Como vão vocês, meus amigos?




Esta semana está excepcionalmente calma por aqui. No bairro onde moro, muita gente foi viajar, e desde o dia 24 há uma calmaria no ar, um torpor, uma modorra que, por um lado, não deixa de se traduzir inquietante e estranha para um paulistano adotivo de boa cepa, como eu...

Tirei estas duas semanas, a do Natal e a do Ano Novo, de folga do trabalho, para descansar um pouco. 2009 foi um ano bastante corrido para mim, principalmente os dois últimos meses. Mas esses dias que a gente tira de folga no final do ano acabam se revelando mais cansativos que os dias de trabalho normal, isso é o que eu sempre descubro. Compras sem fim, arrumação da casa para receber visitas, - e visitar e receber visitas que não acabam, - obrigações sociais inesgotáveis (que eu deteeeeeesto!)... O ser humano é mesmo esquisito: tentamos fugir da correria e do cansaço de um ano inteiro de obrigações e chateação, e o que fazemos? Arranjamos obrigações e chateação em dobro.

Mas ano que vem, no Natal, prometi a mim mesmo que vou encontrar um bom retiro espiritual e escapar de toda essa amolação.

E agora há pouco saí a pé para devolver um DVD na locadora, que fica três quadras acima da minha, e foi uma experiência até exótica. Fui, voltei, e, em todo o trajeto, não mais que um ou dois carros passaram por mim. – E olha que vivo num bairro bem movimentado. Tudo parecia entorpecido, a não ser por aquela casa na esquina da minha rua, em cujo quintal estão promovendo um churrasco épico, infinito, que atravessa dias e noites sem parar, incólume, desde a última quinta-feira... Putz! Vai gostar de cerveja morna e carne assada, assim, lá não sei aonde!

Mas, tirando essa casa em particular, todo o resto é quietude, dormência, tranquilidade. E fui eu, a pé pelo caminho, sozinho, aproveitando para relaxar um pouco, refletir sobre a vida... O filme que assisti, e que levava de volta para a locadora, em parte, foi o responsável por esses instantes de reflexão: não era exatamente um filme, mas uma animação, que de tanto ouvir falar bem, resolvi assistir: estou falando de “Up” , que como manda o costume, recebeu no Brasil um subtítulo ridículo: “Altas aventuras”. – É uma animação já meio antiguinha, se não me engano foi lançada em maio, mas eu ainda não tinha visto, e depois de ouvir muita gente elogiar, fiquei curioso para saber do que se tratava. E gostei. Se alguém ainda não viu, recomendo.

Bem, mas o interessante da história, ao menos para mim, é que leva a essa reflexão muito interessante a respeito da finitude da vida. Trata-se da saga de um velhinho que viveu toda uma vida muito feliz ao lado de sua amada esposa, até... Ficar viúvo (não estragando a surpresa de quem não viu, porque isso acontece logo no começo e a ação só vai começar, exatamente, a partir daí). Bom, e daí que algumas cenas me levaram a pensar profundamente sobre a ilusão desta vida, dos nossos sonhos, dos planos que fazemos na juventude... Como a nossa passagem por este mundo é rápida, meu Deus! Como as coisas acontecem de repente, e como tudo muda sem que possamos perceber. Sem que sequer notemos, uma outra fase de nossas vidas se encerrou, e já começa uma nova etapa diferente. Às vezes me lembro de coisas que tive e já não tenho, do jeito totalmente diferente que fui, de amigos que se foram, do meu filho quando era um bebê... E aí bate um certo saudosismo, uma ligeira saudade das coisas que eu quis ser e não fui. Essa animação fala um pouco disso, dos planos não cumpridos, dos sonhos não realizados, da futilidade de tudo isso e da impermanência da vida.

Aí fiquei um pouco pensativo e saí à rua, sozinho, para devolver o filme na locadora. – É, eu me incluo entre os últimos dinossauros que ainda alugam filme e depois tem que encarar a chatice de precisar sair para devolver. Claro que eu sempre me esqueço da devolução, e só me lembro (e preciso sair correndo) no último minuto. – E hoje, agora há pouco, na rua, em meio a toda incomum tranquilidade, ampliada em grande parte pelo contraste com a bagunça que reina em minha casa nos últimos dois dias (duas crianças de, 9 e 11 anos, ambas hiperativas, estão lá hospedadas), pensando em muitas coisas e em nenhuma em especial, me lembrei dos primeiros tempos deste blog: lembrei da minha empolgação inicial, das primeiras visitas, do prazer em escrever sem compromisso, como quem vai a um bar bater papo com um velho amigo. E aí lembrei do prazer de me permitir escrever bobagens sobre minha vida pessoal, o que às vezes fazia quando comecei a contar a saga da minha vida por aqui, e também respondendo às perguntas e jogando conversa fora nos comentários, com meus primeiros visitantes, que chegavam e já se apresentavam como amigos.

E aí, para matar a saudade, só de brincadeira, peguei meu lap e digitei, para desestressar, esse pequeno post que não é sobre coisa alguma nem fala sobre nada especificamente, apenas para jogar conversa fora e dizer o quanto meus amigos deste a Arte das artes são importantes para mim. Amo todos vocês, presentes e ausentes. E para não finalizar sem cair no lugar comum, desejo um felicíssimo ano novo a todo mundo!

A manjedoura está vazia




Caixas e pacotes de variados tamanhos e cores; mil e um brilhos, reflexos, luzes piscando, laços para todos os lados. Vitrines com presépios, neve de isopor cobrindo tudo, o verde metálico acena. Votos de uma vida próspera se multiplicam sem cessar. Fitas desembrulham presentes a todo o momento, caindo livres numa dança ritmada.

O espírito do consumismo reina, absoluto, sobre as mentes de uma maioria cada vez mais obcecada, acelerada e prisioneira do próprio progresso. - Acariciando desejos, exalando o aroma inventivo das ilusões fúteis. Suave e profundamente, esse espírito insaciável afaga rostos anestesiados.

Ondas sonoras/eletrônicas ecoam pelo ar: “Boas Festas”; “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”... - Mas no fundo dos corações, incômoda, inconveniente e absoluta, permanece a certeza silenciosa de que algo muito, muito importante está faltando. Mais que importante, o que falta é simplesmente o Essencial, o Fundamento, o Sentido e a Razão de tudo. Falta o motivo da festa, dos enfeites, da época de cores metalizadas, das luzes piscantes e da alegria ensaiada...

O que é que falta, afinal? Por que a sensação de vácuo? E como preencher esse vazio, angustiante e doloroso, dentro de cada coração?

Afinal, o que é o Natal? Por que tantos cartões falando em alegrias e prosperidade, sem ao menos mencionar... O Aniversariante?




Do blog O Precursor



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Aparições(?)


Vídeos postados no Youtube. Não constam maiores explicações... Para ver a página em que foram postados, clique sobre os vídeos. O que você vê nessas imagens?..














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O Jardim do Éden




Por que o homem tem que crescer? Por que tem que ser expulso do Jardim? Por que tem que desenvolver o seu Ego (no sentido junguiano)? Por que tem que criar consciência? Eis o mistério da vida.

Por que o filhote da águia tem que voar? Por que o peixinho tem que nadar? Por que a semente de carvalho tem que se transformar numa árvore imensa? O homem nasce como se dentro dele houvesse um corneteiro tocando o 'avançar!'... Como num campo de batalha, ele tem que seguir em frente, acompanhar a tropa. Se você está na porta de um estádio de futebol esperando sua abertura, com uma multidão atrás de você, quando os portões se abrem você não consegue ficar parado. Assim é também na tomada de consciência do bebê. Assim é a vida. O mistério da vida.

Uma noção geralmente aceita pelos psicólogos, principalmente os junguianos, é que na primeira metade da vida o ser humano deve fortalecer o seu Ego. Na segunda metade, a tarefa seria a Individuação, a aceleração da expansão da Consciência pela absorção de partes do Inconsciente. Porém esse processo não pode ser visto como se essas duas fases fossem completamente separadas. Uma imagem mais válida seria ver a tomada de consciência como uma jornada por uma escada espiral, que leva o ser humano para mais próximo do seu principal objetivo — maior consciência. Ao lado da espiral se encontra um eixo, que representa o Self, — o arquétipo central da psique, — que coordena o inconsciente do ser humano. Ao subir os degraus, a escada se aproxima e se afasta desse eixo. Quem sobe é o Ego; o eixo é o Self. O Self é o centro da psique, englobando o Ego, — o consciente, — e o inconsciente. O Self ordena toda a psique humana, enquanto o Ego é o centro da Consciência, a parte menor da psique. A imagem da Terra girando em torno do Sol também é uma boa metáfora para o processo de desenvolvimento dos seres humanos. A Terra, — o Ego, — se aproxima do Sol, — o Self, — no verão, e recebe mais energia solar, se afastando no inverno. As plantas que, recebendo a energia do Sol, crescem e se desenvolvem, hibernam no inverno.

O processo de conscientização do Ego é semelhante. Ao se aproximar do Self, o Ego absorve parte do conteúdo do Inconsciente, se conscientiza de um pequeno pedaço do Inconsciente. Ao seguir o seu caminho, se afastar, ele processa e entende o que absorveu.

O processo poderia ser visto também como o encontro do professor — o Self — com o aluno — o Ego. O aluno se aproxima do professor, recebe a lição e se afasta para estudá-la em casa. Esse processo, enquanto o Ego ainda não está fortalecido — nos primeiros anos da vida —, funciona automaticamente. Ao bebê não é dada a escolha entre criar ou não seu Ego; à criança não é dada a escolha de fortalecer seu Ego. As coisas acontecem naturalmente.




