Pecado

Este post é uma resposta às dúvidas que o leitor "Renato X" deixou em nosso Livro de Mensagens.


Você disse que encontrou neste blog uma oportunidade perfeita para tirar as suas dúvidas, Renato, e talvez isso faça algum sentido...

Porque essas dúvidas que você está manifestando são iguaizinhas às dúvidas que eu também tinha e que fizeram com que eu me afastasse de tudo que sequer lembrasse a palavra "cristianismo", quando eu era mais jovem. E são as mesmas dúvidas que continuaram me perseguindo por muitos e muitos anos, praticamente a minha vida inteira, pois eu acabei percebendo que esses mesmos conceitos difíceis se encontravam em outras religiões também; muitas vezes com nomes diferentes.

Ninguém quer se sentir um pecador miserável, ninguém quer sentir culpa, olhar no espelho e ver um ser amaldiçoado, órfão da graça de Deus, condenado a perder a sua vida para sempre. - Ninguém quer pensar no mal, em condenação ou castigo...

Eu não entendia e não queria entender esse terrível conceito que nos apresenta Deus como um ser que por um lado é Todo Poderoso, mas por outro não pode simplesmente perdoar os seres humanos sem impor condições... E afinal, perdoar do quê, se nós somos o que somos porque fomos criados assim? Um Deus que está sempre nos condenando, nós, pobres mortais, criaturas fracas e patéticas, predestinadas ao sofrimento e à infelicidade porque não podemos ser perfeitos como Ele é perfeito. Mas se nós fomos criados imperfeitos, para começar... Então a culpa não é nossa, e algo estava errado, algo tinha que estar errado...

Eu sempre achei que isso não fazia sentido nenhum, e AINDA ACHO. Ou melhor, agora tenho certeza!

Pecado, pecado, pecado, porque falam tanto em pecado, porque tudo que me parece atrativo, tudo que me faz sentir bem ou me agrada tem que ser pecado????

Se eu sou fraco - sim eu sou fraco, mas eu fui feito assim, - esse sou eu, não há nada que eu possa fazer, então eu sou inocente... Por quê Deus exigiria de mim alguma coisa da qual Ele sabe que eu não sou capaz, pois Ele mesmo me criou desse jeito???


Um pecador em ação!


Cara, isso é de enlouquecer!.. E vou lhe contar, eu cheguei bem perto disso. Por pouco (mesmo) não fiquei maluquinho da silva tentando resolver essas coisas aqui dentro da minha pequena mente limitada... Logo eu, que sou todo lógico e racional... Oh, dor, oh tristeza, oh azar...

Mas olha, essa história teve um final feliz, e pode relaxar que eu não vou deixar pra contar o desfecho na última parte...

No fim eu entendi (FINALMENTE) que toda essa história sobre pecado é apenas a definição de um conceito cuja função é determinar o caminho certo a se seguir. - É uma maneira de nos fazer entender o que é certo e o que é errado, o que é bom para nós (e para todos) e o que não é.

É por isso que eu tenho insistido aqui em dizer que existe o bem, sim, mas existe também o mal neste nosso mundo (nossa realidade objetiva). E é exatamente por isso que existe o conceito do pecado: para nos fazer entender que a verdadeira liberdade consiste em nos definirmos nesta vida e escolher o Caminho do Bem, que é o Caminho da Vida verdadeira! É assim que podemos ser livres de verdade.

Liberdade não é se permitir tudo, porque todas as coisas me são permitidas, mas nem tudo me convém (I aos Coríntios, 10:23). Verdadeira liberdade é poder escolher o que se quiser, e principalmente poder continuar escolhendo sempre; ou seja, permanecer livre. - Mas algumas escolhas neste mundo podem nos tornar escravos. Algumas de nossas posses às vezes começam a nos possuir, e alguns prazeres a que nos entregamos começam a nos tornar cativos, restringir a nossa capacidade de pensar e raciocinar... Isso é que é o pecado: tudo aquilo que nos escraviza.

Vou dar um exemplo bem direto: eu sempre fui um cara muito visceral, muito intenso em tudo que eu faço, em tudo que acredito, em todas as escolhas que eu faço. Quando eu gosto de alguma coisa, mergulho de cabeça naquilo, de corpo e alma...

Então, bom, apesar de aqui no blog eu ter me reservado a contar somente as partes da minha vida relacionadas com as questões espirituais, eu também tive minhas fases de andar no "vale da sombra da morte", se é que me entende... Quando eu descobri os prazeres deste mundo, o sexo, as drogas e o rock'n roll (estou falando dessas coisas literalmente, não é só força de expressão)... Eu mergulhei de cabeça nessa vida de prazeres, e aquilo parecia muito bom... Eu queria apenas me divertir, só queria saber de prazer e curtição. E foi bom por um tempo. E, bem, até hoje é! Quer dizer, eu continuo curtindo o sexo (com a minha esposa, porque sair procurando sexo por aí é complicado - você pode contrair doenças, pode se machucar, sofrer e fazer sofrer outras pessoas, você pode arranjar muita confusão...) e o rock'n roll. Quanto às drogas, como dizem por aí, eu "tô fora", já descobri por mim mesmo aonde é que esse caminho leva. Mas eu tomo as minhas cervejinhas de vez em quando... E isso também é droga, eu sei. Só que isso me faz bem, se dosado e com muito controle, me ajuda a relaxar quando estou tenso, faz parte da minha sociabilização com outras pessoas ... Não há nada de errado nisso. - Não que seja algo de que eu dependa para ser feliz, para me afirmar ou me sociabilizar, porque se um dia chegar a isso, é sinal que, aí sim, está na hora de parar mesmo.

Porém, eu entrei no assunto para dizer que eu não quero nem saber se algum pastor maluco ou qualquer outra pessoa me disser que beber cerveja é pecado. - Têm gente neste nosso mundo querendo ser mais "cristã" do que o próprio Cristo! - Porque o próprio Jesus bebia vinho, ia em festas e comia com os pecadores (eu quase posso vê-lo rindo alto, à maneira semita), e o primeiro milagre dele foi converter água em vinho, para que as pessoas bebessem e se divertissem, dançassem e comemorassem! Então não me venham dizer que um "crente" não pode beber bebida alcoólica, que rir e se divertir é pecado; não venham me pedir para que eu seja um chato, nem me digam que uma pessoa espiritualizada deve ser sisuda e triste.

Mas o sentido mais profundo de tudo isso é que, apesar de gostar de me divertir e curtir a vida, eu preciso manter sempre a noção dos meus limites e o controle sobre mim mesmo. Se eu gosto de tomar uma cervejinha, tenho que saber que uma cerveja pode ser legal, mas dez cervejas vão me fazer mal. E que fazer isso uma vez por semana é uma coisa, mas fazê-lo todos os dias pode ser uma péssima idéia. - Pode ser prejudicial a minha saúde, pode me levar ao vício terrível do alcoolismo... - E porque estou falando essas coisas? Para você entender bem qual é o sentido de liberdade. Vou declarar novamente que "todas as coisas me são lícitas, MAS NEM TUDO ME CONVÉM". Perder esse senso é perder a própria liberdade. E assim chegamos ao ponto chave de todo o assunto: perder a liberdade: eis a raiz do pecado!

Aí está a chave para entender toda a questão. Esse conceito de pecado faz parte de um sistema que existe para nos mostrar o que é certo e o que é errado, o que vai nos levar a bons resultados e o que é prejudicial ou pura perda de tempo. - O que nos prejudica, ou ao nosso próximo, é pecado. - É o oposto de tudo que faz crescer em espírito; o que fatalmente vai resultar em infelicidade, o que vai gerar perdas e tristeza. Isso é pecado. Definir o que é e o que não é "pecado" foi a maneira usada no passado para se definir a diferença entre as escolhas de vida que podem nos libertar e as que vão nos tornar escravos.

É só isso e nada mais! Simples, não? O grande problema é que as religiões, no passado - em especial as cristãs: catolicismo e protestantismo - abusaram demais desse conceito, e assim, martelaram demais nas mentes dos fiéis com pregações que enfatizavam em excesso apenas esse "lado da moeda". Assim, sobrecarregaram o inconsciente coletivo da humanidade com medo e repressão, e o resultado aí está (não poderia ser outro): uma forte reação em sentido contrário.

Até hoje, milhões de pessoas têm medo do cristianismo porque temem perder a sua liberdade. Elas se sentem atraídas pela mensagem do Cristo, elas percebem em algum nível muito sutil de suas consciências que ele traz a Verdade e a Vida; mas elas sentem medo, porque não querem abrir mão do seu direito de pensar o que quiserem; querem se sentir livres, leves e soltas, não querem mais ser chamadas de pecadoras, não querem ficar curtindo culpa... E estão certas! Remoer culpa não é nada bom!! Mas o que elas não sabem é que tudo que Jesus sempre quis foi nos dar liberdade! Liberdade!

