Quem é esse homem, afinal?

Não há história mais contada, de geração em geração, nem mais dissecada nos livros de toda espécie, desde os históricos até os míticos, passando pelos acadêmicos, os fantasiosos, os clássicos, os céticos, os contestadores... Não há história mais reprisada nos filmes, direta ou indiretamente, nem mais retratada nas pinturas, nas esculturas, na música e em toda espécie de artes plásticas... Não há personagem que tenha gerado mais paixão, mais devoção, mais curiosidade. Não há mestre mais citado, não há personalidade mais ardentemente amada pelos devotos nem mais cegamente odiada pelos céticos. Ele se tornou sinônimo de religião e religiosidade; de fé, crença e espiritualidade para bilhões. Reina soberano no inconsciente coletivo da humanidade, com tudo que isso possa envolver de fácil e de (muito) complicado. Não há nada que se possa comparar, em termos de popularidade e influência universal, com a história de Jesus Cristo, nos últimos 2.000 anos de nossa História. E esse interesse e essa atração não demonstram nenhum sinal de esfriamento, ao contrário: as últimas décadas têm nos trazido um renascimento constante e crescente do interesse histórico e religioso pela sua figura.

Jesus Cristo: o polêmico. O rebelde. O agitador. O mais amado pelos crentes e o mais odiado pelos céticos. O Mestre por excelência. Em nome dele, guerras se fizeram, e as mais sublimes obras humanas se produziram; universidades foram construídas, milhares de religiões, seitas e sub-seitas foram fundadas ao redor do planeta... Bem e mal se multiplicaram em torno da sua memória, exatamente como ele havia previsto há dois milênios.


Quando nos propomos a estudar a história do Cristianismo, com todas as suas muitíssimas variantes, por vezes nos sentimos como que perdidos numa densa floresta, ou no meio de um deserto cáustico que parece não ter fim; e sem bússola. A documentação histórica é cheia de furos, os relatos bíblicos e os não bíblicos são confusos, as zonas de sombra se sucedem, existem contradições... Mas há também uma boa notícia: nos últimos anos, têm-se registrado um notável progresso nas pesquisas sobre Jesus.

Antes de qualquer outra coisa, é preciso deixar um ponto muito claro: embora nos últimos tempos você possa ter lido e ouvido falar o contrário centenas de vezes, o fato é que o Jesus que nasceu, viveu e morreu na Palestina, concretamente, num determinado período histórico, e o chamado "Jesus da fé", são uma só e a mesma pessoa. - Sim; nós poderíamos discutir, por exemplo, o que significavam os milagres e maravilhas que ele produzia. Podemos ponderar sobre a natureza desses milagres, se ocorreram literalmente como nos contam os livros do Novo Testamento da Bíblia (e também os apócrifos), de que maneira, o que significavam... Mas é praticamente impossível a qualquer pesquisador de bom senso simplesmente negar que Jesus fazia milagres, porque eles são uma parte essencial daquilo que o tornou tão especial; - tanto ou mais, até, do que a sua própria doutrina. - Querer separar, como pretenderam alguns, o discurso e os ensinamentos de Jesus das maravilhas que ele realizava, suas "obras" palpáveis, seria o mesmo que tentar entender um Bach apenas estudando suas partituras, sem nunca ouvir a sua música. Como disse o próprio Jesus Cristo: "acreditai em mim, ao menos, pelas minhas obras" (João 14:11)... Muitos mestres trouxeram belas palavras, antes e depois de Jesus, mas houve só um Jesus Cristo. Descartar parte da sua história, não considerar a sua obra como um todo, é descartar o que ele trouxe de comprobatório da sua condição especial.

Sobre esse único Jesus, escreveu o alemão Rudolf Bultmann, um dos grandes estudiosos do Novo Testamento do século passado, nos anos 20: "...já não podemos conhecer qualquer coisa sobre a vida e a personalidade de Jesus, uma vez que as primitivas fontes cristãs não demonstram interesse por qualquer das duas coisas, sendo além disso fragmentárias e muitas vezes lendárias, e não existem outras fontes".

Bultmann era pessimista, como se vê, a ponto de depor as armas, no que se refere à pesquisa histórica de Jesus. Compare-se agora sua afirmação com outra mais recente, formulada em 1985 pelo respeitado especialista irlandês E. P. Sanders: "A opinião predominante em nossos dias parece consistir em que podemos conhecer muito bem o que Jesus queria dizer, que podemos saber muito sobre o que ele realmente disse..."

O que houve, entre os anos 20 e os 80, que aumentou assim a confiança nas pesquisas? Muita coisa importante aconteceu nesse curto intervalo de tempo: descobertas de manuscritos e sítios arqueológicos, uma nova mentalidade na abordagem do assunto, um rigor crescente. O otimismo que passou a contagiar os especialistas é ilustrado pelo fato de ser farta (e crescente) a produção intelectual no setor. A bibliografia é imensa. Este post se baseia em livros recentes, um desses é "Jesus dentro do Judaísmo", de James H. Charlesworth, professor da Universidade de Princeton e autor de diversas obras sobre o tema. Depois de citar as opiniões acima transcritas, de Bultmann e Sanders, Charlesworth acrescenta, a respeito do avanço das pesquisas: "... o fugidio pano de fundo da vida de Jesus está agora muito mais claro do que era, mesmo há vinte anos".

Estamos agora vivendo num mundo de alta erudição. Há gente capaz de mergulhar num papiro em hebraico ou grego antigo e voltar à tona misturando o resultado com os recursos da moderna antropologia. Poderia-se até dizer que estamos num mundo de obcecados, de estudiosos que consagram suas vidas inteiras a estudar um só assunto, e dos quais se exige, entre outros talentos, a perspicácia de um Sherlock Holmes.

Um bom exemplo para ilustrar o que estou dizendo é o caso da análise do professor Joel B. Green de um versículo que aparece em Matheus e também no pseudo-Evangelho de Pedro, um dos vários evangelhos apócrifos, de confecção considerada tardia, já muito distanciada da morte de Jesus e não reconhecidos pela Igreja. - O versículo refere-se ao momento em que, com Jesus já morto e sepultado, os sacerdotes dizem a Pilatos: "Ordena pois que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia, para que os discípulos não venham roubá-lo e depois digam ao povo: Ele ressuscitou dos mortos" (Mt 27:64). Mais especificamente, a questão envolve um trecho que aparece absolutamente idêntico em Matheus e em Pedro: "...para que os discípulos não venham roubá-lo..." - A questão aí é: quem copiou quem? Matheus copiou Pedro ou Pedro copiou Matheus?

Naturalmente, a dúvida só surgiu por conta de certos especialistas que passaram a sustentar a tese de que, ao contrário de se tratar de um texto tardio, ou seja, já do segundo século depois de Cristo, como em geral ocorre com os apócrifos, o Evangelho de Pedro seria um documento de alto valor, cronologicamente situado talvez ainda à frente dos quatro Evangelhos oficiais ou canônicos, considerados os escritos mais antigos, do início do século I. - Isso poderia significar uma pequena revolução acerca de tudo que conhecemos sobre a história de Jesus.

Bem, então o professor Green pegou aquele fiapo de frase, "para que os discípulos não venham roubá-lo", e se pôs ao trabalho. Descobriu que a palavra "discípulo" é comum em Matheus, que a usa 73 vezes, mais do que qualquer outro dos três evangelistas canônicos. Já no evangelho de Pedro ela não aparece nenhuma outra vez. O verbo "roubar" ('klepto', no original grego) aparece quatro vezes em Mateus e, de novo, nenhuma em Pedro. Enfim, a preposição "para", no sentido de "a fim de" ('mepote', em grego), aparece sete outras vezes em Matheus, e apenas uma outra em Pedro. Conclusão: Bingo! O estilo literário do trecho, é, sem dúvida, de Matheus; é ele a matriz. Pedro copiou-o. Portanto, o Evangelho de Matheus é anterior e mais digno de crédito.


Separar entre a documentação antiga o que tem valor e o que não tem é um dos trabalhos mais difíceis dos pesquisadores. O público leigo em geral têm fascinação pelos evangelhos apócrifos - a fascinação de entrar num território proibido (uuuhh!)... - E eles são fascinantes mesmo, até pelas extravagâncias que, muitas vezes, chegam a conter.

Num dos apócrifos, Jesus é retratado em sua infância como uma espécie de "menino mágico" que faz passarinhos de barro e, depois de bater palmas, os põe a voar(!). Em um outro, Jesus, também quando menino, roga uma maldição e faz cair morta uma criança que o perseguia. Outra cena da infância de Jesus contida nos apócrifos é mais formidável ainda: Jesus quer brincar com um grupo de crianças, mas elas fogem dele e se refugiam numa casa. Jesus chega e pergunta à dona da casa onde estão as crianças. A dona da casa, para protegê-las, diz que ali não tem crianças. - Já que é assim, Jesus ordena então: "Deixa os bodes saírem". A mulher vai abrir a porta do cômodo e descobre o quê? Bodes... Jesus transformara seus desafetos em bodes, para horror da mulher...

Com uma ou outra exceção, os apócrifos são fáceis de descartar. Tratam-se de coletâneas de histórias inventadas altamente fantasiosas, algumas produzidas em meios populares onde a religião ainda mal começava a se separar da feitiçaria. Tarefa muito mais complicada, a que todos os pesquisadores históricos se dão, é tentar discernir, nos Evangelhos Canônicos, o que pode ser considerado realmente testemunho de Jesus e as possíveis elaborações posterioriores. Os canônicos foram escritos a uma distância provavelmente a partir de quarenta anos da morte de Jesus, por autores que possivelmente foram testemunhas oculares de sua vida. Como saber o que é histórico em seus relatos? Além da autoridade óbvia de documentaristas contemporâneos dos fatos que estão narrando, os pesquisadores de hoje utilizam-se de variados critérios. Um deles é o da "múltipla atestação". Quanto mais um episódio ou dito de Jesus for repetido pelos diferentes evangelistas, maior a evidência histórica científica de ser verdadeiro. Outro, mais refinado, é o "critério do embaraço". Se um determinado episódio era embaraçoso para as elucubrações teológicas dos primeiros cristãos, e mesmo assim foi conservado nos Evangelhos, é porque deve ser verdadeiro. Um bom exemplo é o caso do batismo de Jesus por João Batista. - Foi muito difícil explicar às primeiras comunidades cristãs por que o Superior, isto é, Jesus, havia se deixado batizar pelo inferior, isto é, o Batista. - Se apesar da dificuldade teológica em explicar um fato, ele foi conservado nos textos, o episódio é considerado verdadeiro.

