História do Cristianismo - 4

Origens da Bíblia - conclusão


A Bíblia não foi escrita de uma só vez. Levou quase 1.300 anos para alcançar a sua forma atual(!). Começou a ser compilada aproximadamente 1.200 anos antes de Jesus e terminou cerca de 100 anos após o seu nascimento, quando o Apóstolo João Evangelista escrevendo o Apocalipse. Mas as suas origens remontam a tempos bem anteriores a 1200 aC. As histórias que foram registradas nos livros da Bíblia certamente tiveram a sua origem na tradição oral dos antigos hebreus, isto é, as histórias tradicionais que eles contavam uns aos outros e que eram passadas de geração em geração. Essa transmissão oral das histórias de acontecimentos antigos certamente permaneceu por muito tempo entre aquele povo, até que os chamados escribas começaram a passar tudo para o papel. Foi assim que, pouco a pouco, a Bíblia começou a ser formada.

A maior parte da Bíblia foi escrita na Palestina, terra onde o povo hebreu viveu e por onde Jesus andou. Outras partes foram escritas na Babilônia, onde o povo de Israel viveu como escravo por 70 anos, e no Egito, para onde muitos deles se mudaram a partir de um certo período da História. Outras partes, ainda, foram escritas na Síria, na Ásia menor, na Grécia e na Itália.

Por isso tudo é muito importante estudar a Bíblia com extremo cuidado e atenção: ela utiliza modos de falar e pensar BEM diferentes do nosso. Se não soubermos interpretar corretamente as suas mensagens, corremos o risco de deturpar o seu real significado. E acredite, isso é o que mais se vê.

Como vimos no post anterior, a Bíblia foi escrita em três línguas: hebraico, aramaico e grego, que foram as línguas que se sucederam na terra onde o povo hebreu viveu, e que eram faladas pelos povos que escreveram os diferentes livros que a compõem. Dentro da Bíblia nós encontramos de tudo: fatos históricos, mitologia, histórias metafóricas, provérbios, cânticos, cartas, leis, etc... Mas por trás de tudo isso está o anúncio da mais importante das mensagens: a da importância de se conhecer a Deus como Pai, o Criador de todas as coisas, e ver em cada um dos nossos próximos um irmão ou uma irmã.

Sendo a Bíblia é uma biblioteca composta de 73 livros escritos por autores diferentes em épocas diferentes, não é de se admirar que o estilo narrativo e até doutrinário de muitos desses livros sejam bem diversos e por vezes pareçam até contraditórios. Mas esse é um outro longo assunto que terá que ficar para uma outra ocasião. Alguns dos livros que compõem a Bíblia não passam de uma página; outros são bem maiores. Todos eles, porém, descrevem a história de um povo que viveu a busca da única verdadeira felicidade: Deus.


Os dois Testamentos da Bíblia cristã:

O Antigo Testamento (AT), que é uma preparação para a vinda de Jesus. Corresponde aos tempos da Antiga Aliança (‘testamento’, no contexto bíblico, quer dizer ‘aliança’), uma longa saga que se inicia com a criação do Universo e vai até aproximadamente 465 aC (época da produção do último livro do AT – o do Profeta Malaquias). Ao longo de todo esse tempo, o povo de Israel vai vivendo uma espécie de 'graduação' espiritual: é liberto da escravidão do Egito pelo próprio Criador, que se manifesta a Moisés e se identifica como o “Deus de Abraão, Isac e Jacó”, o conduz à terra prometida, o educa para a liberdade e a fraternidade e o prepara para a vinda do seu próprio Filho, no futuro. Mas, apesar da mensagem central de Amor e fraternidade, o AT está recheado de passagens bem complicadas para as mentes mais sensíveis, cenas e afirmações que refletem usos, costumes e tradições dos povos orientais da Antiguidade, bem difíceis de serem entendidas pelo ocidental moderno. Precisamos tomar cuidado e analisar tudo dentro do seu devido contexto, e evitar interpretar exortações que foram feitas há 4.000 anos usando dos nossos padrões de moral atuais; - que por sinal foram completamente moldados pelo próprio Cristianismo...

O Novo Testamento (NT), que contém os quatro Evangelhos canônicos, onde se narra a vida de Jesus Cristo, seus ensinamentos, milagres, morte e ressurreição. Os seus demais livros relatam o nascimento da Igreja, - seus primeiros passos e a sua atuação à luz do Espírito Santo. - No NT encontramos ainda as cartas enviadas pelos Apóstolos às várias comunidades da Igreja nascente, com o objetivo de direcionar, animar e alinhar a fé dos irmãos em Cristo, anunciando as Boas Novas (em grego Besora = Evangelho) de Jesus Cristo.


Para facilitar a sua leitura e a localização das lições, a Bíblia foi dividida em ‘capítulos’ e ‘versículos’ ou versos. Essa divisão foi feita no ano de 1.228, pelo cardeal Langton. A Bíblia toda possui 1.333 capítulos e 35.700 versículos. 'Capítulo', na Bíblia, corresponde a um trecho longo, formado por vários 'versículos', que são trechos mais curtos, formados por uma frase ou menos.

