O enigma de Darwin

Charles Darwin (*1809 + 1882)

Charles Darwin é um verdadeiro enigma moderno. Não sob a ótica da ciência, área em que seu trabalho é plenamente aceito e festejado como ponto de partida para um grau de conhecimento sem precedentes a respeito dos seres vivos. Sem a teoria da evolução, a moderna biologia, - incluindo a medicina e a biotecnologia, - simplesmente não faria sentido. O enigma reside na relutância, quase um mal-estar, que suas ideias ainda causam entre um vasto contingente de pessoas, algumas delas fervorosamente religiosas, mas outras nem tanto.

Vejamos o que ocorre nos Estados Unidos: estamos falando de um país que, longe de ser apenas a superpotência tirana e imperialista que seus inimigos tanto gostam de pintar, dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade de todos os cientistas premiados com o Nobel e registra mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos somados. Ainda assim, somente um em cada dois cidadãos americanos acredita que o homem possa ser produto da evolução das espécies. - O outro considera razoável que nós, do jeito que somos, juntamente com todas as coisas que existem e nos cercam, do jeito que são hoje, sejamos dádivas prontas e finalizadas da Criação divina.

Mesmo na Inglaterra, país natal de Darwin, o fato de ele ser festejado como herói nacional não impede que um em cada quatro ingleses duvide de suas ideias ou as veja como pura enganação. No ano do bicentenário de nascimento de Darwin e, por coincidência, ano de aniversário de 150 anos da publicação de seu livro mais célebre, A Origem das Espécies, como explicar a persistente má vontade para com as suas teorias em países campeões na produção científica?

Para investigar a razão pela qual as ideias de Darwin ainda são vistas como perigosas, é preciso recuar no tempo e observar o passado. Quando o naturalista inglês propôs pela primeira vez as suas teses sobre a evolução pela seleção natural, a maioria dos cientistas acreditava que a Terra não tivesse mais de 6.000 anos de existência(!) e que as maravilhas da natureza fossem manifestação da Sabedoria divina. A hipótese mais aceita sobre os fósseis de dinossauros era que se tratavam de resquícios das criaturas que perderam o embarque na Arca de Noé e haviam sido extintas pelo dilúvio bíblico(!).

A publicação de A Origem das Espécies teve o efeito de um tsunami na Inglaterra vitoriana. Os biólogos se viram desmentidos na sua certeza de que as espécies eram imutáveis. A Igreja, bem como os religiosos de todas as religiões, ficou perplexa por alguém desafiar a crença segundo o qual Deus criou o homem à sua semelhança e todos os animais já da forma como os conhecemos hoje. A sociedade se chocou com a deturpada conclusão de que o homem não seria um ser especial na natureza e, ainda por cima, teria parentesco com macacos. Havia, naquele momento, uma compreensível grande contestação, mesmo científica, às novas ideias. Darwin havia reunido, sim, uma quantidade impressionante de provas empíricas – mas ainda restavam, como ainda restam, muitas questões sem resposta.


'A Origem das Espécies' - 1859


O primeiro exemplar de A Origem das Espécies a sair da gráfica foi enviado a sir John Herschel, um dos mais famosos cientistas ingleses vivos em 1859. Darwin tinha tanta admiração por ele que o citou no primeiro parágrafo de sua obra. Herschel não gostou do que leu. Ele não podia acreditar, sem provas científicas tangíveis, que as espécies podiam surgir de variações ao acaso. Pressionado, Darwin disse que, se alguém lhe apontasse um único ser vivo que não tivesse um ascendente, sua teoria poderia ser jogada no lixo. - O que se encontrou, a partir daí, foram evidências em profusão da correção do pensamento de Darwin, ao menos em seus pontos essenciais. Hoje, para entender a história da evolução, sua narrativa e mecanismo, os modernos darwinistas não precisam conjeturar sobre o funcionamento da hereditariedade. Eles simplesmente consultam as estruturas genéticas. As evidências que sustentam o darwinismo são agora de grande magnitude – mas, estranhamente, a ansiedade permanece.

Outros pilares da ciência moderna, como a teoria da relatividade, de Albert Einstein, não suscitam tanta desconfiança e hostilidade. Raros são aqueles que se sentem incomodados diante da impossibilidade de viajar mais rápido que a luz ou saem à rua em protesto contra a afirmação de que a gravidade deforma o espaço-tempo. Evidentemente, o núcleo incandescente da irritação causada por Darwin deve ter origens religiosas. A descoberta dos mecanismos da evolução enfraqueceu o principal argumento disponível na época para a existência de Deus. Se Ele não é responsável por todas as maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente sentida através da fé de cada indivíduo. Mas isso não bastava na época de Darwin. E a postura de certos homens de ciência só fazia piorar a situação. - Em 1920, ao escrever sobre o impacto da divulgação das ideias darwinistas, Sigmund Freud deu seu afobado palpite: "Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal". Pelo raciocínio do psicanalista, a rejeição à teoria da evolução seria uma forma de compensar o "rebaixamento" da espécie humana contido nas ideias de Copérnico e Darwin.