O estudo lingüístico, que se viu na comparação entre os textos de Matheus e os atribuídos a Pedro, é outro dos grandes instrumentos que temos para a pesquisa sobre Jesus. Outro ainda está nas descobertas arqueológicas. - E entre elas nenhuma se iguala, em qualidade e fartura, aos chamados "Manuscritos do Mar Morto", um conjunto de papiros achado a partir de 1947 nas cavernas da região de Qumram, no moderno Israel, e que só há pouco tempo foram completamente restaurados e decifrados. - Os Manuscritos do Mar Morto têm servido para muita coisa, nos últimos quarenta anos, inclusive para explorações sensacionalistas. Na verdade, hoje sabe-se bem o que eles são: uma antiga e importante biblioteca. No início dos anos 50, depois da descoberta dos manuscritos, escavações realizadas nas proximidades pelo padre francês Roland de Vaux trouxeram à luz uma construção que, destruída e queimada no ano 68 dC, concluiu-se se tratar de um antigo convento.

A partir daí formou-se consenso entre os especialistas - nas cavernas, os membros da seita de Qumram esconderam a biblioteca desse convento. - Viviam-se os dias tempestuosos da revolta judaica contra o domínio romano que resultaria, no ano 70 da nossa era, na destruição de Jerusalém. Esconder os manuscritos, acondicionados em jarras, na iminência de um ataque romano que realmente viria a varrê-los do mapa, foi a maneira que os membros da seita encontraram de preservar seus documentos para a posteridade.

A seita em questão muito provavelmente é a dos essênios, cujo rastro encontra-se em muitos outros textos da antiguidade. Na biblioteca que eles esconderam nas cavernas há desde livros do Velho Testamento a documentos específicos da seita, como o "Manual de Disciplina", que era seguido por seus membros. Os documentos foram datados de um período que vai do ano 200 aC até 67 dC. Ou seja: muitos deles são contemporâneos de Jesus. Há centenas de textos completos e milhares de fragmentos, que foram pacientemente remontados por uma comissão na qual se misturaram especialistas judeus e cristãos, sob a supervisão do governo israelense. Decepção: apesar de serem documentos da mesma época, não há nenhuma menção a Jesus. Isso não invalida, no entanto, o imenso valor dos textos de Qumram para o conhecimento da época e do ambiente que circundava Jesus.

"Penetrar no mundo dos Manuscritos do Mar Morto equivale a mergulhar no tempo e no ambiente ideológico de Jesus", escreve James H. Charlesworth (autor citado acima). Os textos de Qumram revelam idéias muito próximas às de Jesus.

Havia entre os membros da seita uma acentuada escatologia, por exemplo - isto é, um alerta permanente contra o fim dos tempos, que se considerava iminente. Havia também prescrições para uma total entrega a Deus. Esses e outros traços comuns configuram uma espécie de elo perdido do pensamento judaico entre os tempos do Velho Testamento e o advento da Era Cristã, e sugerem, entre um e outro, uma certa transição. A seita de Qumram também escancara a realidade do judaísmo vibrante e variado dos tempos de Jesus; tão pouco unitário que alguns autores hoje preferem falar em "judaísmos", e não num judaísmo só.

No entusiasmo das primeiras descobertas chegou-se a imaginar um Jesus fortemente influenciado pela doutrina dos essênios, ou mesmo que ele teria sido um membro da seita. - Mas na verdade, tanto quanto semelhanças, há diferenças entre um e outro, e a mais gritante é a atitude perante as regras rituais judaicas de conduta. Os essênios são ainda mais fanáticos que os fariseus na sua observância. E Jesus, como se sabe, agia de modo oposto. Ele disse que o "sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado". - Jesus dava pouca importância ao rigor imobilista com que os ortodoxos mandavam guardar o dia santo, como de resto a todas as outras proibições e imposições rituais. Ou melhor: ele estava aí era para subvertê-las mesmo, num contínuo chamamento para a superioridade da pureza e da devoção interiores, não exteriores. - O real cumprimento da lei.

"O Sermão da Montanha", pintura do dinamarquês Carl Heinrich Bloch

Outra importante descoberta de manuscritos, feita um pouco antes, em 1945, ocorreu no Egito, na região de Nag Hammadi. Entre os 53 documentos ali encontrados, todos em copta, língua falada no Egito nos primeiros anos da cristandade, inclui-se o chamado "Evangelho de Tomé" (assunto a que voltaremos neste blog), uma coleção de 114 ditos de Jesus, enfileirados um atrás do outro, em que alguns vêem a tradução de um original semita talvez muito antigo, embora não haja consenso a respeito.

No setor das ruínas desenterradas ultimamente, é importante citar a "Casa de Cafarnaum", que Charlesworth, entre outros especialistas, está convencido tratar-se da casa de São Pedro referida nos Evangelhos. Além de uma série de coerências históricas e de localização, foram encontrados anzóis num dos seus compartimentos, exatamente um dos instrumentos de trabalho de seu presumível proprietário. "A descoberta é virtualmente inacreditável e sensacional", observa Charlesworth. Nessa casa Jesus hospedou-se e operou milagres, segundo os Evangelhos. Charlesworth enfatiza, extasiado, que com a descoberta da "Casa de Pedro" temos "o mais antigo santuário cristão já desenterrado em qualquer parte do mundo".

Fico por aqui, embora houvesse ainda muito a ser dito em matéria de descobertas como essas. Acrescento apenas que a elas se juntou, nos últimos anos, uma nova e muito produtiva mentalidade: a de analisar Jesus à luz do ambiente, dos documentos e da cultura judaica em que, naturalmente, estava imerso. Algo que, por mais óbvio que fosse, antes não se fazia, por preconceito ou rivalidade religiosa. A soma de tudo isso é promissora. O escritor inglês A. N. Wilson, autor de várias obras relacionadas, chega a afirmar: "O mundo de Jesus tem sido colocado num foco mais preciso por nossa geração do que por qualquer outra geração anterior, desde o ano de 70 da Era Cristã".

O ano 70 dC é o da arrasadora repressão promovida pelos romanos contra os judeus. De alguma forma, fisicamente, o mundo em que Jesus viveu acabou ali. Ao mesmo tempo, segundo prossegue Wilson, a fé católica enveredou por um caminho curioso, caracterizado por muito "pouco interesse nas origens semitas de Jesus e ainda menor no conhecimento destas".

Afinal, quem era Jesus? E por que incomodava tanto a ponto de ser condenado a morrer na cruz? Continue no Arte das artes!..



Fontes e bibliografia:
Arquivo revista
Veja;
Charlesworth, James H - "Jesus dentro do Judaísmo", Imago, RJ, 1992;
Green, Joel B. - Dictionary of Jesus and the Gospels, Scot McKnight Editor, 1992;
Sanders, E. P. - "Jesus and Judaism", London: SCM, 1990;
Paul, Andre - "Os Manuscritos do Mar Morto", Piaget, 2006;
Wilson, A. N. - "Jesus, um Retrato do Homem", Ediouro, 2000;
Site Mucheroni (revisado).



Cristianismo: fontes documentais - conclusão

"São Jerônimo" - pintura de Caravaggio

Para entender o intrincado universo das fontes documentais do Cristianismo, há a necessidade de se conhecer a origem e a natureza dos erros de transcrição dos textos do Novo Testamento. Nos interessa saber como e porque ocorreram pequenas alterações no conteúdo desses escritos essenciais... Os tipos de variantes.


As alterações acidentais

Existiram equívocos visuais - alguns erros foram cometidos quando o copista confundiu certas letras com outras de grafia semelhante. Um tipo de equívoco visual é chamado "parablepse". Esse nome complicado significa pular de uma palavra, frase ou parágrafo para outro, devido a começos ou términos semelhantes, com a omissão de palavras.

Há também a classe de equívocos chamados "ditografia", que são a repetição de uma sílaba, frase ou parte de uma frase; e a "metátese", que é a transposição de fonemas no interior de um mesmo vocábulo ou a transposição de vocábulos numa mesma frase.

Equívoco auditivo é quando certas vogais e ditongos gregos vieram a ser pronunciados de maneira praticamente idêntica, fenômeno conhecido como "iotacismo", comum no grego moderno.

Equívoco de memória - poderiam variar desde a substituição de sinônimos à inversão na seqüência de palavras, quando a mente traía o copista.

Equívoco de julgamento - Quando um copista se deparava com comentários diversos anotados na margem do manuscrito que lhe estivesse servindo de modelo e não dispusesse de outras cópias para efeito de comparação, poderia incluí-lo no texto julgando que de fato devessem estar ali. Por exemplo, num manuscrito do século XIV há um exemplo de erro de julgamento. O modelo do qual foi copiado o Evangelho de Lucas deveria trazer a genealogia de Jesus (3:3-28) em duas colunas paralelas de 28 linhas cada. Todavia, ao copiar o texto seguindo a ordem das colunas, o escriba o fez seguindo a ordem das linhas, passando de uma coluna para outra. Como resultado, praticamente todos os filhos tiveram seus pais trocados.

Alterações intencionais - Harmonização textual e litúrgica - o copista se sentia tentado a harmonizar os livros que apresentassem passagens paralelas, um pouco divergentes. Principalmente nos evangelhos sinóticos, com muitos textos sendo alterados para uma narrativa mais unificada possível.

É interessante notar que muitas citações do Antigo Testamento eram feitas sem muito rigor pelos apóstolos, e copistas procuravam adaptar à Septuaginta (LXX - tradução do Antigo Testamento para o grego, feita por hebreus).

Alguns textos eram adaptados para ser lidos publicamente nos serviços de culto, e tais arranjos influenciaram a própria transmissão do texto. O exemplo mais claro é o da Oração do Senhor (Mateus 6. 9-13), cuja doxologia “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre; Amém”, foi acrescentada para uso litúrgico, e acabou sendo incorporada no texto de muitos manuscritos.

Correção ortográfica, gramatical e estilística - A maioria das alterações ortográficas nos manuscritos bíblicos ocorreu devido à falta de qualquer padronização oficial e à influência de vários dialetos. Assim, inúmeros termos gregos acabaram tendo formas diversas na soletração, principalmente os nomes próprios.

Correção histórica e geográfica - Alguns escribas tentaram harmonizar o relato do Evangelho de João da cronologia da Paixão de Cristo com a de Marcos, mudando a “hora sexta” (João 19:14) para a “hora terceira” (Marcos 15:25).

Correção exegética e doutrinária - Algumas vezes o copista se deparava com uma passagem de difícil interpretação, assim alguns tentaram completar-lhe o sentido, tornando-a mais exata, menos ofensiva ou obscura.

Interpolação de notas marginais, complementos naturais e tradições ­- A inclusão de textos marginais ao corpo textual como apontamentos, correções, interpretações, reações pessoais e mesmo informações gerais quanto ao texto era comum.

Note-se que certas palavras ou expressões que aparecem juntas no texto bíblico ou no uso habitual da Igreja, e a falta de uma delas numa ou noutra passagem levava o copista a acrescentá-la. Estes são os chamados "complementos naturais".

Conforme já foi dito, os críticos especializados têm demonstrado que as variantes têm pouca ou nenhuma importância para o sentido dos textos em si, ao contrário do que pretendem certos editores de obras sensacionalistas em busca de lucro fácil. Os fatos do Novo Testamento que dizem respeito à fé e moral são expressos em muitos lugares, e assim o fundo doutrinário permanece intocado pelas passagens criticamente incertas, nem um pouco alterado em sua essência. Podemos afirmar com toda a certeza científica que o texto dos cristãos, se não criticamente, doutrinariamente foi conservado incorrupto.


