Boas Novas: nossa grandeza e nossa responsabilidade!

Os Evangelhos, que no grego significam "Boas Novas", são uma fonte inesgotável de aprendizado e Graça. A cada vez que leio os seus versos, novas realidades se apresentam diante dos meus olhos e do meu entendimento. Em cada pequeno trecho dessas boas novas escritas, mesmo onde não imaginamos, há sempre material para uma reflexão espiritual maravilhosa, ou para uma meditação profunda. Por isso, mesmo eu sendo um buscador meio maluco, não sou tão insano a ponto de pensar que seria capaz de esgotar todas as possibilidades, todas as interpretações ou toda a Luz que esses textos sagrados podem nos oferecer.

Da primeira parte publicada neste blog, achei que seria imprescindível esclarecer a questão da tradução e principalmente do entendimento, tantas vezes equivocado, a respeito do termo "pobres de espírito". Claro e evidente que haveria muito mais, muito mais mesmo a ser dito sobre o primeiro trecho do Evangelho segundo Matheus que eu publiquei primeiro, mas eu receio que um só blog não seria suficiente para esgotar o assunto...

Quem são os que choram? E os mansos? E os que têm fome e sede de justiça? Quem são os misericordiosos? Que significa ser puro? O que é ser um pacificador? Quem são os que sofrem perseguição por causa da justiça? Quem está sendo injuriado e perseguido por causa do Cristo? Qual é o "galardão" que nos aguarda? Que significa isso?..


Bem, bem... o Caminho pode ser estreito, mas o fardo é leve, e a caminhada é bela e apaixonante! A postagem está lá, e, principalmente, os Evangelhos estão aí. Leiam, meditem e busquem o seu entendimento; esta é a minha dica. - Alguns reclamam e/ou dão as costas a Jesus, pelo fato de ele não ter deixado instruções mais específicas e precisas a respeito de como se conquista o Reino do Céu, ou de como segui-lo. Será que ele não o fez? - Ocorre que existem muitas religiões que se propõem a ensinar todo tipo de técnica, métodos e práticas espirituais para nos ajudar a vencer as nossas dificuldades; algumas nos dizem exatamente o que fazer em cada situação desta vida e outras até nos contam em minúcias o que vai acontecer depois dela. Jesus faz diferente: ele nos deixa dicas, nos dá o mapa do tesouro com setas apontando a direção a seguir. E diz: "Confiem em mim, descubram por si mesmos, e venham com as suas próprias pernas".

A tarefa de descobrir os comos, porquês e quandos da vida, foi deixada ao nosso encargo. Isso é liberdade! E a libertação final virá quando, um dia, tivermos decifrado esses pequenos e grandes enigmas desta vida. Mas é preciso trabalho, oração, vigília... Jesus não nos deixou sós, mas ele não nos deu um manual detalhado, e sim deixou pistas, e parece esperar que montemos o nosso grande quebra-cabeças. E isso é um trabalho individual de cada um. Então prefiro deixar esse trabalho a cargo de cada buscador, ao menos por hora. Vamos a sequência dos Evangelhos, como proposta, e eu continuo comentando o que achar que posso...


"Vós sois o sal da terra; se o sal for insípido, com que se há de salgar, ou como se haverá de restaurar-lhe o sabor? Para nada mais presta, senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.

Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade que foi edificada sobre um monte;

Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.

Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus."




Tradução "Almeida Revisada Imprensa Bíblica"



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Contos da infância intergaláctica

Como uma pausa de fim de semana na série de posts sobre Jesus e o Cristianismo, resolvi publicar hoje um excelente artigo sobre ciência física e astronomia, da coluna do Prof° Marcelo Gleiser (foto) no jornal "Folha de São Paulo", de 11 de Setembro último. Marcelo Gleiser é considerado um dos físicos mais brilhantes do mundo; é escritor, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro “A Harmonia do Mundo”. E ele consegue realizar uma proeza: escrever de um jeito muito claro e fácil de entender a respeito de assuntos complicadíssimos. Ele também tem um jeito muito especial de abordar as relações do homem com o Universo, o que me agrada muito. Na minha opinião, física e espiritualidade tem tudo a ver. Vejam que belo resumo ele fez a respeito desses assuntos, que nos interessam mas que, via de regra, conhecemos bem pouco.


Sabemos hoje a idade do Universo: em números arredondados, 14 bilhões de anos. Esse é o tempo passado desde o Big Bang, o evento que deu origem a tudo. Sabemos, também, que o Universo é salpicado de centenas de bilhões de galáxias, cada uma com milhões ou até centenas de bilhões de estrelas. Esse é o caso da nossa galáxia, a Via Láctea, onde o Sol é uma humilde estrela em meio a tantas outras. Mas não se iluda pensando que essas estrelas todas estão pertinho umas das outras. Não, o espaço é praticamente vazio, e as distâncias entre as estrelas são em média de dezenas de anos-luz. Ou seja, viajando à velocidade da luz, demoraríamos dezenas de anos para ir de uma a outra.

Mesmo com tantas estrelas, a galáxia em si é tão enorme que as distâncias entre elas são…astronômicas. A Via Láctea tem um diâmetro de 100 mil anos-luz. Com tecnologia atual, demoraríamos em torno de 25 mil anos para atravessar um mero ano-luz. A galáxia inteira tomaria uns 2,5 bilhões de anos. Penso nisso e sinto uma grande solidão: estamos mesmo muito isolados do resto do cosmo, nós e os outros planetas do Sistema Solar, todos eles - ao menos pelo que sabemos hoje - sem vida.

A Terra é uma ilha de atividade biológica em meio à desolação total que nos cerca por muitos anos-luz. Mas o Sol não é a única estrela. E a Via Láctea não é a única galáxia. Hoje temos uma visão do cosmo que é semelhante à de um campo com árvores de Natal espalhadas na noite escura. Cada árvore iluminada é uma galáxia, e as luzes, suas estrelas. Na escuridão da noite, vemos apenas as luzes das árvores piscando, parecendo flutuar pelo campo afora. Assim nos parecem as galáxias, formadas apenas de estrelas e gás. De perto, porém, a história é outra. Na árvore de Natal existe uma estrutura que sustenta as lâmpadas, a árvore e os seus galhos. Mas e nas galáxias? O que as sustenta? Em cada uma delas existe também uma estrutura, uma teia invisível de matéria que dá suporte às estrelas e ao gás que produz sua luz.

Só que essa teia invisível não é feita da mesma matéria que as estrelas e as nuvens de gás. Essa “matéria escura” - esse é o seu nome - não tem nada a ver com a matéria comum que conhecemos. Ninguém sabe que matéria é essa. Mas sabemos que cerca de 80% da massa das galáxias corresponde a essa matéria e não às estrelas. Exagerando um pouco a metáfora das árvores de Natal, nelas também a massa em matéria escura - o tronco e os galhos - é bem maior do que a massa total das pequenas lâmpadas.




Uma das questões de ponta em astrofísica, fora, claro, o que é essa matéria escura, é como nasceram as galáxias. Sabemos que a grande escultora das formas cósmicas é a força da gravidade. Dado que 80% da massa das galáxias é em matéria escura, é claro que sua dinâmica de formação também é dominada por esse tipo de matéria. Estudando as propriedades de galáxias quando o Universo tinha 7 bilhões de anos, metade de sua idade atual, astrônomos descobriram que as coisas eram semelhantes; os mesmos tipos de galáxias, com a mesma dinâmica: galáxias espirais cheias de estrelas nascendo e galáxias elípticas com estrelas velhas.

A matéria escura cria poços gravitacionais para onde flui a matéria normal, que forma as estrelas. Esse movimento causa ondas de choque violentas. Quanto mais matéria escura, mais violenta a onda de choque. Nos casos mais dramáticos, o choque pode interromper a formação de estrelas. Galáxias elípticas são as que têm a formação de estrelas interrompida mais cedo. Mesmo que ainda existam muitos pontos obscuros, a infância das galáxias começa a ser desvendada.



Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal Folha de São Paulo, em 24 de agosto de 2008. Como viram, os temas que abordados neste artigo deixam margem para vários outros posts, com assuntos bem interessantes, como: o que é essa misteriosa 'matéria escura'?



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Comentários


Um pequeno aviso aos buscadores:

É sobre o livro de mensagens. - Eu sei, eu sei que os meus queridos leitores mais antigos gostavam muito do livro de mensagens deste blog, que por tanto tempo serviu como uma espécie de "sala de bate-papo" para o pessoal que sempre vem aqui.

Mas acontece que esse sistema tem dois grandes incovenientes, que me dão uma grande dor de cabeça: o primeiro é que o livro falha, às vezes. - A pessoa escreve um comentário enorme e inspirado, clica em 'adicionar' e... puf! tudo aquilo que ela ficou um tempão escrevendo, aquelas palavras nas quais tinha colocado a sua alma e toda a sua emoção... tudo simplesmente desaparece! E aí não há mais como se recuperar o texto perdido. Isso é frustrante. Muito. - Estou cansado de ouvir essas reclamações, e às vezes acontece comigo, também.

O outro grande problema é que a manutenção das mensagens via livro me dá muito trabalho: eu tenho que ficar a toda hora transferindo os comentários que são deixados no livro para o espaço de comentários do normal do blogger. - Eu faço isso porque não quero perder as mensagens de vocês. Como já falei muitas vezes, são os leitores que me ajudam a fazer esta Arte aqui. Eu aprendo com vocês, me emociono com vocês, e é a existência e a participação de vocês que faz tudo valer a pena. Eu fiz amigos virtuais muito especiais aqui, que com os seus comentários muitas vezes até me ajudam a completar as idéia propostas nos posts.

E a gota d'água foi ter perdido todos os comentários de diversas postagens antigas, entre estas as de "Um conto: Zadig"... Puxa, aquela foi uma das postagens que mais rendeu bons comentários, que inclusive me levaram a bons questionamentos, na época. E agora... foi-se tudo por água abaixo. Culpa do livro de mensagens. Grrrrr...

Então, como eu não quero mais perder as mensagens tão belas e profundas que vocês costumam deixar, resolvi mudar mesmo o sistema. Já tentei fazer isso antes mas voltei ao velho livro, sob protestos. Mas dessa vez não vai ter jeito.

A partir de agora, a coisa funciona assim: para ler as mensagens que vão sendo deixadas diariamente no blog, é só clicar no link "Comentários recentes", que eu coloquei na coluna lateral à esquerda do blog, no mesmo lugar onde antes ficava o atalho para o livro de mensagens. - Vai abrir uma página onde vocês poderão encontrar os últimos comentários deixados nos posts. Se quiserem responder a algum desses comentários, interagindo entre vocês, como sempre fizeram, é có clicar no nome do autor do comentário. Fazendo isso, abrirá a postagem a que se refere o comentário, e no final o link para comentários normal do blog, como sempre. Pronto!