Entretanto, depois que o Ego já adquiriu certa estrutura, o processo perde parte de seu automatismo. O Ego adquire força para se opor ao processo. Mesmo na entrada do estádio de futebol, com a pressão da multidão por trás, você pode se desviar, esconder-se em um canto, evitar ser empurrado para dentro do estádio. Por que fazer isso? Porque o processo de crescimento pode ser doloroso, e alguns tentam evitá-lo. Essa fuga ao crescimento acontece com mais frequência na segunda metade da vida, quando o Ego está mais fortalecido, mais acostumado e afeito a escolhas. Para evitar o crescimento, o ser humano pode, às vezes inadvertidamente, se esconder atrás de um obstáculo.

Evitar pensar na vida é uma doença que ataca muitos seres humanos, especialmente os materialistas ocidentais. O workaholic, que só pensa no trabalho e não tem tempo para pensar na vida, está com seu processo de crescimento — de individuação — interrompido. Também o ativista político, que acha que vai salvar o seu país, ou salvar o mundo, e não tem tempo de pensar na sua própria vida, não tem tempo para cuidar do seu lado espiritual.

O mito da criação do homem e sua expulsão do Jardim do Paraíso resistiu aos séculos, apesar de cientificamente inverossímil, exatamente porque nos traz uma verdade fundamental. Se fosse somente uma história boba, não teria sobrevivido por tantos milênios. Quem não quiser ouvir seus ensinamentos se arrisca a perder o trem da vida. A jornada da vida é longa e difícil. Por que perder o trem e ter que seguir a pé? Por que ficar parado, esperando a morte?


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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O que há de especial com as árvores?

ou 'Aquela velha árvore na beira do lago"...




"Nascido do ventre da minha mãe, em terra preta e fértil, às margens de um lago profundo de águas límpidas, Eu Sou aquela velha árvore sem sombra. Do alto de mim mesmo reina soberana a consciência que me pensa, e perante ela, Eu Sou silêncio e paz. Sobre vastas planícies de vegetação verde e rasteira, Eu Sou aquele que é visto ao entardecer, no horizonte, emoldurado no céu de muitas cores, ao lado do sol flamejante. Estando onde sempre estive, vejo em tudo equilíbrio e, daqui donde estou, cumpro meu papel no mundo.

As minhocas fazem cócegas nos meus pés; os pássaros, ninho nos meus braços; cupins, colônia no meu corpo e independente do reino a que pertençam, vivo na memória de todos que um dia me viram. Através das estações, o sol me aquece em dias de frio, a chuva me banha, nos de calor. Diante de secas e enchentes, a minha respiração é sempre constante e suave como a brisa que alisa meus cabelos. Da terra, da água e do ar tomo apenas o necessário, e além de tudo aquilo que ocupa o espaço e perece no tempo, eu permaneço: Eu Sou aquela velha árvore na beira do lago. Eu Sou.

Gosto do som da chuva caindo no espelho d´água, do som dos gravetos estalando no inverno rigoroso e do som da grama alta curvando-se ao vento. Mas é a ausência do som em noites de muitas estrelas que me faz verdadeiramente feliz."


Texto de Daniel Borges de Sousa (respondendo soberbamente a uma provocação feita na seção 'Imagem da semana'...)


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O Ego segundo Jung

Como visto, o conceito psicanalítico de Ego difere radicalmente da noção de ego trazida pelas religiões, em especial as orientais. Segundo o Zen-budismo, por exemplo, ‘ego’ é apenas a noção intelectual, limitada e ilusória que o ser humano tem de si mesmo e do mundo que o cerca: apenas um aspecto temporário do nosso verdadeiro Eu, que poderíamos chamar de ‘ser integral’. Segundo essa visão, o ego se confunde com o aspecto egoísta de nossa personalidade, que é insaciável e vive eternamente na busca pela realização de desejos e vaidades inúteis. A Psicanálise, porém, (um ramo especial da Psicologia/Psiquiatria desenvolvido por Sigmund Freud), trata o termo de maneira completamente diferente.

A confusão pode surgir, principalmente, porque tanto Freud quanto Jung, - dois dos maiores expoentes no estudo da mente humana em todos os tempos, - Ego significa, simplesmente, EU, (significado etimológico da palavra, do latim). Para a Psicanálise, Ego é um nível natural intermediário da Consciência.

Para o nosso estudo ‘Segredos da Bíblia’, em particular, interessa conhecer o conceito de Ego segundo Jung. Vamos agora estudá-lo, da maneira mais simplificada possível.


A definição de Ego por C. G. Jung (nas palavras do próprio):




"Entendo o ‘Eu’ (Ego) como um complexo de representações que constitui para mim (indivíduo), o centro do meu campo de Consciência e que me parece ter grande continuidade e identidade comigo mesmo. Por isso, falo também do complexo do Eu ou complexo do Ego. O complexo do Eu é tanto conteúdo quanto condição da Consciência, pois um elemento psíquico me é consciente enquanto estiver relacionado com o complexo do Eu. Enquanto o ‘Eu’ for apenas o centro do meu campo consciente, não é idêntico ao todo de minha psique, mas apenas um complexo entre outros complexos.

Por isso distingo entre Eu (Ego) e Si-mesmo (Self). O Eu é o sujeito apenas da minha Consciência, mas o Si-mesmo é o sujeito do meu todo, também da psique inconsciente. Dentro dele está o Eu.

O Si-mesmo ‘gosta’ de aparecer na fantasia inconsciente de 'personalidade superior' ou 'ideal', assim como, por exemplo, o Fausto de Goethe e o Zaratustra de Nietzsche. Neste sentido, o Si-mesmo seria a grandeza ideal que encerraria personalidade superior ou ideal (...) Por amor à idealidade, os traços arcaicos do Si-mesmo foram apresentados como distintos do Si-mesmo ‘superior’: em Goethe,na forma de Mefisto; em Spitteler na forma de Epimeteu; na psicologia, como o demônio ou o anticristo; em Nietzsche, Zaratustra descobre sua Sombra no ‘mais feio dos homens’."

Tipos Psicológicos, C.G. Jung, p. 406


Ego ou Eu é o centro da Consciência, é a soma total dos pensamentos, ideias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais. É a parte mais superficial do indivíduo, a qual, modificada e tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do indivíduo. É importante salientar que a função do Ego é ignorada e, portanto, o termo muitas vezes é utilizado de forma exacerbada, errônea e inconsequente. O Ego, para Jung, é antes de tudo uma função na composição mental do indivíduo.

Resumindo: o Ego (ou Eu) representa o sujeito da Consciência. – ‘Ele’ é apenas uma parte da psique total. Jung percebeu o Ego como o centro da Consciência, porém sublinhou também as suas limitações, e o definiu como menor do que a personalidade inteira. Embora o Ego tenha a ver com assuntos tais como identidade pessoal, manutenção da personalidade, continuidade além do tempo, mediação entre os campos conscientes e a Inconsciência, conhecimento e testes da realidade e etc, também deve ser considerado como uma instância que responde às necessidades de uma outra, que lhe é superior. Esta é o Self, o princípio ordenador da personalidade inteira. A relação do Self com o Ego é comparada àquela d”o que move com o que é movido”.

Inicialmente o Ego está fundido com o Self, mas deve se diferenciar dele. Jung descreve uma interdependência dos dois: o Self, que possui uma visão mais holista, é supremo. A função do Ego, porém, é confrontar ou satisfazer, conforme o caso, às exigências dessa supremacia. O confronto entre o Ego e o Self foi identificado por Jung como característico da segunda metade da vida.

O Ego também é visto por Jung como resultante do choque entre as limitações físicas e corporais da criança e a realidade ambiente. A frustração ajuda a formar ‘ilhotas’ de consciência que se juntam ao Ego. O Ego, assevera Jung, adquire sua plena existência durante o terceiro ou quarto ano. Psicanalistas e psicólogos analíticos hoje concordam em que ao menos um elemento de organização perceptiva está presente desde o nascimento, e em que, antes do final do primeiro ano de vida, uma estrutura de Ego relativamente sofisticada já se encontra atuando.

"Ego é ‘alguém’ que começa a dar início a sua jornada heróica em busca da totalidade do Self, em busca da meta do Processo de Individuação. Isto é tornar-se Indivíduo."

A tendência de Jung de equiparar o Ego à Consciência torna difícil conceituar os aspectos inconscientes da estrutura do Ego. A Consciência é a característica distintiva do Ego, porém isso é proporcional à inconsciência. Quanto maior for o grau de consciência do Ego, maior a possibilidade de se sentir o que não é conhecido. A tarefa do Ego com relação à Sombra é reconhecê-la e integrá-la, mais que dividi-la, subjugá-la ou negá-la, como propõem as religiões orientais.


A busca pela Individuação

Para que ocorra o processo de Individuação, é necessário que o Ego se confronte com os aspectos contidos na Sombra. O confronto de Ego x Sombra se faz importante pelo fato de que diante desta confrontação é que o Ego tomará consciência de seus medos, fraquezas e negligências em relação a forma como se relaciona com o Inconsciente e em relação a como se relaciona com o mundo externo. A partir deste momento se torna fundamental, tanto quanto conhecer o sentido do termo Ego, saber o que significa esta Individuação, base da psicanálise junguiana

"A Individuação, em geral, é o processo de formação do Ser Individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do Conjunto Humano, da Psicologia Coletiva. É portanto um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. É uma necessidade natural, e uma coibição dela traria prejuízos para a atividade vital do indivíduo. A individualidade já é dada física e fisiologicamente, e daí recorre sua manifestação psicológica correspondente. Colocar-lhe sérios obstáculos significa uma deformação artificial.