O texto impresso

Entre os séculos XV e XVI, entramos numa nova fase na história do Novo Testamento. Primeiramente a Imprensa tornou os trabalhos de reprodução mais rápidos e baratos, além de acabar de uma vez com a multiplicação dos erros de transcrição. Assim, as cópias passaram a ser feitas com muito mais agilidade e precisão, exatamente como haviam sido escritas, salvo raras exceções, a maioria das quais de erros tipográficos de menor importância.

Um segundo fator que ajudou a levar o texto neotestamentário a essa nova fase de desenvolvimento e sistematização foi o movimento renascentista, com sua ênfase nos valores artísticos e literários do homem, que acabou fazendo despertar na Europa um grande interesse pela cultura grega clássica. Conseqüentemente os estudiosos cristãos também começaram a valorizar os manuscritos gregos do Novo Testamento, revisando a Vulgata.

"São Jerônimo no deserto" - pintura de Leonardo Da Vinci

Primeiras edições

Apesar da impressa, a publicação do Novo Testamento em grego não saiu imediatamente. O primeiro produto representativo da tipografia foi justamente a Bíblia, a Vulgata de Jerônimo, em dois volumes, entre os anos de 1450 e 1455. Nos 50 anos seguintes, pelo menos cem edições da Vulgata ainda foram preparadas por várias casas editoriais da Europa.

Para a língua portuguesa, temos em 1495, em Saragoza, a publicação das epístolas paulinas e dos Evangelhos. Naquele ano, em Lisboa, foi publicada, em quatro volumes, uma harmonia dos Evangelhos. - O Novo Testamento completo saiu em 1681, em Amsterdã, já na antológica versão de Pe. João Ferreira de Almeida. A Bíblia completa em português foi publicada em 1753, na Holanda, depois de Jacó den Akker haver terminado a tradução do Antigo Testamento, parada com a morte de Almeida, em 1691, no texto de Ezequiel 48:12.

O cardeal e arcebispo de Toledo, Francisco Ximenes de Cisceros (1437-1517), foi o responsável de promover e organizar a primeira impressão do texto grego do Novo Testamento, como parte da chamada Bíblia Poliglota Complutense.

Erasmo de Roterdã (1469-1536), escritor e humanista holandês, produziu, em 1516, o primeiro Novo Testamento grego que chegou ao domínio público, sendo beneficiado com o atraso na divulgação da obra de Ximenes.


O "Texto Recebido"

Quando o Novo Testamento grego de Erasmo chegou ao público ocorreram diversas reações. De um lado houve ampla aceitação, tanto que ele preparou uma nova edição, e a tiragem total das edições de 1516 e 1519 alcançou 3.300 exemplares. A segunda edição, agora intitulada "Novum Testamentum", foi a que serviu de base da tradução alemã de Martinho Lutero. De outro lado, a obra foi recebida com grande preconceito e até com hostilidade. Três fatores contribuíram para isso: 1) As diferenças que havia entre sua nova tradução latina e a consagrada Vulgata; 2) As longas anotações para justificar sua tradução e 3) A inclusão, entre as notas, de comentários sobre a vida desregrada e corrupta de certos sacerdotes. Clérigos protestaram fazendo uso dos púlpitos; conseqüentemente Universidades como as de Cambridge e Oxford proibiram seus alunos de lerem os escritos de Erasmo, e os livreiros de os venderem.

Dentre as críticas levantadas contra Erasmo, uma das mais sérias veio da parte de Lopes de Stunica, um dos editores da Poliglota Complutense, que o acusou de não incluir no texto de 1 João 5:7-8 a "Coma Joanina". Erasmo replicou que não havia encontrado nenhum manuscrito grego que a contivesse, e prometeu que a incluiria em suas próximas edições se apenas um único manuscrito grego trouxesse a passagem. Um manuscrito foi-lhe trazido, e Erasmo cumpriu sua promessa na terceira edição, de 1522. Todavia numa longa nota marginal, ele suspeita do manuscrito como sendo preparado para confundi-lo.


Edições Intermediárias

Em seguida, temos a preocupação em reunir variantes textuais e estabelecer os princípios de um trabalho textual mais científico, baseado em pesquisas progressivas dos manuscritos gregos, das versões e da literatura patrística. O contexto agora era outro, os estudiosos tinham que lutar contra o movimento racionalista, que encontrara no deísmo sua expressão religiosa. Defendendo a existência de uma religião natural, onde a Verdade só podia ser alcançada pela razão e pelo método científico, o deísmo encarava as Escrituras como um simples manual ético de origem humana, e colaborou, entre outras coisas, para que sua pureza textual fosse questionada. Os pesquisadores cristãos surgiram nos principais países europeus em defesa do Cristianismo histórico e da integridade textual da Bíblia. E, no esforço de provar que o Novo Testamento que dispunham era exatamente aquilo que os autores originais haviam escrito, tiveram também de defrontar-se com o chamado "Texto Recebido", no qual os problemas tornaram-se ainda mais graves.

Os críticos, por dois séculos, vasculharam bibliotecas e mosteiros na Europa e em todo o mundo mediterrâneo procurando material que pudesse ser útil. Todavia, continuaram a publicar o Texto Recebido, submetendo-se a ele. Ele era um texto já tradicional e reverenciado por todos, e ninguém se aventuravam a modificá-lo, sob o risco de censura ou até de disciplina eclesiástica.

Durante esse período não ocorreu qualquer progresso real no texto grego do Novo Testamento que estava sendo publicado. Todavia, as muitas variantes que se tornaram conhecidas mediante o progressivo e acurado exame dos manuscritos, o início de sua classificação de acordo com as famílias textuais e o desenvolvimento das teorias críticas ofereceram a base necessária para que tal progresso se concretizasse no período seguinte. Nos confrontos entre os partidários do Texto Recebido e os que acreditavam na superioridade dos manuscritos mais antigos, a vitória dos últimos estava garantida. As evidências acumuladas tornavam evidente que o texto precisava ser corrigido, para o próprio bem do cristianismo histórico, principalmente por causa dos ataques racionalistas. O reinado do Texto Recebido estava chegando ao fim. Os princípios que permitiriam essa conquista já estavam praticamente estabelecidos e necessitavam apenas ser aprimorados.


Edições Modernas

No século XIX, a predominância do Texto Recebido foi finalmente interrompida. Os esforços dos pesquisadores nos dois séculos anteriores fizeram com que a crítica textual se tornasse uma ciência de fato. - A distribuição dos manuscritos nos diferentes grupos permitiu que os muitos documentos começassem a ser organizados e que a história da tradição manuscrita fosse reconstruída, levando ao desenvolvimento sistemático de metodologias e ao tratamento mais científico das inúmeras variantes. Apesar dos críticos ainda divergirem com relação às teorias, todos buscavam um texto que estivesse o mais próximo possível do original e, nesse novo período, rompendo com o Texto Recebido. Surgindo o texto crítico e, com ele, o período moderno da crítica textual do Novo Testamento.


Conclusão

Depois de quase 500 anos de história do texto do Novo Testamento e das mais de mil edições surgidas desde século XV com Erasmo, dos vários estudos, os editores críticos de um modo geral concordam com o texto crítico moderno e apenas um grupo bem pequeno de variantes sem muita importância é contestada. E mesmo que surja uma edição nova com muitas variantes, já está mais ou menos claro que o Novo Testamento grego está muito próximo dos textos primitivos originais. O chamado Texto Recebido foi abandonado pela maioria dos estudiosos, que o defendiam como a forma mais próxima do original.

Apesar dos erros dos copistas, a integridade do texto foi mantida. Sua coerência interna é uma evidência muito forte. A Crítica Textual tem demonstrado que o textos cristãos essenciais (o Novo Testamento da Bíblia) fala hoje com a mesmo eloqüência que falava no período apostólico. Podemos pegar a Bíblia atual sem medo de dizer, seguramente, que é o mesmo texto denominado como "Palavra de Deus" e transmitido na sua essência através dos séculos.



Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
McDOWELL, Josh. "Evidência que exige um veredicto", Volume 2. São Paulo: Candeia, 1992;
New Testament (The). New International Version: Holman Bible Publishers, Nashville, 1988;
"Novum testamentum graece et latine". Aparatu critico instuctum edidit Augustinus Merk. Editio octava. Roma: Sumptibus Pontificii Instituti Biblici, 1957;
PAROSCHI, Wilson. Crítica textual do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1993;
Santa Biblia. Antigua versión de Casiodoro de Reina (1569), revisada por Cipriano de Valera (1602), otras revisiones: 1862, 1909 y 1960. Revisión de 1960. Sociedades bíblicas unidas: (Madrid), 1996.



Onde estão eles?


Os números são avassaladores. Existem cerca de 200 bilhões de estrelas na Via Láctea. E a Via Láctea é apenas uma entre centenas de bilhões (isso mesmo!) de galáxias em todo o Universo observável. E se a gente considerar a possibilidade de vivermos não em um Universo mas sim num Multiverso ou Pluriverso, conforme defendem muitos astrofísicos renomados, pode multiplicar esses números ao infinito...

Aparentemente, os elementos essenciais para a vida estão disponíveis de forma abundante em todo o Cosmo. - Como não acreditar que existem formas de vida alienígenas? Isso seria, pra dizer o mínimo, altamente improvável.

Mas ao ouvir esses argumentos de seus entusiasmados colegas durante um almoço, o físico cético Enrico Fermi perdeu a paciência: “Está bem, está bem. Mas, se é assim, onde estão eles!?”

As risadas que se seguiram com certeza foram gerais, e ele sem dúvida estava brincando; o raciocínio para se determinar se há ou não vida inteligente no restante do Cosmo jamais poderia ser assim tão simplista. - Poderiam se cogitar milhões de hipóteses para explicar porque nossos irmãos espaciais não se manifestam a nós. - Mas com essa simples pergunta, o ítalo-americano condensou um grande problema para a "SETI" – sigla inglesa do famoso programa “Busca por Inteligência Extraterrestre". – Ao menos isso é o que pensa o Dr. David Grinspoon, do Southwest Research Institute, do Colorado (EUA): a pergunta de Fermi foi feita em 1943, e até hoje os cientistas não encontraram uma resposta convincente. O que não deixa de ser um embaraço constante para os pesquisadores que tentam encorajar o financiamento do uso de radiotelescópios para procurar sinais de rádio emitidos por civilizações alienígenas.

O “Paradoxo de Fermi”, como acabou ficando conhecido, evoca muitas reflexões, algumas não muito animadoras, a respeito da vida inteligente no Universo.


A hipótese da raridade

Como gostava de lembrar o saudoso astrônomo norteamericano Carl Sagan, ao defender as contínuas "escutas" em busca de sinais extraterrestres, "ausência de evidência não é evidência de ausência". Verdade. Mas pode ser muito bem evidência de raridade.

