Comentários sobre o 1° capítulo do Dhammapada

Os comentários sobre o post anterior, com o primeiro capítulo do Dhammapada, renderam excelentes comentários. Um desdobramento que superou as minhas melhores expectativas. Baseado em tudo que foi dito lá, seria possível escrever muitos posts... A reflexão que segue representa um primeiro olhar, a primeira postagem de uma nova série do 'a Arte das artes', que vai tratar exatamente das reflexões sobre o Dhammapada.


Satsangha: em amizade divina. Como isso é bom!


Gustavo disse: Merton, acredito que tentar entender os ensinamentos orientais e os santos/iluminados do oriente (como Buda, Shankara, Krishna e Lao-Tsé) é realmente muito importante. Para que se tenha idéia do tamanho da importância, acredito que os mais elevados ensinamentos espirituais de Jesus seriam muito difíceis de serem compreendidos, sem que se tenha uma noção dos ensinamentos do oriente.

Concordo. Aconteceu comigo, ter a compreensão dos ensinamentos de Jesus facilitada pela noção dos ensinamentos vindos do Oriente. Quando eu tinha 14, 15 anos de idade, lia os Evangelhos e achava que entendia Jesus. E entendia os pontos essenciais, sim, porque a minha consciência era pura, não contaminada pelas muitas opiniões e teorias dos 'entendidos'. Mas, mesmo que a experiência de conhecer e estudar os Evangelhos por mim mesmo, ainda tão jovem, tenha sido fundamental na minha vida, reconheço que é difícil a captação do sentido de alguns ensinos realmente profundos do Cristo sem nenhuma outra base. Há pouco tempo, conheci um rapaz que se dizia um dos poucos praticantes da verdadeira religião de Jesus. Fiquei curioso e ele disse (não é piada):

"Está na Bíblia que 'A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus nosso Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e conservar-se puro da corrupção deste mundo' (conforme Tiago 1, 27). Eu me guardo da corrupção do mundo e já visitei um orfanato com a minha esposa, ano passado. Agora estamos procurando uma viúva. Minha consciência está tranquila."...




Esse tipo de interpretação totalmente literal de uma máxima espiritual é surreal, chega a soar cômica, mas acontece com maior frequência do que possamos imaginar. - Ora, na época em que esse ensinamento foi passado, havia uma boa razão de ser para que tivesse sido dito dessa forma, mas é claro que agora isso não pode e não deve mais ser levado ao pé da letra.

Na época de Jesus, no lugar em que ele viveu, a estrutura social era radicalmente patriarcal: as decisões eram tomadas somente pelos homens, as honras e as mordomias eram todas para os homens. As mulheres eram vistas quase como servas da sociedade; tinham muitas obrigações e poucos direitos, e a única maneira de se fazerem respeitar e garantir seus direitos era através dos maridos provedores... Por isso, as viúvas, assim como as 'repudiadas' (divorciadas) entravam numa situação muito difícil... Eram desprezadas, se tornavam desamparadas, vistas como um incômodo, uma espécie de 'peso' para a sociedade. Não tinham voz ativa nem direito a trabalho remunerado, e passavam a depender da piedade alheia. É por isso que, desde o Antigo Testamento, a Bíblia insiste neste nobre princípio, de que era preciso acolher as viúvas, proteger as viúvas... Elas estavam entre os maiores desfavorecidos da época, rejeitadas por todos, e precisavam muito de ajuda. Fazer algo por elas representava um gesto humanitário primordial. E por falar nisso, também aí Jesus foi um revolucionário da mente, por dedicar às mulheres importância igual a dos homens, tendo discípulas em pé de igualdade com os discípulos, ouvidas e valorizadas. Contam os Evangelhos que, após a ressurreição, foi às mulheres que apareceu primeiro. Uma postura profundamente emblemática, em contraponto ao cenário dos costumes semíticos.