É óbvio que um grupo social constituído de indivíduos deformados não pode ser uma instituição saudável e capaz de sobreviver por muito tempo, pois só a sociedade que consegue preservar sua coesão interna e seus valores coletivos, num máximo de liberdade do indivíduo, tem direito à vitalidade duradoura. Uma vez que o indivíduo não é um ser único mas pressupõe também um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de Individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais abrangente.

O processo psicológico da individuação está intimamente vinculado à assim chamada Função Transcendente, porque ela traça as linhas de desenvolvimento individual que não poderiam ser adquiridas pelos caminhos prescritos pelas normas coletivas.

Em hipótese alguma pode a Individuação ser o único objetivo da educação psicológica. Antes de tomá-la como objetivo, é preciso que tenha sido alcançada a finalidade educativa de adaptação ao mínimo necessário de normas coletivas: a planta que deve atingir o máximo desenvolvimento de sua natureza específica deve, em primeiro lugar, poder crescer no chão em que foi plantada.

A Individuação está sempre em maior ou menor oposição à norma coletiva, pois é separação e diferenciação do geral e formação do peculiar, não uma peculiaridade procurada, mas que já se encontra fundamentada a priori na disposição natural do sujeito. Esta oposição, no entanto, é aparente; exame mais acurado mostra que o ponto de vista individual não está orientado contra a norma coletiva, mas apenas de outro modo. Também o caminho individual não pode ser propriamente uma oposição à norma coletiva pois, em última análise, a oposição só poderia ser uma norma antagônica. E o caminho individual jamais é uma norma.

A norma surge da totalidade de caminhos individuais, só tendo direito a existir e atuar em prol da vida se houver caminhos individuais que, de tempos em tempos, queiram orientar-se por ela. A norma nada serve se tiver valor absoluto. Só acontece um verdadeiroSó acontece um verdadeiro conflito com a norma coletiva quando um caminho individual é elevado à norma, o que é a intenção última do individualismo extremo. Consequentemente, nada tem a ver com individuação que, sem dúvida, toma seu próprio caminho lateral, mas que, por isso mesmo, precisa da norma para sua orientação perante a sociedade e para estabelecer o necessário relacionamento dos indivíduos na sociedade.

A individuação leva, pois, a uma valorização natural das normas coletivas; mas se a orientação vital for exclusivamente coletiva, a norma é supérflua, acabando-se a própria moralidade. Quanto maior a regulamentação coletiva do homem, maior sua imoralidade individual. A individuação coincide com o desenvolvimento da consciência que sai de um estado primitivo de identidade(v). Significa um alargamento da esfera da consciência e da vida psicológica consciente."

Tipos Psicológicos, C.G.Jung, pp. 426 a 428


__________________________
Fonte bibliográfica:
Dicionário Crítico de Análise Junguiana, em http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/..%5C..%5Cdicjung%5Cverbetes%5CEgo.htm ;
CHEVALIER, J & GHEERBRANT, Dicionário de Símbolos . 14ª ed. Rio de Janeiro . José Olympio . 1999;
JUNG, C.G., Memórias, Sonhos e Reflexões . 22ª ed. Rio de Janeiro . Nova Fronteira . 2002;
JUNG, C.G., O Eu e o Inconsciente . 13ª ed. Petrópolis . Vozes . 2000;
JUNG, C.G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo . 3ª ed. Petrópolis . Vozes . 2003;
JUNG, C.G., Psicologia do Inconsciente . 15ª ed. Petrópolis . Vozes . 2004;
JUNG, C.G., Tipos Psicológicos . Petrópolis . Vozes . 1991.




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O que é 'Ego'?

O nosso estudo em andamento, intitulado ‘Os Segredos da Bíblia’, a partir deste ponto passará a aludir, com frequência, a uma expressão bastante específica, cuja correta compreensão será fundamental para a assimilação de seu conteúdo: trata-se do termo ‘Ego’. Os leitores antigos de a Arte das artes estão possivelmente acostumados a entender o termo segundo a visão religiosa budista/hinduísta, - a saber, como um sinônimo de nossa identificação com nossos corpos físicos e com o mundo ilusório que nos cerca. - A série de postagens ‘Os Segredos da Bíblia’, no entanto, faz uso da expressão sob a ótica da psicologia de linha junguiana. Entender o significado desta palavra para o autor do livro que serve de inspiração ao nosso estudo será de capital importância para a compreensão desta série. Por essa razão, antes de dar continuidade às publicações, passaremos a uma explicação detalhada a respeito deste assunto particular.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender a visão orientalista a respeito do problema, e só então poderemos confrontá-la com a interpretação da psicologia junguiana. Eis um assunto que este blog já deveria ter abordado há um bom tempo. Antes tarde do que nunca, já dizia o poeta... O que significa Ego, afinal?


O Ego segundo o budismo – por Lama Gangchen Rinpoche




"Em nosso estado mental normal, viver segundo nosso ego parece normal e concreto; o ego parece ser justamente nosso melhor amigo, protetor e benfeitor. Mas na verdade, ele é o nosso pior inimigo, uma fraude que nos engana, fazendo-nos sentir que não podemos existir ou viver sem ele. Como um monstro morando em nosso coração, ele está sempre pronto para fazer coisas ruins e causar problemas a nós e aos outros. Nosso ego tem muitos truques para se manter na ativa. Por isso, devemos prestar atenção quando começarmos a nos dizer: 'Se eu não cuidar do número um (nós mesmos), não vou trabalhar e vou acabar passando fome'; 'Se eu ficar me distraindo com esses assuntos espirituais, vou acabar virando um tolo!' - O ego tem mais defesas que a OTAN. Cuidado!

Não há dúvidas de que é do nosso próprio interesse nos livrarmos desse demônio interior o mais rápido possível (a menos que sejamos masoquistas e gostemos da eterna dor física e mental). Ao recolher e responsabilizar nosso ego de apego a si mesmo por todos os nossos problemas, com certeza geraremos o desejo de cuidar de nosso mundo interno e de nos livrar desse ego o mais rápido possível. Para isso, precisamos enxergá-lo como um mentiroso, examinando se de fato existe como parece ou não.

Isso significa dizer a nós mesmos: 'Pela lógica, se eu existo tal como parece, devo ser ou um com todo meu corpo e mente, ou separado e diferente deles'. Se, quando busco o meu ego, não consigo encontrá-lo nem em minha mente nem em meu corpo, e nem tampouco como algo separado deles, não tenho outra opção senão aceitar que o que estou percebendo é o meu falso senso de individualidade. Precisamos expulsar esse fantasma da máquina.

Pensando dessa forma, começamos a caçar nosso ego aparentemente vivo, nosso verdadeiro inimigo, e isso nos força a confrontar nossas suposições nunca examinadas sobre como existimos de fato. Eis um desafio bastante significativo do ponto de vista emocional: descobrir que nossa percepção básica da realidade é uma grande bobagem. Essa é a autocura absoluta, e por isso devemos prosseguir, cheios de alegria, nesse nível grosseiro do treinamento espacial.

Se sentirmos que o nosso eu é, na verdade, nosso corpo, então algumas questões inevitavelmente se colocam:

1. Qual parte do corpo somos? A cabeça, o coração, os membros?

2. Como tenho muitas partes, devo ter muitos 'eus' e muitos 'egos'.

3. Se sou o meu corpo, então, mesmo que minha mente não esteja nele, eu continuarei existindo. Quando meu corpo morrer, deixarei de existir.

4. Se alguém corta fora nossa perna com um machado, gritamos, 'Ele cortou minha perna', mostrando assim que bem no fundo sentimos que somos proprietários de nosso corpo, mas não o corpo em si.

5. Mas se sentimos que nosso ego é a nossa mente, precisamos examinar o que nossa mente é. Segundo o budismo, temos muitos fatores ou aspectos maiores ou menores da mente: seis sentidos e consciências mentais e cinquenta e um(!) fatores composicionais (todos os aspectos misturados de clareza e escuridão em nossa mente). Ora, se tenho tantas mentes diferentes, devo ter muitos 'eus' diferentes (uma personalidade múltipla esquizofrênica com cinquenta e sete identidades!).

6. Quando alguém nos insulta, pensamos, 'Ele machucou meus sentimentos', mostrando assim que nos sentimos os proprietários de nossa mente, e não a mente em si.

7. 'Penso, logo existo'. — Então, se sou minha mente, posso viver sem meu corpo?

8. Se sentimos que somos a combinação de nosso corpo e mente, devemos tentar seguir o seguinte raciocínio:

Não sou meu corpo.

Não sou minha mente.

Mesmo assim, quando eles estão juntos, chamo-os de 'eu'. Mas como é possível que dois 'não sou' tornem-se um 'eu sou'? Pense nisso! Esse é um enigma profundo e cheio de sentido.

9. Se sentimos que nosso eu é diferente de nosso corpo e mente, deveríamos tentar imaginar então que nosso corpo foi totalmente destruído (por uma explosão atômica, por exemplo), e que nossa mente foi, de alguma forma, desligada, totalmente aniquilada. Onde estaríamos então?

10. Portanto: Certamente não sou meu corpo, não sou minha mente, nem a combinação de meu corpo e mente; Então, onde estou? A resposta é: em 'lugar nenhum'. O que percebemos nesse momento, se tivermos feito o exercício da forma adequada, é a perfeita liberdade e o espaço absoluto.

Esse nada NÃO é o frio vácuo morto do espaço exterior ou a completa negação da vida que nos ensinaram certos 'mestres' e filósofos. A experiência da vacuidade, ou do espaço absoluto, é preenchida por uma sensação de extrema bem-aventurança e uma profunda paz. Segundo os nossos sentidos, não há 'nada' lá, mas de alguma forma encontramos a sensação de arrebatadora alegria de tocar a essência da Vida e o tecido fundamental da Realidade.

Ainda assim, não há 'nada' lá. - Mas 'Tudo' não está no 'Nada'? E não foi do 'Nada' que 'Tudo' surgiu? Bem, isso é o que dizem as religiões.

