Saí do balcão de revistas e fui procurar o livro indicado pelo meu amigo. Dei uma volta pela loja, fui às seções onde esperaria encontrá-lo, procurei um pouco, mas não consegui achar. Me dirigi então até um funcionário e pedi ajuda. Era um rapaz louro e muito magro, com um jeitão de comediante norte-americano, que me olhou com um sorriso que me pareceu ocultar uma pontinha de deboche, e confirmou: “A Cabana?” - Eu assenti com a cabeça, sem me importar com a atitude irônica, e ele me pediu para segui-lo. Para minha surpresa, caminhou direto para o lugar exato onde eu estava antes: o balcão de revistas à entrada da loja! Sim, bem ao lado de onde eu estivera, uma pirâmide imensa construída com centenas de exemplares do livro que eu procurava, no alto da qual havia uma placa amarela onde se lia a palavra “Promoção” em letras pretas garrafais... Acho que agora entendi a ironia do rapazinho: ele devia ter me observado enquanto eu estava parado ali folheando as revistas...
Bom, segundo o meu oftamologista, eu tenho 110% de visão perfeita, mas isso não foi o suficiente para enxergar uma pilha gigante em forma de pirâmide construída com o produto que eu estava procurando, e ainda sinalizada com uma grande placa amarela... Meio sem jeito, fiz uma cara de palhaço e acenei para o garoto: “Tava aqui o tempo todo?!”.. Ele mudou a expressão, do tom de ironia para um de simpatia, respondeu ao aceno e voltou ao seu trabalho.
Mal sabia eu que três horas e meia depois eu me lembraria daquilo como um pequeno sinal... Sim, a Verdade está sempre bem ao nosso lado, e na maior parte do tempo a grande maioria das pessoas não a percebe. E a Verdade está sempre disfarçada, como se fosse uma criança sapeca eternamente a brincar de esconde-esconde com os nossos sentidos e com a nossa inteligência...
Mas o fato é que quando eu vi aquela pilha de livros, imediatamente percebi que a tal obra literária que o meu amigo me indicara era na realidade o mais novo “best seller espiritual” do momento... Tinha uma placa dizendo que já vendera zilhões ao redor do mundo e mais de 100.000 exemplares aqui no Brasil, só nas duas primeiras semanas do lançamento, o que é realmente um feito extraordinário... Hmmm... Torci o nariz, ainda que inconscientemente. Já há um bom tempo que ando saturado de tantos "O Código não sei das quantas", “O Segredo”, “A Tumba Secreta de Jesus” e tantos "segredos", mensagens e doutrinas secretas e revelações bombásticas da verdadeira verdade definitiva escondida de Jesus, sem contar os autores que conversam diretamente com Deus em suas imaginações, como o Neale Donald Walsh... É, a primeira impressão que tive foi que aquele livro deveria ser mais uma bomba literária da moda, no mal sentido. “Daniel, Daniel... esperava mais de você...”, pensei comigo. Mesmo assim resolvi dar um crédito ao meu amigo virtual: peguei o livro e o levei para o sofá de degustação daquela grande livraria.
O engraçado é que eu nunca pego um único livro pra ler, quando vou a uma bookstore. Sempre pego vários, no mínimo uns quatro ou cinco, levo para o sofá e acabo passando um bom tempo lendo trechos de todos. Se algum me agradar, levo pra casa. Mas naquele dia, mesmo não tendo ido nem um pouco com “a cara” da obra, levei só ela para ler, e honestamente não sei porque fiz isso. Acho que queria ler pelo menos algumas partes com calma, sentado e concentrado, para tentar entender o que o meu amigo tinha visto de tão especial ali. E, logo ao abri-lo, ainda antes do prefácio, dei de cara com a seguinte dedicatória:
"...a todos nós, falhos, que acreditamos que o Amor governa. Levantemo-nos e deixemos que ele brilhe".
Gostei. De cara, aquela frase realmente me tocou; ela expressa de maneira muito singela aquilo que eu realmente acredito e tento adotar como prática espiritual na minha vida: LEVANTAR e deixar o Amor brilhar em nossas vidas. E observem que o autor grafa a palavra "Amor" com inicial maiúscula, como eu sempre faço e sempre fiz, desde o começo, neste blog. Até expliquei porque adotei este hábito, no post “Samadhi”. - Mas pra você não precisar ir até lá procurar, eu repito a frase aqui:
“Desde muito cedo, nesta minha busca, eu aprendi que a grande base para toda possibilidade de crescimento espiritual é o Amor. Não qualquer amor, estou falando de Amor. Como diz Krishnamurti, a palavra “amor” foi tão maltratada no decorrer dos séculos, que chegamos numa época em que praticamente ninguém mais sabe exatamente o que ela significa. Por isso gosto de grafar Amor com letra maiúscula, quando me refiro ao Amor verdadeiro, aquele proposto por Jesus. Sabendo que o Amor é sem dúvida nenhuma a chave para o sucesso nessa busca a que me entreguei de corpo e alma, tratei de aprender a cultivá-lo, dentro de mim.”