Mas os tempos mudaram, hoje a realidade é outra e as viúvas não são mais assim rejeitadas. Então essa assertiva bíblica perde todo o significado se for tomada literalmente. Claro que o sentido mais profundo permanece, porque é eterno. - É bem simples entender que essa passagem sobre visitas às viúvas quer dizer: "A verdadeira religião é ver no outro um irmão, o nosso 'próximo'; assumir a nossa condição de igualdade para com todos os seres humanos, estar ao lado dos que precisam, ajudar os que sofrem". - Mas, por incrível que pareça, muita gente ainda insiste em tomar essas e outras passagens complicadas literalmente, achando que basta visitar os órfãos e as viúvas para 'garantir uma vaga' no Reino do Céu...

Eu tenho que dizer que conhecer Buda e os mestres hindus, principalmente Ramana, Ramakrishna, J. Krishnamurti, Yogananda e Sivananda, além de vários outros em menor escala, me ajudou, e muito, a compreender e alcançar certos significados mais profundos das palavras de Jesus. Existe uma teoria, improvável mas não totalmente absurda, que preconiza que Jesus teria vivido na Índia, tal a similaridade entre alguns dos seus ditos e a tradição oriental. Muito do que Jesus diz parece bem mais próximo de Buda e de Patânjali, por exemplo, do que da tradição judaica/mosaica e do modo de pensar dos fariseus, saduceus e zelotes, ou mesmo dos essênios.

E se a minha compreensão do Cristianismo pôde ser depurada pela minha experiência anterior com as tradições orientais, surge uma outra questão importante: será que, como muitos cristãos imaginam, estudar Buda e outros mestres orientais significaria uma 'traição' ao Cristianismo? Será que um buscador deve rejeitar conhecimentos de qualquer tradição que não seja a sua própria, temendo perder a salvação de sua alma? Muitos dos que se entendem 'cristãos' julgam duramente aos que ainda não encontraram as mesmas verdades que eles. Mas eu penso que para os que conheceram Jesus Cristo de fato e de perto, para os que experimentaram a verdadeira 'conversão' em Cristo, o estudo dos mestres das outras tradições não representa um obstáculo ou um perigo. Se você entendeu Jesus, se você alcançou Jesus, se Ele de fato lhe sorriu e acolheu, então nada, nunca mais, vai poder afastá-lo dele. Por isso, ele mesmo diz: "Eu te escolhi. Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua direita; mas tu não serás atingido. Pode uma boa mãe abandonar os seus filhos? Porém, ainda que ela os abandone, eu não te abandonarei". O único modo de 'perder' Jesus, depois de tê-lo alcançado, é por vontade própria, abandonando-o propositalmente.

Cristo é a Verdade. A Consciência Crística é a Verdade. Ele diz: "Quem é pela Verdade ouve a minha voz". - Qualquer que busque e viva na Verdade, onde quer que esteja, praticando a Verdade, não se desviará do Cristo. "Quem não é contra nós é por nós".




Se um cardiologista da Índia tivesse que explicar a estrutura do coração humano, ele teria que falar de um órgão localizado na caixa torácica, constituído por um músculo oco que se chama miocárdio, que possui em seu interior quatro câmaras pelas quais o sangue é bombeado, etc, etc... Se um cardiologista judeu tivesse que falar sobre a estrutura do coração, ele teria que falar exatamente as mesmas coisas. - E as mesmíssimas explicações seriam dadas por um cardiologista árabe, por um norte ou latino-americano, um chinês, etc... Todos os que estudaram a estrutura do coração numa boa faculdade, em qualquer parte do mundo, vão aprender as mesmas coisas, porque a verdade a respeito da estrutura do coração humano é uma só. Um coração é desse jeito, não há espaço para relativismos, e ainda que uns se expressem de maneiras ligeiramente diferentes de outros, as explicações serão sempre as mesmas. De modo semelhante, qualquer um que busque a Verdade espiritual, séria e honestamente, vai encontrar as mesmas respostas e chegar às mesmas conclusões.


O grande Swami Sivananda e alunos: um post para breve.


