História do Cristianismo - 3

Origens da Bíblia


A Bíblia é o livro mais lido de toda a história da humanidade: foi a primeira obra literária a ser impressa e já foi traduzida para 1.685 línguas(!). Milhões e milhões de pessoas procuraram e continuam procurando sabedoria e conforto nas suas páginas, e muitos encontraram aí a força e a coragem para viver a sua fé. Muitos outros se perderam em elucubrações lógicas, tentando conciliar as aparentes contradições existentes entre suas muitas afirmações. Outros acreditaram ter encontrado nela as previsões para todos os acontecimentos deste mundo, passados e futuros. Alguns insistem em interpretá-la ao pé da letra, acreditando literalmente, por exemplo, que todo o Universo foi criado em seis dias, mesmo contra todas as provas científicas e datações geológicas incontestáveis em contrário que temos hoje. Há também os que tentam conciliar as suas histórias com as histórias de outros livros sagrados de outros povos.

A Bíblia está repleta de narrativas fantásticas, que são míticas para os pesquisadores científicos, acontecimentos maravilhosos reais para os fundamentalistas, e preciosas lições metafóricas para os espiritualistas. - As histórias fantásticas da Bíblia serão contadas e analisadas, numa outra série do 'a Arte das artes' que começa em breve. Por ora, importa explicar o que é a Bíblia.

A Bíblia é sagrada para judeus, cristãos, muçulmanos e também para uma infinidade de outras religiões e seitas menores ao redor do globo, mas ela não caiu pronta do céu. Ela surgiu do meio de um povo muito singular do antigo Oriente: o povo de Israel, formado pelos descendentes de Abraão, os chamados hebreus. A grande obra literária hoje conhecida como 'Bíblia' na verdade não é um livro, mas uma coleção de livros, uma biblioteca reunida, daí o nome, que vem do grego 'biblios'. Segue a relação dos 73 livros que compõem a Bíblia, com a sua devida classificação:

Livros do Antigo Testamento ( 46 Livros )

PENTATEUCO (5)

- Gênesis
- Êxodo
- Levítico
- Números
- Deuteronômio

HISTÓRICOS (16)

- Josué
- Juízes
- Rute
- I Samuel
- II Samuel
- I Reis
- II Reis
- I Crônicas
- IICrônicas
- Esdras
- Neemias
- Tobias
- Judite
- Ester
- I Macabeus
- II Macabeus

POÉTICOS E SAPIENCIAIS (7)

- Jó
- Salmos
- Provérbios
- Eclesiastes
- Cântico dos Cânticos
- Sabidoria
- Eclesiástico

PROFETAS (6)

- Isaías
- Jeremias
- Lamentações
- Baruc
- Ezequiel
- Daniel

PROFETAS (12)

- Oséias
- Joel
- Amós
- Abdias
- Jonas
- Miquéias
- Naum
- Habacuc
- Sofonias
- Ageu
- Zacarias
- Malaquias


Livros do Novo Testamento ( 27 Livros )

EVANGELHOS E ATOS DOS APÓSTOLOS (5)

- Evangelho segundo São Mateus
- Evangelho segundo São Marcos
- Evangelho segundo São Lucas
- Evangelho segundo São João
- Atos dos Apóstolos

EPÍSTOLAS DE PAULO (14)

- Romanos
- I Coríntios
- II Coríntios
- Gálatas
- Efésios
- Filipenses
- Colossenses
- I Tessalonicenses
- II Tessalonicenses
- I Timóteo
- II Timóteo
- A Tito
- A Filemon
- Hebreus

EPÍSTOLAS CATÓLICAS OU UNIVERSAIS (8)

- Epístola de Tiago
- Epístola I de Pedro
- Epístola II de Pedro
- Epístola I de João
- Epístola II de João
- Epístola III de João
- Epístola de Judas
- Apocalipse


Lembrando que esta é a relação completa dos livros da Bíblia, já que na chamada Bíblia protestante, adotada a partir do século XVI por Lutero, não constam os livros de Tobias, Judite, algumas partes dos livros de Daniel e de Ester, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, Carta de Jeremias e os dois livros dos Macabeus. Mas por que essa diferença? Essa é uma longa história, mas já que este é um post explicativo... É preciso explicar, oras! Então vamos lá...




COMEÇO DA HISTÓRIA: 300 ou 400 anos antes do nascimento de Jesus muita gente imigrou da Palestina para o Egito... Assim como os italianos que vieram para cá para o Brasil ainda falavam o italiano, mas os filhos começaram a falar português, e os netos já não entendem mais o italiano, assim aconteceu com os judeus que saíram da Palestina para morar no Egito.

Na Palestina falavam o aramaico, que é semelhante ao hebraico. A primeira e a segunda gerações entendiam o hebraico, mas a terceira não entendia porque era uma língua que eles não falavam.

Então sentiu-se a necessidade de fazer uma tradução da Bíblia. A tradução foi feita aos poucos e levou muito tempo. Começou em torno do ano 250 antes de Cristo e levou quase 100 anos até ficar pronta.

Assim eles acabaram ficando com duas Bíblias: uma em língua hebraica para os judeus da Palestina, e outra em língua grega para os judeus que viviam fora da Palestina, lá no Egito.