Hoje, muitas das estrelas mais próximas da Terra já foram analisadas com os radiotelescópios mais poderosos que temos por aqui e nenhuma sinalização artificial foi detectada. É bastante provável que não exista, pelo menos nas vizinhanças cósmicas, alguém com capacidade de transmitir sinais para nós. As civilizações que estão por aí, por serem muito raras, acabariam surgindo muito distantes umas das outras, de modo que a comunicação por rádio se tornaria virtualmente impraticável.

4,2 anos-luz é a distância entre a Terra e a "Próxima Centauri", a estrela menos distante de nós; a qual pode ser inabitável. Ano-luz é a distância que a luz viaja em um ano. Longe o bastante pra você?


A hipótese da autodestruição

Durante os anos 40, o físico americano Philip Morrison trabalhou no "Projeto Manhattan", que criou as primeiras bombas atômicas. Em 1959, em parceria com Giuseppe Cocconi, ele foi o primeiro a sugerir que a melhor forma de "telefonar" para ETs seria com sinais de rádio, numa frequência específica. A ironia é que Cocconi teve essa idéia só depois de criar a bomba.

Se por incrível que pareça, até agora, mais de meio século após a detonação das primeiras armas nucleares, nós ainda estamos por aqui para contar a história, a pergunta a ser feita é: até quando? A ausência de sinais alienígenas evoca em alguns a noção de que não há ninguém lá fora porque, no momento em que uma civilização avança o suficiente para obter meios para procurar por outras no Cosmo, ela também tem formas para se autodestruir. E que, supostamente, cedo ou tarde, ela acabaria caindo na tentação de usar esse arsenal. Teoriazinha fatalista, essa...


A hipótese da TV a cabo

Desde o início da era dos satélites de comunicação, temos usados nossos transmissores para enviar sinais para o espaço. Ficou claro, no século 20, que essa também é a melhor forma de tentar nos comunicar com outras civilizações e também que elas poderiam detectar a nossa presença se tivessem como sintonizar suas antenas para acompanhar nossos programas.

Só que isso talvez seja apenas um viés criado pela época em que vivemos. Hoje, por exemplo, as transmissões via satélite estão sendo trocadas por sinais via cabo. Será que os ETs também não descobriram que havia meios mais fáceis de trocarem sinais entre sí? E será também que, depois disso, concluíram que havia formas melhores para se comunicar com o espaço? Há quem diga que sinais de laser ou outros meios poderiam ser muito melhores do que sinais de rádio, para um "chat interestelar".


Você sabia?

Fundado em 1984, o projecto SETI tem como missão explorar, compreeder e explicar a origem e natureza da vida no universo. Para saber mais, clique aqui.




O rádio telescópio da Universidade Estatal de Ohio, em Columbus, é conhecido por "Big Ear" - "Grande Ouvido".

A sua missão é detectar sons anômalos ou artificiais no Cosmos, que possam fornecer provas de comunicação inter-galáctica. Se alguém estiver tentando captar a nossa atenção no espaço, provavelmente será ele que nos dará essa informação.

Mas alguns astrônomos que operam o Big Ear acreditam que esse contato já foi estabelecido. Acreditam já ter encontrado exatamente o tipo de sinal que procuravam: um sinal de faixa estreita, claramente de origem inteligente, que não poderia ser confundido com uma interferência.

Em finais dos anos 50, a Universidade Estatal de Ohio, iniciou a construção deste rádio telescópio, que durante 15 anos catalogou uma sinfonia de estática, estalidos e assobios provenientes de satélites, estrelas e fontes explicáveis.

Mas, em meados dos anos 70, o Big Ear obteve o patrocínio da NASA e começou a recolher evidências de inteligência extra-terrestre. Foi em 1977 que a equipe teve o seu primeiro êxito: qualquer fenómeno sonoro acima de 4 era considerado decididamente raro, mas aquilo que se obteve equivalia a 30(!), portanto era tão forte que quem viu as leituras ficou tão espantado que escreveu, ao lado da ficha de relatório: "Wow!"


Relatório pertencente ao observatório "Big Ear"


O mais estranho é que no mesmo dia foram captados dois feixes de luz no céu, e só foi detectada atividade num deles. O que pode significar, segundo especialistas, que um deles "se desligou" enquanto era observado. Isso aponta, ainda mais, para um fenômeno inteligente.

Mas o mais desesperante da história é que, como seria de se esperar, obviamente os pesquisadores voltaram a observar essa mesma freqüência milhares de vezes, e o sinal nunca mais apareceu. Por isso a sua origem nunca pôde ser determinada.

Este episódio causou muita polémica entre os astrônomos, mas nunca foi encontrada uma explicação para a origem do sinal.

O Dr. Louis Friedman, director da Sociedade Planetária, não acredita que esta tenha sido a primeira comunicação interestrelar, mas sim que se tratar de uma pequena peça de um quebra cabeça que o rádio-telescópio um dia poderá resolver.



Fontes:
Arquivo Superinteressante;
Site
NEFO;
Site oficial do "Big Ear".

Links interessantes:
Sociedade Planetária do Brasil.



Ufologia vs. Ufolatria


Cidade de Varginha, MG


"Caçadores" de OVNIs e OSNIs passam cada vez mais à ofensiva contra místicos - e tentam atrair o apoio de cientistas

O interesse pelo 'incidente em Varginha', que é como ficou conhecida a anunciada aparição de supostos extraterrestres no sul de Minas Gerais, se reavivou com o lançamento do livro "O Caso Varginha", do advogado mineiro Ubirajara Rodrigues. Na capa, uma promessa: "Pela primeira vez revelada a história completa da captura de estranhas criaturas no sul de Minas Gerais".

O livro marca uma virada nos rumos da atividade que é considerada ciência por alguns e bobagem por outros. Baseado numa extensa investigação que levou seis anos, envolvendo mais de 30 depoimentos, Rodrigues fez uma obra que, se não chega a provar a existência de ETs, também não se parece com um delírio. A obra é uma tentativa de "separar o joio do trigo" – os ufólogos sérios dos fanáticos, aqueles que tendem a acreditar em qualquer coisa. "Mais de 95% dos casos de objetos voadores não identificados têm alguma explicação científica desvinculada de extraterrestres", diz Rodrigues. "Mas o restante está sendo irresponsavelmente ignorado pela ciência, e o caso de Varginha é um deles. Queremos que os pesquisadores se interessem pelo assunto", advoga o adepto da ufologia "pé no chão".


Morte e mistério - o policial Chereze e o casal que viu o OVNI numa fazenda

A versão do caso Varginha apresentada por Ubirajara Rodrigues está longe de se apoiar em crenças em "seres superiores" ou "revelações telepáticas", como ocorre com muitos dos livros ditos "de ufologia". Engana-se quem pensa que o autor é um tipo folclórico, daqueles que usam batas coloridas, juram conversar com duendes e dar voltinhas em discos voadores. Muito pelo contrário. "Nunca vi um OVNI", afirma o engravatado professor de direito. Advogado respeitado no sul de Minas, ele pratica o que alguns chamam de "ufologia científica" – um ramo da atividade que rejeita misticismos e deslumbres esotéricos. "Não chegamos a ser cientistas, mas investigamos de um modo criterioso os relatos de pessoas que dizer ter visto OVNIs", conta Rodrigues.

No Brasil, essa vertente séria da ufologia conta com engenheiros, médicos, meteorologistas e gente do meio científico. Tão grande quanto sua luta para convencer os céticos é a sua batalha contra o que chamam de "ufólatras" – ou ufólogos místicos. "São eles que desmoralizam a ufologia", acusa Rodrigues. A briga contra esses deslumbrados é ingrata. O engenheiro paulista Ricardo Varela é mestre em desvendar enganos e fraudes. Ufólogo assumido, ele trabalha no INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), desenvolvendo os instrumentos que vão a bordo dos balões de pesquisa. Sempre que alguém telefona ao instituto dizendo ter visto um óvni, o caso é passado a ele.


A cética Varginha

O pintor Dênis, no terreno onde foi visto o ET, acha que tudo não passa de bobagem. Como ele, a cidade renega a história do ET, que virou nome de praça e mais nada. "Até hoje, todos os relatos, fotos e filmes que chegaram aqui foram explicados e não tinham nada a ver com naves de outro mundo", diz Varela. Ele desmascarou há alguns anos um vídeo exibido na televisão brasileira mostrando a descoberta de uma nave por militares russos. Por isso, nem sempre Varela é bem visto pelos ufólogos fanáticos, aqueles que acreditam em qualquer coisa.

O mesmo acontece com o engenheiro paulista Claudeir Covo. - Ufólogo há 35 anos, ele critica duramente aqueles que misturam a atividade com misticismos. "Algumas pessoas querem tirar Jesus do altar e botar um disco voador no lugar", ironiza. Também alerta para os casos em que a armação tem fins puramente comerciais. Foi Covo quem descobriu que o famoso OVNI filmado nos céus de São Paulo pela atriz Suzana Alves, a "Tiazinha", nada mais era do que o dirigível da Goodyear... Convidado para falar sobre o assunto no programa do apresentador Gugu, no SBT, Claudeir conta que foi dispensado antes mesmo de entrar em cena, assim que revelou à produção do programa que a filmagem não tinha nada de extraterrestre. Esse tipo de atitude, por parte da mídia e de alguns dos próprios pesquisadores é o maior "queima filme" para a verdadeira ufologia em qualquer parte do mundo.

No caso de Varginha, outra face curiosa do racha entre ufólogos deflagrou-se. Algumas pessoas diziam não acreditar no fato, simplesmente porque o tal ET avistado era um bichinho feio, e não um ser angelical. "Os ufólogos sérios estão num beco sem saída, com os cientistas descrentes atacando por um lado e os místicos fanáticos por outro", afirma Ubirajara Rodrigues. E foi com esse viés crítico que o advogado mineiro retomou a história de que seres extraterrestres teriam aparecido em Varginha no começo de 1996.


Fraudes ou indícios?

Rodrigues reconstituiu com depoimentos de mais de 30 testemunhas o que teria ocorrido naquela época na cidade mineira. Em alguns momentos, a pesquisa contava com mais de 60 pessoas envolvidas na coleta de dados e documentos – alguns sigilosos, segundo afirma.

Pouco antes de morrer, em 1996, o astrônomo americano Carl Sagan escreveu: "Em uma questão importante como a dos óvnis, as evidências devem ser à prova de furos. Não basta ouvir uma testemunha dizer 'eu vi e ponto final'. As pessoas se enganam, pregam peças, distorcem a realidade por dinheiro, atenção, fama ou simplesmente porque interpretam mal o que vêem. Às vezes elas vêem até mesmo o que não existe". - A frase resume bem o pensamento reinante no meio científico-acadêmico.

Os próprios ufólogos admitem que a grande maioria dos OVNIs avistados não passa de fenômenos naturais ou produzidos pelo homem. Sagan cita, entre outras coisas, aeronaves em teste, planetas vistos sob circunstâncias atmosféricas incomuns, nuvens lenticulares, meteoros, satélites, relâmpagos globulares e balões meteorológicos. Segundo o engenheiro Ricardo Varela, do setor de balões do Inpe, o planeta Vênus é um dos campeões dos relatos, por incrível que pareça. Ele descobre os enganos das pessoas analisando as circunstâncias da observação e consultando os vastos dados do Inpe. "Sabemos, por exemplo, o local e horário de cada raio que cai no Estado de São Paulo".