Inadvertidamente, alguns líderes religiosos do passado acabaram por fazer com que as pessoas se tornassem infelizes, culpadas além da conta, além do que é saudável... Isso gerou muitos problemas, e continua nos prejudicando até hoje.

Atualmente, a Igreja Católica realmente vêm revendo seus conceitos, entendendo que, se Jesus Cristo não muda, e Deus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, a nossa capacidade de entendê-Lo muda, se aperfeiçoa com o passar dos tempos! E isso foi previsto!

Hoje, dificilmente você vai ouvir uma pregação dentro de um templo católico falando sobre pecado e culpa. O Amor e o perdão estão sendo colocados em primeiro plano, como deveria ter sido sempre, desde o princípio. Mas, ironicamente, agora são algumas igrejas evangélicas que usam e abusam dos conceitos de culpa e do medo da condenação em suas doutrinas. Isso é muito triste. Mas esse tipo de coisa só vai prosperar enquanto existirem pessoas achando que precisam desse tipo de pregação para buscar Deus. A minha esperança é que pessoas assim se tornem cada vez mais raras, até que um dia desapareçam, e nós não tenhamos mais religiões desse tipo.

Mas no fim, resumindo tudo, religião é uma questão íntima e pessoal de cada um. - Mesmo os que professam uma mesma fé têm idéias diferentes entre si a respeito de temas primordiais. Cada um entende Deus de um jeito, cada um entende justiça de um jeito. - A porta de saída desse sofrimento todo a respeito de pecado e culpa é você se colocar sozinho e quieto; deixar os seus medos de lado e calar a voz do seu ego completamente, para poder olhar tudo com olhos renovados.

Cale a voz do padre, cale a voz do pastor, do mentor ou do que quer que seja, dentro de você, completamente. Peça orientação a Deus, depois olhe para dentro de si, livre de todos os seus preconceitos, todos as concepções humanas que entraram nessa sua cabecinha, se instalaram e agora não querem mais sair. Pode ser difícil, eu sei, mas você deve se livrar de tudo que está provocando dor e desarmonia para poder entender.

Deixe Deus falar, deixe Deus ser Deus em você, isto é, deixe-O ser Absoluto, e só então siga o que Ele disser. Não se preocupe com "religião" no sentido de instituição humana. - Preocupe-se com a verdadeira "Religião", que é o Religar-se. Não se preocupe com doutrina, não se preocupe com "certo e errado". Torne-se uma criança, porque dos que são como elas é o Reino de Deus. Apenas ouça sua consciência, depois vá e seja feliz!

Essa é a única ajuda que eu posso lhe dar, do ponto onde me encontro agora, que ainda é muito longe do final.

O meu Deus e o seu Deus nos abençoe e guarde.



Cinco Obstáculos - para a meditação e para a vida

Se quiser ler ouvindo música cha'n, clique na seta.


Este post é baseado num artigo de Ajaan Brahmavamso (Buddhist Society of Western Australia Newsletter)


Os principais empecilhos para o sucesso na meditação e para se atingir o Insight libertador assumem a forma de um ou mais dos Cinco Obstáculos denominados "Nivarana". Todo o conjunto de práticas que, segundo a tradição budista, conduz à Iluminação, pode muito bem ser expresso como o esforço para superar esses Cinco Obstáculos: primeiro suprimindo-os temporariamente com o objetivo de experimentar o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente (Jhana) e o Insight. Depois superando-os permanentemente através do completo desenvolvimento do Nobre Caminho Óctuplo.

Esses Cinco Obstáculos primordiais são:

Desejo Sensual: Kamacchanda
Má Vontade: Vyapada
Torpor e Preguiça:
Thina-Middha
Inquietação e Ansiedade:
Uddhcca-Kukkucca
Dúvida: Vicikiccha



1) O desejo sensual em questão se refere àquele tipo particular de anseio que busca felicidade através dos cinco sentidos físicos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Ele exclui qualquer aspiração pela felicidade através do sexto sentido mental/espiritual.

Na sua forma mais extrema, o desejo sensual é uma obsessão por encontrar o prazer em coisas como a intimidade sexual, boa comida ou música refinada. Mas também inclui o desejo de substituir experiências irritantes ou mesmo dolorosas nos cinco sentidos por experiências prazerosas, isto é, o desejo pelo que a tradição budista chama de conforto sensual.

O Buda comparou o desejo sensual com o ato de tomar um empréstimo. O sentido dessa comparação está no fato de que qualquer prazer experimentado através desses cinco sentidos fatalmente terá que ser restituído pelo desagrado da separação, da perda ou do vazio faminto, que sempre surge depois que o prazer foi consumido. Tal qual um empréstimo, há também a questão dos juros, e como o Buda disse, o prazer é pequeno quando comparado com a restituição em forma de sofrimento.

Durante a meditação, o desejo sensual é transcendido, quando nos soltamos da preocupação com este corpo e as suas cinco atividades sensuais. Alguns imaginam que os cinco sentidos estão ali para servir e proteger o corpo, mas a verdade é que, numa condição de vida materialista, o corpo é que está servindo aos cinco sentidos, que brincam com ele, sempre no mundo em busca de novos pequenos prazeres. O Buda certa vez disse: “Os cinco sentidos são o mundo”; e para deixar o mundo, para desfrutar da bem-aventurança extra-mundana de Jhana, que é o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente, é necessário abrir mão durante um certo tempo de toda preocupação com o corpo e os seus cinco sentidos.

Quando o desejo sensual é transcendido, a mente do meditador não tem interesse na promessa de prazer ou mesmo de conforto oferecidos por este corpo. O corpo "desaparece" e todos os cinco sentidos são como que desligados. A mente se torna calma e livre para olhar para o interior. A diferença entre a atividade dos cinco sentidos e a sua transcendência é igual à diferença entre olhar por uma janela e olhar num espelho. A mente, que está livre da atividade dos cinco sentidos, pode verdadeiramente olhar para o seu interior e enxergar a sua real natureza. E só assim pode surgir a sabedoria em relação ao que somos, de onde viemos e porquê. Isso não quer dizer que nos tornaremos semideuses ou seres superpoderosos transitando acima de todas as dificuldades, nem que seremos capazes de converter chumbo em ouro com um toque da mão. Mas estaremos mais próximos da felicidade, da nossa realização e do verdadeiro poder de resolver nossos problemas.

2) A má vontade em questão se refere ao desejo de revidar, machucar ou destruir. Ela inclui a raiva de alguém ou mesmo de uma situação problemática, e é capaz de gerar uma energia tão intensa que é, ao mesmo tempo, sedutora e viciante. No momento em que se manifesta, ela sempre parece justificável, pois tamanho é o seu poder, que facilmente corrompe nossa habilidade de julgar de modo equilibrado. Isto também inclui a má vontade para consigo mesmo, também conhecida como complexo de culpa, que nega qualquer possibilidade de felicidade. - O sentimento de culpa é bom quando serve para nos alertar sobre nossos erros e modos de conduta prejudiciais a nós mesmos ou aos nossos próximos. Depois de reconhecido e reparado o erro, é preciso jogar a culpa fora, ou então teremos problemas. - Quando entramos em meditação para tentar compreender alguma dificuldade que estejamos enfrentando, a má vontade aparece como antipatia em relação a este objeto da nossa meditação, rejeitando-o, de modo que a própria atenção é forçada a vagar em outras direções.

O Buda comparava a má vontade com o estar doente. Tal qual a enfermidade que nega a liberdade e a felicidade da boa saúde, a má vontade também nega a liberdade e a felicidade da paz.

A má vontade é superada com a adoção do Amor-Bondade, que a tradição budista chama de "Metta". Se a má vontade for dirigida a outra pessoa, Metta ensina a ver algo mais nessa pessoa, para além de tudo aquilo que nos fere, compreender porque aquela pessoa nos fere, (quase sempre porque ela estava se sentindo também ferida, provavelmente seu ego estivera se sentindo ameaçado por nós), e nos encoraja a colocar de lado a nossa própria dor e olhar com compaixão para os outros. Mas se isso estiver acima da nossa capacidade, Metta para nós mesmos nos levará a desistir da má vontade em relação àquela pessoa, para evitar que ela nos fira ainda mais através da memória daqueles atos. Do mesmo modo, se a má vontade estiver dirigida contra nós mesmos, Metta vê mais do que os nossos próprios defeitos, pode entendê-los e encontrar a coragem para perdoá-los, não deixando de aprender com as lições dadas por eles e depois... Deixá-los ir. Se a má vontade estiver relacionada com o objeto de meditação, (com freqüência, a razão que impede o meditador de ficar em paz), Metta abraça o objeto da meditação com cuidado e deleite. Por exemplo, como uma mãe sente Metta natural pelo seu filho, isto é, o ama incondicionalmente, assim também um meditador pode observar a sua respiração, digamos, com a mesma qualidade de atenção cuidadosa. E deste modo, será tão improvável que ele perca a respiração, devido ao esquecimento, assim como é improvável que uma mãe esqueça o seu bebê no supermercado; e tão improvável que ele deixe cair a respiração, em troca de algum pensamento distraído, assim como é improvável que uma mãe deixe cair o seu bebê por distração! A remoção da má vontade possibilita relacionamentos duradouros com outras pessoas e consigo mesmo, e na meditação, um relacionamento duradouro e agradável com o objeto da meditação, capaz de amadurecer até a completa imersão na absorção.