Então, aquele foi um ótimo começo de leitura, antes mesmo de entrar na história em si. Achei que seria o tipo de dedicatória de alguém que conhece espiritualidade de fato...
Lembro-me perfeitamente de olhar o relógio quando me sentei no sofá daquela livraria: eram 14h30min – E exatas três horas e meia depois, eu concluía a leitura integral daquele pequeno livro mágico, do prefácio ao posfácio, tendo pulado não mais que uma meia dúzia de páginas de um total de duzentas e trinta e seis. Por ser absolutamente viciado em leitura, eu leio muito rápido, ás vezes até me perguntam se eu estudei leitura dinâmica (a resposta é não), mas naquela tarde foi especial. - Ler aquele livro não se tratou apenas de leitura. Foi mais como uma viagem além dos confins da minha “inteligência”, das minhas limitações humanas, dos meus conceitos pré estabelecidos... E, como costuma acontecer nessas experiências, o tempo não significou absolutamente nada. Era como se eu tivesse encontrado uma porta por onde sair deste espaço-tempo para fazer uma visita a uma outra dimensão, uma outra realidade muito mais bonita do que a nossa, em todos os sentidos. – Exatamente a história do protagonista do livro...
Às 18 horas, quando o fechei, maravilhado, o livro mágico parecia sem peso em minhas mãos: eu tinha mesmo a impressão de que se o soltasse, ele sairia flutuando pelo espaço, tal a extraordinária sinergia que floresceu entre “nós”: eu, o livro e o seu autor... Uma das coisas que mais me marcou naquela primeira leitura (porque desde aquele dia eu venho relendo a obra toda devagar, um pedacinho por dia) foi a sensação de que era eu mesmo escrevendo aquela história(!), por mais maluco que isso possa parecer. Não sei se Daniel concordaria comigo, mas eu achei o estilo da narrativa muito parecido com o meu próprio! Um jeito leve de escrever, descritivo sem ser enfadonho, como eu tento fazer aqui no blog e em tudo que escrevo... Mas o principal e o mais impressionante era que as idéias apresentadas, o modo de entender as questões essenciais da vida, os pontos difíceis das religiões, da teologia... Tudo era muito, muito semelhante ao meu próprio modo de pensar! A maneira absolutamente irreverente, para dizer o mínimo, de apresentar Deus, ficou totalmente para segundo, terceiro ou quarto plano, diante da profundidade do que essa particularíssima visão de Deus ensinava. E, diante de tanta profundidade espiritual autêntica, que só poderia ter partido de um genuíno buscador da Verdade, eu pensava o tempo todo: "Eu poderia ter escrito isso!" Ou eu poderia ter escrito algo muito, muito parecido com aquilo, não na forma, mas no conteúdo, porque a essência do que está sendo dito está numa harmonia muito profunda com a minha própria maneira de entender as coisas.
Logo no primeiro capítulo do livro, há uma citação que a minha amiga Cris deixou aqui no Arte das artes há um bom tempo, e que me marcou muito:
"Duas estradas se bifurcaram no meio da minha vida,
Ouvi um sábio dizer.
Peguei a estrada menos usada.
E isso fez toda a diferença, cada noite e cada dia."
- Larry Norman (pedindo desculpas a Robert Frost)
Mas também há várias outras citações que me tocaram, pela forma simples de extravasar uma verdade transcendente e muito profunda:
“A falsidade tem uma infinidade de combinações, mas a Verdade só tem um modo de ser.”
- Jean-Jacques Rousseau
“A fé nunca sabe aonde está sendo levada, Mas conhece e ama Aquele que a está levando.”
- Oswald Chambers
Essas são algumas das citações do livro, todas escolhidas primorosamente pelo autor. Estou acrescentando-as a este post porque eu não vou falar aqui do livro em si, da história do livro, do argumento e nem dos personagens. - Porque não é um livro para todos. Tenho certeza que muitos o achariam uma droga, uma porcaria, alguns até o considerariam blasfemo. Não é fácil se referir Deus da maneira como o faz William Paul Young. Para tanto, é preciso ter lançado fora todo o seu medo, é preciso estar despido de toda interpretação teológica clássica, é preciso estar saturado do mais simples, puro e infantil... Amor.