Sei que alguns vão estranhar, no começo, mas com o tempo todo mundo acostuma. E, sejam compreensivos, lembrem-se que assim fica bem mais prático para o Henrikão aqui!

Abraços, e um lindo e abençoado final de semana para todos nós!



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Pobre de espírito?

"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus..." - Matheus: 5:3


"Pobres de espírito"... Esta é a tradução mais antiga, tradicional e conhecida da primeira bem-aventurança. - Infelizmente. - Porque se trata de uma expressão que, com o passar do tempo, foi perdendo completamente o seu sentido original. Hoje, quando dizemos que "fulano é um pobre de espírito", freqüentemente estamos querendo dizer que se trata de uma pessoa fraca, bruta, insensível... ou alguém de entendimento limitado, sem criatividade. Pobre de espírito, no entendimento popular, acabou por ganhar um significado totalmente oposto ao sentido do Evangelho. E no dicionário Aurélio, a expressão "pobre de espírito" traz a seguinte definição: "Pobre de espírito: Pessoa simplória, ingênua, parva, tola".

Será que o Cristo está nos dizendo que o Reino dos Céus pertence aos insensíveis, limitados? Ou aos simplórios, parvos e tolos??


Algumas traduções posteriores da Bíblia, popularmente menos conhecidas, tentaram resolver o problema mudando a forma do texto para "pobres em espírito". - E já melhorou bastante, assim. - Como eu costumo dizer, na linguagem escrita, até um acento ou uma vírgula são capazes de mudar completamente o sentido de uma frase, quanto mais a troca de uma preposição. Mas... a verdade é que essa forma ainda não tornava possível alcançar completamente o sentido do texto original.

Se fizermos uma breve pesquisa, em qualquer biblioteca teológica, vamos encontrar diversas traduções dos evangelhos. Basicamente, as mais populares no Brasil, por muitos anos, foram três: a que foi feita no século XVIII pelo Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, a do Pe. Matos Soares, de 1930, ambas a partir da Vulgata Latina, e, entre os protestantes, a versão tradicional de João Ferreira de Almeida. - A Vulgata Latina é a antiga tradução feita por S. Jerônimo em fins do Século IV e iníco do século V, como você viu aqui. - Essas são as traduções mais tradicionais e mais conhecidas; e são exatamente as que trazem “Bem aventurados os pobres de espírito...”.

A expressão “pobres de espírito” foi traduzida para o português, assim como para vários outros idiomas, principalmente baseada na tradução do grego existente na Vulgata latina, feita por S. Jerônimo numa época em que os manuscritos mais antigos e confiáveis, hoje disponíveis, ainda não haviam sido encontrados. E esta foi a única tradução conhecida, por séculos, em toda a comunidade cristã ocidental. Isto acabou imprimindo na memória de milhões de pessoas a idéia do Reino dos Céus vindo a ser herdado pelos “pobres de espírito”. Uma concepção que foi passada de geração para geração.

Já a tradução bem mais recente da Editora Vozes, feita sob a coordenação geral do Prof° Dr° Ludovico Garmus, assim como a tradução da Editora Ave Maria, feita para o francês pelos Monges de Maredsous (beneditinos da Bélgica), - a partir dos originais em hebraico e grego, tendo já contado com manuscritos descobertos mais recentemente e publicada somente em 1957, - podem ser consideradas mais confiáveis que as traduções a partir da Vulgata. Veremos que estas traduções dão um significado diferenciado às palavras de Jesus:

“Bem-aventurados os que têm um espírito de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!”

Versão Editora Vozes


“Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!”

Versão da Editora Ave Maria


A chamada tradução “João Ferreira de Almeida Revisada Imprensa Bíblica”, merece destaque. Publicada em 1967, seguiu os mais antigos manuscritos até hoje conhecidos, e por isso goza de boa reputação entre os pesquisadores e estudiosos atuais. A sua transcrição do trecho é a seguinte:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”

Versão João Ferreira de Almeida Revisada Imprensa Bíblica


Interessante... Mas neste caso em particular, não há dúvida de que a melhor maneira para tirarmos as nossas dúvidas é recorrendo ao conteúdo do texto original, em grego. Não poderíamos esperar menos do que isso do Arte das artes ou de qualquer publicação que leve o estudo a sério, certo? Então aí vamos nós. É assim que fica o trecho do capítulo 5 de Matheus, na versão original* em que foi escrito:

"Makárioi oi ptõchoi tõ pneúmati õti aútõn he basileia tõn ouranõn"

Capítulo 5 de Matheus - no grego


O problema aí é que, como ocorre com outras línguas, algumas palavras e expressões do grego têm um significado difícil de traduzir. A questão toda se encerra nas palavras "ptõchoi tõ pneúmati". - "Ptõchoi" vem de "ptóchos", que significa, literalmente, ”mendigo ou mendicante". Ocorre que, como a versão mais conhecida dos textos dos Evangelhos, conforme vimos, foi primeiramente traduzida para o latim, "ptõchoi" virou “pauper”, e daí chegou ao português como “pobre”. Mas o sentido de pobre, no grego, não está na raiz “ptochos”, mas sim em “penia”, que significa pobreza. - Foi daí que surgiu a palavra “penúria”. - “Ptóchos” quer dizer, literalmente, “mendigo ou mendicante", aquele que mendiga ou pede ajuda.

E esta compreensão pode trazer muitas mudanças à nossa percepção, em termos de simbolismo, de metáfora, de parábola... Na tradução mais precisa, o que Jesus diz é “Bem aventurados os que mendigam em espírito”, ou “bem aventurados os que pedem em espírito”. E essa idéia é logo adiante confirmada com “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”, ou seja, a dimensão ética e espiritual sobrepondo-se à mera dimensão física, intestinal. E, mais uma vez, ali, a tradução de “fome” para o termo “peina” não é a mais perfeita, porque essa palavra tanto pode significar “ter fome”, como “ter necessidade de algo”.

O “mendigar”, então, simboliza estar necessitado de algo, o ansiar e pedir humildemente por esse algo; representa a consciência de qual é a nossa verdadeira e primeira necessidade. - Nossa única necessidade real. - Daí que o aceitar e se entregar completamente à satisfação dessa necessidade, segundo Jesus, constitui o "Odos", isto é, o Caminho da Libertação. O Divino desce à necessidade humana, ele próprio mostra a trilha, a jornada da Liberdade através do reconhecimento de nossa incompletitude e de nossa ancestral necessidade. - É na humildade do reconhecimento dessa necessidade que o homem se encontra, e não fugindo dela. E, na medida em que se encontra, encontra Deus. Jesus mostra o Caminho, reabre a via; ele foi mal traduzido, mas permaneceu sempre bem compreendido por todo aquele que o busca não somente na dureza da letra, mas dentro do seu próprio coração, usando de sinceridade e total transparência de alma.


A tradução que traz “humildes de espírito”, embora não literal, é das mais precisas. - O adjetivo "humilde", se usado isoladamente, poderia levar à idéia de algúem acanhado e tímido, uma pessoa que não ousa levar as suas idéias e convicções à luz da discussão e nem fazer refletir os seus princípios nas suas atitudes e na sua postura perante a sociedade. Por outro lado, quando ouvimos falar em “humilde de espírito”, fica claro que se está referindo a uma qualidade moral, e não de comportamento social, embora uma coisa transpareça na outra. Os que têm um "espírito de pobre" certamente são humildes, se reconhecem necessitados de ajuda para crescer. Mais que isso, eles sabem que a ajuda de que necessitam é espiritual, pois é nesse aspecto que está a sua pobreza. Pedem a Deus por tal ajuda, ao mesmo tempo em que se esforçam para enriquecer seus espíritos com as virtudes das quais se vêem carentes.

Quem tem um verdadeiro “espírito de pobre” é o humilde em espírito. Um pobre pode aparentar humildade no seu comportamento social, mas internamente ser um revoltado contra a sua condição e contra o seu próximo e, desse modo, não possuir humildade moral. Já os pobres em espírito são os que têm e cultivam um coração humilde. E, quando entendemos que humildade é a palavra chave para entender a primeira das bem-aventuranças, chega o momento de nos fazermos uma outra pergunta, a mais importante:

Que demonstração de humildade poderia ser maior do que colocar uma outra Vontade antes da nossa própria vontade? - Algo que o próprio Cristo demonstraria à perfeição através dos seus atos, muito mais do que com palavras; andando com "pecadores", lavando os pés dos discípulos e chegando ao ponto máximo de entregar a sua vida, numa morte horrível, depois de proferir as palavras: "Pai, se possível, afasta de mim este cálice; não seja feita, porém, a minha vontade, mas sim a Tua."... - Uma excelente proposta para meditação: Pode haver humildade maior do que esta, a de abrir mão da nossa própria vontade?

Se desfazer das nossas vontades e desejos, abrir mão completamente de nossas intenções, nossos sonhos, nossos projetos... em busca da Vontade de Deus. Aí está uma coisa sobre a qual é bem mais fácil falar do que fazer. Todos os "religiosos" que eu conheço, não importando a religião, afirmam com a maior tranquilidade que o mais importante é buscar a Vontade de Deus para as nossas vidas, porque nós mesmos não temos sabedoria para discernir o que é melhor para nós. Mas na vida real, no dia-a-dia, tudo é muito mais complicado. Abrir mão da nossa vontade ou dos nossos desejos é abrir mão de nós mesmos. E aí está a maior e mais perfeita manifestação de humildade que pode haver. - Porque já não somos nós mesmos sem os nossos desejos. Como diz a sabedoria da Cabala: "Nós somos os nossos desejos". Sem eles, não existimos! Então, qual a solução?

A solução e a resposta para esse enigma é também o propósito final de toda a existência humana na Terra: alinhar os nossos desejos e vontades com a Vontade. Esta é a busca. Este é o fim e este é o desafio dos buscadores, desde o princípio. E esta é a consumação e a razão de ser da verdadeira humildade. E também é exatamente aí que "quem cuida guardar a sua vida, a perde; e quem abre mão da sua própria vida, por Amor, a ganha". Assim é a Sabedoria. Assim é o Caminho da Verdade. Bem vindo à verdadeira via proposta por esse tão falado Jesus, chamado o Cristo.