3) Preguiça e torpor referem-se à letargia corporal e à sonolência mental que nos arrastam à inércia incapacitante e à depressão profunda. O Buda os comparava estas energias com o estar aprisionado numa cela escura e confinada, incapaz de movimentar-se com liberdade para o sol brilhante do exterior. Na meditação, esse estado gera uma capacidade de atenção fraca e intermitente, que pode até mesmo conduzir ao sono sem que sequer nos demos conta disso!

A preguiça e o torpor são superados através do despertar da nossa energia ou Ki (ou Chi). A energia está sempre disponível, mas poucos sabem como "ligar o interruptor", por assim dizer. Estabelecer um objetivo que não seja egoísta nem fantasioso demais, mas razoável e benéfico para todos, é um modo sábio e efetivo de gerar energia, e também de desenvolver o interesse deliberado pela tarefa a ser cumprida. A criança tem um grande interesse natural pelas coisas e por conseqüência muita energia, pois o seu mundo está cheio de novidades. Portanto, se pudermos aprender a olhar para a nossa vida ou para a nossa meditação com uma ‘mente de principiante’, como a mente de uma criança, poderemos sempre ver novos ângulos e novas possibilidades que nos manterão ativos e energéticos, distantes da preguiça e do torpor. Da mesma maneira, é possível desenvolver o deleite com qualquer coisa que se faça, treinando a própria percepção para ver o belo nas coisas comuns e assim gerar o interesse que evita o estado de preguiça e torpor que a tradição budista chama de "meia-morte".

A mente possui duas funções principais: ‘fazer’ e ‘conhecer’. O objetivo da meditação é acalmar o ‘fazer’ até a completa tranqüilidade enquanto mantém o ‘conhecer’. A preguiça e o torpor ocorrem quando alguém descuidadamente acalma tanto o ‘fazer’ como o ‘conhecer’, sendo incapaz de distinguir entre os dois.

Preguiça e torpor são um problema comum que se insinua de maneira imperceptível e que lentamente nos sufoca. Um meditador hábil mantém uma vigilância aguçada aos primeiros sinais de preguiça e torpor, e assim é capaz de identificar a sua aproximação e escapar antes que seja tarde demais. É como chegar a uma bifurcação numa estrada, a pessoa pode tomar o caminho que a conduzirá para longe da preguiça e do torpor. A preguiça/torpor é um estado corporal e mental desagradável, rígido demais para saltar para a bem-aventurança de Jhana (o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente) e completamente cego para poder
identificar qualquer insight. Em resumo, é uma total perda de tempo precioso.

4) A Inquietação se refere à mente que metafóricamente se parece com um macaco, sempre saltando de galho em galho, incapaz de permanecer por algum tempo com qualquer coisa. Ela é causada pelo estado mental que busca defeito em tudo, que não é capaz de se satisfazer com as coisas do jeito que elas são e assim tem que seguir procurando, na promessa de algo melhor, que parece permanecer sempre um pouco mais além.

O Buda comparou a inquietação com a escravidão, continuamente correndo para atender às ordens de um patrão tirânico que, exigindo sempre a perfeição, nunca permite descanso ao escravo.

A inquietação é superada com o desenvolvimento do contentamento, que é o oposto da crítica. A pessoa passa a conhecer a alegria simples do contentar-se com pouco, ao invés de sempre querer mais. Ela se sente grata por este momento, ao invés de identificar os seus defeitos. Por exemplo, na meditação a inquietação freqüentemente é a impaciência pressionando para seguir rapidamente para o estágio seguinte. Paradoxalmente, no entanto, o progresso mais rápido é alcançado por aqueles que estão satisfeitos com o estágio em que se encontram. É o aprofundamento desse contentamento que amadurece o estágio seguinte. Portanto, cuidado com esse ‘desejo de progredir’ exarcebado. Ao invés disso, aprenda como relaxar nesse contentamento apreciativo. Dessa forma, o ‘fazer’ desaparece e a meditação floresce.

A ansiedade (ou remorso) em questão se refere a um tipo específico de inquietação que é o resultado de ações ruins. A única maneira de superar a ansiedade, a inquietação de uma consciência pesada, é purificar a própria virtude e tornar-se compassivo, sábio e gentil. Na prática é impossível que alguém imoral ou vicioso faça progresso significativo
na meditação.

5) A dúvida se refere aos questionamentos íntimos perturbadores no momento em que se deveria estar silenciosamente passando para um estágio de maior profundidade. A dúvida pode questionar a própria habilidade: “Sou capaz de fazer isso?”, ou questionar o método: “Este é o modo correto?”, ou mesmo questionar o significado: “O que é isso?” Que fique claro que, neste caso, tais questões são obstáculos para a meditação porque são perguntas feitas no momento errado e assim se tornam uma intrusão, obscurecendo a clareza mental.

O Buda comparou a dúvida com o estar perdido no deserto, sem ter qualquer ponto de referência.

Esse tipo de dúvida é superada obtendo-se instruções claras a respeito do "percurso", sabendo-se exatamente aonde queremos chegar e levando-se um bom mapa; de modo que se possa reconhecer os pontos de referência sutis no território desconhecido da meditação profunda e assim saber por onde seguir. Isso é muito importante: ao contrário do que muitos leigos imaginam, apesar de a meditação profunda exigir o abandono completo do ego, a essência sutil e a intenção amorosa do praticante devem permanecer presentes todo o tempo, ainda que não de maneira ativa ou funcional. Antes de o meditador dissolver-se na prática de Jhana, deve sempre direcionar-se de modo ativo/positivo à meta da iluminação, para que não se ponha a mercê de energias psíquicas incovenientes.

A dúvida da própria habilidade é superada através do desenvolvimento da auto-confiança com o apoio de um bom instrutor. Um instrutor em meditação é como um treinador que convence o time de que eles são capazes de vencer. O Buda afirmou que todos podem alcançar Jhana e a Iluminação, se seguirem as instruções com cuidado e paciência. A única incerteza é quando! A experiência também supera a dúvida acerca da própria habilidade, bem como acerca do caminho correto. Quando realizamos por nós mesmos os sublimes estágios do caminho, descobrimos que somos de fato capazes de atingir o estágio mais elevado e que este é o caminho que nos levará lá.

O fim da dúvida na meditação é descrito como uma mente que tem confiança perfeita e assim não interfere no processo com diálogos internos. É como ter um bom motorista, ficamos sentados em silêncio durante a viagem pela confiança que depositamos nele, desde que se conheça bem a que "motorista" entregamos o nosso "automóvel" mental.

"Gafanhoto, quando você puder ver o símbolo Yin Yang nesta imagem, você estará pronto..."


Qualquer problema que surjir na meditação será um desses Cinco Obstáculos, ou uma combinação deles. Portanto, se alguém experimentar qualquer dificuldade, basta usar as explicações dadas acima como lista de controle para identificar o problema principal. Então, sabendo qual o remédio apropriado, aplique-o com cuidado para superar o obstáculo e alcançar uma meditação mais profunda.

Quando os Cinco Obstáculos forem totalmente superados, não haverá barreira entre o meditador e a bem-aventurança de Jhana. Conseqüentemente, o teste definitivo para saber se os Cinco Obstáculos foram realmente superados é a habilidade para entrar em Jhana, o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente.



Princípio essencial da Kabbalah #9


Conforme vamos nos aprofundando no estudo dos princípios essenciais da Cabala, começarmos a perceber que não estamos lidando com uma coleção de aforismos esparsos, afirmações soltas, cada qual versando sobre um assunto independente dos demais. Não. Os princípios essenciais da Cabala são uma coleção de máximas "fechadas" em si, que se complementam e estão unidas umas às outras, visando levar à compreensão de uma Realidade maior e transcendente. São de certa forma interdependentes e complementares.

O próximo conceito afirma algo que eu aprendi muitos anos antes de saber que existia uma coisa chamada Cabala, porque sempre me pareceu meio óbvio, evidente. - O Princípio essencial da Cabala de número 9 (confirmando, são 14 princípios ao todo), afirma que:


"Obstáculos são oportunidades para nos conectarmos com a Luz."