Claro, eu adquiri um exemplar do livro. Mas não vou aconselhar ninguém a fazer o mesmo. Eu só queria dizer aqui o quanto ler a sua história valeu à pena para mim. O quanto essa viagem foi transformadora na minha vida, como eu sei que está sendo para muitos ao redor do mundo. Eu estava no lugar certo, na hora certa, e, se me permitem, eu sou o autor do blog certo, porque foi através deste espaço que eu tomei conhecimento do livro, indicado por alguém que considero confiável. Mas acho importante dizer que esse tipo de iluminação, ao menos para mim, não vem necessariamente através de um livro, de uma palavra de sabedoria ou de uma mensagem maravilhosa. Eu já tive momentos assim lendo uma charge num jornal velho encontrado na mesinha da sala de espera de um dentista, observando uma folha de árvore morta no quintal, ou naquele dia, enquanto olhava as nuvens claras passeando pelo céu... Então, não condicionem a sua relação com Deus à leitura de um livro, qualquer que seja esse livro; não condicionem a sua relação com Deus a nada além de si mesmos... Ele, o nosso Bem Amado Cósmico, está dentro de nós, neste exato momento, e só espera que lhe dediquemos a atenção devida, que nos entreguemos, que o reconheçamos. E não é preciso nenhum livro para servir de conexão entre nós e Ele.
Me levantei anestesiado pelo efeito da Graça de Deus em meu ser, na minha mente e na minha alma, e até no meu corpo físico, pois a sensação era quase a de embriaguez... Como diz uma canção do Yogananda, "Cantarei Teu Nome, beberei Teu Nome, me embriagarei com o Teu Nome..." - Era exatamene assim que me sentia: embriagado de Deus, embriagado da Graça divina. Uma personagem deste livro se refere a Deus como "Papai", isto é, exatamente da mesma maneira que fazia Jesus, porque é essa a mais perfeita tradução da palavra "Abba": "Papai". E eu agora havia resgatado a minha intimidade com Deus. - Sim, a minha conexão com Papai estava mais forte e intensa do que nunca, e eu queria que aquele momento nunca acabasse. Fechei os olhos e dei graças no meu íntimo, muitas vezes, e a sensação era de que Ele me ouvia sorrindo, muito próximo. A minha sensação de proximidade com Deus estava ampliada muitas vezes mais do que o habitual, talvez milhares de vezes. Não sentia Deus fora, mas dentro, agindo a partir de dentro de mim, sondando-me, eliminando todo e qualquer vestígio de treva, de dentro para fora.
Saí da livraria avoado, atordoado. Parecia-me que tudo que eu olhava estava iluminado, impregnado de Luz, de Graça, exalando uma luminosidade tênue, mas muito real. Cada objeto, cada pessoa que eu encontrava me parecia envolta por um fino halo brilhante, que se conectava a um campo de luz maior que impregnava tudo e todos, do chão até o teto (eu estava ainda dentro do shopping). Era como se o mundo tivesse ficado mais claro, com cores mais vívidas, mais vibrantes. Vivi mais uma vez um momento especial da minha vida, em que todas as perguntas se calam, as indagações e as dúvidas se tornam nada, e apenas uma felicidade infinita e irradiante toma conta de tudo.
A Taraxacum Officinale Weber, popular 'Dente de Leão', em toda sua glória
Diferente do que senti em outras ocasiões parecidas com esta, eu não sentia nenhuma preocupação com o que aconteceria depois, eu não pensava no quanto aquela sensação duraria. Eu simplesmente aproveitava o momento maravilhoso, eu usufruia da Inefável e Indescritível Presença de Papai junto de mim, como uma criança que não tem a noção da própria finitude... Saí do shopping. O dia estava se despedindo, mas tudo que havia era o Agora, eterno, perfeito e imutável. Olhei em volta, extasiado: fios de luz se desprendiam do solo, da terra, do asfalto e dos pés dos transeuntes, e flutuavam como pétalas-semente de dente de leão quando assopradas pelo vento... Ali fora, e àquela hora, o halo de luz que a tudo permeava e a tudo parecia unificar parecia mais azulado do que lá dentro, sob as luzes artificiais. Toda a Terra exalava Luz e parecia desprender um perfume muito sutil... tudo era suavidade. Meu caminhar era como seria de se imaginar o andar sobre nuvens. Eu era fluido e me movia deslizando, mais do que caminhando. Eu existia nas Mãos amorosas de Papai...