E existem ainda os OVNIs "made in Brazil". Um deles é o "UFO Solar", um balão comprido de borracha preta feito para divertir pessoas na praia. Ele foi mania nos anos 70 e está voltando à moda. "Por ser preto, esquenta rápido e sobe. Ao longe, fica igualzinho um disco voador", conta Varela. Mas um dos fenômenos mais comuns no interior é o das pipas noturnas. Para empiná-las no escuro, a criançada pendura um prosaico sistema composto de uma vela protegida por uma garrafa plástica. Aos olhos de quem está distante, a luz que vaga no ar assusta e intriga. Quando Varela recebe um vídeo ou foto, identifica facilmente o sobe-desce da pipa pela trajetória digitalizada no computador. Isso às vezes causa problemas: "Há quem fique irritado ao saber que seu OVNI não passa de um brinquedo", conta. Ele diz que é talvez o ufólogo mais cético de todos.

A trama parece o enredo de um episódio do seriado "Arquivo X". - Começa pela atitude enigmática das autoridades. Nem a Aeronáutica, nem o Corpo de Bombeiros de Varginha e nem a EsSA (Escola de Sargentos das Armas, do Exército), todos órgãos públicos envolvidos no incidente, comentam o assunto oficialmente. Não negam nem confirmam.




O silêncio é um prato cheio para os ufólogos. A confusa história que as autoridades não gostam de comentar começou no dia 20 de janeiro de 1996, pela manhã, quando bombeiros de Varginha foram chamados para capturar um "animal selvagem" num pequeno bosque próximo ao bairro do Jardim Andere, não muito longe do centro da cidade. Segundo Ubirajara Rodrigues, soldados que não quiseram se identificar revelaram que o tal animal, na verdade, era uma criatura estranha, ferida, tirada das redes dos bombeiros diretamente para um caminhão do Exército, pertencente à unidade mais próxima, a EsSA, da cidade vizinha, Três Corações.

Naquele mesmo sábado, às 15h30, três garotas viram o que pensaram ser "o diabo", quando atravessavam um terreno baldio no Jardim Andere. As irmãs Liliane Fátima Silva, na época com 14 anos, e Valquiria Aparecida Silva, 16, acompanhadas da amiga Kátia Xavier, de 22, afirmaram na época que se tratava de uma figura tenebrosa, magra, de olhos vermelhos, pele marrom e protuberâncias na testa. Estava agachada e apática, próxima a um muro que separa o terreno de uma oficina mecânica.

As meninas – únicas testemunhas confessas do suposto ET – correram para casa, chorando, e contaram a visão assustadora para a empregada doméstica Luiza Helena da Silva, mãe de Liliane e Valquíria. A história se espalhou, até cair nos ouvidos de ufólogos, que a interpretaram como um contato visual com extraterrestre, em vez de uma "visão do demônio", como diziam as garotas.


Alienígena no pasto?

No final da tarde, uma viatura policial recolheu a criatura num matagal próximo, segundo Ubirajara Rodrigues, levando-a para o Hospital Regional, onde uma inusitada operação de acobertamento garantiu que fosse levada pelo Exército para a Escola de Sargentos das Armas, onde já estaria outro ET, capturado pela manhã.

Alguns dias depois, com a história de extraterrestres correndo de boca em boca, surgiu mais um depoimento surpreendente, feito pelo casal Eurico e Oralina Freitas – caseiros de uma fazenda a 5 quilômetros de Varginha. Eles contaram que, na semana anterior, perceberam uma movimentação estranha entre os animais no pasto durante uma madrugada. Ao abrir a janela, viram um objeto cinza, "semelhante a um submarino" e do tamanho de um microônibus. "Ele flutuava a uns 5 metros do chão e se movia bem devagar", diz Eurico. O suposto OVNI, segundo ele, não fazia barulho, soltava fumaça branca e levou quase 40 minutos para percorrer menos de um quilômetro, até desaparecer por trás de uma elevação.

Para completar a série de relatos estranhos, meses depois, o paulista Carlos de Souza, piloto de ultraleve, procurou o ufólogo. Contou uma história que parecia uma paródia do famoso "Caso Roswell". Teria perseguido um OVNI avariado e, ao aproximar-se dos destroços, expulso do local por militares. Isso teria acontecido no dia 13 de janeiro daquele ano – uma semana antes do incidente em Varginha. De acordo com outro ufólogo, o engenheiro paulista Claudeir Covo, exatamente nesse dia, a Força Aérea dos Estados Unidos teria alertado aos colegas brasileiros sobre registros de radar anormais em território nacional. "Tenho um depoimento de um oficial que confirmou cerca de 40 objetos não identificados registrados pelos radares brasileiros no mês de janeiro de 1996", diz Covo.


Reconstituição

O mais conhecido caso da ufologia mundial é o de Roswell. Em 14 de junho de 1947, o fazendeiro William Brazel encontrou estranhos destroços metálicos nas imediações da cidade de Roswell, Novo México (EUA). Naqueles dias, o piloto amador Kenneth Arnold havia dito à imprensa ter visto vários objetos que descreveu como "discos voadores". Ao se lembrar disso, o fazendeiro logo associou as coisas e contatou os militares, dizendo ter achado um daqueles "discos". A Força Aérea, antes mesmo de verificar os destroços, soltou um comunicado confirmando a versão. - Mas depois voltou atrás, dizendo se tratar apenas de um balão meteorológico, e fechou-se em um silêncio considerado "misterioso", atiçando a imaginação de todos. Só nos anos 80 uma justificativa do silêncio foi divulgada; e não tinha nada a ver com OVNIs: os destroços seriam de um balão espião, do chamado "Projeto Mogul", que pretendia registrar possíveis testes nucleares soviéticos por meio do som que eles causariam na alta atmosfera. Até hoje, porém, há quem duvide dessa versão oficial.

Os depoimentos referentes ao caso Varginha podem ser fruto da imaginação ou má-fé das testemunhas, mas a série de acontecimentos estranhos reunida por Rodrigues nas semanas que antecederam e sucederam o fato é irrefutável. Os militares da Escola de Sargentos das Armas, por exemplo, negaram durante meses que tivessem andado por Varginha. Mas, em 1997, voltaram atrás e deram uma versão bizarra dos fatos, durante entrevista a uma emissora de TV americana. Um major da escola admitiu o envio de caminhões à cidade naquele dia, mas disse que o motivo era "uma visita de rotina a uma oficina mecânica". No caminho, os soldados teriam parado para socorrer um casal de anões, sendo que a mulher estava grávida. Para o militar, as testemunhas teriam confundido a anã prestes a dar à luz com um extraterrestre(!?).

Outro acontecimento (muito) esquisito foi a morte do policial Marco Eli Chereze, menos de um mês depois da suposta captura dos ETs. Os ufólogos afirmam ter depoimentos que comprovam a participação de Chereze nas operações realizadas no Jardim Andere. Ele teria carregado nos braços a criatura encontrada no matagal. Alguns dias depois, submeteu-se a uma pequena cirurgia para retirar um abscesso próximo à axila. E morreu três semanas após, devido a uma infecção generalizada. A mulher do policial, Valéria Chereze, conta que o laudo oficial da morte lhe foi negado durante meses. Quando veio, faltavam páginas. "Marco tinha uma saúde perfeita, não pegava nem resfriado", afirmou ela à revista Galileu. E o mais intrigante: "Pouco antes de morrer, ele ficava nervoso e mudava de assunto sempre que alguém comentava o caso do ET", revela Valéria. "Hoje, os colegas dele evitam falar comigo".


"Melhor não falar disso"

Para completar a série de fatos inusitados, Luiza Helena da Silva, mãe das duas irmãs que teriam visto o ET no Jardim Andere, foi procurada por quatro homens semanas depois do incidente. Eles teriam lhe pedido para evitar que as filhas falassem do assunto. "É verdade, mas não é bom ficar falando disso", contou Luiza a Galileu. Aos prantos, ela disse que as filhas nunca gostaram de comentar o assunto e hoje se recusam a dar entrevistas e ser fotografadas. A notoriedade só lhes trouxe dores de cabeça. "Somos pobres, nunca ganhamos nada com essa história, só sofrimento". As garotas viraram motivo de piada na cidade, acusadas de serem oportunistas. "Até emprego recusaram a elas por causa dessa história", conta Luiza.

Para os ufólogos, esse é mais um indício de que não houve má-fé no caso Varginha. De fato, ninguém parece ter saído com um tostão a mais no bolso por causa do ET. Nem a cidade, que se revela uma retumbante decepção para quem espera encontrar bares temáticos, parques ou excursões – como acontece em Roswell, nos Estados Unidos. "O maior problema aqui é a descrença do próprio povo de Varginha", afirma o secretário de Turismo e Comércio, Sebastião Mendonça.

A afirmação sobre a descrença faz sentido. Muita gente em Varginha chega a se envergonhar da história. "O que essas meninas viram foi um surdo-mudo que anda pelado por aí", diz com ar de chacota o pintor Dênis Ferreira, de 23 anos, funcionário da oficina mecânica vizinha ao terreno onde o ET teria sido avistado.


Pseudociência

Tão descrentes quantos os moradores de Varginha são os cientistas, que, em sua maioria, não distinguem "ufólogos" de "ufólatras". "Na minha opinião, as garotas tiveram uma visão do diabo, como ocorre freqüentemente no interior", diz o engenheiro e ativista cético Marcelo Kunimoto, criador do site Ceticismo Aberto. "Os ufólogos transformaram essa ilusão católica em um evento relacionado a extraterrestres. Precisaram até falar de um segundo ET para harmonizar depoimentos conflitantes".

Como em todos os casos de OVNIs até hoje, não existe uma única prova física nas mãos dos ufólogos, seja ela um pedaço de nave espacial, corpo de ET ou filmagem comprovadamente honesta de Varginha. "A pseudociência sempre se salva dos testes", afirma o astrônomo Carlos Aberto Torres, do LNA (Laboratório Nacional de Astrofísica), de Itajubá (MG). "Na ufologia, a ausência de observações independentes que confirmem os relatos é sempre 'resolvida' com teorias conspiratórias", critica, referindo-se à recorrente interpretação de que governos e forças armadas querem acobertar a existência de OVNIs e extraterrestres.

"Não sei de nenhum astrônomo 'ufólogo'. Pode ser até que exista. Mas quem conhece bem o assunto sabe as enormes dificuldades existentes para que 'alguém' venha visitar nosso planeta, ainda mais às escondidas", afirma Torres, que passa noites a fio vasculhando o céu com os telescópios do LNA – cujo observatório, por sinal, fica em Brazópolis, município da região de Varginha.