Os judeus que moravam no Egito foram escrevendo mais alguns livros em grego, e a Bíblia deles ficou maior.

Então os judeus da Palestina confrontaram as duas Bíblias, e fizeram uma lista dos livros que para eles eram Sagrados. Deixaram fora da lista os livros que os judeus do Egito tinham escrito a mais, em grego.

O pessoal do Egito soube disso, mas não ligou e continuou deixando a sua lista aberta. Assim, na Bíblia grega dos judeus, foram acrescentados sete livros a mais: Eclesiástico, Sabedoria, os dois dos Macabeus, Tobias, Judite e Baruc. Além disso, uns trechos de Daniel e Ester e uma Carta de Jeremias. Sendo assim a Bíblia deles ficou mais longa.

A Bíblia dos protestantes segue a lista da Bíblia Hebraica dos judeus da Palestina; a Bíblia dos católicos segue a lista da Bíblia Grega dos judeus do Egito, que se espalhou pelo mundo todo desde aquele tempo, pois a língua do mundo era o grego.


O MEIO DA HISTÓRIA: Os primeiros cristãos eram de Jerusalém e usavam a Bíblia em língua hebraica, aquela mais curta. Mas quando vieram as perseguições, os cristãos começaram a se espalhar para outros países, onde a língua falada era o grego. Passaram então a usar a Bíblia escrita em língua grega.

Tudo ficou tranqüilo até que os judeus da Palestina, para se defender contra os cristãos, começaram a dizer: "Tá vendo?! A Bíblia deles está errada. Tem livros demais."... - Aí fizeram uma reunião no ano 97 dC, e disseram: "Para nós a Sagrada Escritura é esta aqui, a lista pequena". - Mais uma vez, a exemplo dos judeus do Egito, os cristãos não ligaram muito e ficaram com a lista mais longa, que eles consideravam toda Palavra de Deus, inspirada por Ele.

Por volta do ano 400 dC, o Papa Dâmaso pede a Jerônimo, biblista, que traduza a Bíblia para o latim, pois naquele tempo não se falava mais nem o hebraico e nem o grego, mas sim o latim. Precisava então de alguém que fizesse uma nova tradução, para que todo o mundo pudesse entender. Jerônimo concordou e começou a trabalhar.

Jerônimo, porém, não conhecia o hebraico. Procurou então um velho rabino judeu de Belém, para ter aula com ele e os dois acabaram ficando muito amigos. Trocavam idéias sobre a Bíblia, até que Jerônimo ficou influenciado pelo rabino e começou a pensar que a verdadeira Bíblia era aquela mais curta, a dos judeus.

Jerônimo, porém, sabia que a Igreja não pensava como ele; então traduziu tudo, mas disse que os sete livros que não estavam na Bíblia hebraica eram "deuterocônicos": "dêutero" que dizer segundo; "canon" significa lista ou categoria.

São livros da segunda lista, segunda categoria.


O FIM DA HISTÓRIA: A opinião de Jerônimo tinha muito peso na Igreja. Aí a briga começou de novo. Antes ninguém tinha dúvidas, mas depois que Jerônimo veio com esta de "deuterocanônicos", a discussão voltou a ser forte e a briga continuou por muitos e muitos anos.

Com o passar dos séculos, foi ficando tão sério que os bispos resolveram pronunciar-se oficialmente. Fizeram isto numa Carta escrita durante o Concílio Ecumênico de Florença, no ano de 1439. Nesta Carta diziam que para a Igreja Católica faziam parte da agrada Escritura todos os Livros da lista longa.

Tudo parecia em paz, quando o assunto voltou à tona por causa de Lutero. Tendo deixado, por protesto, a Igreja Católica, Lutero tinha começado a Igreja Protestante. A primeira preocupação dele foi traduzir a Bíblia do latim para o alemão.

A Bíblia que Lutero traduziu, porém, foi a Bíblia pequena, aquela dos Hebreus, e com ela reabriu-se mais uma vez a discussão dentro da Igreja. Então, no Concílio de Trento, os Bispos definiram a coisa e, encerraram a discussão: "A Bíblia que a Igreja Católica aceita como inspirada por Deus é aquela longa". Desde então os católicos ficaram com a Bíblia longa e os protestantes com a curta, como Lutero a tinha traduzido.

E esta diferença existe ainda hoje, embora existam também Bíblias protestantes que tragam os outros Livros, porque reconhecem que são Livros antiquíssimos e de grande valor espiritual, humano e histórico.


Agora já sabemos porque a Bíblia católica e a protestante são diferentes, embora não exista nada de fundamentalmente diferente entre uma e outra. A mensagem é a mesma, a origem é a mesma e a doutrina é a mesma. Os livros que constam em uma a mais ou a menos em outra não se contrariam entre si, nem a falta deles significa que o ensinamento esteja incompleto.

Mas esse foi só o começo da nossa história... Você não esperava que eu pudesse contar a origem da Bíblia, mesmo que resumidamente, numa só postagem, não é?



Fonte:
Pe. Lucas de Paul Almeida, CM;
Portal
Diocese de Bauru.