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* Muitos adeptos do nome Yehochua acreditam que Matheus foi escrito em hebraico. Todavia existem certas marcas em Matheus que o caracterizam como um original grego e não hebraico ou aramaico. Por exemplo, Matheus faz uma citação profética de Isaías sobre a Virgem e aplica-a em Jesus: "Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual será chamado EMANUEL, que traduzido é: Deus conosco." (Matheus 1:23) . Isto é o que Isaías havia dito centenas de anos antes de Cristo nascer. Matheus, ao aplicar esta profecia a Cristo, traduz a palavra hebraica "Emanuel". Se Matheus estivesse escrevendo em hebraico para pessoas que compreendiam o hebraico, ele não precisaria traduzir uma palavra de sua própria língua para pessoas familiarizadas com ela. Isso fica mais evidente quando sabemos que Isaías, ao escrever essa profecia em seu livro, a escreveu para leitores de fala hebraica (Isaías 7:14). Ele não dá nenhuma tradução para o nome Emanuel, pois seus leitores judeus sabiam o que significava tal palavra em sua língua natal. Desnecessário seria fazer qualquer explicação. Porque Matheus precisou traduzir essa palavra? Porque quase com certeza seus leitores não eram judeus e nem ele escreveu em hebraico, mas em grego. - Fonte: Ministério CACP.Org.


Tradução "Almeida Revisada Imprensa Bíblica"


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Boas Novas: bem-aventuranças

Nas postagens anteriores sobre a história de Jesus, o Cristo, nos foram apresentados o pano de fundo, as bases e o começo da saga do Ungido esperado. Descobrimos como a sua vinda foi prenunciada pelos Profetas do Antigo Testamento e precedida por grandes Sinais e Maravilhas, e como os poderes seculares da época tentaram impedir a concretização da sua Missão.

As duas primeiras partes da narrativa mostraram o começo da sua vida e as primeiras etapas desta Missão, e conhecemos os primeiros chamados a seguir o Mestre. Mais adiante, o emblemático episódio da Tentação no deserto e o primeiro Milagre, e como depois deste acontecimento, multidões começavam a notar Jesus e reconhecê-lo como um Mestre muito especial: "...o seguiam grandes multidões da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e dalém do Jordão" (Matheus, 4:25).

A partir deste ponto, nossa leitura deixa de ser passiva e sequencial. O nosso foco estará diretamente voltado aos ensinamentos do Cristo e nos princípios essenciais dos Evangelhos, seguidos de uma breve mas aprofundada análise deste conteúdo, que estará permanentemente aberto para o diálogo com os leitores. Começamos pelo Evangelho segundo S. Matheus. E percebo que não poderia haver momento melhor para a proposta desse diálogo, pois a sequência imediata do trecho em que paramos deságua numa das maiores pérolas da religiosidade/espiritualidade universal em todos os tempos. Talvez você já o conheça, mas o mesmo apelo que fiz no começo desta série de postagens, repito agora: procure ler como se fosse novidade. Porque é exatamente disso que se trata: Boas novas...




"E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte. Assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos; e, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:

Bem-aventurados os que têm espírito de pobre, porque deles é o Reino dos Céus;

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados;

Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra;

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos;

Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia;

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus;

Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus;

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus;

Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.

Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso Galardão nos Céus; porque assim perseguiram os Profetas que existiram antes de vós. "



Aguardando comentários para a análise do texto, análise esta que depois se tornará a continuação da postagem. Como se vê, as publicações terão que acontecer em doses homeopáticas, pois o remédio é fortíssimo, e querer tomar uma dose grande de cada vez, fatalmente nos faria perder grande parte do seu maravilhoso efeito...



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Consumação

Um outro recomeço - conclusão

uma coisa que precisamos definitivamente aprender, se quisermos obter algum progresso em nossa busca pela Verdade: a vida espiritual é dinâmica, e não estática. A caminhada nessa jornada não acontece numa linha reta e constante: estamos sempre encontrando novos desafios pelo caminho. E junto com esses desafios, novas possibilidades de compreensão não param de surgir diante de nós, a cada dia que nasce... Diferentes trechos e tipos de estrada vão surgindo à nossa frente, e mudam sempre, dia após dia. Alguns trechos difíceis parecem se repetir muitas vezes: até aprendermos o que há para ser aprendido por ali e não precisarmos mais passar pelas mesmas dificuldades. Eu conheço muito bem um cara meio maluco que teve que passar várias e várias vezes por certos trechos difíceis, repetidas vezes, até aprender a sua lição... O nome desse maluco é Henrique.

No caminho da busca pela Verdade, há muitas subidas e descidas, e também há trechos planos. Às vezes chove e às vezes faz sol. - Em certos trechos há uma linda luminosidade, enquanto outros são escuros. Às vezes há passarinhos cantando e cachoeiras frescas e límpidas para nos refrescarmos. Em outros trechos nos deparamos com vales espinhosos e topamos com serpentes venenosas.

Aprendi que no caminho da busca pela Verdade não existe essa coisa de “encontrei a Luz e a partir de agora a minha vida será iluminada para sempre”. Esta é a grande aventura da vida, e todos os santos e sábios parecem ter entendido isso; praticamente todos eles se referiram às inconstâncias e irregularidades na Grande Jornada. - Se fosse para vivermos uma vida perene, livre de quaisquer dificuldades, numa eterna, suave e linear rotina de tranqüilidade, não teríamos vindo para este mundo complicado, mas teríamos ficado no lugar de onde viemos, se é que acreditamos que viemos de Deus.

Por isso, é preciso entender que a meditação, a oração, os rituais formais e a própria religião... todas essas coisas são ferramentas necessárias, que deveríamos aprender a utilizar bem nesse percurso, mas não são o fim em si mesmas. Em nossa jornada de aprendizado, a religião, com todas as suas regras, formas e rituais, funciona como uma espécie de sistema de treinamento para a alma. Um treinamento que deve ser contínuo, e que se for observado diligentemente, diariamente, nos tornará mais fortes e aptos a caminhar com desenvoltura cada vez maior nessa difícil estrada. Auto-disciplina faz parte desse treinamento, e até alguma dose de ascetismo pode ser útil, como jejum e abstinência, que funcionam como exercícios de purificação corporal/mental e auxiliam no autocontrole. Através da prática de orações ou recitações mântricas (repetitivas) podemos aprender a controlar as agitações de nossas mentes, colocando um necessário freio na ânsia por satisfazer nossos desejos egóicos desenfreados... Mas a prática do Amor ao próximo é o maior de todos os exercícios.

Estes são os pontos básicos essenciais de tudo que aprendi até hoje em em minha busca. Mas por que comecei esta postagem falando sobre tudo isso? Porque o final da parte anterior dessa série de postagens terminou com uma cara de “e foi feliz para sempre”. E, como disse, já aprendi que isso não existe, em nossa realidade. - Quanto mais cedo entendermos e aceitarmos esse fato, tanto antes no colocaremos prontos a prosseguir com maior proveito neste nosso caminho de aprendizado! - Eu contei a respeito das grandes provações que sofri, das dificuldades, do meu afastamento de Deus e de mim mesmo, dos dias difíceis que enfrentei sem entender porquê, e como finalmente tudo se esclareceu e a Luz ressurgiu dentro de mim, tão repentinamente como havia desaparecido. Mas o que veio depois disso?




Os efeitos da minha Visão continuavam muito presentes e muito vívidos em mim; e agora, finalmente, eu tinha paz para apreciar tudo. Não haviam mais sombras nem pesadelos, e nem escuridão me rodeando ou sentimentos depressivos... Todas as vezes em que me colocava só e em silêncio, as lembranças da minha Visão beatífica afloravam, e eu via novamente aquela luz maravilhosa emanando da Hóstia; sentia novamente o tempo parando à minha volta, e me parecia ouvir uma voz muito suave emanando da luz, que me dizia: “Eu estou aqui. Você me encontrou, aqui...”

Como já disse, aquela foi a vivência mais impactante que eu já tive, em toda a minha vida, a respeito da qual não tenho nenhuma dúvida, simplesmente porque... EU VI! Ninguém me contou, eu não li em nenhum livro e nem assisti num filme. Eu VI e VIVI essa experiência, e isso pode fazer muita diferença na vida de um buscador. - Se alguém me contasse uma história parecida com a minha, antes de eu ter passado por isso, mesmo que fosse alguém em quem eu confiasse muito, primeiro iria cogitar a possibilidade de alucinação; e depois, mesmo se eu viesse a acreditar em tudo, não seria capaz de avaliar o impacto de uma vivência dessas, nem de longe. As consequências diretas de ter vivido uma epifania dessa magnitude, na minha vida, foram muito grandes; e não havia como ser diferente. Algo que percebi foi a minha completa e involuntária mudança de atitude com relação às alegações das outras pessoas. Até então, embora respeitasse, eu não acreditava muito em depoimentos como esse:

Com a palavra, o ex-pastor Sidney Veiga



Antes, eu não acreditaria numa alegação como essas, ou teria muita dificuldade para tanto. Agora eu acreditava perfeita e tranqüilamente, porque eu mesmo tinha vivenciado algo parecido! E a sensação era muito boa, tranquilizante e inspiradora. Mas eu disse que a vida é aprendizado, aperfeiçoamento constante. E só precisa se aperfeiçoar quem ainda não é perfeito. Como eu. E como disse, eu acredito que sempre haverão dúvidas no meio do caminho, enquanto estivermos neste mundo, e cada nova resposta que recebemos faz brotar mais perguntas. Esta é a via do buscador. Agora, era uma outra velha questão que aflorava dentro de mim, mais forte do que nunca: uma questão que trazia perguntas bem incômodas.

Não havia como a experiência maravilhosa que eu vivi não fazer despertar novamente em mim uma antiga questão que eu mesmo já me propusera, uma infinidade de vezes, a respeito da qual já fizera muitas perguntas, aos outros e a mim mesmo, em muitas ocasiões, e que até aquele momento permanecia sem uma resposta definitiva ou que realmente me convencesse. E eu já compreendi que uma dúvida, nas questões da fé, é como uma pedrinha que entra no sapato; não adianta tentar ignorá-la. Enquanto você não se dispuser a se curvar e abaixar para tirar o sapato, ficar descalço e balançar o sapato, jogando a pedra fora, você não vai ter paz. Às vezes a pedra fica encravada em alguma reentrância, alguma costura interna do sapato ou presa na palmilha, e aí você tem que procurar até achá-la, para então se livrar dela. Só então se consegue retomar o passo...

E que dúvida tão incômoda seria essa, de um cara que viveu uma experiência sagrada tão maravilhosa? Bem, é esta: a Sagrada Comunhão da Eucaristia é uma prática exclusivamente católica, certo? Certo. Então, se Jesus está realmente presente na Eucaristia, como eu achava que acabara de confirmar por mim mesmo, e se, como ensina a doutrina, ele realmente se faz presente sob a forma do alimento espiritual que traz a Vida para todos que o buscam... O que seria dos milhões que não conhecem a Sagrada Eucaristia?