Uma entrevista com William P. Young
Esta é a terceira parte de uma postagem feita para contar essa história que eu pensei que seria possível resumir em poucas linhas. Como sou tolo... E, acreditem se quiser, no topo do blog do autor de "A Cabana", descobri hoje, há a imagem de um dente de leão...
>> Continuação deste post
( Comentar este post
Bom, segundo o meu oftamologista, eu tenho 110% de visão perfeita, mas isso não foi o suficiente para enxergar uma pilha gigante em forma de pirâmide construída com o produto que eu estava procurando, e ainda sinalizada com uma grande placa amarela... Meio sem jeito, fiz uma cara de palhaço e acenei para o garoto: “Tava aqui o tempo todo?!”.. Ele mudou a expressão, do tom de ironia para um de simpatia, respondeu ao aceno e voltou ao seu trabalho.
Mal sabia eu que três horas e meia depois eu me lembraria daquilo como um pequeno sinal... Sim, a Verdade está sempre bem ao nosso lado, e na maior parte do tempo a grande maioria das pessoas não a percebe. E a Verdade está sempre disfarçada, como se fosse uma criança sapeca eternamente a brincar de esconde-esconde com os nossos sentidos e com a nossa inteligência...
Mas o fato é que quando eu vi aquela pilha de livros, imediatamente percebi que a tal obra literária que o meu amigo me indicara era na realidade o mais novo “best seller espiritual” do momento... Tinha uma placa dizendo que já vendera zilhões ao redor do mundo e mais de 100.000 exemplares aqui no Brasil, só nas duas primeiras semanas do lançamento, o que é realmente um feito extraordinário... Hmmm... Torci o nariz, ainda que inconscientemente. Já há um bom tempo que ando saturado de tantos "O Código não sei das quantas", “O Segredo”, “A Tumba Secreta de Jesus” e tantos "segredos", mensagens e doutrinas secretas e revelações bombásticas da verdadeira verdade definitiva escondida de Jesus, sem contar os autores que conversam diretamente com Deus em suas imaginações, como o Neale Donald Walsh... É, a primeira impressão que tive foi que aquele livro deveria ser mais uma bomba literária da moda, no mal sentido. “Daniel, Daniel... esperava mais de você...”, pensei comigo. Mesmo assim resolvi dar um crédito ao meu amigo virtual: peguei o livro e o levei para o sofá de degustação daquela grande livraria.
O engraçado é que eu nunca pego um único livro pra ler, quando vou a uma bookstore. Sempre pego vários, no mínimo uns quatro ou cinco, levo para o sofá e acabo passando um bom tempo lendo trechos de todos. Se algum me agradar, levo pra casa. Mas naquele dia, mesmo não tendo ido nem um pouco com “a cara” da obra, levei só ela para ler, e honestamente não sei porque fiz isso. Acho que queria ler pelo menos algumas partes com calma, sentado e concentrado, para tentar entender o que o meu amigo tinha visto de tão especial ali. E, logo ao abri-lo, ainda antes do prefácio, dei de cara com a seguinte dedicatória:
"...a todos nós, falhos, que acreditamos que o Amor governa. Levantemo-nos e deixemos que ele brilhe".
Gostei. De cara, aquela frase realmente me tocou; ela expressa de maneira muito singela aquilo que eu realmente acredito e tento adotar como prática espiritual na minha vida: LEVANTAR e deixar o Amor brilhar em nossas vidas. E observem que o autor grafa a palavra "Amor" com inicial maiúscula, como eu sempre faço e sempre fiz, desde o começo, neste blog. Até expliquei porque adotei este hábito, no post “Samadhi”. - Mas pra você não precisar ir até lá procurar, eu repito a frase aqui:
“Desde muito cedo, nesta minha busca, eu aprendi que a grande base para toda possibilidade de crescimento espiritual é o Amor. Não qualquer amor, estou falando de Amor. Como diz Krishnamurti, a palavra “amor” foi tão maltratada no decorrer dos séculos, que chegamos numa época em que praticamente ninguém mais sabe exatamente o que ela significa. Por isso gosto de grafar Amor com letra maiúscula, quando me refiro ao Amor verdadeiro, aquele proposto por Jesus. Sabendo que o Amor é sem dúvida nenhuma a chave para o sucesso nessa busca a que me entreguei de corpo e alma, tratei de aprender a cultivá-lo, dentro de mim.”