Imagino que este seja dos princípios cabalísticos de compreensão mais fácil, porque fala de uma noção perfeitamente lógica e razoável. - Nem sempre a religião ou a espiritualidade precisam contrariar a lógica e a razão. Ao contrário, no momento em que a fé encontra a razão e ambas se dão as mãos, é justamente nessa hora que a paz mais perfeita e duradoura pode ser encontrada. É nesse momento que os conflitos interiores cessam e podemos nos aquietar na escolha de vida que fizemos.

Que acontecem obstáculos em nossas vidas é um fato incontestável. - Quem nunca teve que superar nenhum obstáculo na vida, que atire a primeira pedra! - Sob certo ponto de vista, poderíamos mesmo afirmar que a própria vida neste plano de realidade é um grande e único obstáculo: Desde os nossos primeiros instantes neste mundo, tudo que encontramos diante de nós são obstáculos! Já nascemos apanhando, para que possamos “abrir” os nossos pulmões e respirar; esta é a primeira nova tarefa que precisaremos aprender se quisermos sobreviver! Parece incrível, mas assim que vemos a luz deste mundo, a primeiríssima coisa que temos que fazer, queiramos ou não, é enfrentar um obstáculo: respirar não é natural para um feto, que foi gerado e viveu até então imerso no líquido amniótico, envolto pelo calor e pelo conforto do ventre materno.

Depois precisamos nos adaptar à dureza e ao contato com as superfícies duras e frias do nosso novo habitat – o mundo. Precisamos aprender a mamar. Precisamos aprender a nos manifestar quando sentimos fome ou desconforto – chamar a atenção da mamãe quando algo está errado é prática importantíssima para um bebê...

E logo que crescer um pouco, esta nova criatura vai precisar aprender coisas novas: a se locomover; primeiro engatinhando, depois caminhando devagar, passo a passo... Qualquer objeto à frente de uma criança de um ano é um grande obstáculo a ser transposto... Depois que crescer mais um pouco, terá que freqüentar a escola, se adaptar à uma nova realidade, novas pessoas, conviver em um grupo que não é mais constituído exclusivamente de pessoas do seu círculo familiar, que a amam e sempre fazem tudo por ela... Talvez a criança encontre neste novo grupo alguém que a enfrente, uma outra criança que queira dominá-la, submetê-la aos seus caprichos... Nesse caso, será preciso tomar uma decisão: submeter-se ou resistir? Eis a questão... Submeter-se poderá significar humilhação, poderá representar o início de um círculo vicioso que pode se prolongar por toda uma vida, chegando até a fase adulta e comprometendo suas futuras relações pessoais, profissionais... Por outro lado, resistência implica coragem, dor, superação... Principalmente se a outra criança, a dominadora, for maior e mais forte (geralmente, é o caso)... Obstáculos, obstáculos...

Eu poderia continuar com essa narração indefinidamente. Obstáculos e mais obstáculos a serem superados... Assim prossegue a vida do ser humano, até a sua conclusão final neste planeta chamado Terra.

Mas a Cabala, em seu nono princípio essencial se propõe a responder uma questão primordial: por quê existem e ocorrem tantos obstáculos em nossas vidas? Bem, para começar, se eu acredito em Deus, e se eu acredito que Deus é perfeito, então eu forçosamente tenho que crer também que os obstáculos precisam ter uma boa e perfeita razão de ser. E que razão poderia ser essa, a não ser o nosso aprendizado? Coerente e lógico. E é exatamente isto o que a sabedoria milenar dos rabinos místicos ensina. Foi por isso que eu disse que nem sempre espiritualidade contraria a razão, embora isso muitas vezes aconteça.

Este sem dúvida é o princípio cabalístico mais facilmente observável em nossas vidas, em nosso dia a dia, independente de você ser uma pessoa espiritualizada ou não. O rabino Yehuda Berg, diretor espiritual de um dos maiores centros de estudo da Cabala do mundo, o Kabbalah Centre, vai mais longe:

“Os que atingiram a Verdade não vivem num mundo à parte, alheios às dificuldades desta vida, sem ter que superar obstáculos como qualquer um de nós. Tenha muito cuidado com doutrinas que ensinam coisas assim, porque estão a serviço de Satan, aquele que traz a ilusão, e são como um mal contagioso! (...) Todos nós estamos aqui justamente para aprender a superar obstáculos! Esta é a finalidade desta vida, e é somente isso que nos possibilitará enxergar a Luz. - O caminho de todos nós é salpicado de testes e tribulações. Esses desafios surgem para nos acordar, mostrar nossas fragilidades e nos habilitar para receber a Luz do Criador.” - Apostila do Centro de Estudos da Cabala, sob a direção dos rabinos Yehuda e Rav Berg.


Seja rico ou pobre, religioso ou não, seja alguém que encontrou seu caminho espiritual ou não, seja uma pessoa caridosa e que pratica o bem ou uma pessoa egoísta e materialista... Todos enfrentamos dificuldades. E quais foram os seres humanos mais virtuosos da História, em todos os tempos? Sem dúvida nenhuma, foram aqueles que mais enfrentaram obstáculos e aprenderam a superá-los! Quanto maiores e mais abundantes os obstáculos, maior o espírito humano: se você se interessa por História, procure conhecer mais sobre as vidas de Henry Ford, C. G. Jung, Martin Luther King, Albert Einstein, Charles Chaplin, L. V. Beethoven, Walt Disney, Napoleon Hill, Machado de Assis... - A lista seria infinita! - Todos sofreram grandes dificuldades, todos tiveram que superar enormes e numerosos obstáculos em suas épocas. E foi exatamente aí que se destacaram em suas áreas de atuação. No campo da religião e espiritualidade, que concerne a este blog, a realidade é exatamente a mesma: basta uma breve análise da história da vida dos santos ou sábios de qualquer tradição: Moisés, Zarathustra, Jesus, Buda, Confúcio, Ramana, Ramakrishna, Ghandi, J. Krishnamurti, etc, etc... Todos enfrentaram imensas dificuldades, todos tiveram que encarar grandes obstáculos em suas trajetórias.

O budismo fala da necessidade da superação dos “Cinco Obstáculos”, que a tradição Theravada chama de “Niravana”, para que possamos alcançar o Nirvana, e nos dá a seguinte dica:

“O esforço para superar os obstáculos deve ser feito da seguinte maneira: primeiro suprima-os temporariamente, com o objetivo de experimentar a profunda absorção de Jhana, o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente, e o Insight; depois, supere-os permanentemente através do completo desenvolvimento do Nobre Caminho Óctuplo.” - Buddhist Society of Western Australia Newsletter


A esse respeito também a tradição do Yoga atribui importância fundamental. A raiz de praticamente todos os ensinamentos contidos nos Vedantas e nas Upanishads se referem a superação dos obstáculos que incessantemente a atuação de "Mara" nos impõe neste mundo ilusório. Todo o conteúdo dos sutras do hinduísmo enfatiza repetidamente a necessidade de se superar os obstáculos neste mundo e nesta existência.

"O yogue precisa superar os kleshas: dificuldades, corrupção e paixão. - Toda e quaisquer das propriedades que embotam a mente e são a base de todos os atos prejudiciais. - Os obstáculos a serem superados pelo caminhante da senda do Yoga são: a ignorância, o egoísmo, a exaltação das paixões, a aversão e o apego à vida." – Yoga Sutra II


Ou como disse o profº José Hermógenes, o maior yogue brasileiro, autor de 19 obras reconhecidas internacionalmente e considerado um dos grandes mestres Hatha do mundo: "Se eu fosse uma planta, gostaria de viver num meio favorável que me fizesse crescer. Mas como ser humano, prefiro um meio adverso que me desafie a crescer”...

A Cabala é um sistema que se propõe como uma ferramenta útil para a compreensão da essência da própria Vida. O seu nono princípio essencial nos lembra a maneira como aprendemos tudo aquilo que precisamos, desde a mais tenra infância: caindo aprendemos a nos levantar, tropeçando aprendemos a evitar as pedras, queimando-nos aprendemos a respeitar o fogo, e, avançando um pouco mais nessa linha de raciocínio, ficando doentes é que nossos corpos aprendem a criar anticorpos e se tornam fortes. No Pain, No Gain, e o que não me mata me faz mais forte: aí está o nono princípio refletido na sabedoria popular ancestral.

Como é que um atleta treina e desenvolve o seu físico, tornando-se mais forte, mais rápido e mais resistente? Ficando sentado o dia inteiro no sofá, assistindo TV e tomando um suco, pensando no quanto a vida é maravilhosa? Não! Ficamos mais fortes e nos tornamos mais e mais competentes quanto mais nos impomos obstáculos e aprendemos a superá-los. E quanto maiores eles forem, maiores serão nossos progressos.

