A Ilusão, o ego, o Destruidor e a Verdade

O filme abaixo, produzido por um cineasta amador (dados ao final da postagem) que não contou com grandes investimentos, em 1979, é uma produção muito simples. Foi filmado sem grandes pretensões, e você não vai ver nenhum astro e nenhum efeito especial nele. Muitos se apressariam em dizer que esse filminho é simples até demais, tenho certeza... Mas eu digo que a mensagem que ele traz é importantíssima e absolutamente verdadeira: trata-se de um pequeno mas necessário lembrete a todos os buscadores da Verdade...


"A Ilusão"



Gostou? Eu gostei muito. E esse filme me fez lembrar da vez em que, durante uma seção de meditação, eu vivenciei o que alguns práticos em Análise Transacional chamariam de "visualização espontânea". Eu vi, em minha mente, uma criança de uns sete anos, algo parecida comigo mesmo, só que muito mais bonita do que eu jamais fui ou poderia ter sido, porque se tratava de uma criança incrivelmente, e mesmo anormalmente, linda. Essa criança estava sentada no chão com um enorme balde contendo tijolinhos de plástico coloridos de encaixar, estilo "Lego", parecendo muito satisfeita. E então esse menino ia construindo lindos castelinhos coloridos ao seu redor, com os tijolinhos de plástico. Mas, a cada vez que ele terminava ou estava quase terminando um castelo com os tijolinhos, chegava um velho estranho, muito parecido comigo mesmo, só que bem mais velho do que eu, e chutava tudo, derrubando por terra todo o árduo trabalho.

Mas o menino não se conformava e nem se dava por vencido. - Ele não descansava: começava a reconstruir tudo de novo, sem parar. - E voltava a ter o seu trabalho destruído pelo velho inconveniente. Mas o menino não desistia nunca e continuava erguendo os seus castelos coloridos, cada vez mais intrincados e bem constuídos. O velho ficava observando tudo a uma certa distância, e às vezes parecia se interessar pelas construções do menino, que eram sempre muito bonitas e esbanjavam criatividade. O tipo de coisa que ninguém teria coragem de chutar e destruir assim, por nada... A maioria iria querer para si uma peça daquelas, levá-la para casa, guardar como uma obra de arte, decorar o seu quarto com ela ou alguma coisa do tipo. E o velho até parecia se encantar também com alguns castelos que o menino construía, às vezes. Ele parecia se distrair com eles por um momento. Mas acabava sempre voltando e chutando os castelinhos, derrubando tudo, desfazendo o lindo trabalho e espalhando novamente as peças ao redor do menino... Assim foi a minha visualização, que durou um longo tempo.

E quando voltei ao meu estado mental normal, não tive nenhuma dificuldade para interpretar esta minha visualização. - O que não é nenhum feito extraordinário, porque essa é foi uma prática feita conscientemente, então isso é bem mais fácil do que interpretar um sonho, por exemplo. - E qual é a interpretação? Bom, você não pode imaginar?




O menino representa o meu ego, sempre muito atrativo, ativo e criativo, erguendo incansavelmente castelos ilusórios ao meu redor. - O seu intuito é sempre o mesmo: distrair a minha atenção da Realidade, e ele sempre aparece sob uma forma agradável e aparentemente ingênua, totalmente confiável... Mas, como no caso da bexiga do filme, se apegar ou querer guardar algum dos castelos ilusórios que ele constrói significaria o fim da liberdade.

O velho chato representa a minha determinação em descobrir a Verdade, e em seguir a Verdade a cada novo dia. Ele é a personificação de tudo que eu aprendi até hoje, tudo que ficou em meu ser de todos os contatos que travei com Deus, todas as orações, todas as meditações, todas às vezes que contemplei a vida com real atenção. Ele é tudo que eu compreendi e apreendi da Verdade da Vida. Ele é a parte de mim que não se deixa iludir pelos lindos e encantadores truques do meu ego. - Ele é a minha Consciência desperta. - Nunca se cansa de derrubar e destruir os falsos castelos que aquele menino nunca pára de erguer diante de mim, para me distrair e me fazer esquecer do meu real propósito.

A Verdade está nos paradoxos: no "Mundo Real" ou Reino de Deus, o Destruidor é aquele que na verdade edifica o espírito, e o Construtor é o responsável pela destruição de tudo que é bom, belo e verdadeiro, a começar pela sua liberdade.

A interpretação surpreendeu você? Bem, então talvez seja a hora de parar um pouco e refletir sobre o quanto as aparências podem ser enganosas: nessa visualização, o menino lindo é na verdade o meu pior inimigo, e o velho chato é o meu melhor amigo. - Aliás, ele é o meu "eu" mais perfeito, o "eu" que eu quero ser: o que não se deixa iludir pelas artimanhas do ego ilusório. E há um jogo de aparências envolvido, também, sem nenhuma dúvida. Todos amam o jovem e belo e repudiam o velho...








Para entender um pouco melhor essa história, ou conhecer uma outra explicação da mesma coisa, sob um outro ângulo, clique aqui (vale a pena!)...



Filme "A Ilusão" (1979):
Roteiro e direção: Gercio Tanjoni;
Assessoria Técnica: Washington Morais;
Participação Artística: Cícero Cândido de Souza, Sílvio Cândido, Wilson Rogério e Ricardo Castro Jr.;
Produção: "Mistifilmes".




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