História do Cristianismo:

Um legado de 2 mil anos
Baseado em texto de Ivan Antonio de Almeida -
Arquivo "História Viva"


"Apóstolos Pedro e Paulo" (1587) - Pintura de El Greco


Reunidos no dia de Pentecostes, menos de dois meses após a morte de Jesus, seus discípulos mostravam-se desnorteados. “Que faremos agora?”, perguntaram-se em aramaico, a língua falada não só na palestina como em todo o Oriente próximo no primeiro século de nossa era. No início do Cristianismo, ainda havia dúvidas em relação a difusão dos ensinamentos do Mestre.

Tiago, identificado nos Evangelhos como "irmão de Jesus", acreditava ser necessário impor a circuncisão e os costumes judaicos, inclusive o de orar no Templo de Jerusalém, a todos os que desejavam se converter ao Cristianismo. Os judeus de cultura grega, chamados helenistas, logo reclamaram que “suas viúvas eram desprezadas” (Atos dos Apóstolos 6,1) nas atividades cotidianas. Estava instalada a contradição na "comunidade dos nazarenos", como eram denominados os discípulos de Jesus de Nazaré.

Por conta das reclamações, a pedido dos apóstolos e segundo o critério da "boa reputação”, sete helenistas foram escolhidos para representar o grupo. Estevão era seu líder. Mais tarde, este mesmo Estevão foi acusado de blasfêmia pelas autoridades judaicas ortodoxas e morto a pedradas, tornando-se o primeiro mártir cristão. Perseguidos, os demais helenistas fugiram para a Samaria, costa mediterrânea e Antióquia.

Uma das maiores cidades do Império Romano, Antióquia reunia então cerca de 500 mil habitantes, que falavam rotineiramente o grego e o aramaico (ou siríaco). Foi lá que os “nazarenos” receberam o nome de “cristãos”, que significa ‘ungidos’.

Entre os assassinos de Estevão estava um homem enfezado de nome Saul ou Saulo. Não se sabe se ele participou do bárbaro crime, mas ele estava presente no ato do assassinato. Era um judeu helenizado da cidade de Tarso, na Cicília (território hoje pertencente à Turquia). Membro intransigente da seita dos fariseus, (falaremos mais tarde sobre), foi um dos mais ávidos perseguidores da comunidade dos nazarenos. Mais tarde, porém, viria a experimentar uma conversão mística e súbita, e se tornaria uma figura fundamental na formulação do Cristianismo que conhecemos hoje. A partir do episódio miraculoso de sua conversão, adotou o nome de Paulo ('Pequeno'). Foi em grande parte pelo intermédio deste, que passou a querer ser considerado como o menor entre todos, que a mensagem cristã extrapolou os limites dos ambientes judaicos e propagou-se extensamente entre "as gentes" (os 'gentios’, denominação bíblica aos povos não judeus).

A destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 dC, separou definitivamente os cristãos do Judaísmo, e reforçou a sua tendência "católica" (isto é, 'universalista’). Missionários cristãos ultrapassaram as fronteiras do Império Romano. Numa primeira História Eclesiástica, Eusébio de Cesaréia, que viveu entre 265 e 340, conta que “os santos apóstolos e discípulos” de Cristo se espalharam por toda a Terra.

Tomé evangelizou a Pérsia, e, segundo outras fontes, também a Índia. André fez o mesmo com os povos nômades indo-europeus conhecidos como ‘citas’; Marcos foi ao Egito; Mateus dirigiu-se à Etiópia; Bartolomeu alcançou a Índia; João fixou-se na Ásia Menor.

Nos Atos dos Apóstolos é descrita a primeira comunidade cristã da História:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na Comunhão e no partir do pão, e nas orações. E em toda alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que acreditavam estavam juntos, e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo as necessidades de cada um. Perseverando unânimes todos os dias no Templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo.”

Atos dos Apóstolos 2,42-7


Aquele que desejasse pertencer à comunidade cristã devia ser batizado em nome de Jesus: o batismo consistia numa cerimônia iniciática na qual o candidato, ao imergir num rio ou tanque, "morria" para a sua vida antiga e "renascia" para uma vida nova, tendo por modelo o próprio Cristo, conforme relata o a epístola à igreja de Éfeso, no verso 13 do capítulo 4.

O catecúmeno - nomezinho feio para designar aquele que se preparava a receber o batismo – era instruído no ensinamento dos apóstolos, que poderia durar anos, e sua inserção na comunidade se dava de forma gradual. Nos primeiros séculos, o cristão só tinha uma oportunidade de cometer alguma falta grave. Arrependendo-se, poderia, por meio da penitência, voltar à comunidade.

O mais antigo manual cristão conhecido, o ‘Didaquê’, (que quer dizer ‘instrução’), escrito entre os anos 90 e 100, portanto entre 50 e 70 anos após a morte de Jesus, caiu em desuso e quase foi perdido durante mais de oito séculos. – Falava sobre os usos e costumes dos primeiros cristãos, como o jejum às quartas e sextas-feiras e a oração do Pai Nosso três vezes ao dia.