Jesus nos resgata através dos Sacramentos, e o maior dos Sacramentos é a Eucaristia. Jesus está presente na Eucaristia, no Pão Consagrado, conforme ensina a Igreja, apesar de todos os gritos de protesto da razão humana e dos racionalimos. - Como ele disse: "Obrigado, Pai, porque revelastes estas coisas aos simples, mas as tornastes ocultas aos doutores e aos sábios"... - Porque um "sábio" não consegue aceitar uma realidade assim tão mística. Para os sábios do nosso mundo, esse tipo de coisa é loucura! Mas agora a minha "sabedoria" tinha sido abalada, e eu não tinha mais dúvidas. Jesus está no Pão Consagrado. - Mas, e quanto aos seguidores sinceros das outras religiões?

O que eu não podia entender é o Deus Uno, o Deus absoluto, Criador de tudo o que existe e Fonte da própria Vida, se restringindo a um lugar, ou mesmo a uma forma física, como o pão e o vinho. E porque Ele haveria de escolher uma única religião, para, exclusivamente através dela, se manifestar à humanidade? Que Jesus Cristo, manifestação da Verdade e da Vida neste mundo, tenha ensinado o Caminho a ser seguido, e que esse caminho tenha se tornado uma religião, nada de complicado nisso, porque religião quer dizer "religar-se", e não havia como os seus ensinamentos não serem formalizados, até porque, se não o fossem, seriam irremediavelmente perdidos, para sempre. Mas o que me causava desconforto era pensar no caráter excludente da religião. Sim, porque qualquer religião é sempre exclusivista, mesmo que não pretenda ser; isto é, toda religião exclui.

Se eu não aceito os seus princípios de fé ou dogmas, estou excluído, se eu não cumpro os seus estatutos, estou excluído. E eu já tinha conhecimento suficiente a respeito de religião para saber que o problema, aí, não está nesta ou naquela forma religiosa. Todas as religiões têm seus princípios e regras, todas têm seus próprios dogmas, ainda que não os chamem assim. E dessa forma, se tornam excludentes. Um dogma é um dogma, mesmo que você o chame por outro nome: significa princípio de fé, e todas as religiões os têm, senão não seriam religiões. Um dogma é algo em que você precisa crer para pertencer aquele grupo. Eu já vi, por exemplo, diversas vezes, espíritas criticando católicos por causa dos dogmas, mas eles também têm seus próprios dogmas, ainda que não admitam. - Reencarnação é um dogma, mediunidade é um dogma, psicografia é um dogma, Umbral é dogma, obsessão por espíritos é dogma, evolução do espírito através das muitas encarnações é um dogma, a não existência de milagres no mundo natural é um dogma... Todos estes são princípios de fé, bases religiosas que você precisa partilhar com os outros adeptos, ou então não pode ser considerado um membro daquele grupo; isso é dogma. E é preciso que seja assim, porque este é o único modo de se preservar o conteúdo de uma doutrina.

"Ah, mas os princípios da minha religião você não tem que aceitar assim, você confirma por si mesmo ou não..." - Eu já ouvi muito esse tipo de argumento, mas essa também é a realidade de todas as religiões! Quem vai me dizer que eu não comprovei por mim mesmo que Jesus está presente na Eucaristia? Quem vai me contrariar se eu afirmar que, sim, milagres existem? E o mais curioso de tudo é que eu sei que aqueles que gostariam de me contestar, só poderiam fazê-lo justamente baseados nos dogmas de suas próprias crenças! Mas eu sei o que vi e o que vivi, e isso ninguém pode tirar de mim. Porém, daí a excluir como indigno ou herege alguém que não vivenciou as mesmas coisas que eu, vai uma longa distância...

E eu estou querendo falar sobre exclusão aqui. Repito: toda religião é excludente. Se eu não acredito em reencarnação, estou excluído do hinduísmo. Se eu não acredito em Jesus como Deus, estou excluído do Cristianismo. Se eu não acredito em mediunidade, estou excluído do espiritismo. Se eu não acredito que o homem pode se iluminar e se libertar do mundo fenomênico por seus próprios méritos e esforços, independente da Graça de Deus, estou excluído do budismo. Então, por mais que se afirme o contrário, sim, toda religião é excludente. Elas incluem os que pensam igual, os que assumem e aceitam os seus princípios de fé, mas excluem os que os rejeitam. E quando falo em exclusão nesse contexto, obviamente não estou falando de tratar alguém mal ou jogar pedras em quem disser algo que vá contra o que segue aquele grupo. Embora as coisas já tenham sido assim, hoje há muito mais aceitação e respeito entre as diferenças, porque hoje existem leis universais que obrigam a convivência respeitosa entre todos os seres humanos... Bem, a não ser talvez em algums países islâmicos, onde o apedrejamento dos infiéis ainda acontece, e talvez na Índia, onde os que nascem em castas inferiores são tratados como vermes, por terem sido maus em encarnações passadas...

Mas o problema é que a exclusão está na raiz do próprio conceito que temos de religião, embora não esteja presente na sua idéia original. Por isso mesmo, ao longo dos séculos tantas guerras e atrocidades ocorreram em nome dela: se você acredita em Javé, e eu em Alá, isso é motivo suficiente para eu assassiná-lo sem nenhuma piedade, mesmo que o seu Deus e o meu sejam o mesmo e um só. Eu o mato porque você não faz parte da minha turma. E eu posso explodir um prédio inteiro, ceifando milhares de vidas inocentes, de civis, incluindo crianças e pessoas que não tem nada a ver com a minha ideologia, só para mostrar ao mundo que o meu Deus é mais forte. E se você acha que é bom usar imagens no templo, e eu acho que isso é um pecado, então eu tenho todo o direito de caluniá-lo, chamá-lo de idólatra, de infiel... O que também é um apedrejamento público, só que velado.

Mas então, o que fazer? Fugir de todas as religiões? Evitar pertencer a qualquer uma delas? E eu tinha que me perguntar: se essa for a resposta, - não pertencer a nenhuma religião, - porque tantos sinais me levaram a uma religião formal, e talvez a mais tradicional de todas? Sim, não existe nenhuma religião tão tradicionalista quanto o catolicismo: até o judaísmo tem suas diversas corrrentes divergentes, mas o catolicismo permanece imutável em suas bases de fé desde as suas origens.

Como diz um dos meus leitores, “prefiro não mergulhar completamente num rio, porque assim eu não perco a visão do que acontece fora d'água”. - Boa analogia. Esse rio seria uma religião qualquer. Se você mergulha totalmente num rio, a sua visão de tudo o que acontece do lado de fora fica prejudicada. E existem coisas boas e interessantes acontecendo do lado de fora do rio, sem dúvida nenhuma. Se você fica de fora, consegue ter uma visão periférica, global e universal, de tudo o que acontece. Mas, se por um lado eu entendo esse ponto de vista, e até compartilho dele, nós não podemos deixar de reconhecer que a recíproca também é verdadeira: se eu não mergulho no rio, e se não vou bem fundo nele, nunca vou saber o que há nas suas profundezas; nunca vou saber como ele é de verdade, por dentro, e nem o que ele tem a me oferecer. Ficando sempre de fora, tudo que eu vou ter é uma visão generalizada, e muitas vezes equivocada ou distorcida a respeito do rio. Já ouviram falar no Efeito Paralaxe? Pois é, a água distorce a visão de quem olha de fora... É por isso que, quando você olha alguém dentro de uma piscina, a parte do corpo que fica sob a água parece completamente distorcida... No meu caso, tudo me levou a crer que havia um tesouro maravilhoso guardado para mim bem lá no fundo desse rio, e que eu deveria mergulhar de cabeça nele, para buscar. Eu fui, e vi o Tesouro. Agora restava alcançá-lo.

Bom, acho que os que me acompanham há algum tempo vão compreender se eu disser que não posso negar as minhas experiências, nem o fato incontestável de que a Vida me levou a esse caminho determinado, com Sinais maravilhosos. E que, ao abraçar esse caminho, a minha decisão foi confirmada soberbamente, com Sinais ainda mais inegáveis, que chegaram ao ponto de uma grande revelação visual! Eu não posso e não devo ignorar ou negar esses fatos, porque são reais! São Sinais que fizeram e fazem parte da minha busca, que permearam o todo o meu caminho, desde o princípio, como tentei contar aqui mesmo no Arte das artes.

Então, por que a Vida se manifestaria a mim de um modo tão claro e maravilhoso, não me deixando direito à dúvida, se não fosse este o caminho certo a seguir? E, se estar preso a um caminho definido não é bom, - se é limitador e excludente, porque eu fui levado a isso, quando procurava tão sinceramente, no mais puro e dedicado empenho da minha alma, orando e meditando sobre isso dia e noite, como contei na primeira fase deste blog??

Respostas para essas perguntas, eu tinha só em parte. Sei que, como falei acima, pertencer a uma egrégora e praticar uma forma definida de espiritualidade me dá chão, me serve como bússola ou como lanterna para usar nessa jornada. “Tua Palavra é lâmpada para os meus passos...” (Salmo 119:105)

Perdi a conta de quantas vezes, nas minhas orações e nas minhas meditações, ao longo de toda a minha vida, pedi a Deus: “Revela-te! Mostra-me a Tua Vontade, diz-me aonde Te encontro!” – E agora tinha acontecido! A resposta veio, afinal. Eu tinha a plena convicção de que o mesmo Mestre que me levou a este caminho, agora me havia concedido a imensurável Graça de se revelar a mim dentro deste mesmo caminho. Ele se mostrou, e disse: “Estou aqui”! Ele confirmou a minha fé, me mostrou que eu estava no rumo certo, me fez ver que eu não estava enganado.

Mas a pergunta permanecia: e quanto à exclusão de todos os outros? Por mais maravilhosa que seja uma doutrina, o que dizer de todos aqueles que não compartilham desta mesma fé? Quando eu concluí a primeira fase deste blog, ao revelar o final da minha busca, - ainda que tenha sido um final parcial, - muita gente não entendeu a minha opção, e mais do que isso, não entedeu o fato de ter optado. Alguns até se indignaram. E eu os entendo! Como já disse, uma opção, neste caso, implica exclusão. - Aí está uma questão que sempre me incomodou muito, e eu não queria deixar passar a oportunidade para afinal desvendá-la. E esse me parecia o momento mais que ideal para buscar entender as coisas que sempre me foram difíceis. Agora que sentia a presença divina mais perto do que nunca, esta era a hora de fazer as perguntas certas e obter respostas definitivas.

Jesus está na Igreja. Sim. Mas como interpretar o “Ninguém vem ao Pai senão por mim”, trecho do Evangelho que tantos usaram, ao longo da história, para tentar convencer a todo o resto do mundo que não existe nenhum outro caminho válido a não ser o Cristianismo, inclusive tentando converter pessoas à força? Era isso que me incomodava, e agora tinha chegado a hora da compreensão de tudo. Agora que eu sentia uma abertura na minha alma e na minha mente tal como nunca antes, este era o momento de aproveitar a oportunidade.

