Criacionismo X Evolucionismo

Professor Michael Reiss

Michael Reiss, reverendo anglicano e dirigente de educação da Royal Society britânica, a mais prestigiada sociedade científica da Inglaterra, cometeu um deslize para ser lembrado para o resto de sua vida. - Em discurso na Inglaterra, em setembro do ano passado, ele sugeriu que a teoria da evolução de Charles Darwin, que vimos no post anterior, deveria ceder ao criacionismo parte do seu espaço no currículo escolar básico. O que se seguiu ao pronunciamento foi uma tempestade pública que só se acalmou com a demissão de Reiss do cargo de diretor.

O episódio deu a oportunidade perfeita para as duas mais importantes confissões cristãs da Inglaterra reiterarem seu apoio à teoria da evolução de Darwin. O primeiro veio da Igreja Anglicana, na qual o naturalista inglês é batizado: um pedido de desculpas pela posição contrária de alguns de seus clérigos, como é o caso de Reiss, – que não representa a posição oficial da instituição religiosa, que jamais o condenou. "Duzentos anos após seu nascimento, a Igreja Anglicana da Inglaterra lhe deve desculpas (a Darwin) pelos mal-entendidos"...

A segunda manifestação partiu do presidente do Conselho para a Cultura do Vaticano, Gianfranco Ravasi, que reafirmou que "não há contradições entre o evolucionismo e as idéias católicas".

A Igreja Católica jamais se declarou contra teoria da evolução de Darwin, embora tenha mostrado certa relutância em aceitá-la nas primeiras décadas após a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. - Reação idêntica a da própria comunidade científica da época. - E foi exatamente a retomada das descobertas genéticas pelo monge católico Gregor Mendel, no século 20, que permitiu à ciência comprovar a teoria evolucionista – até então controversa e puramente abstrata.

Em 1950, o papa Pio XII afirmou que "não há contradição entre a evolução e a doutrina cristã", posição que foi reforçada por João Paulo II, em 1996. Já o ministro de Cultura do Vaticano lembrou que "Darwin nunca foi condenado e seu livro 'A Origem das Espécies' nunca foi proibido pela Igreja Católica". - O sacerdote espanhol e professor de história da ciência, Rafael Martínez, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, disse à revista VEJA que "os primeiros mal-entendidos a respeito da aceitação da teoria da evolução referem-se a uma interpretação literal da narração bíblica da criação. Hoje entendemos que a Sabedoria Divina criou o mundo utilizando as forças da natureza".

A aversão que ainda persiste às idéias de Darwin deve-se a um grupo específico de religiões, como algumas confissões batistas, metodistas e pentecostais, que permanecem presas à leitura ao pé da letra da origem do Universo contida na Bíblia. São os chamados 'criacionistas', um grupo bem instalado em algumas regiões dos Estados Unidos e em outras cidades importantes do mundo, como São Paulo (Brasil).

O comunicado da Royal Society diz que os comentários de Reiss, que havia falado na condição de dirigente da entidade, se prestavam facilmente a "interpretações erradas", e conclui: "Mesmo que não fosse essa sua intenção, houve dano à reputação da Society. O criacionismo carece de base científica e não deveria ter parte no currículo de ciências. E se um jovem levanta a questão do criacionismo numa aula de ciência, os professores deveriam ser capazes de explicar que a evolução é uma teoria com sólida base científica e que esse não é o caso, de modo algum, com o criacionismo".

O prelado acrescentou ainda que, para um estudo produtivo do evolucionismo, se faz necessário um "ato de humildade" da parte dos teólogos e "a superação da arrogância" por parte de alguns cientistas.



Aprofundando o assunto:
Darwinismo em debate no Vaticano;
Darwin na perspectiva cristã (para ler e ouvir);
Instituto Presbiteriano Mackenzie defende criacionismo em aulas de ciências.



Fontes:
Portal do jornal O Estado de São Paulo, seção Vida & Educação - http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid243441,0.htm (27/02/2009);
Revista Veja. Edição 2079, de 24 de setembro de 2008.