas, assim como tinha provas para estabelecer quais escrituras eram apostólicas. Uma das provas consiste em ver se uma determinada tradição contradiz o que foi previamente revelado. Como assinalam bem os anticatólicos, tais tradições devem ser provadas à luz das Escrituras. Se uma determinada tradição contradiz algo que Deus disse na Escritura (ou algo dito em uma bem conhecida Tradição apostólica), isso mostra que é simplesmente uma tradição humana, que deve ser descartada. A Igreja precisa provar tais tradições pela luz da Escritura.

Com certeza, a Igreja também aplica o lado secundário desta prova: na Igreja primitiva, qualquer escrito apresentado que não coincidisse com a Tradição apostólica era afastado do cânon da Escritura. Assim, quando, nos séculos segundo e terceiro, os escritos gnósticos ensinavam que Jesus não era Deus ou que o Deus do Antigo Testamento não era o Deus de Jesus Cristo, esses livros eram sumariamente rejeitados tendo por base a sua não-coincidência com a Tradição apostólica.

Sabemos que quando Deus fala na Escritura surgem algumas dificuldades aparentes. Os liberais as usam para atacar a inerrância da Escritura; então os conservadores escrevem livros para mostrar por que essas supostas discrepâncias não existem. Porém, se Deus fala na Escritura de tal modo que permita surgir aparentes discrepâncias, então deveríamos esperar que ocorresse o mesmo quando Deus fala em outra parte. O Mistério é incognoscível, incompreensível por sua própria natureza. Como diz o Apóstolo Paulo no versículo 7 do capítulo 3 de 2 Timóteo, seguimos "sempre aprendendo, mas sem jamais poder atingir o pleno conhecimento da Verdade".



Fontes bibliográficas:
[1] BRUCE, F. F. O Cânon da Escritura. N. York: Intervarsity Press, 1988, p. 257;
AKIN, James. Apostolado Veritatis Splendor: DOIS CÂNONES: ESCRITURA E TRADIÇÃO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/1532. Desde 07/07/2003. Acesso em 05/03/2009.
MANNUCCI, Valério. Bíblia, Palavra de Deus. São Paulo: Edições Paulinas, 1986;
SCHARBERT, Josef. O Mundo da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1974.