E, sim, a resposta veio.


Templo Imaculada Conceição - Ipiranga, São Paulo


Como já comentei aqui no blog, no começo deste ano me foi confiada a incumbência de escrever o livro que vai contar a história centenária de uma grande Paróquia de São Paulo, a São João Batista do Brás; tarefa que aceitei com muita alegria. Em razão disso, passei os últimos meses fazendo aprofundadas pesquisas no Arquivo Metropolitano da Cúria de São Paulo, transcrevendo os registros históricos que serão a fonte de todo o conteúdo do livro. Bem, o Arquivo fica na Avenida Nazaré, no bairro do Ipiranga, num complexo imobiliário muito bonito, cercado de jardins bem cuidados, com corredores tranqüilos, iluminados pela luz natural. Deste complexo fazem parte também os edifícios da Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção, o Seminário Central do Ipiranga e o belo templo da Paróquia da Imaculada Conceição (foto). Freqüentemente, terminado o trabalho do dia, antes de vir embora, ia à Capela do Santíssimo Sacramento, dentro desse templo, para orar e meditar um pouco.

Eu já vinha pedindo por iluminação sobre o que havia me acontecido, sobre a Visão que tive, sobre o seu significado e tudo o mais. Vinha pedindo por sabedoria, luz, orientação. Vinha pedindo entendimento.

Então, no dia 21 de Agosto, encerrei o meu trabalho no Arquivo mais cedo, ao meio dia, porque na parte da tarde tinha outros compromissos. Lembro-me bem que aquele era o dia da colação de grau da licenciatura de Hana, em letras... Mais um dia que nunca mais vou me esquecer.

Entrei na Capela em torno de meio dia e cinco. Fiquei por um tempo ajoelhado diante do Tabernáculo do Santíssimo, como sempre faço. Depois me sentei; eu não tinha pressa. Sempre que tenho essas pausas no meu dia, aproveito para meditar. Passei um tempo olhando para o Tabernáculo, para a chama das velas... Depois de ter vivido a experiência da Visão, nunca mais pude entrar da mesma maneira que antes numa Capela onde se conserva a Hóstia Consagrada, onde agora sei que há mesmo a Presença Real do Cristo. Tudo é diferente.

Faço minhas orações. Estou calmo, e me sentindo muito bem. Fecho meus olhos e entrego a minha meditação ao Deus do Amor. O Silêncio, a Paz e a quietude começam a crescer, dentro de mim, a tomar conta de todo o meu corpo, e mais além, da minha mente. Logo começo a sentir que a energia luminosa extravasa os limites do meu ser, entrando em Comunhão com uma Energia maior, absoluta, que se faz presente de maneira especial naquele Lugar Sagrado. Eu suspiro profundamente, enquanto sinto um sorriso se desenhando involuntariamente em meus lábios. Pensamentos suaves e agradáveis ocupam completamente a minha mente: "Ah, como seria bom se todos soubessem, se todos viessem até a Tua Presença, pedir pelas suas angústias e principalmente agradecer por tudo de bom que já têm, e nem percebem... Do que mais precisamos, a não ser desta Tua Paz?"

Nos períodos meditativos é como se o tempo não existisse, e o que foram minutos podem parecer horas, ou vice-versa. Eu simplesmente me deixei aproveitar o agora, e cada vez que sentia minha atenção fazer menção de voltar às preocupações do mundo, eu repetia minha palavra mântrica sagrada: "Deus Pai, Deus Pai, Deus Pai...". - Há uma linda razão por ter escolhido esta palavra sagrada, que talvez um dia eu conte aqui.



Subitamente, eu senti algo muito parecido com o que senti no dia da minha Visão. A grande calma, uma paz de espírito extrema, um sentimento amoroso que me envolvia completamente, como se o próprio Universo fosse uma mãe carinhosa, me pegando nos braços e me cantando uma doce canção de ninar... Experimentei mais uma vez a sensação de estar fora da realidade objetiva, comum e ordinária do mundo dos afazeres, deveres e tarefas a cumprir... E era como se tudo o que aconteceu na minha vida, desde o momento único da minha Visão, até aquele novo momento único, fosse apenas ilusão, e como se só agora eu estivesse retornando à única Realidade que há. Então, suavemente, uma voz sem tonalidade e nem intensidade, uma voz não audível e não reconhecível, falou direto ao meu espírito:


"Eu Sou o Princípio e o Fim.


Eu estou Aqui, Mas Não Estou Aqui Confinado,


A Minha Verdade é Uma Só, Mas Eu Estou em Toda Parte.


Quem me Busca, Me Alcança.


Eu Sou o Princípio e o Fim"


Digo que ouvi em espírito, porque sei que a "audição" estava totalmente indissociada do meu cérebro. Imediatamente fui arrebatado a um lugar novo e desconhecido, nas profundezas da minha própria alma. Um lugar onde reinam Harmonia e Paz, e, exultante, senti a Compreensão entrando em mim, como água invadindo uma canoa furada. A canoa do meu racionalismo tinha sido avariada de vez! Entendi que o Cristo é a Palavra de Deus aos homens, que se manifesta a todos, de modos diferentes e desconhecidos, e que é por isso que só a ele cabe julgar, individualmente, a cada um de nós. Entendi que a Verdade é gravada nos corações de todos aqueles que a buscam com a total sinceridade das suas almas; aqueles que buscam a Verdade, e não apenas conforto. Entendi também muitas outras coisas, muitas das quais eu já sabia ou tinha ouvido falar, muitas vezes, mas nunca tinha compreendido de uma maneira tão completa, integral e perfeita como naquele instante...

Entendi que, mesmo que as formas e as práticas sejam, sim, ainda necessárias, a verdadeira prática está e precisa ser cultivada dentro de cada um de nós. Estas e muitas outras coisas entendi no mais profundo da minha alma, não usando da minha mente racional e analítica, que eu tão bem afiei durante toda a minha vida, mas com um tipo de compreensão muitíssimo mais profunda, uma compreensão que não pode ser medida, analisada ou explicada. E mesmo assim insisto em compartilhar tudo com você, que me lê agora. Faço isso porque sei que os que estiverem prontos ou empenhados nessa mesma busca, com total sinceridade e transparência de alma, compreenderão.

Depois disso, nesse mesmo dia, eu fui para casa e comecei a escrever esta postagem, em 21 de Agosto, mais ou menos às 14 horas. Ela acabou rendendo quatro partes, que só pude concluir hoje, 19 de Setembro. Foi difícil falar sobre isso, e tentar me fazer entender foi cansativo. Mas era de se esperar, dada a importância do que estou contando. Espero que tudo o que compartilhei com você, ao longo desse tempo, possa ser útil na sua própria busca. Que o auxilie na sua compreensão. É isso que Ele também espera.





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Consumação

Um outro recomeço - parte III


Depois de vivenciar a experiência que contei nas primeiras partes desta postagem, passei a compreender, completamente, porque os verdadeiros místicos não procuram ser chamados "místicos". - É porque a palavra “mística”, no mundo deturpado em que vivemos, não é suficiente para descrever uma experiência divina e inefável, vivida além dos limites dos nossos sentidos. - Toda palavra se torna um rótulo, por carregar em si mesma certos conceitos pré-estabelecidos, que vão "aderindo" a ela por meio do uso comum. Mas a verdade é que, se “místico” não serve, tampouco alguma outra palavra seria boa o suficiente para descrever o que acontece quando nós, seres humanos, somos convidados a colocar um “pezinho” além deste nosso mundo de prisão... Quando nos é permitida uma pequenina espiadela para além dos feios muros que nos cercam, as palavras perdem o sentido. Por isso, no desespero por me fazer entender, sei que ainda usarei termos como “místico” e outros igualmente imperfeitos.

Quando eu pensava em escrever sobre a minha experiência, para publicar aqui, me ocorriam adjetivos aparentemente contraditórios, como “tremendo", "tranqüilo", "arrasador", "fascinante", "perfeitamente sereno". - O que eu vivi foi tudo isso a um só tempo; e era como se dentro daquela outra realidade esses opostos não se desencontrassem, não se opusessem, mas se completassem formando um só inteiro. – Sei que naquele momento eu era um com a harmonia perfeita, o equilíbrio absoluto. Nadei num oceano infinito de bem-aventurança... E os efeitos dessa vivência permanecem e permanecerão em mim. - Como já disse, nunca mais poderei voltar a ser o que era antes.



Quando eu voltei para casa naquele domingo, compreendia como nunca em minha vida o significado da expressão "andar nas nuvens"... Me lembro de me deitar no sofá e me deixar ficar ali, olhando para o teto, para o nada, desistir de tentar assimilar o que acabara de me acontecer e simplesmente aproveitar o momento. - No instante em que vivia a experiência não tive como sentir nada, era como se não houvesse espaço para sentimentos. Eu simplesmente era. Já disse que não vou tentar explicar, sei que não poderia existir nada mais inútil do que isso. Foi o que disse para Hana, logo depois de contar o que me havia acontecido. Ela ouviu a tudo maravilhada, mas de um jeito natural, como é o seu modo de ser. A fé dela é bem maior do que a minha; ela não é do tipo que precisa de provas.

Vou dizer apenas que durante todo aquele domingo eu existi e me movi como que num êxtase sublime, maravilhoso. - Tudo era harmonia, paz, quietude... O dia foi especial como não poderia deixar de ser. À tarde eu e Hana saímos para um passeio, mas em minha mente estava, todo o tempo, a imagem da Luz beatífica que só eu pude ver. Fui agraciado...

Até o amanhecer do dia seguinte. A segunda feira, 21 de Abril, amanheceu sombria para mim. Acordei estranhamente indisposto, desanimado, sem energia. Levantei-me cansado, como se tivesse passado a noite inteira sob trabalhos forçados. Era feriado. Hana me perguntava se estava tudo bem e eu dizia que sim, achava que seria um mal estar passageiro, que logo me deixaria. Mas eu estava enganado. Fiquei mal durante todo o dia, e a esperada melhora não veio, até o anoitecer.

Dia seguinte. Acordo com uma dor de cabeça enjoada, sensação de tontura e um mal-estar generalizado. Sei que não há nada de errado comigo, fisicamente falando. - Acho que a melhor maneira de descrever o que eu estava sentindo seria com a palavra tristeza. Me sentia simplesmente triste, deprimido, desmotivado. E sem nenhuma razão aparente. Logo agora? Depois de ter vivido uma experiência tão maravilhosa?.. Por quê?