É uma concepção fascinante e maravilhosa. Então, compreendemos de verdade o mal que é capaz de causar o nosso ego, pois nos impede de ter essa arrebatadora experiência. O aspecto do eu que o budismo chama 'ego', nesse sentido, é realmente a fonte de todo egoísmo, vaidade, inveja, sentimento de separação...

Todas as vezes que tentamos neutralizar o ego, devemos tentar manter a mente ingênua como a mente de uma criança. Não é bom começar o exercício pensando, 'já sei a resposta' ou 'que tédio!', pois assim não poderemos ter o impacto emocional do inacreditável fato de que de repente nosso ego desapareceu, fugiu envergonhado.

Anular o ego é um processo difícil e demorado. Mas é absolutamente necessário e benéfico. Por isso, devemos persistir com alegria. Nossa porcentagem de vitória crescerá passo a passo."



Finda a exposição do Lama Ganchen, completo esta explanação com a esposição do problema segundo o Revmo. Imai, meu antigo mestre budista do Templo Higashi Honganji:


Templo Higashi Honganji


"Tendo exposto nosso ego usando a luz da sabedoria, tudo que nos resta é um vasto espaço ou vacuidade que nos torna livres para retornar à 'Casa do Pai':

'Se alguém quiser me seguir, NEGUE-SE A SI MESMO, tome sua cruz e me siga.'

Esse negar-se a si mesmo não significa negar ao seu eu real, isto é óbvio, pois isso só poderia ser feito através do suicídio! Como eu poderia recusar ou renegar a mim mesmo, se eu só posso ser eu mesmo? Claro que a afirmativa se refere à negação do eu lusório, o eu EGO-ÍSTA, que só pensa em si mesmo, em satisfazer seus desejos, realizar seus sonhos, atingir sucesso em tudo que faz... Aquele que vive construindo e reconstruindo castelinhos de areia, sempre renovados, - ele não para nunca.

As pessoas comuns, em geral, necessitam de muito espaço individual e sempre se sentem desconfortáveis tanto em espaços pequenos quanto em multidões. O antídoto para essa sensação é familiarizar a mente com o vasto espaço interior do não-ego, não-eu, não-meu... A autocura não é desenvolver o ego, mas dissolvê-lo! Assim, sempre nos sentiremos muito confortáveis e relaxados, mesmo se estivermos rodeados por trinta pessoas gritando todas ao mesmo tempo. Claro que falar é muito mais fácil do que fazer...

O fato é que algumas pessoas sentem medo quando entram em contato com esse imenso espaço interior, sentindo que fizeram desaparecer a si mesmas. Mas não há motivo para se preocupar: apenas fizemos desaparecer temporariamente nossa alucinação ou fantasia do ego. Quando chegar o momento de você entrar em contato com o espaço interior, não se preocupe, seu corpo e mente, seu verdadeiro eu, surgidos interdependentemente, ainda estarão aqui."



Espero que a visão budista (que representa magistralmente a visão da tradição oriental como um todo) a respeito do termo ego tenha ficado clara. Se não ficou, clicando aqui com certeza você será capaz de dirimir todas as suas dúvidas a respeito do assunto. Me comprometo a responder a todas as dúvidas de leitores que surgirem, nos comentários deste post. Próxima postagem: ‘O Ego segundo Jung’.


__________________________
Fontes:
Portal 'IGPT' / Lama Gangchen Rimpoche Peace Voices, seção 'Peace Times', 2008: em http://www.lgpt.net/bios/rinpoche.htm, acesso em 17/02/2009.




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Dia da consciência... humana




Eu sou humano, essa é a minha raça!



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Deixando o Jardim do Éden


Entre o primeiro e o segundo século após o surgimento da era cristã, existiu um grupo gnóstico denomindo naaseno. E recentemente resgatado evangelho de apócrifo de Judas demonstra claras influências deste grupo independente dos apóstolos e primeiros seguidores de Jesus Cristo. Eles pregavam ser Javé uma expécie de semideus mau, que pretendia manter o homem na ignorância: o Deus Maior, o Deus da Luz, se encarnou na serpente para salvar o homem da ignorância(!!)e de uma vida inconsciente. Esse grupo deriva seu nome da raiz naas, - palavra latina que significa serpente, animal adorado por eles.

Conta um antigo mito grego, que pode ter influenciado os naasenos, que os deuses criaram os animais, dando a cada um dom. Ao cavalo, a velocidade; ao leão, a força; aos pássaros, o poder de voar, e assim por diante. Chegando a vez do homem, o último a ser criado, nada mais havia para lhe ser dado. O homem era fraco e lento, por isso seria uma presa fácil dos animais predadores, mas os deuses pouco se importaram com isso. O titã Prometeu, no entanto, ficou com pena do homem e roubou o fogo, - prerrogativa exclusiva dos deuses, - para dá-lo ao homem, e foi por esse ato cruelmente punido. De posse do fogo, o homem pôde sobreviver e dominar sobre os animais. O fogo, a luz, poderia ser entendido como uma metáfora para a Consciência, exatamente a qualidade que Adão e Eva ganharam ao comer a maçã.

Seria Javé, assim como os deuses do panteão grego, indiferente ao homem? Os mitos gregos nos mostram deuses muito pouco preocupados com a humanidade, e somente quando um ser humano entra em seu caminho é que eles voltam suas atenções para ele. - Geralmente para puni-lo.

Ou será que Javé queria que o homem desenvolvesse sua consciência, e a expulsão do jardim foi o meio por ele usado para acelerar esse processo? Minha resposta é sim. A pergunta seguinte é como. De que maneira, tendo deixado o Jardim do Éden, o ser humano deve prosseguir em sua busca pela Consciência? Ele não pode voltar ao estado anterior de beatífica inconsciência, porque Deus colocou querubins com espadas chamejantes às entradas do jardim, para garantir a impossibilidade desse retorno.

Poderiam os seres humanos serem eternamente felizes vivendo no Jardim do Éden? Um pescador vivia miseravelmente em uma cabana no meio do mato. Sua vida era dura e nem sempre ele conseguia pescar para alimentar a mulher e os três filhos, e eles frequentemente passavam fome e necessidades. O pescador não sabia que, enterrado debaixo de sua casa, existia um imenso tesouro em ouro e pedras preciosas. Esse tesouro pertencia a ele, um legado deixado por um longínquo ancestral. Pergunta: era o pescador rico ou pobre?

Era o homem, vivendo no Jardim do Éden, feliz ou infeliz? Sem consciência, não podia ser nem uma coisa nem outra. Como poderia saber se era feliz? Como o pescador poderia saber que possuía um tesouro, que era rico? O máximo que poderíamos dizer seria que, mesmo com o seu tesouro enterrado, o pescador era pobre, ainda que potencialmente rico. O homem também poderia ser potencialmente feliz. Mas o ser humano tem que buscar a Consciência, tem que comer a Fruta do Conhecimento do Bem e do Mal, sair do Jardim do Éden da letargia: buscar a Consciência seguindo sua jornada de individuação. Por esse motivo, Javé colocou a cobra no jardim.




Existem vários relatos de indivíduos que trabalham com doentes terminais, atestando haverem estes atingido, nos dias que antecederam suas mortes, estados de iluminação que os tornavam pessoas melhores, mais completas. E isso ocorre independentemente da idade, tendo sido observado mesmo em jovens. Porém não podemos afirmar que isso ocorra com todas as pessoas. Nosso lado racional sugere que uma pessoa, com uma vida de grandes crimes e maldades, não deveria atingir o mesmo estágio de individuação que outra, com um desenvolvimento espiritual elevado Mas, em assuntos que envolvem o lado espiritual, o racional pouco conta. Como explicar o ladrão crucificado ao lado de Jesus, que apenas por reconhecer a inocência do Mestre foi instataneamene perdoado e subiu aos Céus?

Jung conceitua a individuação como um processo de conscientização. Assim sendo, não acabaria nunca. O homem pode progredir na jornada de individuação, como também pode regredir, mas nunca chegaria a um estado final, pronto e acabado — um ser completamente individuado, completamente consciente, um ser, na terminologia oriental, iluminado. Os hinduistas acreditam que o indivíduo precisa de milhares de existências para se iluminar, e que seu objetivo de vida — de muitas vidas — deve ser se aperfeiçoar para atingir a iluminação, o que evitaria futuras encarnações. Já no conceito junguiano de individuação isso nunca ocorre, pois se define individuação como um processo, uma jornada que, a despeito de ter uma meta, permite que nos aproximemos cada vez mais dela, sem nunca atingi-la. Dentro da perspectiva junguiana, o homem nunca poderia se conscientizar de todo o material arquivado em seu lado inconsciente. O conceito junguiano se afina melhor com os ensinamentos da Bíblia.

Que verdade maior nos propicia o mito do Éden, inverossímil sob a ótica da ciência? O que podemos apreender com ele? Esse mito vem nos dizer que o homem tem que buscar a Consciência, conhecer o Bem e o Mal. Adão e Eva, no início da história, nem mesmo sabiam que estavam nus. Foi preciso que comessem o fruto para perceberem isso. Nosso casal ancestral estava no estágio do bebê, que nasce sem noção do eu e do meu. Mas o fluir da vida força o bebê a se desenvolver, e em poucos meses ele desenvolve a noção eu/meu. Nasce seu Ego. Ele, que vivia inconsciente, sentindo-se como parte inseparável da mãe (e/ou do Universo), percebe agora, ainda que de maneira tênue, que é um indivíduo separado. Começa a ser expulso do jardim.