Então, aquele foi um ótimo começo de leitura, antes mesmo de entrar na história em si. Achei que seria o tipo de dedicatória de alguém que conhece espiritualidade de fato...
Lembro-me perfeitamente de olhar o relógio quando me sentei no sofá daquela livraria: eram 14h30min – E exatas três horas e meia depois, eu concluía a leitura integral daquele pequeno livro mágico, do prefácio ao posfácio, tendo pulado não mais que uma meia dúzia de páginas de um total de duzentas e trinta e seis. Por ser absolutamente viciado em leitura, eu leio muito rápido, ás vezes até me perguntam se eu estudei leitura dinâmica (a resposta é não), mas naquela tarde foi especial. - Ler aquele livro não se tratou apenas de leitura. Foi mais como uma viagem além dos confins da minha “inteligência”, das minhas limitações humanas, dos meus conceitos pré estabelecidos... E, como costuma acontecer nessas experiências, o tempo não significou absolutamente nada. Era como se eu tivesse encontrado uma porta por onde sair deste espaço-tempo para fazer uma visita a uma outra dimensão, uma outra realidade muito mais bonita do que a nossa, em todos os sentidos. – Exatamente a história do protagonista do livro...
Às 18 horas, quando o fechei, maravilhado, o livro mágico parecia sem peso em minhas mãos: eu tinha mesmo a impressão de que se o soltasse, ele sairia flutuando pelo espaço, tal a extraordinária sinergia que floresceu entre “nós”: eu, o livro e o seu autor... Uma das coisas que mais me marcou naquela primeira leitura (porque desde aquele dia eu venho relendo a obra toda devagar, um pedacinho por dia) foi a sensação de que era eu mesmo escrevendo aquela história(!), por mais maluco que isso possa parecer. Não sei se Daniel concordaria comigo, mas eu achei o estilo da narrativa muito parecido com o meu próprio! Um jeito leve de escrever, descritivo sem ser enfadonho, como eu tento fazer aqui no blog e em tudo que escrevo... Mas o principal e o mais impressionante era que as idéias apresentadas, o modo de entender as questões essenciais da vida, os pontos difíceis das religiões, da teologia... Tudo era muito, muito semelhante ao meu próprio modo de pensar! A maneira absolutamente irreverente, para dizer o mínimo, de apresentar Deus, ficou totalmente para segundo, terceiro ou quarto plano, diante da profundidade do que essa particularíssima visão de Deus ensinava. E, diante de tanta profundidade espiritual autêntica, que só poderia ter partido de um genuíno buscador da Verdade, eu pensava o tempo todo: "Eu poderia ter escrito isso!" Ou eu poderia ter escrito algo muito, muito parecido com aquilo, não na forma, mas no conteúdo, porque a essência do que está sendo dito está numa harmonia muito profunda com a minha própria maneira de entender as coisas.
Logo no primeiro capítulo do livro, há uma citação que a minha amiga Cris deixou aqui no Arte das artes há um bom tempo, e que me marcou muito:
"Duas estradas se bifurcaram no meio da minha vida,
Ouvi um sábio dizer.
Peguei a estrada menos usada.
E isso fez toda a diferença, cada noite e cada dia."
- Larry Norman (pedindo desculpas a Robert Frost)
Mas também há várias outras citações que me tocaram, pela forma simples de extravasar uma verdade transcendente e muito profunda:
“A falsidade tem uma infinidade de combinações, mas a Verdade só tem um modo de ser.”
- Jean-Jacques Rousseau
“A fé nunca sabe aonde está sendo levada, Mas conhece e ama Aquele que a está levando.”
- Oswald Chambers
Essas são algumas das citações do livro, todas escolhidas primorosamente pelo autor. Estou acrescentando-as a este post porque eu não vou falar aqui do livro em si, da história do livro, do argumento e nem dos personagens. - Porque não é um livro para todos. Tenho certeza que muitos o achariam uma droga, uma porcaria, alguns até o considerariam blasfemo. Não é fácil se referir Deus da maneira como o faz William Paul Young. Para tanto, é preciso ter lançado fora todo o seu medo, é preciso estar despido de toda interpretação teológica clássica, é preciso estar saturado do mais simples, puro e infantil... Amor.