Três dias depois, a sensação ruim ainda não tinha passado, mas eu ainda achava que fosse apenas uma indisposição passageira, um período de mal humor normal. Nesse dia, depois de muito relutar, resolvi contar ao padre Marcelo, muito amigo meu, que eu citei na primeira parte desta série de postagens, a respeito da minha visão. Achei que o que eu tinha vivido era importante demais para guardar só para mim, e acho que também queria dividir a experiência com mais alguém. Ter vivido tudo aquilo e não falar nada a outras pessoas me deixava aflito; e acho que eu esperava também que alguém me ajudasse a entender a razão de ser daquela experiência tão grande e marcante.

Naquele dia, antes de sequer tocar no assunto com o padre, no meio de uma outra conversa, ele me disse: "Você sabia que S. Tomé provavelmente não se dava muito bem com São João Evangelista? João parecia ter uma fé muito maior ou mais simples que a de Tomé. Era como se João tivesse um contato direto com Deus, no seu íntimo; ele não precisava de provas. Já Tomé era racionalista e parecia usar mais da mente que do coração. Tomé dava mais valor à razão do às coisas do espírito. Ele duvidou que Jesus tivesse ressuscitado, mesmo tendo presenciado tantas maravilhas que este realizava. Jesus lhe mostrou suas marcas e ele ainda assim precisou tocá-las. Só depois se convenceu. Jesus lhe disse que bem aventurados são os que creram sem precisar ver: 'Põe tua mão aqui e vê as minhas mãos! Estende tua mão e toca o meu lado! Não sejas incrédulo, mas crê!'"

Só então me lembrei da leitura da Missa daquele domingo, o dia da minha visão, que citava Tomé: "Senhor, não sabemos para onde vais. Como poderíamos nós conhecer o caminho?" - Tomé foi um contestador, não há dúvida. Ele precisava de provas, de comprovações, assim como eu. Talvez contestador demais. Pe. Marcelo continuou: "Mesmo assim, segundo a tradição, Tomé se tornou um santo; morreu como um grande líder religioso e mártir, um homem de fé e fiel, como Jesus lhe pediu."

Depois dessa conversa, era como se eu não precisasse falar mais nada com o padre. A razão de tudo estava mais do que clara. Ficou uma questão: sou um agraciado ou um incrédulo, a quem Deus precisa dar provas da sua existência e da sua realidade, para que eu possa crer? Mesmo assim eu contei ao Padre Marcelo, com muita dificuldade, o que havia me acontecido. Depois de ouvir tudo atentamente, ele me disse que acreditava plenamente em tudo, principalmente por ser eu a contar (grande elogio de parte de um outro racionalista). E completou me pedindo que não contasse nada a mais ninguém, porque achava que o que me aconteceu tinha sido somente para mim: uma resposta pessoal, da qual só eu precisava, naquele momento. Falar sobre o assunto indiscriminadamente poderia ser algo bastante complicado, porque é difícil para muita gente aceitar. - Alguns poderiam se voltar contra mim ou então, pior ainda, passar a me idolatrar como alguém especial, importante, iluminado... Mas o fato é que todos tentariam encontrar respostas e explicações, dar suas próprias interpretações a respeito do assunto, o que seria lamentável num caso como esse. Mas disse que, no final, somente eu mesmo poderia entender e encontrar o significado definitivo de tudo, e decidir o que fazer, pois era algo entre eu e Deus. Percebendo que eu estava um pouco agitado, me pediu calma.

Próximo dia: continuo acordando pela manhã com dor de cabeça e náuseas; mais um dia que eu já inicio me sentindo depressivo e sem ânimo. Hana sai para trabalhar bem antes de mim, então estou sozinho em casa. Fico um tempo na cama, me virando para um lado e para outro, sem coragem para levantar e enfrentar o dia. Não consigo entender a razão desse mal estar contínuo, não parece haver nenhum motivo. Achava que depois de receber uma tão grande graça, tudo seria lindo em minha vida, mas o que estava acontecendo se parecia com o oposto de tudo que poderia esperar. Estou ainda ali, perdido em meus pensamentos e lutando contra o sentimento negativo que tenta tomar conta de tudo, quando ouço um ruído estranho bem ao meu lado, como um chiado ou um raspar áspero. Volto-me na direção do som e percebo pelo canto dos olhos um vulto escuro e fugidio, como que a se esconder do meu campo de visão, bem ao meu lado, como um animal à espreita. Pulo da cama, de sobressalto, olhando em volta de mim! Não há nada.

Minha cabeça parecia que ia explodir... Tentei orar, mas não podia me concentrar; as palavras saíam como se eu estivesse balbuciando palavras sem sentido, sozinho. Perdendo a minha fé? Como? Tomei um banho, pendurei meu crucifixo no pescoço e saí para o trabalho, tentando não pensar mais naquilo. Mas dentro de mim a pergunta continuava, impossível de calar: "Por quê? Minha fé e a minha relação com Deus deveria estar mais firme e forte do que nunca, mas está acontecendo exatamente o contrário... Sou como Tomé? Como ele conseguiu superar a sua natureza racionalista?"

A partir dos dias que se seguiram, e durante as próximas semanas, sentimentos muito grosseiros tomaram conta de mim, da minha alma, dos meus pensamentos. Por diversas vezes, quando sozinho em casa, parecia-me ver sombras ao meu redor, como a me cercar, minando minhas forças, assustando-me, arrasando a minha paciência. Eu experimentei alta ansiedade, eu tive medo, eu observei apavorado enquanto alguns sentimentos que eu nunca conhecera surgiam e cresciam dentro de mim. - Sentimentos muito ruins. - Eu me vi odiando. Eu me vi sendo tomado de assalto pelos mais baixos instintos humanos, e foram mais fortes do que eu. Eu me vi indefeso, pequeno, acuado, desesperado... Minhas orações pareciam não surtir nenhum efeito... E eu não conseguia meditar ou contemplar, observar tudo "de fora", como sempre costumo fazer nessas horas. Por quê, por quê?... Por que Deus me proporcionaria uma linda graça, para depois permitir que eu me visse mergulhado num mar de sofrimentos, e sem motivo?

Comecei a questionar o porquê da visão. Se foi uma visão beatífica, por que me sobreveio tanto horror depois dela? Estaria eu completamente enganado, a respeito de tudo que sempre considerei como certo? Mas isso não seria possível! Eu sempre acreditei no Amor, acima de tudo. Sempre quis coisas boas, não só para mim, mas para o meu próximo. O que poderia estar errado? Porque esse tormento agora? Exatamente agora que deveria estar me sentindo abençoado e feliz...

O pior é que eu não via esperanças de melhora; eu não conseguia ver a luz no fim do túnel, ao contrário: as trevas aumentavam num crescente que parecia não ter fim...



Noite. Durmo. O sonho é um mergulho horrível, nas mais viscosas profundidades do pavor: "Deus não é Amor", uma voz grita. "Deus só quer o sofrimento e a morte de toda a humanidade. Todos estão perdidos e você está perdido! - Você precisa mudar tudo, precisa mudar tudo agora!.. Mude o seu rumo, mude a sua vida, esqueça as complicações e aproveite a vida, ela é curta"... Trevas à minha volta, eu procuro o rosto de quem me fala. Estou só, à noite, numa casa velha e escura, caindo aos pedaços e com poeira acumulando em todos os cantos. Há uma sombra se movendo por trás de uma porta fechada, mas há uma fresta e por essa fresta eu posso ver um pouco do que há lá dentro. Súbito, um arrepio percorre a minha espinha: sinto a presença do Mal. - É algo palpável, algo que se sente, como sentir alguém que olha fixamente para você num ambiente público. - Mesmo assustado, eu sinto um impulso incontrolável para olhar o que há por trás dessa porta. O terror toma conta de tudo, mas eu olho e já não há mais nada atrás dessa porta velha. - Seja o que for, agora está bem ao meu lado, há algo muito próximo do meu rosto, a menos de um palmo!

Eu solto um berro e acordo no meio da madrugada, sem fôlego, a tempo de ver o pulo de Hana ao meu lado, que apavorada pergunta insistentemente "o que foi?" Mas eu respondo que não foi nada. Ela quer saber sobre o pesadelo, mas eu prefiro não falar nada, porque falar sobre aquilo naquele momento não me parecia uma boa idéia. Eu só queria esquecer, esquecer o horror que acabei de sentir e colocar a minha respiração sob controle. Enxugo o suor gelado na minha testa, no meu pescoço... Só quero ficar em silêncio e tentar esquecer tudo. Olhos arregalados, abajur aceso, uma mão agarrada às mãos de Hana e a outra ao edredom, que eu puxo até o nariz, temendo que o sonho tenha sido mais que sonho, e que algo horrível venha a se materializar ali naquele quarto, bem diante de mim. Tento elevar o meu pensamento a Jesus, o mestre que me chamou a um caminho realmente muito estreito...

Acordar nas madrugadas arrepiado, aterrorizado, pensando ouvir vozes e cercado por vultos, virou rotina, nos dias que se seguiram. Passei noites em claro, apavorado, querendo entender porquê. Minha saúde se fragilizou. A situação chegou a um ponto tal que resolvi visitar um médico psiquiatra, a quem pedi calmantes. - Que depois resolvi não tomar. Se aquela era a minha lição, eu aproveitaria a aula até o fim.



Por fim, no dia 24 de Junho, a calma voltou. Era de tarde. Eu não estava recolhido, não estava num lugar calmo e nem numa igreja. Estava simplesmente cuidando da minha vida como sempre. Era uma tarde de sol, que em nada parecia diferente das outras. Eu me lembro de estar andando na rua, correndo atrás de resolver algum problema corriqueiro, cruzando uma esquina do bairro onde moro, quando simplesmente olhei para o céu e vi as nuvens, que estavam muito claras. E raios de sol iridescentes tornando algumas partes das nuvens translúcidas. Um cenário bonito, mas comum e corriqueiro: apenas um céu claro, como vemos em qualquer dia de sol, nada além disso. Mas naquela tarde de sol, quando simplesmente olhei para aquelas nuvens, eu fui tomado por uma onda de deliciosa paz. Uma paz que estivera ausente por muito tempo. Foi uma lufada de tranquilidade tão intensa que eu parei ali mesmo, recostei-me num muro e fiquei simplesmente apreciando, deliciando-me, como se estivesse sendo engolfado num mar de tranquilidade, submerso num morno conforto de segurança e serenidade... Meus olhos estavam semicerrados, e quando dei por mim estava elevando uma oração aos céus, assim, quase inconscientemente. Com fé e alegria imensas. - Aproveitei para me colocar calmo e quieto, em silêncio. E ali, sem mais aquela, no mais profundo da minha breve mas muito profunda meditação, eu entendi tudo.