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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Mito bíblico da Criação




A Bíblia oferece duas histórias diferentes da criação do mundo. A chamada Versão P, que no livro sagrado é apresentada no primeiro capítulo, teria sido escrita no século VI aC. Nessa versão, homem e mulher são criados simultaneamente, à imagem de seu Criador, e o Senhor é denominado Eloin. - A Versão J, que o livro sagrado apresenta depois da versão P, no segundo capítulo, é chamada assim porque nela o Senhor é chamado de Javé ou Jeová. Estima-se que essa versão tenha sido escrita no século X aC, muito antes do aparecimento da versão P. Ambientada no Jardim do Éden, ela descreve um homem, Adão, feito a partir do barro, recebendo sua alma de um sopro de Deus, sendo a mulher, Eva, criada posteriormente a partir de uma costela de Adão. Essa versão pode nos induzir a ver o masculino como superior ao feminino. Uma visão que, embora coerente com o patriarcado que prevalecia no Oriente Médio ao tempo em que esse episódio foi escrito, mostra-se incoerente com dados antropológicos que colocam o matriarcado, não o patriarcado, como organização característica dos primórdios do desenvolvimento humano.

A ivergência entre os dois mitos, que versões mais modernas da Bíblia tentam minimizar com pequenas mudanças de alguns termos, não chega a prejudicar o nosso entendimento. Como já mencionado em postagem anterior, o mito não precisa da realidade física, não precisa espelhar um fato do mundo real para ser fundalmentalmente verdadeiro, instrutivo e útil. Podemos tirar lições importantes das duas versões, a despeito das contradições que apresentam entre si.

Usando a ordem cronológica de sua produção e desobedecendo a ordem convencional de organização da Bíblia, vamos começar a nossa apreciação pela Versão J, do Jardim do Éden, que se inicia no capítulo 2, versículo 4, do Gênesis. Depois de relatar a criação do Éden, do homem e da mulher, e colocar naquele jardim a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e a Árvore da Vida, Javé proibiu o homem de comer os frutos da primeira. Logo em seguida, no capítulo 3, defrontamo-nos com o episódio da tentação da serpente.


Gênesis — capítulo 3

1 A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que Javé Deus havia feito. Ela disse para a mulher: “É verdade que Deus disse que vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim?” 2 A mulher respondeu para a serpente: “Nós podemos comer dos frutos das árvores do jardim. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Vocês não comerão dele, nem o tocarão, do contrário vocês vão morrer.’” 4 Então a serpente disse para a mulher: “De modo nenhum vocês morrerão. 5 Mas Deus sabe que, no dia em que vocês comerem o fruto, os olhos de vocês vão se abrir, e vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal.” 6 Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou o fruto e o comeu; depois o deu também ao marido que estava com ela, e também ele comeu. 7 Então abriram-se os olhos dos dois, e eles perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas. 8 Em seguida, eles ouviram Javé Deus passeando no jardim à brisa do dia. Então o homem e a mulher se esconderam da presença de Javé Deus, entre as árvores do jardim. 9 Javé Deus chamou o homem: “Onde está você?” 10 O homem respondeu: “Ouvi teus passos no jardim: tive medo, porque estou nu, e me escondi.” 11 Javé Deus continuou: “E quem lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu da árvore da qual eu lhe tinha proibido comer?” 12 O homem respondeu: “A mulher que me deste por companheira deu-me o fruto, e eu comi.” 13 Javé Deus disse para a mulher: “O que foi que você fez?” A mulher respondeu: “A serpente me enganou, e eu comi.” 14 Então Javé Deus disse para a serpente: “Por ter feito isso, você é maldita entre todos os animais domésticos e entre todas as feras. Você se arrastará sobre o ventre e comerá pó todos os dias de sua vida. 15 Eu porei inimizade entre você e a mulher, entre a descendência de você e os descendentes dela. Estes vão lhe esmagar a cabeça, e você ferirá o calcanhar deles.” 16 Javé Deus disse então para a mulher: “Vou fazê-la sofrer muito em sua gravidez: entre dores, você dará à luz seus filhos; a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará.” 17 Javé Deus disse para o homem: “Já que você deu ouvidos à sua mulher e comeu da árvore cujo fruto eu lhe tinha proibido comer, maldita seja a terra por sua causa. Enquanto você viver, você dela se alimentará com fadiga. 18 A terra produzirá para você espinhos e ervas daninhas, e você comerá a erva dos campos. 19 Você comerá seu pão com o suor do seu rosto, até que volte para a terra, pois dela foi tirado. Você é pó, e ao pó voltará.” 20 O homem deu à sua mulher o nome de Eva, por ser ela a mãe de todos os que vivem. 21 Javé Deus fez túnicas de pele para o homem e sua mulher, e os vestiu. 22 Depois Javé Deus disse: “O homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Que ele, agora, não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma, e viva para sempre.” 23 Então Javé Deus expulsou o homem do Jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. 24 Ele expulsou o homem e colocou diante do Jardim do Éden os querubins e a espada chamejante, para guardar o caminho da árvore da vida.


Os mitos podem ser lidos como mapas para a jornada da vida. O mito do Jardim do Éden é um com o qual me digladio desde meus 7 anos. Quantas vezes falei mal dos nossos dois ancestrais, culpando-os pela besteira que fizeram ao comerem a fruta proibida, perdendo assim o Paraíso? Nosso Paraíso. Isso acontecia sempre que tinha que tomar uma injeção, coisa comum quando uma gripe me pegava. O pavor da picada — mais do que a dor, a expectativa da dor — me levava a vituperar contra esses avós dos avós dos avós, que me haviam tirado do Paraíso onde, sem dúvida, as injeções não existiriam, não doeriam ou não seriam necessárias. Naquela época, não me ocorria — ou me faltava coragem para — reclamar contra Javé. Preferia direcionar minha revolta para Adão e Eva. Anos depois, pensando bem, cheguei ao grande questionamento: Por que Deus deveria proibir Adão e Eva de comer o fruto da Árvore do Conhecimento, afinal?

Isso não fazia sentido para o menino de 7 anos que eu era. Encontrei uma explicação fácil em um livro infantil sobre a Bíblia. Dizia que os frutos da árvore representam o conhecimento da felicidade e do infortúnio, e que Deus proibiu que fossem comidos porque não queria que o homem se tornasse infeliz. Simplista... Esta explicação não satisfez nem mesmo à criança de 7 anos. O tempo passou, eu cresci, tomei conhecimento dos ensinamentos de Jung, e hoje o Jardim do Éden é o meu mito favorito. Minha escolha para darmos partida em nossa jornada pelos segredos da Bíblia, pelas sendas do nosso mundo interior. Esse mito é um dos mais conhecidos e menos compreendidos.

Por que Deus não haveria de querer que o homem comesse do fruto da Árvore do Conhecimento? Por que Deus não haveria de querer que o ser humano fosse capaz de distinguir entre o bem e o mal? Sem esse conhecimento, o homem seria mais um animal sobre a Terra. No máximo, o rei dos animais. E, inconsciente, nem mesmo saberia que era rei.

Seria este o objetivo de Deus para o homem? Duvido. Um Deus onisciente, que não quisesse que o homem comesse o fruto proibido, não criaria ou não poria no jardim, nem a macieira nem a cobra. Se Deus é onisciente, somos levados a crer que colocou a cobra no jardim para levar a maçã ao homem. O homem tinha que comer a maçã, o fruto do conhecimento. Deus queria que isso acontecesse. Mas por que, então, o homem foi expulso do jardim? Como entender os atos do Senhor Javé?


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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A água que elimina a gordura do corpo

imaginou poder emagrecer e eliminar toxinas do corpo apenas tomando um copo de água gelada com limão? Pois você pode! Parece mentira, mas não é. O primeiro a me dizer isso foi meu sensei, quando eu praticava karatê num dojô japonês tradicional. Todos os sempais (instrutores veteranos) bebiam água com limão antes e depois dos treinos, e todos ostentavam abdominais ‘trincados’ (popular 'tanquinho'). – Sensei me orientou a beber água com limão para diminuir a gordura do corpo e auxiliar no condicionamento físico, e eu o fiz. Resultado? Em pouco tempo eu também adquiri meu belíssimo abdominal ‘tanquinho’ para exibir na praia!.. Embora o meu objetivo não fosse esse, eu, - que era muito jovem na época, - confesso que parava diante do espelho para admirar os músculos bem definidos em minha barriga, iguaizinhos aos do Bruce Lee no poster do meu quarto, meu ídolo das artes marciais na época.

Isso foi há mais de 20 anos, e hoje a ciência veio a comprovar que a água com limão é um poderosíssimo auxiliar no processo de eliminação da gordura do corpo. - Que tomar bastante água faz bem todo mundo já sabe... Mas há um detalhe que nem todos conhecem: ou você sabia que basta adicionar o sumo de um limão a um copo de água gelada para produzir uma verdadeira arma contra seus quilos extras e a gordura localizada? Segundo a nutricionista Andreia Carrara, “pessoas que se encontram muito acima do peso podem perder até 8 kg num mês”(!!).


A 'limonada suíça' pode ser ainda melhor
(liquidificar água e limão com casca e coar)


Os benefícios do limão - Por que esta fruta emagrece?

Porque desintoxica - "O limão deixa o ph do sangue mais alcalino, o que favorece o trabalho das enzimas responsaveis pela eliminação de toxinas", diz a nutricionista Daniela Jobst.

Diminui o armazenamento de gordura - A casca é rica em monoterpenos, moléculas dos oléos cítricos que penetram com facilidade em tecidos e células do corpo, ajudando a regular a absorção de açúcares e o armazenamento de gordura.

É diurética - O potássio contido na fruta auxilia na eliminação de sódio, o que facilita a produção de urina e eliminação de líquidos.

Acelera a digestão - A acidez do limão ajuda na quebra das molécula de proteína, facilitando o processo de digestão dos alimentos ingeridos.