Óbvio que nesse contexto existe a necessidade da proporcionalidade. Não convém tentarmos carregar um peso maior do que possamos suportar e nós não poderíamos esperar de alguém que nunca subiu um pequeno monte que se aventurasse a escalar o Everest. Sobre isso falou Paulo apóstolo:

“Não vieram sobre vocês dificuldades, senão humanas; mas fiel é Deus, que não nos dará dificuldades maiores do que podemos suportar. Antes, com as dificuldades dará também a possibilidade de superação, para que possamos suportar." - I Coríntios 10 : 13


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Segundo a Cabala, obstáculos são bênçãos, oportunidades para nos conectarmos com a Luz; devemos dar graças por eles, e jamais maldizê-los. Uma linha de pensamento plenamente compartilhada pelo anônimo autor deste antológico poema que se tornou ecumênico:

“Eu pedi forças... E Deus me deu dificuldades para me fortalecer.
Eu pedi sabedoria... E Deus me deu problemas para resolver.
Eu pedi prosperidade... E Deus me deu cérebro e músculos para trabalhar.
Eu pedi coragem... E Deus me deu obstáculos para superar.
Eu pedi amor... E Deus me deu pessoas com problemas para ajudar.
Eu pedi favores... E Deus me deu oportunidades.

Nem sempre recebo o que peço... Mas Deus me dá sempre o que eu preciso!”


A sabedoria parece transparecer dessas palavras. Sabedoria que é judaica, cabalista, budista, cristã... e ao mesmo tempo não é de propriedade de nenhuma tradição humana, porque é dádiva de Deus à humanidade, antes de tudo.



Sepulcro esquecido de Jesus... O Cristo?

Foto de 1980 da tumba achada em Talpiot

um documentário sendo exibido desde a noite do último domingo (06/04/2008) no canal Discovery Channel. Dois leitores me pediram que comentasse a respeito aqui no Arte das artes, e como se trata de um tema atual e pertinente, e que além disso tem a ver com a proposta deste blog, aqui vai uma postagem sobre o assunto, que eu espero seja elucidativa.

Falar sobre este assunto, para qualquer estudante de Teologia ou História, não é difícil como talvez possa parecer, mas antes de entrar na questão em si eu gostaria de esclarecer um ponto importante: alguns veículos da mídia chegaram a alardear que se a descoberta de um tal sepulcro fosse confirmada, isto representaria uma grande ameaça para o Cristianismo, que a estrutura da Igreja seria seriamente abalada e coisas do gênero. Mas o fato é que, para qualquer cristão consciente, não faria praticamente nenhuma diferença esta tumba ser autêntica, isto é, conter os ossos de Jesus Cristo, ou não. - Ao contrário do que alguns imaginam, a ressurreição não tem que ser necessariamente um corpo físico se levantando de um túmulo.

As escrituras narram o evento do encontro do túmulo vazio, no terceiro dia após a morte do Cristo com pormenores, e nós realmente temos ótimas razões para acreditar que de fato ocorreu conforme está ali descrito. O principal deles é a conversão imediata de um grande grupo de pessoas, repentinamente, a partir daquele momento exato. - Não só os Evangelhos como outras fontes históricas mencionam o desânimo que de imediato se abateu sobre os seguidores de Jesus após a morte por crucificação. Como seria de se esperar, os discípulos e adeptos do movimento de Jesus se abateram com a morte do seu líder. Antes de Jesus, diversos outros pretendentes a messias tiveram destino semelhante, sendo que os seus seguidores rapidamente se dispersaram após a morte de seus líderes. Para aqueles que seguiam o Rabi da Galliléia, num primeiro momento não foi difetente. E não havia porque ser diferente: o sonho havia acabado. Mas isso durou menos de uma semana! Diversos autores da época relatam como repentinamente essas pessoas voltaram a se inspirar poucos dias depois da execução do seu mestre, e a partir daí saíram a pregar a sua mensagem com energia nunca antes vista. Historiadores reconhecem que algo muito incomum aconteceu para provocar tamanha mudança de ânimos e inspirar a repentina coragem que os fazia enfrentar o poder do Estado romano e caminhar até a morte sem nenhum medo, muitas vezes sorrindo, em nome da sua fé.

Mas este é um outro assunto, por si só bastante extenso. O que eu gostaria de registrar antes de entrar no tema desta postagem é que, apesar de todas as tradições cristãs ensinarem que Jesus ressuscitou em plenitude, isto é, em corpo, alma e espírito, as escrituras relatam que o Mestre, ao aparecer depois da morte, se manifestava no meio dos discípulos estupefatos, "surgindo" dentro dos aposentos "estando as portas fechadas". Depois, "desaparecia". Além disso, nas primeiras vezes em que ele apareceu, não foi reconhecido pelas mesmas pessoas que tinham convivido diariamente com ele, por anos seguidos. - Isso demonstra claramente que Jesus Cristo estava diferente do que era antes. - O "Rabi" já não se encontrava mais restrito às limitações do corpo físico.

Isso não implica dizer que as suas visitas pós-morte foram apenas em espírito, como qualquer aparição comum de espíritos das quais temos notícia, porque os autores dos mesmíssimos relatos fazem questão de ressaltar que Jesus ressuscitado tinha sim um corpo físico, no qual trazia as marcas da crucificação, um corpo que tocava e podia ser tocado e apalpado (como fez Tomé), e além disso ele se assentava à mesa e comia e bebia com os discípulos... Bem, nós poderíamos mergulhar aqui numa infinidade de teorias e pseudo-explicações baseadas em todo tipo de suposição (o que chamamos popularmente de 'chutômetro'), sem absolutamente nenhum embasamento, já que nenhum de nós esteve presente a nenhum desses eventos misteriosos. Portanto, especular nesse momento não nos levaria a nada, pois nós nunca poderemos provar nenhuma hipótese.

Eu só entrei neste terreno nebuloso para reafirmar aquilo que na minha opinião realmente importa dizer aqui: que achar os restos mortais de Jesus mudaria praticamente nada no cristianismo. Para os que não sabem, a doutrina da Igreja já afirma, desde os seus primórdios, que:

"Como acontecerão os processos que sofreremos após a nossa morte física é coisa que ultrapassa a nossa imaginação e o nosso entendimento intelectual; só na fé é que este mistério se torna acessível." - Vaticano: Papa João Paulo II em audiência


Portanto, se a Igreja não nos dá nenhum detalhe sobre o assunto e ainda ensina que a única forma de se alcançar compreensão a esse respeito é através da fé, que diferença faria descobrir que o corpo físico de Jesus não ascendeu, juntamente com o seu espírito, à outra dimensão, mas ficou aqui mesmo e se decompôs como outro defunto qualquer? Justificaria, no máximo, algumas revisões sobre a idéia do chamado "Corpo Glorioso" ou "Corpo Espiritual", que pressupõe a transubstanciação da matéria. Mas, dentro da apologética cristã, isto representaria apenas um detalhe praticamente irrelevante.

Isso posto, entremos ao teor da postagem, que é a hipótese levantada pelo documentário cujo título é "O Sepulcro Esquecido de Jesus", produzido e dirigido por dois cineastas. - Um deles é o conhecido diretor de Hollywood James Cameron (de 'O Exterminador do Futuro" e "Titanic"), e o outro é Simcha Jacobovici, que em 2002 dirigiu um documentário intitulado "O Ossuário de Thiago, Irmão de Jesus" (que depois veio a ser comprovado como fraude - vide artigo aqui.


James Cameron, diretor e produtor de Hollywood


O filme é um desfile de alegações, meias afirmações e meias verdades sussurradas a respeito de um sepulcro descoberto em Talpiot, Israel, em 1980, contendo 10 caixas ossuárias e um espaço vazio, onde caberia uma 11ª caixa.

Bem, eles afirmam (ou quase) que esse sepulcro é o túmulo da família de Jesus chamado Cristo, baseados em que 6 dessas 10 caixas contém inscrições que as identificam com os seguintes nomes: "Jesus filho de José", "José", "Maria", "Judá", "Mariamene Mara" e "Matheus".