"Deus nos testa! Tudo que Ele nos dá é para o nosso bem. Às vezes, ele nos dá enigmas difíceis para decifrar. Mas esses enigmas são grandes presentes. São testes..." - Foi o que escrevi num dos meus velhos cadernos de reflexão e meditação, naquele dia... E escrevi mais:

"A vida do buscador é como uma prova, um eterno exame. O carvão só se torna diamante se for exposto à alta pressão e às altas temperaturas..."


Eu me lembro que me sentia completamente fora de mim, quando escrevi isso. Fora de mim de tão sereno. Me sentia, mais uma vez, como que nascendo novamente!

Desde esse dia, a paz voltou à minha vida, triunfante, mais forte e completa do que antes, e nas semanas seguintes experimentei uma harmonia interna totalmente nova. Sentia uma serenidade imensa para resolver as maiores dificuldades em minha vida. Sentia uma energia infinita. Estava mais próximo de Deus. - Como eu achei que seria depois da visão.

Só então entendi que, por razões mais que perfeitas, eu precisei ver as trevas antes de poder contemplar a beleza da luz. Se não tivesse passado pelo vale sombrio, antes, se não tivesse vivido ali e experimentado os seus terrores, não saberia entender nem valorizar a beleza e a maravilha que é estar no pico da montanha.



Mais uma vez eu falhei ao tentar estimar o espaço de que precisaria para publicar este relato completo. Se você é uma pessoa atenta que está se perguntando porque eu falei que toda essa história só viria a fazer completo sentido para mim no dia 21 de Agosto... Bem, eu vou ter que lhe dizer que mais uma vez preciso deixar a conclusão para a próxima postagem. Afinal, esta já está bem grandinha e ainda tenho muito a dizer... Paciência é uma virtude, alguém já disse nos comentários...



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Loucura!!

Este é um trecho da primeira leitura da Liturgia de ontem, e eu não pude deixar de observar o quanto está relacionado ao atual momento que estamos vivenciando aqui no blog. Eu já a tinha colocado como "frase da semana", mas achei que merecia uma atenção mais aprofundada, ao menos até a conclusão da postagem "Consumação".


"Ninguém se iluda: se alguém entre vocês pensa que é sábio nas coisas deste mundo, faça-se louco para se tornar verdadeiramente sábio; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus."

S. Paulo - I Coríntios, 3:18,19




Sim, às vezes os verdadeiramente sábios se tornam loucos para este mundo. A sabedoria quase sempre nos torna "loucos", insanos para tudo aquilo que o mundo considera "normal". Todo santo parece ter um quê de louco: ele tem que ser louco ou então não seria um santo! Ao menos é assim que o senso comum os interpreta. Porque o que o mundo chama de "sanidade" e "bom senso" é exatamente o que têm nos levado para o fundo do abismo, durante todo o curso da nossa história. Busquemos a santa loucura! Até breve...



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Consumação

Um outro recomeço - parte II

Esta postagem foi, de longe, a mais difícil que eu já escrevi. Mais do que isso, foi provavelmente o texto mais difícil de todos que já escrevi até hoje. Não sei explicar exatamente porquê, mas eu simplesmente não conseguia conclui-lo. E a revisão foi bem complicada. Ao menos em parte, posso dizer que essas dificuldades foram em razão da grande responsabilidade que sinto em tornar pública esta minha experiência. Eu não queria e não quero ser mal interpretado, e aliás, aproveito para fazer um apelo a todos que se propuserem a ler: por favor, tentem não interpretar! Por favor, tentem apenas sentir as palavras e as idéias nelas contidas, sem classificações, sem interpretações.

Seja como for, por fim aí está a segunda parte de "Consumação". - Ainda haverá uma terceira e conclusiva parte, tão importante quanto esta; - mas eu tenho certeza de que a última não demorará tanto. Tenho a nítida impressão de que a parte mais difícil e demorada foi esta, que segue abaixo, afinal concluída. Obrigado a todos que aguardaram por ela pacientemente, vindo a este endereço diariamente. Deixo registrado o meu mais sincero desejo de que venha a valer a pena.



Situando a experiência - lugar e tempo

Eu falei antes das dúvidas e angústias que vinha vivendo dentro da fé que eu abracei, por ela trazer alguns princípios básicos que não combinam nem um pouco com o meu jeito racional e objetivo de ser. Mas faltou situar as coisas no seu devido lugar e no tempo, para que vocês possa ter uma noção mais exata de tudo o que me aconteceu.

Bem, eu e Hana fazemos parte da comunidade de nossa paróquia católica há cerca de 2 anos, e dentro desse período nos tornamos membros voluntários do grupo de Liturgia dessa comunidade, além de participarmos esporadicamente de serviços sociais promovidos pela Igreja, festas e campanhas beneficentes, pastorais de auxílio aos carentes e etc.

Mas nós não participamos dos Sacramentos da Igreja, que segundo a doutrina católica são a base fundamental para uma verdadeira vida cristã. - Para a Igreja, os Sacramentos são os sinais visíveis e eficazes da Graça de Deus à humanidade, instituídos pelo próprio Cristo, como o Batismo e a Eucaristia.

Hana não foi iniciada nos Sacramentos por ter nascido em família 100% protestante. Quanto a mim, apesar de ter recebido uma orientação católica superficial durante a minha infância, também tive, desde muito cedo, o direito à livre escolha religiosa. Não fui levado ao catecismo e não fiz preparação à primeira Eucaristia. – Por isso, nem eu e nem Hana, que abraçamos a fé católica praticamente juntos, há cerca de três anos, nunca comungamos, isto é, nunca em nossas vidas participamos do Sacramento da Eucaristia, até hoje.

Para ficar claro: ocorre que segundo as normas da Igreja, nós não poderíamos participar da Eucaristia, por eu ser divorciado e por estarmos vivendo uma união não formal. - Mas logo que começamos a freqüentar esta Paróquia, depois de um bom bate-papo com o padre, fomos imediatamente convidados por ele a participar normalmente da Comunhão, junto com os demais fiéis; - inclusive ele nos explicou que naquela comunidade já existiam outros casais em situação idêntica a nossa, que, com a devida autorização do bispo local e sob a sua estrita responsabilidade, comungavam há um bom tempo.

Mas nós resolvemos recusar essa proposta, porque na ocasião dessa conversa eu já havia entrado com um processo junto ao Tribunal Eclesiástico solicitando a anulação canônica formal do meu primeiro casamento, - porque ele se deu sob uma série de circunstâncias que, perante as mesmas normas canônicas católicas, o caracterizam como casamento nulo, inválido: em outras palavras, um casamento que nunca existiu de fato, aos olhos da Igreja. – Isso obviamente é uma longa história, de foro íntimo, que não pretendo abordar em detalhes aqui.

É que tanto eu quanto Hana gostamos de tratar das coisas do espírito sempre o mais corretamente possível, e já que abraçamos esta fé, achamos por bem seguir suas regras da melhor maneira possível. Por isso optamos por aguardar o desenrolar do meu processo, para só depois de tudo resolvido passar a participar de todos os Sacramentos da Igreja. – Para constar: a minha sentença de nulidade matrimonial já foi decretada pelo Tribunal Eclesiástico e encontra-se em vias de ser entregue; - a minha primeira união realmente não foi um casamento válido perante a Igreja...

Bem, tudo que foi dito até aqui foi apenas para explicar que eu nunca comunguei da Eucaristia em minha vida, e qual a razão. Assim fica um pouco mais fácil entender porque eu falei na primeira parte deste post que eu carregava no meu íntimo uma série de profundas e angustiantes dúvidas a respeito da Presença Real na Eucaristia. - Isto é, de um modo ou de outro eu nunca participaria de uma prática religiosa sem compreendê-la, e/ou se não acreditasse nela plenamente. E realmente muitas coisas me faziam duvidar desta fé fundamental dos católicos.


A experiência - o princípio


"Reborn" - Era


Como falei acima, eu e Hana participamos voluntariamente do grupo de Liturgia de nossa igreja: semana sim, semana não, subimos ao púlpito para as leituras do dia. “Liturgia” é o antiqüíssimo costume da leitura cerimonial dos textos sagrados diante da assembléia reunida durante a celebração da Missa. Primeiro, membros leigos da comunidade lêem trechos de algum livro do Antigo ou do Novo Testamento, depois o sacerdote lê um trecho dos Evangelhos, e os comenta a seguir: é a chamada Homilia.

O domingo de 20 de Abril de 2008 nasceu com um sol brando brilhando sobre São Paulo e uma brisa leve, ideal para dispersar a névoa da poluição (quem vive aqui sabe...). Um dia bonito, de temperatura amena, agradável. Nesse dia eu saí da cama me sentindo cheio de energia e com uma disposição que há muito tempo não sentia. Estava muito animado para a vida, de um modo geral. Havia acabado de escrever, no dia anterior, o post "Pecado" neste blog, e experimentava uma energia positiva bastante forte. Estava feliz e seguro comigo, espiritualmente falando; me sentia saudável, tranquilo e relaxado, não sei explicar porquê. - E nesse domingo, eu e Hana estávamos "escalados" para fazer a Liturgia na Missa das dez horas.

Chegamos à igreja com cerca de uns quinze minutos de antecedência, como de costume. Como sempre faço, logo após cumprimentar os amigos e o padre, que fica à entrada do templo recebendo o povo, vou até a Capela e faço uma oração pedindo pela minha leitura: que possa ser útil a todos os que a ouvirem; que a minha voz seja luz para todos os presentes àquela celebração, que seja clara...

Tudo parece muito calmo naquele dia, e eu continuo sentindo uma tranquilidade grande, incomum para mim. - Digo isso porque sou um cara meio acelerado por natureza, minha mente é normalmente inquieta e tenho dificuldades para relaxar. - Uma das razões porque aprecio tanto a meditação. É um dos poucos momentos em que consigo fazer uma pausa.

A celebração se inicia. Chega a hora da minha leitura. Iniciam-se os cânticos para saudar a Palavra; eu subo ao púlpito, ergo o Lecionário e todos elevam suas mãos em minha direção, com as palmas abertas e voltadas para cima, em sinal de alegre saudação e acolhida à leitura sagrada. Leio bem e tranqüilamente. Dou graças no meu íntimo. Volto a me sentar, agora é a vez de Hana, que faz a segunda leitura lindamente, com sua bela e impostada voz de atriz, que como sempre a todos encanta e que costuma render elogios à saída da celebração.

Depois vem a vez do padre, que inicia a leitura do Evangelho do dia:

"'Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé também em mim (...). Para onde eu vou, vós já conheceis o Caminho'. - Tomé disse: 'Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o Caminho?' Jesus respondeu: 'Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também ao meu Pai (...).' - Disse Felipe: 'Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!' Jesus respondeu: 'Há quanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai (...). Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa das obras. Em verdade em verdade vos digo, quem crê em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas; porque eu vou para o Pai, e farei o que pedirdes em meu nome (...). O que pedirdes em meu nome, eu o farei'".