Aumenta a sensação de saciedade - Efeito alcançado graças grande concentração de pectina - uma fibra solúvel que aumenta a sensação de saciedade.

Possui grandes quantidades de vitamina C - É antioxidante (combate os radicais livres responsáveis pelo envelhecimento), fortalece o sistema imunológico (impede que os radicais livres ataquem as células imunológicas do corpo), auxilia na tonicidade dos músculos e elasticidade da pele (porque compõe a base da molécula do colágeno), melhora o funcionamento mental (ajudando na absorção de ferro pelo corpo, que mantém os neurônios funcionando bem) e mantém a estrutura do organismo (é vital no processo de assimilação do cálcio, que atua principalmente na firmeza dos ossos e dentes)...


Tá bom procê? E gelada é ainda melhor! "A água gelada é termogênica, ou seja, faz o nosso organismo gerar calor e, consequentemente, perder calorias", diz o cardiologista e médico ortomelecular Sérgio Puppin. Para absorvê-la, nossa corpo faz uma grande esforço, pois precisa elevar sua temperatura até os 39° C. Aliás, bebendo de seis e oito copos de água gelada (em torno de 5°C) todos os dias - fora das refeições - você gasta 200 calorias(!). Mas lembre-se: não acrescente açúcar! Se você é do tipo que adora beber o seu suco muito doce, - isto é, sentir mais o gosto do açúcar que o da fruta, - e acha que não vai aguentar o sabor azedo, use adoçante. Mais uma dica de saúde gratuita do nosso a Arte das artes...

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Fonte: revista
Viva Mais (Editora Abril)


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Mais do mesmo

Por Thomas Merton



A chuva cessa, e o canto puro de um pássaro anuncia, de repente, a diferença entre o Céu e o Inferno.

Deus, nosso Criador, deu-nos uma linguagem em que Ele pode ser anunciado, pois a fé nos vêm pelo ouvido, e a nossa língua é a chave que abre o Céu aos outros.

Mas, quando o Senhor vem como um Esposo, nada fica por dizer, exceto que Ele vem e que devemos ir ao seu encontro: “Eis que vem o Esposo. Saí ao seu encontro!...” (Mt 25,6)

Saímos, então, a encontrá-lo na solidão. Aí nos comunicamos com Ele só, sem palavras, sem pensamentos discursivos, no silêncio integral de todo nosso ser.

Quando o que dizemos se destina só a Ele, é difícil poder dizê-lo em palavras. O que não se dirige à comunicação, nem sequer é objeto de experiência num nível que pode ser claramente analisado. Sabemos que isso não deve ser dito, - simplesmente porque não pode.

Mas, antes de chegarmos a esse inefável e impensável, o espírito ronda as fronteiras da linguagem, indeciso em ficar ou não nos seus próprios limites, a fim de ter alguma coisa a trazer aos homens. Essa é a prova daqueles que desejam cruzar as fronteiras. Se eles não estão prontos a deixar atrás suas próprias idéias e palavras, não podem ir além.



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A importância do Mito



A
importância do mito não se mede pelo fato de retratar ou não uma história real, mesmo que romanceada, ou uma história criada na mente de quem primeiro a relatou. O mito tem que ser avaliado por sua capacidade de conexão com a psique humana.

Os deuses gregos, por exemplo, poderiam ser considerados arquétipos que moram no nosso inconsciente. E o que seriam tais arquétipos? Este é um conceito complexo, mas que pode ser explicado por uma metáfora simples (Jung mesmo dizia que o arquétipo se expressa principalmente através de metáforas): o leito de um rio seco não é o rio, mas está preparado para, na estação das chuvas, organizar as águas, permitir a existência de um rio. Quando elas vierem, aquele leito gera a condição para que o rio exista naquele lugar. Assim também são os arquétipos dentro psique humana, preparados para canalizar os estímulos que chovem em sua "bacia".

O arquétipo é como a fundação de uma casa. Ela não define a casa, que pode ser construída em diferentes estilos, mas define o número máximo de andares que a casa pode ter, por sua capacidade de suportar peso; define também o limite das paredes externas da casa, e, portanto a sua área de projeção. A fundação da casa, portanto, seria o arquétipo, e a casa, a sua imagem arquetípica. Sobre essa mesmo fundação podem ser construídas casas diferentes, com diferentes estilos.

Também um arquétipo suporta milhares de imagens arquetípicas diferentes. Cada sonho, cada mito, cada lenda, mesmo que baseado em um mesmo arquétipo, apresenta imagens arquetípicas diferentes. O arquétipo do herói, por exemplo: as histórias de heróis abundam na literatura universal, na Bíblia, nos mitos, nas lendas e nos contos de fada. Porém, como mostrou Joseph Campbell em sua obra magistral, "O Herói de Mil Faces", existem inúmeras características comuns na estrutura de todas as histórias de heróis. Cada história, - cada imagem arquetípica, - é bem diferente, mas várias características lhe são comuns, pois essa imagem tem como fundação o arquétipo do herói, e este é único.

Jung chegou ao conceito de arquétipo com base na observação reiterada de que os mitos, as lendas, os contos de fadas e as histórias da literatura universal de várias culturas e regiões geográficas diferentes carregam temas semelhantes, que reaparecem com roupagens diversas sempre e por toda parte. Encontramos esses mesmos temas mitológicos nas fantasias, nos sonhos, nas idéias delirantes e ilusões de indivíduos que vivem no mundo atual. Tais imagens – arquetípicas – são representações dos arquétipos que aparecem na psique do homem moderno.

Os mitos estão espalhados por toda a Terra, existem em todas as culturas humanas. É impressionante constatar que povos afastados um do outro, sem qualquer contato entre si, mostram motivos idênticos em sues mitos. Não seria isso suficiente para demonstrar que os mitos são verdades universais, expressam características universais da psique humana? Entretanto, essas verdades, que atuam com força em nosso inconsciente, não são óbvias para nossa mente racional, até mesmo por não corresponderem a fatos possíveis no mundo material. Foi preciso que Jung descobrisse a chave para sua interpretação, e que mitólogos como Joseph Campbell, trabalhando com as idéias do próprio Jung, nos ajudassem a descortinar um novo horizonte, permitindo-nos entender os mitos psicologicamente.

Jung entendeu que certas afirmações religiosas são confissões da psique baseadas no inconsciente do ser humano. Somente aquelas ideias que encontram eco num grande número de mentes conseguem sobreviver à passagem do tempo e se transformar em ideias religiosas, que são, em última análise, verdades psíquicas. Essas ideias se entrincheiram nas profundezas da psique humana, no que Jung chamou de inconsciente coletivo.

Existem três proposições verdadeiras em relação aos livros sagrados de todos os povos:

1. As afirmações religiosas têm suas raízes na psique; são fatos psíquicos.

2. As afirmações religiosas ajudam no processo de estruturação da psique de indivíduos, culturas e épocas.

3. As afirmações religiosas têm suas raízes em experiências transcendentais.

Estas proposições nos apontam a grande importância do entendimento psicológico da Bíblia. E esse entendimento é especialmente importante para aqueles que não acreditam nas afirmações religiosas, para aqueles que não tem fé. Mesmo os ateus vão se surpreender com as lições que podem tirar da Bíblia.

Jung disse que as neuroses devem ser entendidas, em última análise, como um sofrimento da alma que não encontrou seu significado, e que o problema do homem moderno é o da falta de sentido da vida. Dizia também que “felizes aqueles que têm fé, pois não precisam de psicoterapia”(!). Entretanto, como fé não se compra em supermercado, aqueles que não foram premiados com ela têm que trabalhar duro, correr atrás, buscar descobrir o sentido da vida. Pois bem, os mitos da Bíblia (já explicado que mito, aqui, não tem sentido pejorativo) nos ajudam a descobrir o sentido de nossa existência.




Dos mitos que mais influenciaram nossa civilização ocidental, três tiveram maior importância: os mitos da Bíblia, os mitos gregos e, bem mais recentes, os mitos arturianos. E destes três, sem dúvida, os mais relevantes para a civilização ocidental são os da Bíblia, esta série de postagens pretende discutir, usando de paralelos com os mitos gregos e arturianos, e também os de outros povos ao redor do mundo.


“Os mitos bíblicos, ao contrário do que se pensa, no que se refere ao estudo da mente humana, podem nos revelar verdades maiores que as da própria ciência.”
Roberto Lima Netto


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller,2008.




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Pelo bem da objetividade, participe!

Querido leitor do a Arte das artes, eu não sei até que ponto a língua portuguesa é importante para você, mas para mim (e para minha esposa) esse assunto é muito importante, e, direta ou indiretamente, isso também tem a ver com as minhas postagens por aqui. Por isso mesmo, faço questão de divulgar este apelo que recebi por e-mail, do movimento Acordar Melhor (acordar de acordo, - ortográfico no caso), que luta pela simplificação da nova reforma ortográfica da língua portuguesa. Acontece que este acordo, na prática, trouxe mais desacordo do que qualquer outra coisa: as mudanças não foram (nada) práticas, as regras são cheias de exceções, complicando demais (ao invés de facilitar) a vida dos que tem a escrita por ofício. A reforma ortográfica foi assim descrita pelo Manual de Redação da PUC: "As regras de emprego do hífen, por exemplo, são numerosíssimas e das mais complicadas da Língua Portuguesa. Pior: com várias exceções, incoerências e omissões...". Essa questão do hífen (pra não falar da acentuação) se revelou mesmo tragicômica. As regras são do tipo "tal palavra não leva hífen, a não ser em noites de lua cheia ou se no momento da redação os passarinhos estiverem cantando...".