Bem, uma boa parte dos mais brilhantes cientistas de hoje concordaria que afirmar que o ser humano, mesmo sob uma ótica estritamente científica, não é um ser especial, que não se destaca na natureza de maneiras ainda incompreensíveis, seria no mínimo um radicalismo. Mas em fins do século 19 e início do 20 faltava bom senso e noção de meio-termo, tanto por parte da maioria dos religiosos quanto dos cientistas. O que ainda ocorre nos dias de hoje.

O biólogo americano Stephen Jay Gould, um dos grandes teóricos do evolucionismo no século 20, falecido em 2002, dizia que as teorias de Darwin são tão mal compreendidas não porque sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las. Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra.

"As grandes ideias e teorias são aceitas ou rejeitadas popularmente por suas consequências, não pelo seu valor intrínseco. Infelizmente, a evolução é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos".

Stephen Jay Gould (EUA), biólogo e teórico exponencial do evolucionismo, falecido em 2002


Uma pesquisa publicada pela revista New Scientist sobre a aceitação do darwinismo ao redor do mundo mostra que os mais ardentes defensores da evolução estão na Islândia, Dinamarca e Suécia. De modo geral, a predominância da crença na evolução inversamente proporcional à da crença em Deus. Mas a pesquisa encontrou outra configuração interessante: os habitantes dos países ricos acreditam menos em Deus que aqueles que vivem em países inseguros.


Medo da separação


Emma Darwin


Muito religiosa, Emma, a esposa de Darwin, temia que o marido fosse para o inferno. Ela dava por certo que iria para o céu, e sofria com a ideia de ficar separada do marido pela eternidade.

Mas, se por um lado a teoria da evolução causa mal-estar em muita gente, a verdade é que só algumas confissões evangélicas converteram o darwinismo em um inimigo a ser combatido a todo custo. Como essas religiões são poderosas nos Estados Unidos, é lá que se trava o mais renhido combate dessa 'guerra santa'. Ciência e religião já andaram de mãos dadas pela maior parte da história da humanidade (post futuro). Mas esse nó se desatou há dois séculos e Darwin foi um dos maiores responsáveis por esse funesto divórcio, com nítidas desvantagens para ambos os lados.

Desde o ano passado, o bordão entre os criacionistas americanos é "liberdade acadêmica". A ideia que tentam passar é que o darwinismo é apenas uma teoria e não um fato, que ainda por cima está cheio de lacunas e é carente de provas conclusivas. Sendo assim, não há por que Darwin merecer maior destaque que o criacionismo. Mas a verdade é que esse argumento é muito fraco. Em seu significado comum, 'teoria' é sinônimo de hipótese, de 'achismo'. - Mas a teoria da evolução de Darwin leva o termo em sua conotação científica, muito mais rígida. - Nesse caso, a teoria é a síntese de um vasto campo de conhecimentos formado por hipóteses que foram testadas e comprovadas por leis e fatos científicos. Ou seja, uma linha de raciocínio que foi confirmada por evidências e experimentos.

A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. O conhecimento humano só começa cerca três minutos depois do evento, quando as leis da física passaram a existir. Os cientistas também não são capazes de recriar a vida a partir de uma poça de água e alguns elementos químicos – o que muitos acreditam ter acontecido 4,5 bilhões de anos atrás. Teria a Mão de Deus contribuído para que esses eventos primordiais tenham ocorrido? Não cabe à ciência responder enquanto não houver provas científicas do que aconteceu, e por isso mesmo, acreditar numa Energia inteligente suprema e criadora não contraria a ciência, em essência, e vice-versa.

O fato é que a luta dos criacionistas contra Darwin nada tem de científica. Em sua profissão de fé, eles têm o pleno direito de acreditar literalmente em tudo o que diz o livro do Gênesis. - Coisa bem diferente é querer impingir essa maneira de enxergar a natureza às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamentos da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural.

Sidarta Gautamam, o Buda histórico, entendeu a importância de se trilhar o Caminho do Meio. Manda o bom senso que não se contraponha ciência à religião. A primeira perscruta os mistérios do mundo físico; a segunda, os do mundo espiritual. Elas não necessariamente se eliminam. Há cientistas eminentes que creem em Deus e não veem nisso nenhuma contradição com o darwinismo. Um dos mais conhecido deles é o biólogo americano Francis Collins, um dos principais responsáveis pelo mapeamento do DNA humano e diretor do Projeto Genoma. Diz ele: "Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. A Bíblia não é um livro científico. Não deve ser levado ao pé da letra".

A Igreja Católica aceitou há bastante tempo que sua atribuição é cuidar da alma de seu 1 bilhão de fiéis e que o mundo físico é mais bem explicado pela ciência. E, mesmo chefiado por um Papa que muitos consideram conservador, o Vaticano até organizará, ainda em Março deste ano, o simpósio 'Evolução biológica: fatos e teorias – Uma avaliação crítica 150 anos depois de A Origem das Espécies'. - Isto é, sim, evolução do pensamento religioso: necessária e sempre benéfica.



Veja o quadro 'Atualidade da evolução' (o darwinismo explica).



Fonte:
Reportagem de Gabriela Carelli, Leandro Narloch, Paula Neiva e Renata Moraes. Veja 2099 - 02/2009, Acervo Editora Abril. Contém excertos de Henrique K. Merton.