A partir daí, o documentário, baseado em uma série de especulações e elucubrações sem absolutamente nenhum lastro científico, se precipita numa série de especulações extremamente forçadas, tais como:

1º - Logo no começo, afirma-se que os discípulos, de algum modo furaram o bloqueio dos guardas romanos, furtaram e esconderam o corpo de Jesus para dar a impressão de que ele havia ressuscitado. Depois de um ano, foram ao esconderijo secreto, retiraram os restos mortais e os colocaram numa caixa mortuária, que sepultaram junto com os demais membros da sua família;

2º - É apresentado um estudo estatístico (contestado por outros matemáticos) que afirma que há uma probabilidade de 600 para 1 a favor de que esta seja uma tumba da família de Jesus, baseados no fato de terem sido encontrados num mesmo local 6 nomes bíblicos ;

3º - Em função dessa suposta alta probabilidade, os autores afirmam que “quase com certeza” o túmulo é o de Jesus Cristo;

4º - Afirma-se que o nome "Mariamene Mara" se refere a Maria Madalena;

5º - Na caixa ossuária onde está gravado o nome “Judá”, há também o título: “Filho de Jesus”. Com base nesse fato, os supostos pesquisadores resolveram submeter fragmentos orgânicos nos ossos do “Jesus” da tumba, juntamente com os de “Judá” e os da “Mariamene” a um teste de DNA. O resultado foi que havia relações de parentesco entre eles. A partir deste resultado, o documentário sugere que Jesus foi casado com Maria Madalena e que os dois tiveram um filho ao qual deram o nome de Judá;

6º - Afirma-se que o "ossuário de Thiago", encontrado há alguns anos, é a caixa que está faltando nesta tumba, o que aumentaria a probabilidade de ser uma tumba da família de Jesus, pois seria mais um nome ligado à família no mesmo local;

7º - Próximo do final, chegam a sugerir que, no texto evangélico, quando Jesus diz à Maria: “Mãe, eis aí o teu filho”, ele está na verdade falando com Madalena, pedindo a ela que cuidasse bem do filho dos dois, o Judá...

A essa altura alguns colegas meus talvez estejam sofrendo com espasmos de tanto rir, mas o fato é que esse tipo de notícia, amplamente divulgada por um canal popular como o Discovery, e depois publicado em diversos sites e revistas de grande circulação, acaba influenciando o pensamento de muita gente. Por isso, eu relacionei logo abaixo algumas refutações bem básicas, que poderão ser mais aprofundadas caso o leitor se disponha a fazer uma breve pesquisa (sugeriria um clique nesta página do “Scribid”). Vamos lá:

1º - Não estamos falando de nenhuma “descoberta” aqui. A tumba foi encontrada em 1980, e na ocasião, todos os arqueólogos, antropólogos e especialistas competentes concordaram que não havia nada de extraordinário nela, tanto que foi aterrada logo em seguida, para que se construísse um condomínio no local;

2º - Ninguém da comunidade científica levou as afirmações dos autores do documentário a sério, e as classificaram como ridículas e sensacionalistas. Entre estes, eu citaria os conceituados Amos Cloner (que disse que "é impossível que José e Maria de Nazaré fossem sepultados numa tumba familiar em Jerusalém") e Dov Ben Meir, que declarou com todas as letras que toda a história apresentada"Não passa de tolice...";

3º - O documentário foi feito por cineastas hollywoodianos (e não por homens de ciência), claramente com o objetivo de "pegar carona" no sucesso do livro “O Código Da Vinci”. O objetivo mais do que óbvio de ambas as obras é o sucesso comercial. Dan Brown pelo menos teve o pudor de reconhecer que o seu livro é uma obra de ficção...

4º - Os nomes "Jesus", "Maria", "José" e "Matheus" eram extremamente comuns na época do Novo Testamento. Para se ter uma idéia, um quarto de todas as mulheres da região onde Cristo viveu, em sua época, se chamavam Maria, e 4% dos homens tinham o nome Jesus! Isto é, num lugar onde houvessem 200 pessoas reunidas, possivelmente haveriam 50 Marias e 8 Jesus entre eles! Interessante saber que, antes do achado em questão, já se haviam encontrado 98(!) outros túmulos com o nome Jesus, inclusive alguns "Jesus filho de José";

5º - O título "Jesus filho de José" certamente não seria empregado para designar o Jesus que os discípulos consideravam o Messias e o Filho do Deus Vivo. Esta menção jamais é feita em nenhum texto bíblico e nem em nenhum texto apócrifo! Jesus Cristo jamais foi chamado assim. Se os discípulos tivessem escondido o seu corpo naquele local, como supõe o documentário, jamais escreveriam isso ali!

6º - A estatística apresentada no filme ou é extremamente equivocada ou foi feita de má fé, porque está baseada nas alegações do próprio documentário, que não têm nenhuma base científica ou mesmo lógica;

7º - O documentário diz que a "Maria" da Tumba seria a mãe do "Jesus" da tumba, mas não há nenhuma evidência nesse sentido: junto ao nome dessa Maria não há nenhuma inscrição que a aponte como mãe desse Jesus. Eles poderiam ser irmãos, marido e mulher, primos, ele poderia ser o pai dela, ou mesmo poderia não haver nenhuma relação de parentesco entre os dois;

8º - "Mariamene" não é o mesmo que Madalena! "Madalena" é a corruptela da versão latinizada "Maria Magdalena", que significa "Maria de Magdala". Este nome na verdade é um título, algo como um "apelido": significa que ela vinha de uma vila chamada Magdala, assim como "Galileu" se refere a um indivíduo oriundo da Galiléia. Não há nenhuma menção à vila de Magdala, nem no sepulcro e nem na caixa mortuária dessa tal Mariamene. Esse nome, repito, nada tem a ver com o título "Madalena". - Embora o documentário até admita isso, a narração induz a imaginar o contrário. - Na realidade, existem várias interpretações possíveis para o nome Mariamene, e nenhuma delas apontaria relação com o título "Madalena";

9º - Exame algum mostrou que aquele "Judá" é o filho daquela "Mariamene", mas apenas que havia relações de parentesco entre eles. Isto é, mais uma vez, poderiam ser irmãos, primos, um poderia ser tio do outro ou mesmo ela poderia ser a filha dele, e portanto, nesse caso, seria neta desse Jesus;

10º - Não há nenhuma justificativa para o nome "Matheus" ter sido encontrado na tumba junto com o que eles afirmam ser a “família de Jesus”, já que o Matheus bíblico não era da família;

11º - O tal "ossuário de Thiago”, ao contrário do que afirma o documentário, não se encaixa perfeitamente no espaço vazio da tumba. As dimensões são diferentes, e isso consta até mesmo no livro "oficial" sobre o documentário, dos mesmos autores. De qualquer modo, ainda que fosse verdade, isso nada significaria, porque essas caixas eram produzidas segundo um certo padrão, na época, e não seria nada extraordinário que ela se encaixasse no espaço vazio. Porém, mais importante do que isso é que a inscrição feita na tal caixa já foi classificada por especialistas, acima de dúvidas, como fraude;

12º - José, o esposo de Maria, morreu na Galiléia muitos anos antes da crucificação de Jesus, portanto é praticamente impossível que tenha sido enterrado em Jerusalém;

13º - Eusébio, historiador do século IV, deixa claro que Thiago, irmão de Jesus, foi enterrado sozinho perto do monte do Templo, e sabemos até que a sua tumba chegou a ser visitada nos primeiros séculos. Portanto, não seria possível encontrar seus ossos numa tumba familiar;

14º - Mas há um fator realmente conclusivo sobre toda essa questão, que por si só resolve toda e qualquer discussão: ocorre que os ossos encontrados no interior da caixa ossuária desse Jesus não foram dados à apreciação de especialistas para exumação, para se apurar se pertenceram ou não a um crucificado, o que seria a primeira atitude lógica, se eles quisessem realmente tentar comprovar as alegações que estão fazendo. Ora, se os restos mortais pertencessem a Jesus, os ossos teriam que trazer as marcas da crucificação. Isto seria facílimo de comprovar, através de examinação bastante simples. Então, por quê não o fizeram? Este seria o primeiríssimo passo, se houvesse mesmo qualquer razão para crer que estamos falando do Jesus chamado Cristo. Nada mais óbvio! No entanto, isso não aconteceu, e os autores do documentário se furtam a tecer comentários a esse respeito;

15º - Há ainda mais um fator conclusivo a ser considerado, e a respeito do qual os "pesquisadores" do filme não se manifestaram: se o objetivo dos discípulos era sumir com o corpo do crucificado para fazer parecer que havia ressuscitado, porque haveriam eles de escrever o seu nome no ossuário, oras?? Importa dizer que escrever o nome por fora das caixas ossuárias não era um costume tão comum na época e nem representava qualquer tipo de obrigação ritualística. O costume era simplesmente colocar os ossos em caixas e guardá-los em tumbas. Algumas dessas caixas eram decoradas, outras lisas, mas na maioria das vezes não se faziam inscrições. Por que, exatamente nesse caso, se o objetivo era ocultar aquele corpo para sempre, haveriam eles de identificar o cadáver com uma inscrição?? Não teria sido muito mais lógico, simples e óbvio escondê-lo sem nenhuma identificação?? Assim, mesmo que um dia o corpo viesse a ser encontrado, a farsa nunca seria descoberta!..