Se você é a favor da objetividade, ou - sem querer apelar para o lado emocional - se você gosta do que este pobre aprendiz de escritor publica por aqui, por favor, assine o manifesto pela simplificação da ortografia (nem meio minuto) clicando aqui. Segue o conteúdo do texto de divulgação, na íntegra. Por favor, divulgue!


"O movimento AcordarMelhor.com.br, que luta pela simplificação da ortografia, conseguiu que a Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, realize no dia 4 de novembro de 2009, às 10 horas, naquela casa, audiência pública sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa recentemente posto em vigor no Brasil.

Estarão participando o Professor Evanildo Bechara – Academia Brasileira de Letras, a Professora Márcia Ângela da Silva Aguiar – Presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, a Professora Clélia Brandão Alvarenga Craveiro – Presidenta do Conselho Nacional de Educação, o Jornalista Maurício Azedo – Presidente da Associação Brasileira de Imprensa, o Professor Leodegário Amarante de Azevedo Filho – Presidente de Honra da Academia Brasileira de Filologia, o Senador Cristovam Buarque, outras autoridades e o Professor Ernani Pimentel, representante do Movimento Acordar Melhor.

Será um importante momento para avaliação das vantagens e desvantagens do Acordo e para conscientização sobre a excelente oportunidade de se avançar na busca de uma ortografia mais racional, simples e adequada à realidade do século XXI.

Chegou a hora de mostrar nossa força. Peça aos seus amigos que, urgentemente, entrem no site “acordar melhor”, cliquem “eu assino o manifesto” e preencham e enviem os dados. Temos mais de 8 mil assinaturas e podemos dobrar esse número. Vamos concentrar esforços até o dia da audiência, 4 de novembro."



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Já lhe perguntaram se você acredita em Deus?




E você já parou pra pensar que, nesse momento, antes de responder, a primeira, lógica e óbvia reação seria perguntar a qual Deus a pergunta se refere? Ao Deus maior, incognoscível, essa Força Misteriosa que muitos crêem que criou o Universo, ou à imagem de Deus que existe no mais profundo de nossa psique, que poderíamos chamar de ‘Deus psicológico’?

A pergunta se refere ao Deus Supremo, o Deus Maior, a Força grandiosa que gerou o Big Bang, que criou o Universo com todos as galáxias, que controlou as infinitas variáveis para que pudesse existir um (ou mais) planeta(s) miraculosamente perfeito(s) para gerar e abrigar vida, indo contra todas as probabilidades estatísticas e científicas, que conduziu um maravilhoso processo evolutivo que partiu de organismos unicelulares até chegar ao maior milagre conhecido em todo o Universo, chamado homo sapiens? - Ou a pergunta se refere ao ser que criou o mundo em seis dias e colocou nossos primeiros ancestrais, como bonecos de barro, num jardim paradisíaco chamado Éden? Em qualquer dos casos, uma coisa não muda: Deus é incognoscível, isto é, não pode ser conhecido pela razão. A Bíblia poderia ser descrita, num certo sentido, como um (incrível) produto da psique humana.

É claro que as poderosas imagens da Bíblia não poderiam ser inventadas pela mente de modo consciente. Inspiradas por Deus ou não (isso é questão de fé), elas brotaram da parte mais profunda da psique humana, do chamado inconsciente. Para serem transformadas em histórias contadas ou escritas, tiveram que ser conscientizadas pelos autores bíblicos: as imagens vieram do inconsciente e chegaram à psique consciente dos autores. Consequentemente, as imagens da Bíblia podem ser entendidas como representações do Deus psicológico, isto é, da imagem de Deus que guardamos dentro de nossa psique.

A psicologia, sendo uma ciência racional, não pode fazer qualquer afirmação sobre o Deus Maior. Ele está muito acima da capacidade racional da mente humana. Por outro lado, pode observar e descrever os resultados da ação de Deus na mente humana, quando Ele se manifesta como imagem visível e passível de ser entendida pela mente humana, o que chamamos de Deus psicológico. – Na linguagem junguiana, poderíamos chamar de Self ou Si-mesmo.

Nada impede que se façam da Bíblia, que é uma coleção multifacetada de livros, leituras diferentes, e isso acaba ocorrendo sempre, até dentro de uma mesma tradição religiosa. Sendo o objetivo desta série de postagens desvendar as verdades psicológicas que ela encerra, vamos interpretar o Deus da Bíblia como sendo a imagem de Deus que trazemos em nossa psique, o chamado Deus psicológico.




Todos os seres humanos trazem dentro de sua psique uma imagem pessoal de Deus. É essa imagem, desse Deus psicológico, que vamos discutir nestas postagens. – Reafirmando o conceito essencial: o Deus transcendente e incognoscível, exatamente por ser transcendente e incognoscível, não pode ser acessado pelo lado racional da mente humana. Pode ser reverenciado, pode ser o foco de nossas orações, pode ser entendido, sentido e intuído pelo nosso lado emocional, e pode ser amado profundamente, de fato. Mas não pode ser entendido racionalmente por nós, seres humanos. Esta série de postagens não pretende uma abordagem teológica da Bíblia, mas uma visão psicológica. O objetivo é buscar as fundamentais verdades psicológicas contidas na Bíblia; portanto, sempre que se falar em Deus, Javé, Eloim, El Shaddai, Senhor, etc, estarei me referindo ao Deus psicológico, isto é, a imagem de Deus dentro de nossa psique, ao Self, conforme referido por Jung. Mas interessa observar que isso não conflita com o fato de a maioria dos teólogos verem na Bíblia o Deus maior, o Deus Supremo e incognoscível.

O nosso objetivo é aproveitar as histórias da Bíblia como fontes de lições de vida de inestimável valor. – Lições que não podem ser contestadas por crentes e nem por agnósticos ou ateus.

Por que a Bíblia, cheia de histórias antigas que não têm qualquer relação com a vida moderna, continua sendo o livro mais popular do mundo? Para essa pergunta existe uma resposta bastante viável: a Bíblia fala diretamente à nossa psique, e à sua parte mais profunda, fazendo vibrar muitas 'cordas' enterradas em nosso inconsciente. Psique é o termo grego para alma. Alguns psicólogos relutam em falar de alma, por acharem que o termo carrega conotações religiosas. Para Jung, e para os objetivos destas postagens, os dois termos – alma e psique – tem significados equivalentes.

A Bíblia, para quem sabe ler, traz preciosas lições de vida. Porém, temos que entendê-la corretamente, e para isso cumpre nos aprofundarmos na natureza dos mitos e em sua função psicológica. - É fundamental entender que o termo “mito”, na linguagem popular, adquiriu a conotação de inverdade, de mentira. o Dicionário Aurélio, entre diversos outros significados, define mito como “ideia falsa, sem correspondente na realidade”. É possível acreditar, séculos depois de Darwin, que o homem foi criado do barro? Que a arca de Noé singrou os mares, com um casal de cada um dos milhões de espécimes de animais da Terra a bordo? A palavra mito pode, equivocadamente, ser interpretada de maneira negativa. Até mesmo falar de mitos na Bíblia pode causar reações calorosas entre os religiosos mais radicais. Mas reconhecer e assumir a existência evidente dos muitos mitos contidos na Bíblia não significa desvalorizá-la, muito pelo contrário. As valiosas lições psicológicas ali contidas, registradas milhares de anos antes do surgimento das ciências da mente, só podem nos levar à reflexão mais profunda a respeito das alegações de sua origem divina.

Muitos pesquisadores entendem os mitos como uma pré-ciência, uma forma de o homem primitivo explicar os fenômenos da natureza. Como tal, depois do desenvolvimento da ciência, passariam a ser apenas histórias bonitas, fábulas para crianças. Outros vêem a mitologia como narrativas de fatos reais apenas transfiguradas pelas fantasias da época e a imaginação de quem as transmitiu. Após as descobertas da psicologia analítica de Jung, porém, esses pontos de vista precisaram ser revistos.

É claro que, para muitos, é difícil acreditar que a serpente falou com Eva, que o Criador de todo o Universo andava despreocupadamente por um jardim que havia criado para os primeiros seres humanos. Mas esses fatos, se não são verdadeiros no mundo físico, podem representar verdades psicológicas interessantíssimas, como veremos. Da mesma forma como os sonhos mostram ao indivíduo verdades psicológicas sobre si mesmo, os mitos sempre apontaram verdades psicológicas aplicáveis a toda a comunidade que os produziu, e, em alguns casos, sobre toda a humanidade.


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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O poder do Mito




A verdade do mito é, em muitos aspectos, maior que a verdade do fato. O mito fala uma linguagem simbólica, metafórica e analógica; Assim, se aceito, é fundamental para o desenvolvimento espiritual (o que quer que isso signifique para quem lê) do homem, para dar sentido às nossas vidas. As imagens mitológicas da Bíblia simbolizam poderes espirituais que todos os seres humanos carregam dentro da psique, mesmo aqueles que se dizem ateus. Por isso mesmo os mitos não se referem a fatos, mas jogam sua luz para além deles. São verdades maiores, que vão além, que transcendem aos fatos. Sobre eles, Salústio, o historiador romano, proferiu uma frase admirável:

“Mitos são coisas que nunca aconteceram, mas que sempre existiram.”



Uma verdade maior

A Bíblia, essa obra fantástica que sobrevive aos passar dos milênios, fala aos seus leitores de diferentes maneiras. Antropólogos a lêem buscando conhecer como viviam os povos do Oriente Médio nas épocas em que ela foi escrita; teólogos a lêem em busca de verdades religiosas, e se baseiam nela para definir dogmas; o homem comum busca nela uma via para entender o seu mundo e os mistérios da vida e da morte.

