Ciência e fé unidas

Um post para encerrar, ao menos por hora, esse assunto tão extenso, que envolve Darwin e o evolucionismo, ciência e fé e a batalha criacionismo X evolucionismo. Temas que não poderiam deixar de ser abordados por um buscador da Verdade, no ano do bicentenário do nascimento de Darwin e do sesquicentenário de A Origem das Espécies, sua obra magna...




Ensinar Adão e Eva nas aulas de ciências representaria, no meu ponto de vista, um retrocesso para a humanidade, visto que para se entender, e, principalmente, para se ensinar as histórias bíblicas é preciso conhecimento de causa, coisa que hoje poucos professores possuem. Dado todo o conhecimento científico que alcançamos hoje, tornou-se inadmissível uma interpretação literal de certas narrativas bíblicas, em especial as do Antigo Testamento. Mesmo tendo a Bíblia como livro sagrado, em nome do bom senso é preciso aceitar, por exemplo, que o mundo não foi criado em seis dias. Até porque, antes de existir o sol e a lua (criados no 4° dia) a passagem do tempo não poderia ser contada em termos de 'dia' e 'noite'. Tenho que aceitar, baseado na inteligência e no discernimento, - que são dádivas divinas, - que o sentido e a explicação para tais histórias deve ser outro que não o literal. E encontrar essa explicação é tarefa que compete aos mestres da religião; não a educadores em sala de aula.

Mas essas são conclusões a que podemos chegar em nossa realidade atual (2009). É importante saber e manter em mente que nem sempre foi desse jeito, e que muitas das grandes descobertas científicas foram feitas por grandes gênios que conviveram muito bem com as ideias religiosas.

O primeiro místico foi também o primeiro cientista: um ser humano comum, olhando para o céu noturno, há 30.000 anos. Ele viu a lua cheia e se encheu de devoção e conjecturas... Partes diferentes do seu cérebro processaram, à sua maneira, as informações visuais captadas pelos seus olhos. Uma delas, o lobo temporal, registrou aquela luz prateada e pálida emanando de um disco que parecia flutuar no espaço... Aquilo lhe pareceu uma experiência sublime, inexplicável, superior... Religiosa! Mas, ao mesmo tempo, outras regiões do cérebro tentavam avaliar se aquele objeto luminoso oferecia algum perigo, se podia despencar causando danos, se a sua aparição na abóbada celeste se repetiria ou se poderia ser relacionada com algum outro fenômeno, como a escassez ou abundância de caça...

O astrônomo francês Guillaume Bigourdan (1851-1932) chegou a sugerir, falando poéticamente, que o último homo sapiens deste planeta será, talvez, surpreendido pela morte quando entretido com a mesma lua cheia; e por maior que seja a sua educação e o seu conhecimento científico, - sua mais exata noção do tamanho, das distâncias e dos formatos das órbitas – ela continuará a lhe parecer sublime, inexplicável, superior... Religiosa!

"Isso é do homem: contar lunações, medir órbitas, calcular frequências... Mas se prostrar extático diante da imensidão do Universo".

Guillaume Bigourdan


Por eras, o lado místico e o científico da mente humana conviveram sem conflitos. Com a evolução trazida pelo desenvolvimento das técnicas agrícolas e pecuárias, as sociedades primitivas puderam se dar ao luxo de formar e manter indivíduos dedicados a tarefas específicas: o guardião armado para cuidar da segurança da tribo, o sacerdote para aplacar as fúrias naturais e adivinhar o trajeto dos mamutes, o legalista para julgar e punir quem ferisse as regras de convivência do grupo... Mas, mesmo depois disso, com as tarefas práticas entregues a certos indivíduos e os rituais religiosos a outros, a fé e a razão continuaram como campos complementares da experiência humana. As civilizações da Antiguidade, - babilônica, chinesa, persa, hindu, grega e romana, - tiravam sua coesão social e sua força da fusão, que até então havia sido sempre natural, entre o místico e o prático. Os engenheiros romanos que projetaram e construíram o Anio Novus, o maior aqueduto do seu tempo, com 95 quilômetros de extensão, banharam-se em sangue de touro obedecendo aos preceitos da jus divinum[1] (lei divina) como forma de garantir a proteção dos deuses para o seu extraordinário empreendimento. A Europa medieval, apesar da névoa das muitas e contraditórias crenças, não deixou de progredir tecnologicamente. E nem o advento do Iluminismo, com seus métodos científicos cada vez mais depurados, nem a Revolução Industrial fizeram regredir a fé ou o poder das religiões de moldar o pensamento e o comportamento dos seres humanos.