Gustavo disse: A Índia é o berço da espiritualidade e da religião; é a mais antiga e a mais devotada nação do mundo. Durante tanto tempo ela buscou Deus, e com tanta sede!, que ela conseguiu "produzir" grandes Santos, Iluminados, pessoas que chegaram à auto-realização, que conseguiram ver Deus "face-a-face".

Eu entendi perfeitamente o que foi dito, e percebo o sentido dessas afirmações. Mas eu não posso perder a oportunidade perfeita para compartilhar algumas das minhas reflexões recentes. Na verdade eu fiquei maravilhado quando vi a questão sendo colocada aqui no blog, porque eu passei a maior parte da semana passada meditando sobre isso, ou algo relacionado a isso. A questão surgiu numa aula de um curso que estou fazendo, sobre o Apóstolo Paulo, e desde então eu a tenho observado. Aqui está a chance de dividir minhas conclusões.

A verdade é que, com relação à Índia, por um bom tempo eu pensei exatamente da maneira descrita acima. A Índia tem mesmo essa aura de nação mãe da espiritualidade e/ou das religiões do mundo, até por ser o berço de uma cultura muito antiga, eternamente envolta em um clima de mistério muito atrativo. Todos os anos, milhares e milhares de turistas ocidentais procuram a Índia, ansiosos por visitar os seus templos, conhecer os seus costumes exóticos e deixar para trás a insanidade da nossa sociedade materialista e consumista. Acham que Deus, de algum modo, está presente de modo especial na Índia. Como disse, por um tempo eu também achava que fosse assim. Eu estudava a obra de tantos sábios e mestres hindus e pensava: "Essa nação tem que ser muito especial!"...

A questão que surgiu naquele curso dizia respeito às nações ou povos que, ao longo da história, foram considerados espiritualmente 'especiais' ou 'superiores'. Eu Já achei que a Índia fosse a fonte do verdadeiro conhecimento espiritual para o mundo. Assim como já achei que os judeus eram especiais, por serem o povo 'escolhido por Deus' e incumbido da missão divina de trazer a Verdade ao mundo. Já considerei alguns povos do extremo oriente, - chineses, tailandeses e japoneses, - muito especiais, quando estudei certas doutrinas. Além disso sei que os árabes, por exemplo, são um povo extremamente devotado (segundo alguns, até demais). Assim como os tibetanos (eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente alguns monges), que escreveram o Livro dos Mortos Tibetano, uma das obras espirituais mais reverenciadas do mundo: um povo que sem dúvida também poderia ser considerado especial. E os exemplos não terminam aí.

Mas a verdade é que, em todas as culturas, a devoção pelo sagrado está presente, a busca espiritual é valorizada. Por isso eu diria que acho um pouco injusto dizer que esta ou aquela é "a mais devotada nação do mundo". Ocorre que, como não poderia deixar de ser, cada povo, cada tradição desenvolveu maneiras próprias de exercer a Busca.

Lá no começo de tudo, o ser humano observou o meio que o cercava, observou seus iguais e os outros seres vivos, e entendeu que tudo era muito misterioso. Olhou para o céu, para o mar, para as montanhas, para as manadas de mamutes... E entendeu que havia uma Força Superior e Misteriosa no controle, mesmo sem poder ver: esse Mana, esse Ki, Chi, Nefesh, Prana ou Dynamis... Essa Energia vital que permeia todas as coisas, estando ao mesmo tempo além da realidade física, era real! E assim, o homem se sentiu grato pela sua vida, por fazer parte de algo tão grande. Elevou o pensamento e rendeu graças pelo dom da vida, pelo prazer de viver, pelo comer, beber, ter filhos... Também aprendeu a fazer pedidos: começou a pedir por saúde, fartura na caça e nas colheitas. - E assim nasceu a religião, um fenômeno intrínseco ao que significa ser humano, que não é exclusividade de nenhuma nação, nenhum povo e nenhuma tradição.

Eu sei, Gustavo, que você concorda com tudo isso, e que a sua afirmação teve um outro significado, mas como disse eu vi nesse trecho a oportunidade para falar essas coisas e esclarecer esse ponto tão importante. Sou infinitamente grato por isso.




Continua...



( Comentar este post