Leitura de um trecho tocante do Evangelho de João, e depois inicia-se a Homilia. A fala do sacerdote busca o coração e o entendimento. Mas eu logo começo a me dispersar. Meus pensamentos vagueiam, e mesmo que eu insista em tentar me manter atento, começo a, repetidamente, me pegar viajando entre passado e futuro na minha mente: memórias, preocupações com tarefas a cumprir... Os poucos trechos da Homilia que consigo captar soam interessantes, mas mesmo assim eu não consigo focar a minha atenção por mais do que alguns segundos.

Assim eu prossigo durante o transcorrer do restante da celebração. - Disperso. - Vou recitando as orações e acompanhando as fórmulas meio que "no automático". Chega o momento central de toda a celebração: a Eucaristia. Os músicos estão afinados:

"Hosana! hosana! Hosana nas alturas! Bendito aquele que vem! Hosana! Amem..."


A hora da Consagração do Pão e do Vinho é o momento máximo, o ápice de todo o cerimonial católico. Todos se colocam de joelhos para receber a Jesus, prestes a se doar, em forma de Hóstia e Vinho, por toda a humanidade ainda incompleta, ansiosa por essa Comunhão divina. O sacerdote repete mais uma vez as palavras do Cristo:

"Tomai e comei, todos vós. Isto é o meu corpo, que será entregue por vós. Tomai e bebei, este é o meu sangue, que será derramado por vós... Fazei isto sempre, em memória de mim..."


Nesse momento, começam a me perturbar novamente os espinhos das minhas dúvidas. Ali, ajoelhado diante do altar. Termina a Consagração do Pão e do Vinho e voltamos a nos sentar. Chega o belíssimo momento denominado "Cordeiro de Deus" no missal , quando o sacerdote clama: "Felizes os convidados para a ceia do Senhor!", e levantando a Hóstia Consagrada, completa com as palavras de João Batista: "Eis o cordeiro de Deus; eis aquele que tira o pecado do mundo!" - E todos repetem juntos a oração ensinada por um centurião romano há dois mil anos: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo".

A celebração prossegue. Conforme o costume da minha comunidade, as pessoas que participam das leituras, como eu, ficam sentados à lateral do Altar, em cadeiras dispostas em fileira, assistindo à celebração bem de perto. Nesse dia, conforme a ordem da leitura, eu estava sentado na primeira cadeira da fileira, isto é, tendo a um lado os demais auxiliares e ao outro lado a assembléia, estando bem diante do sacerdote. E foi exatamente a partir desse momento que tudo aconteceu...

Estou eu ainda disperso, olhos baixos, procurando no piso por alguma lembrança esquecida ou remoendo alguma preocupação futura qualquer. Distante. De súbito, um movimento do sacerdote me faz voltar os olhos para o altar: eu olho, e lá está o padre segurando a Hóstia consagrada, elevando-a bem alto, em direção à assembléia. A Hóstia está inteira, e eu não sei porque o padre está fazendo aquele movimento, naquele momento. - Não é comum, que eu saiba. Que eu me lembre, ele só eleva a Hóstia na hora da Consagração e depois, na hora do "Cordeiro de Deus".




Mas lá estava ele, o sacerdote, o padre meu amigo de sempre, o que conta piadas, que brinca comigo e com todos, sempre, nas reuniões de estudo, nas festas... Com a Hóstia Consagrada nas mãos. Mas... subitamente...

Percebi que o padre não era mais o padre de sempre. Algo estava muito diferente nele. Estava sério, mas a sua expressão era muito leve, de um modo que não saberia explicar. Então voltei meus olhos para a Hóstia...

A forma circular e branca nas mãos do sacerdote estava também diferente. Muito! Mudava suavemente de cor, se tornava dourada. Um dourado brilhante, que parecia emanar do seu centro e formava um halo esmaecido ao redor de sua forma, iluminando as mãos que a seguravam e toda a atmosfera em volta. Levei um susto! Parecia-me que alguém segurava uma grande vela acesa, ou uma lanterna acesa, por trás da Hóstia. Imediatamente olhei para o irmãozinho de leitura sentado bem ao meu lado, como que a indagar: "o que é isso?"

Mas o jovem ao meu lado tinha uma expressão absolutamente indiferente; era óbvio que ele não estava vendo o mesmo que eu. Aproximei mesmo meu rosto do dele, mas ele não me percebia, e ignorando totalmente a minha reação continuava apenas olhando para a frente, como se nada de incomum estivesse acontecendo!

Voltei a olhar para a Hóstia nas mãos do padre, e o brilho desconhecido continuava! Desviei os meus olhos para a assembléia, com a certeza de que alguém estaria percebendo o mesmo que eu: nada! Vi rostos indiferentes, rostos distraídos... nenhum dos presentes demonstrava qualquer sinal de estar vendo uma luz dourada emanando da Hóstia!

Voltei a olhar para o Pão em forma fina e circular que é a Hóstia, e continuava elevado nas mãos do padre. E então vi uma luz em forma de chama brilhando bem no seu centro, uma chama alongada e tênue, tremeluzindo e fazendo com que toda a Hóstia mudasse da cor branca comum para um matiz dourado suave...

Fechei meus olhos com força e voltei a olhar, incapaz de acreditar no que estava vendo. A chama continuava, o brilho dourado continuava; as mãos do padre continuavam a segurá-la, imóveis, firmes como rocha. Fechei novamente meus olhos e voltei a apertá-los com força, uma, duas vezes. Achei que estivesse tendo algum tipo de miragem ou ilusão de ótica. Mas a visão continuava! Uma chama alongada e branca brilhava no centro da Hóstia Consagrada, tornando-a resplandecente e dourada! Eu percebi que me encontrava fora da realidade comum, mesmo estando fisicamente ali, naquele lugar conhecido, rodeado de pessoas conhecidas. Desviava o olhar para a face do sacerdote, seus olhos estavam suavemente cerrados, sua face estava iluminada e ele me parecia inebriado, transbordante de bem-aventurança, saturado de divindade, como se naquele momento houvesse se tornado realmente um com o próprio Cristo! De volta à Hóstia, a chama continuava brilhando, intensa, perfeitamente visível, porém suave e delicada. Por um momento me ocorreu que eu era indigno para presenciar uma tal maravilha, e involuntariamente abaixei o meu olhar para o chão.

Mas voltei a focar a Hóstia e a visão continuava, intensa e suavemente a um só tempo; eu vivia uma sensação como de estar em sonho: outras vezes voltei a olhar para os lados, para os meus colegas, inconformado por ninguém mais estar percebendo o mesmo que eu! Estavam todos como que paralisados, mortos em vida. Apesar dos meus movimentos irrequietos e olhares indagatórios para os lados, ninguém me notava.

Naquele momento eu existia e me movia num espaço-tempo diferente. Parecia-me que já alguns minutos se haviam passado, mas as mãos do padre continuavam imóveis, a Hóstia permanecia elevada, sem nenhum movimento, nenhum tremor, oscilação, nada. Não haviam sons em volta, não havia cor, não havia... nada além de mim e da Hóstia! Apenas a chama que tremeluzia no seu centro parecia viva, e era como se essa chama viesse de um lugar além da matéria e do tempo, além do momento e do lugar, como se uma janela ou uma passagem se houvesse aberto bem no centro dela, ou como se uma realidade diferente de tudo que eu conheço, por trás dela se mostrasse visível aos meus olhos. Não havia mais gravidade, não havia mais peso e nem medida, não haviam mais sentidos, não havia mais "eu"...

E só então me dei conta da grandeza do que estava acontecendo. Me sentia elevado, como se não respirasse, como se não existisse de fato, como se o meu ser e a minha humanidade estivessem num outro lugar, ou talvez fosse melhor dizer "em nenhum lugar"; - como se tudo a minha volta fosse imaterial, irreal, ou como se eu mesmo não existisse. Entrei numa espécie de êxtase leve, e me deixei quedar, apenas apreciando aquela visão beatífica...

Mas depois de um momento me senti novamente indigno de viver tudo aquilo, e voltei a olhar para o chão.

E quando voltei a erguer meus olhos, a luz e o brilho dourado haviam desaparecido. O padre continuava com a Hóstia nas mãos, mas agora tudo parecia normal de novo. Tudo se movia, tudo era do jeito como sempre fora. Voltaram os sons, voltaram os movimentos e cores comuns das coisas. O sacerdote colocou de volta a Hóstia na âmbula e procedeu normalmente com o ritual da Comunhão. Em algum nível superficial eu entendi o que havia acontecido, ou achei que entendi. Mas ainda não me conformava, e o meu lado racional, apesar de àquela hora completamente nocauteado, ainda me impelia a olhar para os lados, para os companheiros da liturgia, sentados ao meu lado esquerdo, para a assembléia à minha direita... Ninguém demonstrava o menor sinal de ter visto algo fora do comum! Por fim me conformei e aceitei o que tinha acontecido, e uma paz imensa tomou conta de todo o meu ser.




A partir dali não voltei a me dispersar. Todo o restante da celebração me pareceu especial, maravilhoso, mágico, de uma beleza indescritível. Vi na parte final da celebração daquela Missa, mesmo sem comungar, a mais perfeita prática religiosa que pode existir neste mundo. Senti que estar ali, compartilhando daquela cerimônia, era como visitar o Céu. Pela primeira vez na minha vida, compreendi completamente o que significa aceitar, se tornar aberto; e o quanto isto é diferente de entender, buscar conhecer. - E que somente quando desisto de tentar entender, o conhecimento perfeito se manifesta.

Mesmo sendo um grande cabeça dura já sei que é impossível explicar essas coisas, por isso não vou tentar. Sei que é exatamente por isso que Jesus diz: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". - Quem tem olhos para ver, veja; quem tem entendimento para entender, entenda. - É simples assim. Alguns podem ver, outros não. Mas os que não podem ver nem ouvir, e muito menos entender, assim como eu, devem buscar. Porque os que procuram, acham.

Tudo que contei até aqui é só o começo. Não pensem que agora vem um "e fui feliz para sempre", porque ainda está muito longe da acabar e ainda há muito para ser contado.


"Disputavam entre si os judeus dizendo: 'Como, como pode este nos dar a comer a sua carne?' Mas Jesus lhes disse: 'O que se alimenta da minha carne e bebe o meu sangue, esse fica em mim, e eu nele'." João, 6:53-57


Ps.: Neste exato momento sinto como se estivesse lendo os pensamentos de muitos de você-ês! - Não se esqueçam: se abrir para o divino é muito diferente de tentar entendê-lo... =)


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