O astrônomo Guillaume Bigourdan


Aquele que é reconhecido como o maior cientista de todos os tempos, ou o que teve o maior impacto na história, Sir Isaac Newton (1643-1727), ao tempo que mudava o curso dos pensamentos com as suas leis da gravitação universal e da mecânica clássica, considerava-se melhor teólogo do que astrônomo, e via mais possibilidades na alquimia do que no cálculo infinitesimal[2]. O poeta Alexander Pope escreveu, no epitáfio de Newton: "Nature and nature’s laws lay hid in night; God said ‘Let Newton be’ and all was light"[3]; Isto é:

"A natureza e as leis da natureza estavam imersas na noite; Deus disse 'Faça-se Newton', e tudo se iluminou."

Alexander Pope


Johannes Kepler (1571-1630), o mais fenomenal matemático de seu tempo, escondeu por dez anos o fato de ter confirmado as observações do astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), descobridor da forma elíptica das órbitas dos planetas do sistema solar, porque temia cometer uma heresia. O cristianimo, nessa época, já começava a aceitar a hipótese heliocêntrica de Copérnico, mas determinava que as órbitas desenhadas por Deus só poderiam ser círculos perfeitos. - Como se o homem pudesse determinar o significado de perfeição! - Na apresentação de sua obra Harmonices Mundi ('Harmonia do Mundo'), Kepler se desmancha em mística adoração ao Criador, em termos que chocariam os cientistas ou qualquer pensador racional dos dias atuais:

"Deixei-me levar pela fúria divina e roubei os barcos dourados dos egípcios para construir uma casa adequada ao meu Deus. Mas se isso O contrariar não hesitarei em queimar meus estudos!"[4]

Johannes Kepler, gênio matemático e descobridor das órbitas elípticas.


Kepler, que também era astrólogo, atribuía suas descobertas científicas a experiências de epifanias, ou seja, a revelações divinas(!). - Era em nome de Deus que os astrônomos e gênios Kepler e Newton, dois dos maiores expoentes da ciência em todos os tempos, efetuavam os seus estudos. Assim como Albert Einstein, eles julgavam estar lendo a mente divina.

Mas essa convivência pacífica entre a fé religiosa e a capacidade de pensar racionalmente não duraria muito mais tempo, a partir daí. E sou forçado a reconhecer que o lado que começou a dificultar as coisas, no começo dessa separação, foi o lado da fé, representado que estava por homens intolerantes. A ousadia crescente dos cientistas e filósofos surgidos a partir de meados do século XVII se tornaria mais e mais independente das igrejas, por culpa das próprias igrejas. Grandes choques entre fé e religião aconteceram, e começaram a se tornar comuns. São muitos os exemplos da arrogância (e ignorância) dos líderes religiosos da época, como o tratamento dado ao físico, matemático e astrônomo italiano Galileu Galilei. A postura da igreja católica e a pressão que sofreu por parte do 'Santo Ofício' o obrigaram a renegar publicamente seu apoio à hipótese de Copérnico. Lamentável. Enquanto isso, o próprio Kepler (luterano) sofria uma perseguição incansável por parte da igreja protestante, que além disso acusava sua mãe, Katharina, de bruxaria. Em 1600, para salvar a própria vida, Kepler teve que fugir da cidade onde estudava, em Graz, Alemanha. E em 1626 teve a sua casa incendiada, fato que o levou a deixar a Aústria e a refugiar-se em Ulm[5]. Triste. Situações desse tipo acabaram por, desgraçadamente, eternizar esses grandes gênios da ciência, - que nunca foram anti-religiosos, - como verdadeiros 'mártires da razão'.

Galileu investiu diretamente contra a interpretação literal das Escrituras, elaborando um conjunto de premissas que, de tão revolucionárias, continuam a ser a base de todas as experiências científicas até hoje: o Método Científico. Para que um experimento fosse realmente científico, concluiu Galileu, entre outras coisas ele deveria poder ser repetido por outras pessoas, em outros lugares e, dadas as mesmas condições, produzir os mesmos resultados. Simples? Sem dúvida. Mas revolucionário. Um alquimista jamais se colocaria esses entraves – para eles, os ingredientes, os processos e os conhecimentos eram segredos pessoais e intransferíveis, como os de um mágico...

Galileu foi também um extraordinário polemista. Ele refutou com veemência a crença predominante de que tudo o que Deus queria que os homens soubessem sobre o céu e a terra estava, integralmente, nos livros sagrados. "As Escrituras ensinam como chegar ao céu, mas não como ele funciona"[6], escreveu.