Claro, eu adquiri um exemplar do livro. Mas não vou aconselhar ninguém a fazer o mesmo. Eu só queria dizer aqui o quanto ler a sua história valeu à pena para mim. O quanto essa viagem foi transformadora na minha vida, como eu sei que está sendo para muitos ao redor do mundo. Eu estava no lugar certo, na hora certa, e, se me permitem, eu sou o autor do blog certo, porque foi através deste espaço que eu tomei conhecimento do livro, indicado por alguém que considero confiável. Mas acho importante dizer que esse tipo de iluminação, ao menos para mim, não vem necessariamente através de um livro, de uma palavra de sabedoria ou de uma mensagem maravilhosa. Eu já tive momentos assim lendo uma charge num jornal velho encontrado na mesinha da sala de espera de um dentista, observando uma folha de árvore morta no quintal, ou naquele dia, enquanto olhava as nuvens claras passeando pelo céu... Então, não condicionem a sua relação com Deus à leitura de um livro, qualquer que seja esse livro; não condicionem a sua relação com Deus a nada além de si mesmos... Ele, o nosso Bem Amado Cósmico, está dentro de nós, neste exato momento, e só espera que lhe dediquemos a atenção devida, que nos entreguemos, que o reconheçamos. E não é preciso nenhum livro para servir de conexão entre nós e Ele.
Me levantei anestesiado pelo efeito da Graça de Deus em meu ser, na minha mente e na minha alma, e até no meu corpo físico, pois a sensação era quase a de embriaguez... Como diz uma canção do Yogananda, "Cantarei Teu Nome, beberei Teu Nome, me embriagarei com o Teu Nome..." - Era exatamene assim que me sentia: embriagado de Deus, embriagado da Graça divina. Uma personagem deste livro se refere a Deus como "Papai", isto é, exatamente da mesma maneira que fazia Jesus, porque é essa a mais perfeita tradução da palavra "Abba": "Papai". E eu agora havia resgatado a minha intimidade com Deus. - Sim, a minha conexão com Papai estava mais forte e intensa do que nunca, e eu queria que aquele momento nunca acabasse. Fechei os olhos e dei graças no meu íntimo, muitas vezes, e a sensação era de que Ele me ouvia sorrindo, muito próximo. A minha sensação de proximidade com Deus estava ampliada muitas vezes mais do que o habitual, talvez milhares de vezes. Não sentia Deus fora, mas dentro, agindo a partir de dentro de mim, sondando-me, eliminando todo e qualquer vestígio de treva, de dentro para fora.
Saí da livraria avoado, atordoado. Parecia-me que tudo que eu olhava estava iluminado, impregnado de Luz, de Graça, exalando uma luminosidade tênue, mas muito real. Cada objeto, cada pessoa que eu encontrava me parecia envolta por um fino halo brilhante, que se conectava a um campo de luz maior que impregnava tudo e todos, do chão até o teto (eu estava ainda dentro do shopping). Era como se o mundo tivesse ficado mais claro, com cores mais vívidas, mais vibrantes. Vivi mais uma vez um momento especial da minha vida, em que todas as perguntas se calam, as indagações e as dúvidas se tornam nada, e apenas uma felicidade infinita e irradiante toma conta de tudo.
Diferente do que senti em outras ocasiões parecidas com esta, eu não sentia nenhuma preocupação com o que aconteceria depois, eu não pensava no quanto aquela sensação duraria. Eu simplesmente aproveitava o momento maravilhoso, eu usufruia da Inefável e Indescritível Presença de Papai junto de mim, como uma criança que não tem a noção da própria finitude... Saí do shopping. O dia estava se despedindo, mas tudo que havia era o Agora, eterno, perfeito e imutável. Olhei em volta, extasiado: fios de luz se desprendiam do solo, da terra, do asfalto e dos pés dos transeuntes, e flutuavam como pétalas-semente de dente de leão quando assopradas pelo vento... Ali fora, e àquela hora, o halo de luz que a tudo permeava e a tudo parecia unificar parecia mais azulado do que lá dentro, sob as luzes artificiais. Toda a Terra exalava Luz e parecia desprender um perfume muito sutil... tudo era suavidade. Meu caminhar era como seria de se imaginar o andar sobre nuvens. Eu era fluido e me movia deslizando, mais do que caminhando. Eu existia nas Mãos amorosas de Papai...
Esta é a terceira parte de uma postagem feita para contar essa história que eu pensei que seria possível resumir em poucas linhas. Como sou tolo... E, acreditem se quiser, no topo do blog do autor de "A Cabana", descobri hoje, há a imagem de um dente de leão...
>> Continuação deste post
( Comentar este post