A sociedade pode ter muitas dúvidas se extraterrestres existem ou não. Já o cinema não tem nenhuma. Basta dizer que, entre os dez filmes de maior bilheteria de todos os tempos, seis são de ficção científica e três deles contam com visitantes de outros mundos no roteiro.



Baseado em matéria de Paulo D'Amaro e Flávia Pegorin, para a Revista Galileu.
Fonte:
Revista Galileu

Cristianismo: fontes documentais #4


A história do texto escrito

Agora entramos no núcleo do problema do Novo Testamento: a tentativa de explicar o surgimento das primeiras leituras divergentes e a influência que elas exerceram em toda a transmissão do texto...

Quando o Cristianismo estava sob intensa oposição judaica e romana, as cópias dos livros do Novo Testamento nem sempre podiam ser preparadas sob as melhores circunstâncias. A exceção é Lucas, que era médico e provavelmente conseguiu recursos financeiros com Teófilo, para quem o seu Evangelho e o Livro de Atos são dedicados. Este mostra um grande cuidado no preparo dos seus textos. - É bem possível que Teófilo tenha financiado as primeiras cópias e influenciado a audiência seleta e mais numerosa dos livros. Todavia parece que nenhum outro escritor apostólico pôde dispor de tantos recursos em seus trabalhos literários. Paulo também era erudito, mas, além de parecer sofrer de deficiência visual, algumas epístolas ainda tiveram de ser escritas enquanto era prisioneiro, o que em certo sentido também aconteceu com João em relação ao Apocalipse. É óbvio, nessas circunstâncias, tanto Paulo quanto João, além de Pedro, utilizavam-se de assistentes. Contudo é bem pouco provável que fossem redatores profissionais.

Provavelmente as primeiras cópias passaram pelo mesmo problema, já que as cartas apostólicas eram enviadas a uma congregação ou a um individuo, e os Evangelhos foram escritos para serem entendidos por um público leitor em particular; - os autógrafos estavam separados e espalhados entre as várias comunidades cristãs e, ao serem copiados, não tiveram a oportunidade de receber um tratamento profissional. Por causa da situação financeira e da necessidade de reproduzir os textos, que tinham pouca durabilidade, além da rápida expansão do Cristianismo, as comunidades utilizavam copistas amadores e pessoas bem intencionadas. Paulo cita em sua Epistola aos Colossenses (4:16) uma carta à igreja de Laodicéia, da qual não temos nenhuma cópia. O texto parece indicar que havia troca de correspondências entre as várias igrejas ainda no período apostólico, mediante a elaboração e o envio de cópias.

Assim, os originais começaram a ser reproduzidos dentro do chamado período apostólico, e as primeiras pequenas variantes começaram por causa da falta de um revisor.

É claro que uma outra fonte de variantes era o próprio descuido na exatidão literal. Os cristãos não tinham a mesma preocupação que os judeus ao citarem o Antigo Testamento, estavam mais interessados no sentido do que no texto propriamente dito. Por isso, os Pais da Igreja citam muitas vezes o texto de maneira inexata, valendo-se de alusões e da memória. Que são, na realidade, variantes intencionais, a maior parte das variantes do texto sagrado dos cristãos. São correções com base na preferência pessoal, na tradição ou em algum relato paralelo.

Isso não quer dizer que os cristãos não considerassem o Novo Testamento como “Escritura Sagrada”. - Vemos que tanto o Novo quanto o Antigo Testamento são colocados no mesmo patamar de importância. - O apóstolo e primeiro grande líder da Igreja, Pedro, classifica alguns textos do apóstolo Paulo como “Escritura”. Possivelmente a primeira coleção de textos paulinos foi feita na Ásia Menor, no período apostólico. Na Epistola de Barnabé, no Didaquê e na carta escrita à Igreja de Corinto por Clemente (todas as três obras pós-apostólicas de regiões distintas, que eram antigos centros do Cristianismo) encontramos citações aos Evangelhos sinóticos, além de ao livro de Atos, e algumas Epístolas. Paulo escreve a Timóteo (5. 18) e cita o Evangelho de Lucas (10.7) e o livro do Deuteronômio (25.4), conferindo a mesma autoridade de Escritura a ambos.

O mais provável é que a maioria destas pequenas alterações tenha surgido como tentativas dos escribas em melhorar o texto, fazendo correções ortográficas, gramaticais, estilísticas e até mesmo exegéticas. Num período em que pipocavam muitas heresias por todo lado, certas palavras poderiam gerar má interpretação. Exatamente como ocorre hoje, seguidores de várias seitas buscavam enxergar na Bílbia afirmações que nunca estiveram ali, separando trechos do texto de seu contexto original. Assim, os copistas, salvaguardando a essência original do texto, faziam alterações de certas palavras ou expressões, mas nunca objetivando mudar o sentido. São Jerônimo, porém, chega a reclamar que as mudanças que os copistas realizavam, acabavam gerando mais erros.

Textos locais

Com a expansão do Cristianismo, várias cópias foram levadas a diversas regiões, cada uma com as suas próprias variantes, e ao passarem pelo processo de cópia mantinham as variantes e ainda se adicionavam outras. Desse modo, os manuscritos que circulavam numa localidade tendiam a assemelhar-se mais entre si que os de outras localidades. - Mesmo na mesma região era praticamente impossível que houvesse dois textos exatamente iguais. Todavia, certos grupos de manuscritos poderiam assemelhar-se uns aos outros mais intimamente que a outros grupos do mesmo texto local. Alguns textos poderiam se tornar mistos, quando os manuscritos podiam ser comparados a outras cópias de outros lugares, e corrigidos por elas. A tendência era de não misturar os textos.

Texto Alexandrino

A Alexandria superou Atenas, no período helenístico, tornando-se o centro mais importante de cultura do Mediterrâneo. Quem nunca ouviu falar na Biblioteca de Alexandria, com seus 700.000 volumes? Foi lá que os textos de Homero passaram pela primeira tentativa de edição crítica. Zenódoto de Éfeseo, primeiro diretor da biblioteca, comparou diversos manuscritos da Ilíada e da Odisséia, em 274 aC, tentando restaurar o texto original. Sem dúvida esse cuidado pode ter acabado por influenciar os cristãos da região, fazendo com que eles procurassem a excelência em seus textos. Faltavam, na região, as reminiscências pessoais e a tradição oral, o que teria aumentado a exigência quanto a exatidão do texto.

De qualquer forma, o texto alexandrino é considerado o melhor texto, com pouquíssimas modificações gramaticais ou estilísticas, cerca de 2% ou 3% apenas.

Texto ocidental

Nas regiões dominadas por Roma, desenvolveu-se outro tipo de texto, o chamado texto ocidental, bem diferente nos Evangelhos e principalmente em Atos, onde é quase 10% mais longo que a forma original, o que já faz supor a existência de duas edições desse livro.

A principal característica é o uso da paráfrase. Observa-se que palavras, frases e até pequenos trechos inteiros foram modificados. O motivo disso parece ter sido a harmonização, principalmente no caso dos Evangelhos sinóticos, ou mesmo o enriquecimento da narrativa com a inclusão de alguma tradição. Isso envolve, no entanto, apenas algumas poucas declarações e incidentes da vida de Jesus e dos apóstolos.

Textos de Cesaréia

Provavelmente tem origem no Egito, assim como o texto alexandrino, de onde teria sido levado para Cesaréia por Orígenes.

Texto Bizantino

Possivelmente, resultado da revisão de antigos textos locais feita por Luciano de Antioquia, pouco antes de seu martírio no ano de 312.


Unificação textual

Com a conversão de Constantino, em 312, entramos numa nova fase na história do Novo Testamento, principalmente com o Édito de Milão no ano seguinte, colocando o Cristianismo no mesmo patamar que qualquer outra religião do Império Romano (e não como a única religião do Império, como popularmente se acredita), ordenando que as propriedades confiscadas da Igreja fossem devolvidas. Com isso, houve um aumento considerável na circulação de textos sagrados, que não mais corriam o risco de apreensão e destruição em praça pública.

Percebemos que a partir daí uma maior integração dos cristãos possibilitou a comparação de manuscritos e a obtenção de um tipo de texto que não tivesse tantas variantes. E os textos locais foram pouco a pouco cedendo lugar a um único texto.

Possivelmente, o primeiro tipo de texto a circular em Constantinopla talvez não tenha sido o bizantino. Eusébio, em 331, foi encarregado por Constantino de preparar 50 cópias das Escrituras em pergaminho para as igrejas da nova capital. Eusébio usava o texto cesarense, portanto, é provável que tenha sido esse o tipo de texto primeiramente usado ali. É provável que essas cópias tenham sido submetidas a correções com base no texto luciânico, até serem finalmente substituídas por novas cópias essencialmente bizantinas, produzidas em algum escritório ou mosteiro local. Este tornou-se um procedimento comum.

A Vulgata Latina, de Jerônimo, acabou predominando na Europa Ocidental. Não significa, porém, que o texto de Luciano fosse desconhecido. Muitos manuscritos greco-latinos trazem o texto bizantino, ainda que combinado com variantes da Antiga Latina. Até a Vulgata acabou incorporando algumas formas bizantinas. No século XVI, com a invenção da Imprensa, os editores preocuparam-se com a publicação do Novo Testamento grego.



Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Tradução de Belchior Cornélio da Silva. Petrópolis : Vozes, 1973;
McDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredicto. Volume 2. São Paulo : Candeia, 1992;
Novo Testamento: nova versão internacional. São Paulo : Sociedade Bíblica Internacional, 2000;
Novum testamentum graece et latine. Aparatu critico instuctum edidit Augustinus Merk. Editio octava. Roma : Sumptibus Pontificii Instituti Biblici, 1957.




( Comentar no Livro de Mensagens

Cristianismo: fontes documentais #3

As fontes documentais primárias do Cristianismo dividem-se em: 1) Manuscritos Gregos, 2) Antigas Versões e 3) Citações Patrísticas, feitas por autores cristãos antigos.

"Patristic Testimony" - arte medieval

Manuscritos gregos

São aproximadamente 5500, classificados de acordo com o material e o estilo da escrita: papiros, unciais e minúsculos.

Papiros

São conhecidos 96 papiros, escritos em uncial até o século IV. A maioria são fragmentos de códices. São os manuscritos mais antigos conhecidos do Novo Testamento.

Unciais

São os manuscritos feitos em pergaminho quando o papiro caiu em desuso, no século IV, e utilizados até o século XI, ou seja, durante sete séculos. A escrita manteve o mesmo padrão dos papiros, tornando-se apenas um pouco maior.

Minúsculos

São manuscritos que carecem de valor crítico; são importantes apenas como testemunhas da história medieval do texto do Novo Testamento. Foram documentos preparados em escrita minúscula, entre os séculos IX e XVI, quando começaram a surgir textos gregos impressos.

Lecionários

Os cristãos herdaram uma prática comum entre os judeus: ler textos bíblicos nas reuniões de culto em unidades adequadas ao calendário anual ou à ordem eclesiástica. Nesta prática eles usavam (e ainda usam) os chamados lecionários. Alguns apresentavam lições completas para cada dia da semana, outros só para sábados, domingos e/ou dias santificados. Provavelmente os lecionários surgiram no fim do século III ou início do século IV.