No mundo moderno, duas correntes principais se digladiam na interpretação da Bíblia. Um grupo vê nela verdades factuais incontestáveis: acredita que o Universo foi realmente criado em seis dias; que Adão e Eva são factualmente nossos primeiros ancestrais, que habitavam num jardim chamado Éden e foram seduzidos pela serpente, que era o mais astuto dos animais (Gênesis 1). Acreditam que, em tempos antigos, os filhos de Deus, de lá do alto do céu, observaram as filhas dos homens e as acharam formosas, desceram à Terra e casaram-se com elas, gerando uma raça de gigantes (Gênesis 6). Acreditam que os homens tentaram construir uma torre tão alta que quase chegou a tocar o céu (que os autores da época achavam que era uma abóbada que recobria toda a Terra e a separava do Céu, morada dos deuses), mas antes que isso acontecesse, Deus fez com que suas línguas se confundissem, e assim a construção não pode ir em frente, e que essa foi a origem da multiplicidade de idiomas no mundo (Gênesis 11). Acreditam que um homem foi engolido por um peixe gigante e sobreviveu no seu ventre durante três dias, mas tendo suplicado a Deus de dentro do peixe, foi regurgitado pelo peixe, são e salvo (Jonas cap. 1 e 2)... - Pode parecer mentira, mas muitas denominações cristãs protestantes acreditam em todas essas histórias não num sentido metafórico, mas literal. - Acreditam ao pé da letra nessas e em várias outras afirmações absurdas da Bíblia, chegando a defender que o Universo tem apenas 6.000 anos de existência (!!), mesmo que a ciência e o mais simples e elementar uso do bom senso as considerem absurdas.

Do outro lado estão aqueles que vêem na Bíblia nada mais uma coleção de lendas e fantasias, refletindo crenças de povos primitivos que tinham necessidade de explicar o mundo em que viviam e não dispunham dos conhecimentos da ciência dos tempos atuais. Essas duas maneiras de interpretar a Bíblia, ambas radicais, foram as que prevaleceram nos últimos séculos, e são opostas e irreconciliáveis.

Porém, a obra admirável que é a Bíblia não precisa se limitar a essas duas interpretações radicais e reducionistas. A Igreja Católica, já há algum tempo, vem priorizando e buscando uma compreensão mais aprofundada e mística do conjunto de textos bíblicos que denomina como “Palavra de Deus”. A compreensão de que o livro sagrado ensina muito mais através das entrelinhas e de revelações pessoais que se manifestam a quem a lê com olhos meditativos e desapegados da literalidade e das explicações prontas, - como ocorre nos círculos católicos de Lectio Divina (Leitura Orante ou Centrante da Bíblia), Oração Centrante Meditação Cristã, - trouxe muito progresso espiritual a esta egrégora, além de uma aproximação nunca antes vista entre a tradição cristã e as religiões orientais. Importa mais o sentido profundamente espiritual e místico, - por vezes até didático - dos textos bíblicos que a sua literalidade. O que não implica dizer que tudo que a Bíblia conta é mito, muito pelo contrário. São incontáveis as descobertas arqueológicas que comprovam muitíssimas passagens descritas no livro sagrado, e hoje é uma certeza acadêmica que a maior parte das histórias bíblicas representam fatos reais, acontecimentos históricos. O que não pode (e não deve) ser esquecido, é que toda as narrativas (em especial aquelas do AT) estão repletas de conceitos mitológicos, analogias e significados místicos muito mais profundos do que o que pode ser encontrado na superfície literal, e é exatamente essa parte recheada de tesouros inestimáveis, que deveria ser priorizada.

Fato incontestável é que o livro sagrado também nos dá fantásticas lições de psicologia e humanidades, ajudando-nos a entender a mente humana. Esta nova maneira de ler a Bíblia, que é o tema desta nova série de postagens, não conflita com nenhuma das anteriores. Não nega que boa parte dos textos contenha realidades literais, Mas se atém às preciosidades morais que eles encerram. É um caminho relativamente novo, aberto com as descobertas de Carl G. Jung - sábio, médico e psicólogo suíço do século XX (1875-1961). Um caminho ainda pouco trilhado, que proporciona ensinamentos valiosos e proporciona um novo entendimento do livro sagrado, que atende aos que querem ver a Bíblia com os olhos da razão, e ao mesmo tempo não conflita com os que a vêem com os olhos da fé.


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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Os segredos da Bíblia




A abordagem simbólica da Bíblia evita o entendimento (equivocado) das grandes e maravilhosas verdades que ela traz de forma puramente literal, como fazem certas religiões institucionalizadas. Terá Deus realmente criado o Universo em 7 dias? Qual o sentido do relato sobre a história do paraíso terrestre e de Adão, criado do húmus da terra, e Eva, a partir da sua costela? Estes e diversos outros pontos são magistralmente discutidos por Roberto Lima Netto (vale o clique) em sua obra ‘Os Segredos da Bíblia’, que eu recomendo fortemente a todos os leitores deste blog.

Interpretar o livro sagrado mediante os conhecimentos científicos atuais e principalmente segundo uma profunda análise psicológica (junguiana) é a proposta do autor, que é doutor pela Universidade de Stanford e escreveu também ‘O Pequeno Príncipe para Gente Grande’, publicado pela editora Best Seller. A partir de hoje, você vai acompanhar uma resenha de ‘Os Segredos da Bíblia’ aqui no a Arte das artes. Aproveite!




Carl Gustav Jung, em seu livro autobiográfico ‘Memórias, Sonhos e Reflexões’, escreve sobre a importância do mitologizar, isto é, não tomar os conteúdos significativos literalmente, mas sim como símbolos, metáforas, sobre cujo significado deveríamos meditar profundamente, de forma a irmos penetrando em seu sentido central e mais importante. Para apreendermos estes significados, devemos realizar o que Jung denominou um circumanbulatio, uma respeitosa caminhada em torno do símbolo, para irmos nos familiarizando, aos poucos, com a multiplicidade inesgotável de seus significados. A palavra ‘Mito’, aqui, adquire um sentido oposto ao corriqueiro, de algo falso ou equivocado. Pelo contrário, mito está sendo entendido como plenamente verdadeiro, algo que não pode ser expresso pela linguagem comum.

Quando Roberto Lima Netto conversa sobre os mitos da Bíblia, ele está precisamente executando essa função de mitologizar, isto é, tomar o principal acervo de ensinamentos sobre a alma humana do mundo ocidental, um legado de sabedoria extraordinário, a experiência de nossos ancestrais, adquirida em sua adaptação às diversas situações típicas da vida e o forte papel da religião para a sobrevivência. A Bíblia é frequentemente entendida, sobretudo por parte das religiões cristãs protestantes ou reformadas, sem o critério de sua forma mitológica e simbólica, exatamente seu conteúdo mais precioso para a espiritualidade humana. O instrumento conhecido mais perfeito de que dispomos para promover a aproximação desses símbolos é a psicologia analítica de C. J. Jung.

Há diversas vantagens na abordagem simbólica dos textos da Bíblia.; em primeiro lugar, evita-se a aproximação dessas grandes e maravilhosas verdades de uma forma puramente literal. Analisaremos as duas versões bíblicas sobre a origem da humanidade: A versão P, segundo a qual a mulher foi tirada da costela do homem, e a versão J, que diz que Deus “macho e fêmea os criou”. – Ou seja, criou a ambos, Adão e Eva, da lama da terra. Entre muitos outros tópicos, estudaremos como a existência de duas versões para a criação dos seres humanos aponta para a realidade simbólica mais profunda desses relatos. É curioso que a suposta inferioridade da mulher perante o homem não está presente na versão J, pois revela a mulher como criação direta a partir de YHWH, sem a necessidade da intermediação de Adão. Essa diferença, que aos nossos ouvidos pode soar irrelevante, tinha uma grande importância no mundo antigo. Todas as culturas antigas da região do AT ensinavam que os deuses iam perdendo poderes e importância a medida em que as gerações se distanciavam do Criador primordial: havia sempre um deus criador que gerava um outro deus, menos poderoso que ele próprio, que por sua vez gerava outro deus um pouco menos poderoso, e assim por diante. Essa relação estava profundamente marcada na vida dos povos ancestrais, fossem babilônicos, cananeus, hititas, mesopotâmicos, etc. – O fato de Adão ter sido criado primeiro, segundo um dos relatos do Gênesis (versão P), significava que o homem era superior a mulher, estando mais próximo do Criador. Mas essa não era a visão unânime da época, conforme comprovamos pelo relato de J. Através deste pequeno exemplo, percebemos a fundamental importância de se saber interpretar a Bíblia com base em sua profunda simbologia.




Os mitos da Bíblia dão a sensação de pertencer a um cosmo ordenado e próprio. Procuram oferecer sempre uma explicação que conforte e situe o homem perante os grandes problemas do sentido da vida e do Universo. Também os mitos bíblicos dizem respeito a todos os problemas cotidianos da vida, os relacionamentos entre irmãos, pais e filhos e, acima de tudo, à suprema lei, a relação com o Senhor Deus, uma ética transcendente que deve regular todas as ações dos homens. As histórias míticas que envolvem todos esses personagens servem como um modelo para as ações dos homens.

A leitura que Roberto Lima Netto propõe é a leitura mítica, que evita qualquer forma de fundamentalismo religioso. Pelo fundamentalismo, o crente se apega à letra do Livro Sagrado, seja ele a Bíblia, o Alcorão ou qualquer outro. O fundamentalista torna-se possuidor de uma verdade absoluta, e todos os demais, para ele, estão mergulhados na escravidão, pois nada sabem. O debate e o diálogo criativo são evitados a todo custo. A visão fundamentalista traz uma falsa segurança, fanatismo e proselitismo. A visão mitológica amplia, enriquece e traz nova percepção das coisas do cotidiano e do Universo. É o que este livro procura oferecer, uma nova dimensão psicológica e um enriquecimento simbólico para a personalidade.



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