Cada livro da Bíblia possui uma abreviação específica. Por exemplo: o livro do Gênesis, o primeiro do AT, abrevia-se Gn; o livro do Êxodo abrevia-se com as letras Ex; o Evangelho de Mateus com Mt; o livro do Apocalipse com as letras Ap, e assim por diante. - As abreviações são muito usadas nas citações de passagens bíblicas.

Vejamos agora como encontrar um trecho na Bíblia. Para ler 'Jr. 20, 7 - 9', procure do profeta Jeremias. - Se é um profeta, você já sabe que está no Antigo Testamento, certo? - Esse livro possui 52 capítulos. No exemplo em questão, nós estamos interessados no capítulo 20. Quando encontrar esse capítulo, vai notar que ele tem 18 versículos. Aí é só procurar os versículos 7-9, isto é, do 7 ao 9: os de número 7, 8 e 9. Muito simples.


Milhões de pessoas de diversas nacionalidades consideram a Bíblia como o maior presente que Deus legou à humanidade. Outros a vêem como um entre outros livros sagrados, e outros a entendem como ‘apenas’ um tesouro histórico. Mas independente da sua relação (se é que existe alguma) com a Bíblia Sagrada, é fato incontestável que se trata do documento espiritual e histórico mais importante da história humana. A leitura cotidiana da Bíblia é uma grande (e intrincada) arte, e deve ser encarada como tal.


Quem traduziu a Bíblia?

Já vimos que a Bíblia possui três idiomas de origem (hebraico, aramaico e grego). Mas com o passar do tempo, foram surgindo traduções para diversos idiomas. Hoje em dia, a Bíblia é o livro mais traduzido no mundo, e isso foi graças ao esforço de muitos estudiosos de épocas passadas. Jerônimo é um grande exemplo disso: foi ele quem primeiro traduziu a Bíblia para o latim. Pouco a pouco, após essa primeira tradução, foram sendo feitas novas traduções em mais e mais línguas, até chegar ao ponto atual: a Bíblia como o livro mais lido mundialmente.




A pergunta mais importante: como interpretar a Bíblia?

A correta interpretação da Bíblia é fundamental para qualquer cristão, mas NÃO devemos interpretá-la de qualquer maneira. É muito importante notar que, segundo a própria Bíblia, Jesus Cristo deu autoridade aos seus Apóstolos para que transmitissem a sua real mensagem aos quatro cantos do mundo, e isso para que os seus ensinamentos não fossem deturpados e nem interpretados equivocadamente.

A Bíblia pode facilmente se converter, de instrumento da Verdade, num pretexto para se justificar todo tipo de exploração da fé, fanatismo e superstição, o que já ocorreu inúmeras vezes ao longo da história humana. - Fundamentar uma fé cega na Bíblia, como a única detentora de todas as respostas que nunca erra, e ao mesmo tempo crer que basta a sua leitura para se conhecer a Verdade final de todas as coisas: eis aí uma combinação perigosíssima. Muitos são os equívocos que podemos cometer na tentativa de interpretar a Bíblia sem a ajuda de outras fontes ou de um conhecedor do assunto.

O mundo de hoje está repleto de seitas e religiões que pregam a livre interpretação dos textos bíblicos, desprezando qualquer conhecimento prévio dos seus significados e contextos. Absolutamente qualquer um pode ler a Bíblia, interpretá-la ‘do seu jeito’, alugar uma garagem e criar uma nova ‘igreja’. E isso vêm acontecendo mais e mais, a cada dia que passa... O que vemos ao nosso redor, nos dias de hoje, é uma profusão de seitas e mais seitas que pregam interpretações pessoais e descomprometidas dos textos sagrados. Alguém simplesmente lê a Bíblia, decora meia dúzia de passagens e se acha no direito de 'pastorear' outras pessoas. Basta uma breve busca na internet para encontrar uma infinidade de "cursos para 'pastor’" que não duram mais do que três ou quatro meses! Sei, pelo testemunho direto de ex-alunos de alguns desses cursos, que a ênfase de tais aulas está muito mais no poder de persuasão e nas técnicas de comunicação e convencimento do pregador do que no conhecimento aprofundado da Bíblia em si. Quais os resultados da proliferação indiscriminada desses verdadeiros 'profissionais da fé'? Os exemplos são inúmeros e estão ao nosso redor. Cada um faça a sua análise segundo o seu discernimento e a sua consciência.


Enquanto isso, há milhares de anos...

"Não se preocupe tanto com a exatidão histórica. O importante
é a mensagem, ninguém vai levar tudo literalmente, mesmo..."



Fonte bibliográfica:
STACCONE, Giuseppe. Teologia para o Homem Crítico, São Paulo: Editora Vozes,1984, p. 30;
Charge: Sipress. Veja 2099 - 02/2009, Acervo Editora Abril.