Óstracos

Na Antiguidade, ainda podemos encontrar um outro tipo de material, o óstraco: fragmentos de jarro quebrado ou louça contendo frases curtas, escritas com objetos pontiagudos. Representam a literatura de uma classe que não podia comprar o papiro ou que não considerava tal escrita importante o suficiente para justificar a sua compra.

Talismãs

São fontes preparadas como talismãs ou amuletos, em madeira, cerâmica, papiro ou pergaminho. Contêm partes do Texto Sagrado. - Mas este parecia não ser um costume comum, pois são conhecidos apenas nove talismãs do Novo Testamento.


Antigas versões

A segunda fonte mais importante para chegarmos à verdade última dos autores do Novo Testamento são as antigas versões. Surgidas em decorrência do crescimento do Cristianismo, que se espalhava pelo mundo grego, as versões surgem para aqueles que não dominavam a língua grega. Os manuscritos mais antigos não ultrapassem o início do século IV ou, quando muito, o final do III. O texto que evidenciam representa um estágio de desenvolvimento provavelmente anterior ao final do século II, daí o grande valor dessas versões para a crítica textual, - elas proporcionam incicações importantes a respeito do texto grego de que foram traduzidas.

Siríaca

Provavelmente, as primeiras traduções do Novo Testamento foram feitas em siríaco, língua falada na Mesopotâmia, na Síria e em partes da Palestina, com algumas diferenças dialetais, por volta do ano 150. A tradução surgiu da necessidade de leitura de pessoas que tinham dificuldade com o grego.

Latina

São conhecidas duas versões: a Antiga Latina, traduções feitas até o século IV, e a Vulgata Latina, feita por São Jerônimo no final do século IV e início do V. Presume-se que as traduções latinas começaram no norte da África, em Cartago, que era um dos centros da cultura romana, provavelmente no final do século II. Outras traduções começaram a surgir em países europeus em que o grego estava em declínio, sendo superado pelo latim. Portanto, a Antiga Latina está dividida em duas famílias ou grupos de traduções: a africana, mais antiga e mais livre em relação à original, e a européia. Ambas se consistem em uma nova tradução. Alguns têm pensado numa terceira família, a italiana, provavelmente surgida no século IV para amenizar as diferenças entre as outras duas traduções. Todavia, a maioria dos críticos não aceita essa tríplice divisão, eles argumentam que a "terceira família" representa apenas uma forma da Vulgata.

Com tantas traduções é inevitável um maior número de divergências textuais. Agostinho já falava nas dúvidas que as inúmeras traduções provocavam. Jerônimo foi designado pelo Papa Damaso, em 383, a rever toda a Bíblia Latina. No ano seguinte, a revisão dos Evangelhos ficou pronta, onde as variações eram maiores. Jerônimo procurou eliminar as adições e harmonizações presentes nas versões latinas e fez alterações em 3.500 lugares. Em 405, toda a Bíblia ficou pronta e só muito lentamente foi conquistando prioridade, até que nos séculos VIII e IX impôs-se de modo quase universal, embora a Antiga Latina continuasse sendo copiada e usada até por volta do século XIII. O título honorífico de “Vulgata” ('comum' ou 'de uso público') foi dado pela primeira vez no final da Idade Média. Ela acabou se oficializando como a Bíblia cristã oficial no Concílio de Trento, em 1546.

Copta

O copta significa o último estágio da língua egípcia antiga. No início do Cristianismo ela consistia em meia dúzia de dialetos e era escrita em unciais gregos com outras letras. O Cristianismo entra com facilidade nessa região graças às colônias judaicas ali existentes, principalmente em Alexandria. Portanto, foi ali, longe da influência do grego, que se fez necessária a primeira tradução copta do Novo Testamento, no início do século III.

Outras versões

Há um número grande de outras versões antigas, como a Gótica, a Armênia, a Etíope, a Geórgica, a Nubiana, a Arábica e a Eslava, mas de menor importância para a crítica textual, por não haverem sido traduzidas diretamente do texto grego. A Armênia, conhecida como “a rainha das versões”, por sua beleza e exatidão, é que preserva o maior número delas: cerca de 1300!


Citações patrísticas

As citações patrísticas ou dos "Pais da Igreja" (antigos escritores cristãos) representam o terceiro grupo de fontes documentais para o estudo crítico do Novo Testamento: citações encontradas nos comentários, sermões, cartas e outros trabalhos dos antigos cristãos, especialmente os situados até os séculos IV ou V. É importante perceber que são tantas as citações que poderíamos reconstituir quase todo o Novo Testamento através delas, mesmo sem os manuscritos gregos e versões. Somente com Orígenes, por exemplo, isso quase já seria possível.

O problema das citações é que a maioria delas foi feita de memória; são inexatas, portanto. Contudo, são importantes por evidenciarem o texto antigo, do qual pouco testemunho de manuscrito existe, e também por demonstrar as primeiras tendências que influenciaram o desenvolvimento histórico do texto neotestamentário. Em quase todos os casos podem ser datadas e localizadas geograficamente, permitindo também que se verifique a data e a procedência geográfica dos manuscritos. As citações dos Pais da Igreja representam um auxílio valioso para a reconstituição da história primitiva do texto do Novo Testamento e, por conseguinte, de sua mais antiga forma textual acessível.



Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Tradução de Belchior Cornélio da Silva. Petrópolis : Vozes, 1973;
McDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredicto. Volume 2. São Paulo : Candeia, 1992;
Novo Testamento: nova versão internacional. São Paulo : Sociedade Bíblica Internacional, 2000;
Novum testamentum graece et latine. Aparatu critico instuctum edidit Augustinus Merk. Editio octava. Roma : Sumptibus Pontificii Instituti Biblici, 1957
.

Cristianismo: fontes documentais #2

Conforme vimos no post anterior, até o século XV os textos do Novo Testamento da Bíblia eram transmitidos a partir de cópias manuais, usando-se material rústico. O próximo passo em nosso estudo é conhecer esses tipos de materiais, as tintas usadas, a maneira como eram organizados e preservados os escritos e que forma tinham esses escritos. - Esta é uma matéria de importância fundamental para todos aqueles que se interessem por ciências da religião...


Materiais

Uma parte do papiro "Rhind" (1.650 aC, aproximadamente),
com problemas matemáticos (Museu Britânico, Londres).

Papiro - O papiro foi utilizado nas primeiras cópias do Novo Testamento, já que era o principal material de escrita da Antigüidade. Trata-se de um tipo de junco, com caule triangular, com a grossura de um braço, altura que variava entre 2 e 4 metros, que crescia nas margens do Lago Huleh (Fenícia), no vale do Jordão e junto ao Nilo (onde foram encontrados os mais antigos fragmentos de papiro conhecidos, que constam de 2.850 aC!). A folha era feita com a medula do caule, cortada em tiras estreitas e postas em duas camadas transversais sobre uma superfície plana. Depois eram batidas com um objeto de madeira e se colocadas para secar ao sol e alisadas, assim estavam prontas para receber a escrita. O tamanho médio de uma folha era de 18 x 25cm, mas essa medida podia variar de acordo com a finalidade. Várias podiam ser coladas pela borda para formar um rolo, que geralmente não tinha mais do que 10 metros de comprimento. O texto normalmente aparecia em colunas de 7 cm de altura, com intervalo de 1,5 cm ou 2 cm, com um pequeno espaço para correções e anotações. As margens superiores e inferiores eram maiores. A margem do começo do rolo era ainda maior. Nos rolos utilizados com maior freqüência, usava-se um bastão roliço, cujas pontas sobressaiam acima e abaixo.

Como regra só se escrevia sobre um lado, exceto em caso de escassez, quando se utilizava também o verso. A tinta era feita com fuligem, goma e água, e a escrita era feita com uma cana de 15 a 40 cm de comprimento, de uma planta vinda também do Egito.

O papiro foi utilizado como material para escrita até a conquista do Egito pelos árabes, em 641, quando ficou impossível importar o material.


Pergaminho - Outro material utilizado era o pergaminho, mais durável que o papiro, feito de pele de carneiro ou ovelha, submetida a um banho de cal e em seguida raspada e polida com pedra-pomes. Depois era lavada, novamente raspada e colocada para secar em molduras de madeira, a fim de evitar pregas ou rugas. No final do processo recebiam uma ou mais demãos de alvaidade. A origem do nome vem da cidade de Pérgamo, onde processo foi desenvolvido por volta do século II aC.

É interessante perceber que o seu uso já era conhecido desde o século XVIII a.C., só que bem menos utilizado do que o papiro, por causa do custo elevado. O pergaminho só conseguiu superar o papiro no século IV dC. - No final da Idade Média foi substituído pelo papel, inventado na China no começo do século I e introduzido na Europa no século XII, por comerciantes árabes.

Em princípio escrevia-se sobre os pergaminhos com penas de bronze ou cobre, mas as penas naturais de ganso acabaram substituindo as peças metálicas. A tinta era feita a partir de substâncias vegetais ou minerais. As linhas eram marcadas por um estilete, podendo ser horizontais ou verticais.

Há um tipo de pergaminho conhecido como “palimpsesto”, aquele cuja obra havia sido raspada para receber um texto novo, já que o material era caríssimo. Mas o uso de pergaminhos bíblicos para outros propósitos foi condenado no ano de 692, pelo Concílio de Trullo.

Códice - Adotou-se o preguear dos manuscritos nas suas bordas e juntar uma série, formando uma espécie de caderno. Em obras maiores, faziam-se esses cadernos com um número menor de folhas, mas dobradas, como nos livros modernos. Os cadernos variavam de oito, dez ou doze folhas, todavia já foram encontrados até com cem. Surgiram os chamados códices.

Os estudiosos têm afirmado que os códices surgiram primeiramente em Roma, no início do Cristianismo. Os cristãos, por questões de praticidade, foram os responsáveis pela popularização deste sistema: porque permitia que os textos bíblicos estivessem num único livro, propiciando maior rapidez na localização de passagens; porque eram mais baratos (escritos dos dois lados da folha).

Em segundo lugar, os gentios convertidos ao cristianismo parece que optaram pelo códice para diferenciar a sua Bíblia dos livros usados pelos judeus e pelos pagãos.

Eusébio, Bispo de Cesaréia na Palestina (314/339)


Escrita

A escrita mais comum nos manuscritos mais antigos do Novo Testamento era a uncial ou maiúscula. No texto sagrado ela era caracterizada por ser mais arredondada do que nos documentos literários, sem espaço entre palavras, sem pontuação e com abreviações bem definidas. - A outra forma de escrita era com letras menores ligadas, chamadas de cursivas, usada principalmente em cartas familiares, recibos, testamentos etc. Normalmente os termos ‘cursivo’ e ‘minúsculo’ são empregados sem distinção.