Para encerrar, entender como surgiu o mito a respeito da relação marital entre Jesus e Maria Madalena, e da suposta filha dos dois (a lenda citada no livro de Dan Brown diz que foi uma filha, o documentário do Discovery Channel diz que era um filho...), não é tão difícil. Aconselho que procurem assistir ao documentário, este sim, realizado com critério científico e metodologia, do History Channel, apresentado por Josh Bernstein e intitulado "Em Busca da Verdade - A Linhagem do Código Da Vinci". Este sim, realmente permite entender como a lenda surgiu e porque, e como se trata de mitologia. - Como a suposta "linhagem de Jesus" com Maria Madalena é nada mais que pura fantasia, o que já foi comprovado até mesmo através de exames de DNA, feitos a partir dos restos mortais da antiga rainha merovíngia (os supostos 'descendentes europeus' de Jesus pertenceriam à dinastia franca-merovíngia). Os testes foram feitos para se verificar até onde vai o teor da lenda do “Sangue Real”, referente a família de Jesus Cristo. E foi comprovado que essa estória de que o povo da Judéia ou Galiléia teria contribuído na genealogia européia é mais que infundada. Não há traço genético algum entre os dois povos.

Mais: esse mesmo documentário ainda explica como Pierre Plantard, o criador do Priorado de Sião (que surgiu apenas em 1956), próximo à sua morte, admitiu publicamente ter inventado a história toda com o objetivo de conquistar notoriedade...

Termino dando meu braço a torcer e dizendo que sim, o produtor James Cameron atingiu, ao menos em parte, o intuito dele com este filme. Provavelmente não como ele imaginava, já que a penetração da obra foi insignificante. - Público e crítica praticamente o ignoraram. - Mas ele declarou que o seu objetivo com esse trabalho era "gerar polêmica e trazer o debate". - Não tanto quanto gostaria, mas isso ele conseguiu. Tanto que estou eu aqui perdendo meu precioso tempo pra falar sobre isso. Por outro lado, essas tantas "descobertas" e teorias recentes tão em moda, que alegadamente poderiam "acabar com o Cristianismo" de uma hora para outra, acabam servindo para uma finalidade muito importante: cada uma dessas descobertas acaba por desacreditar a anterior, e no fim, se nos empenhamos em pesquisar sobre tais assuntos aprofundadamente, somos levados a realizar novas descobertas pessoais. E acabamos percebendo o quanto a tradição cristã está bem fundamentada, bem mais do que muitos provavelmente imaginam.



Princípio essencial da Kabbalah #8

Nesta postagem abordaremos o próximo princípio essencial da Cabala, o oitavo, que pode ser entendido como uma espécie de confirmação ou uma validação do sétimo e do quarto princípios. Este oitavo princípio afirma que:


O comportamento reativo cria faíscas intensas de luz, mas deixa em seu rastro, por fim, a escuridão.


O que significa isso? Apenas aquilo que todos nós muito provavelmente já tivemos a oportunidade de confirmar pelo menos uma vez em nossas vidas: que quando damos vazão ao ímpeto de algum instinto baixo que nos toma de assalto, como a raiva, a sede de vingança, a inveja ou a luxúria, o resultado é que num primeiro momento até nos sentimos gratificados, como se estivéssemos "fazendo a coisa certa". Mas se ouvimos a nossa consciência, logo em seguida sentiremos um grande vazio, uma sensação de escuridão. Abaixo, dois exemplos de casos reais extraídos da revista de psicologia “Catharsis”, que ilustram à perfeição o significado deste oitavo princípio (os grifos são meus):




Exemplo 1:

“Entrou uma nova estagiária no escritório, uma loura estonteante. Ela é sensual e provocante, e o pior de tudo é que começou a me ‘dar bola’. Todos os meus amigos estão percebendo isso, e eu, que tenho sangue nas veias, comecei a me sentir tentado. Mesmo sendo casado e apaixonado pela minha esposa, mesmo ela me completando em tudo, eu sinto muita atração física pela nova estagiária. É só atração física e nada mais, mas é muito forte. Numa sexta feira os colegas do escritório marcaram um chope para depois do trabalho. A loura também estava nessa, e ela pessoalmente veio me convidar para ir também; eu não resisti e topei. Eu dizia para mim mesmo que nada aconteceria, que seria apenas um bate-papo inocente... Mas eu sabia muito bem que algo de errado poderia acontecer. E aconteceu (...).

Quando chegamos no bar, eu e a loura nos sentamos lado a lado; logo começamos a conversar, nos identificamos bastante, as nossas idéias eram parecidas e ficou claro que a atração física era recíproca. Bebemos talvez mais chopes do que o ideal. Num certo momento, ela pediu uma caipirinha e nós bebemos juntos. Eu comecei a me sentir muito leve e relaxado, era um momento muito gostoso... Resolvi pedir mais outra caipirinha...

Uma coisa leva a outra, e o resultado foi que, depois da happy hour, eu e a estagiária acabamos num motel... Cheguei em casa de madrugada, já arrependido. Eu tinha desligado o celular e minha esposa me esperava acordada e com os olhos inchados de chorar, ela estava muito preocupada (...). Eu dei uma desculpa e fomos dormir brigados.

Agora estou sentindo muito remorso. Na hora em que tudo acontecia, entre eu e a estagiária, de vez em quando a imagem da minha esposa me vinha à mente, mas eu a afastava sempre, porque estava indo tudo tão bem para mim... E naquele momento alguma coisa me dizia que eu merecia me divertir um pouco. Embora eu estivesse consciente o tempo todo que a minha esposa confiava em mim e que ela não merecia aquilo, na hora eu achei que seria preferível me arrepender de algo que eu fiz do que de algo que não fiz.

O que está feito está feito eu não consigo fugir da minha culpa. Depois fiquei me sentindo muito mal por isso, sentindo um grande vazio dentro de mim, como se eu tivesse matado algo muito bonito que existia entre mim e minha esposa. Depois daquela noite eu chegava em casa toda noite e olhava para o rosto dela, que sempre tinha sido tão maravilhosa comigo, e me sentia culpado. O pior é que depois desse dia ela começou a se sentir deprimida sem nenhuma razão. Antes ela me esperava sempre com um grande sorriso no rosto, às vezes com um jantar especial ou alguma surpresa para me fazer quando eu chegasse em casa, algum pequeno presente ou coisa assim. E depois do que aconteceu ela estava sempre triste e falava pouco... É como se estivesse intuindo alguma coisa... O pior é que a tal estagiária gostosa têm se demonstrado disposta a repetir a dose daquela noite. Mas eu não tenho vocação pra canalha e disse a ela que era casado... Ela não sabia disso da primeira vez.

Por fim, acabei contando tudo também à minha esposa, porque o peso na consciência estava me matando. Agora estamos separados e eu me encontro numa depressão profunda...”



Desse primeiro exemplo, gostaria de comentar um trechinho que achei muito interessante: "Achei que seria preferível me arrepender de algo que eu fiz do que de algo que eu não fiz". - Ô frasezinha feita maldita, essa! Quantas burradas são cometidas em nome dela... Uma amiga minha acabou grávida e depois se submetendo a um aborto por pensar assim! No processo todo, ela perdeu o cara que amava (a frase foi usada para justificar uma traição ao marido, igualzinho ao exemplo acima), perdeu um bom emprego e a confiança da sua família. E tudo começou com essa maldita frase feita. Eu estava lá, pessoalmente, no dia em que tudo começou e sou testemunha: ela mesma me falou essa frase, textualmente: "Prefiro me arrepender do que eu fiz do que pelo que não fiz"... Bem, ela sem dúvida se arrependeu por ter feito, e isso literalmente acabou com a vida dela, que até hoje sofre com uma depressão que os remédios não curam. Já tentei ajudá-la de diversas maneiras, mas ela nunca mais foi a mesma...


Exemplo 2:

“Meu filho de 15 anos arranjou uma briga na escola. Chegou em casa com o rosto machucado, lábios inchados e um corte no queixo. Quando ele me disse quem tinha feito aquilo, fiquei louco de ódio, porque eu conheço o garoto, que mora no mesmo bairro que nós, e ele é bem maior do que meu filho. Na mesma hora fui até a sua casa e o chamei, aos berros. Logo que o garoto saiu no portão, eu pulei em cima dele, joguei-o no chão e lhe dei uma bela surra. Só quando a mãe dele apareceu na porta e começou a gritar foi que eu saí de cima. Eu sou um cara bem grande (...) e deixei um menino de 16 anos lá, jogado no chão, sangrando e chorando...