"Não posso aceitar que a visão de Deus sobre astronomia seja aquela que está na Bíblia. Se aceitasse isso, teria que negar Sua infinita perfeição."[7]

Galileu Galilei


Galileu pregava que Deus não falou aos homens sobre as ciências exatas pelas Escrituras, mas sim por uma outra linguagem, mais sutil e escondida: a da Natureza. E graças a uma outra grande dádiva divina, - a mente humana, livre e inteligente, - essa linguagem poderia ser lida com a ajuda da matemática, da observação, do apego à exatidão das medidas, pelas conjecturas e, principalmente, pela experimentação, em especial com a matéria em movimento[8]. Esse homem foi um sábio ou não?

Mas a maioria dos sábios que andaram de mãos dadas com as crenças religiosas de seu tempo, – lembrando sempre que crença é diferente de fé, – tinham a convicção de estar apenas revelando ao mundo a perfeição da Mente Divina, que a tornara acessível aos mortais por meio dos livros sagrados. Galileu era mais ambicioso do que isso. Ele tinha certeza de que a experimentação científica captaria as mensagens de Deus diretamente na Natureza e, se elas entrassem em contradição com as lideranças religiosas que interpretavam a Bíblia literalmente, paciência. Kepler se ofereceu para destruir seu própiro livro, numa demonstração de humildade puramente científica, sem dúvida. Mas Galileu sugeriu que, quando em choque com a verdadeira ciência, as crenças religiosas é que deveriam ser revistas. Ele buscava a Verdade libertadora prometida pelo Cristo:

"Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará."

Jesus Cristo (João 8, 32)


Albert Einstein reagiu da mesma maneira que Galileu, quando aconteceu enfim a confirmação empírica de um dos pontos de sua Teoria da Relatividade Geral, que estabelecia que a luz também sofre a ação da gravidade. - Informado de que astrônomos internacionais, observando um eclipse no Ceará, Brasil, em 1919, haviam constatado a deflexão da luz das estrelas nas proximidades do Sol, Einstein reagiu sem surpresa: "Se a luz não fosse desviada, Deus estaria errado!"[9] - Incrivelmente, alguns ateus ativistas absolutamente alienados ainda insistem em dizer que Einstein não acreditava em Deus! Claramente não se trata de de saber se ele acreditava ou não, - que acreditava é mais do que certo, dada a quantidade de declarações que fez nesse sentido; - é uma questão, sim, de de se definir o significado do termo Deus para Einstein.

Como se vê, as concepções básicas de Galileu ajudaram a criar o mundo moderno. Por isso, é inevitável a sensação de retrocesso quando se vê a multiplicação das tentativas de ensinar Adão e Eva nas aulas de ciências das escolas brasileiras. – Essa não é uma maneira inteligente de valorizar as Escrituras. Não é sensato crer que Deus espera que usemos a nossa inteligência e as nossas capacidades para nos achegarmos a Ele?

Uma mente poderosa como a do filósofo Giambattista Vico (1668-1744) usou argumentos de alta elaboração racional para defender a tese de que, ao investir contra as crenças religiosas, o ceticismo científico destruiria os fundamentos da civilização. Pode-se concordar ou discordar de Vico, mas não há como se refutar que essa lógica só poderia se aplicar ao modo de pensar mais raso, e também mais pessimista, sobre os seres humanos. No dia em que a humanidade houver realmente evoluído espiritualmente, o paradoxo da sabedoria humana se completará, e então aprenderemos a extrair Verdade tanto das Escrituras quanto do Livro Sagrado da Natureza que o Criador nos deu. E se Deus permitir que esse dia chegue, fé e razão caminharão, finalmente, juntas. Então as nossas chances de harmonia e felicidade serão muito maiores. Alguém refuta isso?





Fontes bibliográficas:
1. PLATNER, Samuel Ball. The Topography and Monuments of Ancient Rome, Michigan:‎ Universidade de Michigan, Digit. 2008, p. 99;
2. MAGEE, Bryan. História da Filosofia‎, São Paulo: Edições Loyola, 1999, p. 71;
3. DJERASSI, Carl / PINNER, David. Newton's Darkness, Londres: Imperial College Press, 2003, p.1;
4. Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - Ciência e Cultura, Brasília: 1981, p. 150;
5. Universidade Estadual de Campinas/Centro de Estudos de Religião. Religião e sociedade, São Paulo: Civilização Brasileira, 2008, p. 206;
6. BARBOUR, Ian G. Quando a Ciência Encontra a Religião- Inimigas, Estranhas ou Parceiras?, São Paulo: Pensamento-Cultrix, 1994, p. 22;
7. Idem;
8. Ibidem;
9. Universidade de São Paulo. Revista USP, São Paulo: Coordenadoria de Atividades Culturais, 1989, p. 38.
Postagem baseada em artigo do portal da revista Veja/acervo Grupo Abril:
http://veja.abril.com.br/110209/p_088.shtml - acesso em 2/03/2009.