No século IX ocorreu uma reforma na escrita. Letras pequenas, chamadas de minúsculas, passaram a ser utilizadas na produção de livros. Mais fluidas e rápidas, demandavam menos tempo e reduziam o preço dos manuscritos, apesar da difícil leitura. A mudança foi gradual. - A partir do século XI, somente as minúsculas passaram a ser utilizadas. Muitos manuscritos, no período intermediário, foram produzidos numa forma de combinação de uncial com minúscula.

Abreviações - O uso de abreviações já aparece nas cópias mais antigas do Novo Testamento, provavelmente com objetivo de poupar espaço. Elas eram do tipo contração, suspensão, ligaturas ou símbolos. É importante salientar que as contrações, diferentemente das outras abreviações, são utilizadas como forma de reverência ao Nome de Deus, principalmente no texto hebraico. É notório que essa prática é limitada ao texto bíblico e outras fontes cristãs, mas quando essas palavras estão sendo utilizadas em outro sentido, elas não são contraídas.

Formato - Os manuscritos eram variados em relação ao formato ou tamanho. Os menores eram de uso privado, os maiores utilizados na liturgia, costume que permanece até hoje. O menor conhecido é um do Apocalipse, do século IV, de apenas uma página, que mede 7,7 x 9,3 cm. O maior é chamado “Códice Gigante”, é do século XIII, com 49 x 89,5 cm.

O texto não seguia nenhuma forma muito rígida na página. Os papiros possuíam dezenas de colunas, os códices eram limitados ao tamanho das páginas.

Orientações para o leitor - Mesmo nos manuscritos mais antigos, encontramos freqüentemente o uso de informações auxiliares para o leitor. Exceto o Apocalipse, todos os textos do Novo Testamento trazem notas introdutórias, tratando do autor, do conteúdo e da origem do texto. Os prólogos foram preparados durante períodos de controvérsias na Igreja.

Capítulos - Eusébio preparou uma divisão em seções, para fins sinópticos, mas na maioria dos manuscritos encontramos outro tipo de divisão, ordenando os textos em relação ao conteúdo. Cada seção é identificada como um capítulo, levando uma inscrição. A divisão em capítulos, utilizada nas edições modernas, foi criada bem no início do século XIII, pelo arcebispo de Cantuária, Estevão Langton. Já a divisão em versículos surgiu com o editor parisiense Roberto Estáfano: o Novo Testamento em 1551 e o Antigo em 1555.



Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Tradução de Belchior Cornélio da Silva. Petrópolis : Vozes, 1973;
PAROSCHI, Wilson, "Crítica Textual do Novo Testamento". São Paulo : Vida Nova, 1993.



Cristianismo: fontes documentais


Retomando agora a nossa série de postagens sobre a história do Cristianismo...

Para falar de Cristianismo também é preciso começar do começo, e já conhecemos aqui e aqui um rápido esboço a respeito de como eram o lugar e a época em que Jesus veio ao mundo. O próximo passo é uma análise das principais fontes que temos a respeito de sua vida e obra. Não haveria como começar de outra maneira que não pelos Evangelhos e as cartas do Novo Testamento...

"Se um autor, vindo de uma província distante perdida no meio de um continente desconhecido chegasse a um editor com um manuscrito redigido em uma língua misteriosa e anunciasse que sua obra seria traduzida em 1435 línguas e dialetos; que seria lida durante dois milênios por centenas de milhões de leitores de todos os continentes, entre todas as nações da Terra; que ela inspiraria a fundação de três religiões universais, de milhares de confissões e seitas; que provocaria revoluções e guerras, e ao mesmo tempo suscitaria, com semelhante intensidade, entregas místicas e heroísmos nunca antes vistos; que, dois ou três milênios após ter sido escrita, ela continuaria a ser vendida em todo o mercado editorial do mundo com edições de milhões de exemplares por ano; e que, enfim, uma enorme parte da humanidade veria nela um último recurso e sua única esperança de salvação, é preciso dizer como ele seria recebido?

É, no entanto, esta impossível aposta que a Bíblia realiza no campo do pensamento e de sua transmissão que, de fato, superou todos os limites de espaço e venceu o tempo todo. Este livro de Israel escrito em hebraico e em aramaico e, em grego - Novo Testamento, não surpreende apenas pela universidade e pela longevidade de sua carreira: o que faz mais ainda, talvez, ao falar ao homem de todas as idades, em todas as línguas, em todos os seus níveis de consciência e de cultura.

Se um milagre é o que torna real o impossível, estamos diante de um "milagre" no campo da comunicação universal. Ora, em plena era atômica é possível ler sob uma nova luz este documento único, escrito nas idades do bronze e do ferro."


André Chouraqui


Estamos falando do livro que é considerado sagrado para judeus, cristãos, muçulmanos e para uma infinidade de seitas ao redor do nosso planeta. Para os cristãos, o centro absoluto deste livro sagrado é um homem, que para muitos foi bem mais do que uma homem. – Entre seus títulos bíblicos, citarei alguns:

O Messias, o Cristo, Filho de Deus, Filho do Homem, Príncipe da Paz, Filho de Davi, Leão de Judá, Cordeiro de Deus, Bom Pastor, o Alfa e o Ômega, Princípio e Fim, o Vivo, o Braço do Senhor, Autor e Consumador da Fé, Autor da Salvação, o Filho Amado, Consolador de Israel, Pedra Angular, o Conselheiro, Sol Nascente, o Libertador, A Porta, o Eleito de Deus, o Primogênito, Glória do Senhor, o Guia, o Sumo-Sacerdote, o Herdeiro, o Santo Servo, o Santo de Deus, Salvação dos Homens, o Eu Sou, Imagem de Deus, Emanuel, o Justo, o Rei dos Séculos, o Rei dos Reis, Cordeiro de Deus, Caminho, Verdade, Vida, Luz do Mundo, o Mensageiro da Aliança, o Messias, a Estrela da Manhã, o Príncipe da Vida, o Profeta, a Ressurreição e a Vida, a Rocha, Palavra de Deus, Salvador, Filho do Altíssimo, Filho da Justiça, Verdadeira Luz, a Videira Verdadeira, o Verbo, o Pão da Vida...


Filologia: a história manuscrita do Novo Testamento

Copista medieval

Num período de quase 1500 anos o Novo Testamento foi copiado à mão em papiro e pergaminho. Temos notícia de uns 5500 manuscritos espalhados em museus e bibliotecas pelo mundo afora. Os documentos vão desde fragmentos de papiro até Bíblias inteiras em grego, produzidas a partir da invenção da imprensa. Na idade média os livros eram escritos pelos copistas, à mão. Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido. O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um 'm' ou um 'n') que nasalizava a vogal anterior. Um til é um enezinho sobre a letra, pode olhar.

É notório que nem todos os manuscritos concordam. Pequenas variações requerem uma avaliação cuidadosa para determinar o que o autor realmente escreveu. Não existindo mais nenhum manuscrito original, vamos depender tão somente de cópias dos textos-fontes de autores apostólicos. Por isso precisamos da crítica textual.

A quase totalidade dos pesquisadores acredita que a Bíblia é plena e verbalmente inspirada no seu original, já que, para os copistas, deturpar o sentido original da mensagem que eles consideravam sagrada seria um pecado mortal. A intenção do filólogos é a de procurar dar a maior segurança possível ao leitor quanto à fidedignidade da fonte grega de todas versões que temos hoje.

O apóstolo Paulo diz em sua carta aos gálatas: “Vede com que letras grande vos escrevi de meu próprio punho” (6.11). Imaginemos como seria impressionante poder ver a epístola no original, ou ver como o apóstolo assinava seus textos. Infelizmente, porém, os originais desaparecem e o confronto da cópia de um manuscrito com o original, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para escolha do texto exato é impossível.

É importante percebermos que uma das razões para o fim prematuro dos autógrafos (originais) do Novo Testamento foi a pouca durabilidade do papiro, que não durava muito mais que o nosso papel atual. É bem possível que os cristãos primitivos tenham lido e relido os originais até que se desfizeram por completo. Mas antes que os textos desaparecessem, eles foram copiados.

Até a invenção da imprensa, muitos erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade dos copistas. E obviamente, à medida que aumentavam as cópias, mais cresciam as divergências entre elas. Afinal, cada copista acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo anterior. O objetivo da Crítica Textual tem sido o de avaliar as fontes e reconstruir o texto com a maior probabilidade possível de ser idêntico ao original.

O texto sagrado já estava completo por volta do ano 100, sendo que a grande maioria dos livros que o compõem já exista há pelo menos 20 anos antes dessa data, alguns até 50 anos antes, e de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes são as do século IV. Isso faz com que o Novo Testamento seja a obra mais bem documentada de toda a Antigüidade.

Fragmento de um texto bíblico neo-testamentário de mais de 1.000 anos

Só para ilustrar a afirmação acima, podemos dizer que os clássicos gregos e latinos, cuja autenticidade poucas pessoas questionam, possuem um espaço muito maior entre os autógrafos e as cópias. Por exemplo, a cópia mais antiga que se conhece de Platão foi escrita 1.300 anos depois de sua morte! O único clássico que se aproxima do Novo Testamento é Virgílio, falecido no ano 8 aC, de quem encontramos um manuscrito completo de suas obras no século IV dC.

Nesse aspecto, a situação do Novo Testamento é bem diferente. Temos manuscritos do século IV, em pergaminho, e um número considerável de fragmentos em papiro de praticamente todos os livros que compõem o Novo Testamento, que nos levam até o século III, e alguns até o século II. - Há também uma outra prova documental que remontaria até a época da vida do próprio Jesus Cristo, que, embora polêmica, não deve ser descartada. - Você pode adquirir o documentário a respeito aqui.

Há um grande número de documentos disponíveis. Conforme dito no início, existem cerca de 5500 manuscritos gregos (língua do Novo Testamento) completos ou fragmentados, e aproximadamente 1300 manuscritos das versões e milhares de citações dos Pais da Igreja. Ou seja, o problema não está na falta de evidências textuais, mas no excesso. Este é, porém, um problema que resulta em vantagem, afinal temos uma multiplicação de manuscritos que oferecem ensejo para a correção dos pequenos erros e muito mais elementos de comparação. Isso faz com que o texto tenha muito mais apoio crítico do que qualquer outro livro do período histórico antigo.

O processo filológico envolve também um número assustador de variantes. Num processo natural de multiplicação de manuscritos, por um período de mais ou menos 1400 anos, foram surgindo inúmeras variações textuais. Variações que são de pouca importância doutrinária; por exemplo, variações na ordem de palavras, no uso de diferentes preposições e outras, o que na prática seria impossível de se representar na língua portuguesa.


>> Ler a continuação


Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
ALLEN, Clifton J. Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento 1-5. Vols. 8-12. Rio de Janeiro: JUERP, 1983-1985;
BALLARINI, Teodorico (dir). Introdução à Bíblia. Tradução Frei Simão Voigt. Petrópolis: Vozes, 1968;
Bíblia de Jerusalém, (A). Nova edição revista. São Paulo: Paulinas, 1986;
Bíblia online: a maior biblioteca da Bíblia em CD-ROM no Brasil: Barueri, Sociedade Bíblica do Brasil, 1998.