Quando cheguei em casa já estava profundamente arrependido, e foi só então que me dei conta que o garoto era na verdade do mesmo tamanho do meu filho. E que ele também já estava com um olho roxo quando eu cheguei lá. Ou seja, o que aconteceu entre os dois meninos foi uma luta justa entre dois adolescentes, que haviam se acertado e na hora que eu resolvi intervir, na verdade já estava tudo bem entre eles. O meu filho até tentou me explicar isso, mas eu quis bancar o pai protetor, e talvez também me afirmar como macho, e fiz algo terrível. Naquela mesma noite a polícia veio até a minha casa e eu fui conduzido até o distrito policial para prestar depoimento... O garoto estava lá, ao lado dos pais dele, e só então eu percebi o quanto o havia machucado. Seu rosto estava praticamente desfigurado. Seu pai, que era meu conhecido, me olhava com uma expressão de pasmo, como quem diz: ‘O que deu em você?’(...).

Naquele momento eu vi o meu próprio filho nos olhos daquele garoto arrebentado, e um remorso enorme tomou conta de mim. Senti vontade de abraçar o menino que eu havia surrado, de lhe pedir perdão e recompensá-lo de algum modo. Lágrimas brotaram nos meus olhos, e o delegado nesse momento me disse: ‘Todo machão igual a você chora quando chega na minha frente. Você não passa de um covarde!’ – O pior é que, naquele momento, eu percebi que ele tinha toda razão. Eu tinha me comportado como um covarde completo, e agora era tarde para desfazer a minha estupidez. Teria que pagar pelo que fiz, mas nada era pior do que o peso da culpa...”



Não há dúvida nenhuma de que poderíamos citar milhares de outros exemplos muito parecidos com esses dois, mas acho que já é o suficiente para ilustrar a validade do oitavo princípio essencial da Cabala:

O marido infiel sentia uma grande atração pela "loura fatal". Ela correspondeu ao interesse. Ambos fizeram a ocasião acontecer e ele entrou de cara no que a Cabala chama de “comportamento reativo”. Quando se atirou nos braços da bela loura e saciou os seus desejos até o fim, naquele momento tudo foi muito bom para o rapaz. - Foi empolgante, foi incrível! - Tanto que, mesmo pensando na esposa ele seguiu em frente! Isso é exatamente o que o oitavo princípio chama de uma “faísca intensa de luz”: A sensação de que estamos fazendo o que é certo, ou de que estamos vivendo uma experiência pura e maravilhosa.

Precisamente a mesma coisa acontece no segundo exemplo. Quem de nós nunca foi dominado por uma raiva irracional e, ainda que por poucos instantes, desejou encher aquele chefe idiota de pancada? Quando o pai do rapaz agrediu o colega do seu filho, por um segundo ele deve ter sentido um grande prazer, uma sensação de alívio. Na sua mente, naquele momento distorcida pelo ódio, ele estava fazendo justiça, estava "vingando o coitadinho" do seu filho!

O que o princípio número oito está nos dizendo é exatamente isto: que quando você pára de resistir às tentações desta vida, e resolve reagir a elas, isto é, ceder aos seus instintos, por um momento tudo parece lhe dizer que você está fazendo o certo! Parece haver luz! Mas o que fica depois, é, "por fim, a escuridão". Pode demorar mais ou menos, mas a consequência é sempre a escuridão.

E para me manter em harmonia com a minha consciência, eu não poderia deixar de lembrar a todos os buscadores que isto é exatamente o contrário do que ensinam os “mestres” e “gurus” da nova: praticamente todos eles dizem que você deve se entregar, que você não deve resistir; que se você tem algum desejo, deve se entregar sem se reprimir. E que assim, naturalmente, no tempo devido tudo se resolverá por si mesmo. Ocorre que, nessa levada, milhares de vidas foram e continuam sendo perdidas, vidas de jovens que se entregam aos mais diversos tipos de vício e nunca mais conseguem se libertar. Nada se resolve quando nos entregamos ao comportamento reativo, porque não é isso o que acontece quando largamos mão e abandonamos o bom Caminho. A Verdade nos ensina o oposto disso. Quando deixamos de "resistir", nos tornamos como que barcos à deriva, e embora seja romântico imaginar que seremos levados, sem nenhum esforço de nossa parte, a um porto seguro, o que sempre acontece na prática é que as ondas da vida nos atiram às rochas e nos arrebentamos! - É justamente por isso que viemos a este mundo dotados de um "leme" (que é a nossa consciência) e de um "motor de popa" (que é o nosso poder de escolha, nosso livre arbítrio). Observação: ainda que você acredite em reencarnação e ache que, mesmo que botar tudo a perder nesta vida vai poder recomeçar tudo na próxima... Ainda assim, não se esqueça que a idéia é evolução, e ninguém "evolui" jogando sua vida fora. De qualquer jeito é preciso esforço. Nenhuma hipótese, absolutamente nenhuma, justifica o comportamento reativo. As religiões confirmam esta afirmação.

Além de tudo isso, para compreender este princípio é preciso ter em mente que "Religião" (re-ligare) significa "Religação com o Divino": re-ligação, isto é, voltar a ligar (unir) o que estava desligado (separado). Sem esta base primordial não há religião. E é exatamente por isso que não existe religião sem Deus: o "religar" remete à religação com Deus, o retorno à Fonte. Se o termo "Deus" não parece bom, você pode chamar de "Ser", "Infinito", "Radiante", "Fonte", "Criador", "Eterno", "Pai", "Energia Cósmica"... Mas o sentido será o mesmo, e o fato permanece: se não há Deus, podemos estar falando de filosofia, de psicologia ou alguma outra coisa. Pode ser algo bom, sim, mas não é religião. Assim, todas as religiões autênticas concordam neste oitavo princípio essencial da Cabala.



Doe cultura: doe alegria e oportunidades!


Pessoal, gostaria de aproveitar este nosso espaço comunitário para divulgar uma campanha, a meu ver importantíssima, que está sendo movida pelo governo do Estado (quando eles acertam devemos aplaudir): estou me referindo à "Campanha Nacional Para Doação de Livros às Bibliotecas dos Presídios". Considero esta uma iniciativa da maior importância, pois sabemos bem que os seres humanos que erraram e se encontram encarcerados, em nosso país, acabam tendo acesso a quase tudo nas cadeias: violência, desrespeito, "escola do crime"... Tudo menos cultura, educação, informação... Por isso mesmo, esta é uma ótima oportunidade para ajudar, com pouquíssimo esforço, a levar um mínimo de consolo em forma de cultura e distração até essas pessoas, muitas vezes desesperadas.

Para maiores informações clique aqui.

Para saber para onde encaminhar as doações no seu Estado, clique aqui.

Qualquer livro de segunda mão em bom estado serve. E é claro que livros novos também serão aceitos. Está aí mais uma linda oportunidade que a vida nos oferece para fazer o bem. Afinal, todos merecemos uma segunda chance, e sabemos de alguns casos de ex-presidiários que venceram na vida e até se tornaram escritores de sucesso, graças ao serviço de bibliotecas dos presídios.

Você também pode se informar através do tel gratuito: 0800 61 96 19 (Câmara dos Deputados).

Para quem mora em São Paulo, a entidade que está cuidando da campanha é o "Grupo Tortura Nunca Mais", que fica na rua Frei caneca, nº 986, na Bela Vista, e o telefone deles é o (011) 3283 3082.

Obrigado e um abençoado final de semana para todos!


Ohhhhh!.. Finalmente vou poder liberar um pouco de espaço nesta casa!

A mulher que ousa dizer "Não!" ao fundamentalismo

Ayaan Hirsi Ali

Escritora somali que lançou a autobiografia "Infiel" diz que o Islã não é compatível com a modernidade ocidental, além de criar uma cultura que provoca atraso a cada geração.

Por Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de São Paulo.


No primeiro parágrafo do livro "Infiel" (Companhia das Letras, 500 págs. - R$ 49), a escritora somali Ayaan Hirsi Ali, de 38 anos, conta que nasceu num país dilacerado pela guerra e foi criada num continente “mais conhecido pelo que dá errado do que pelo que dá certo”. Para os padrões da Somália, ela deveria, se ainda fosse religiosa, erguer as mãos ao céu por ainda estar viva e sã. E conta a razão: aos 5 anos, foi torturada pela avó até decorar os nomes de todos os ancestrais, como todos os filhos de nômades do deserto, sob o risco de ir para o inferno; ainda criança, foi “purificada” mediante a ablação da genitália (a chamada 'castração feminina'); finalmente, já adulta, começou a refletir sobre a condição feminina nos países muçulmanos e, obrigada a casar contra a sua vontade, deu um jeito de pedir asilo político ao desembarcar em solo holandês a caminho do Canadá. Foi na Holanda que conheceu há quatro anos o cineasta Theo Van Gogh, com quem colaborou no roteiro do filme "Submissão", definido por ela como um curta sobre os muitos tipos de sofrimento causados às mulheres pela sujeição ao Islã.

O filme acabou decretando a morte do cineasta por um muçulmano marroquino, em 2004. Van Gogh não deu a mínima quando a esposa o alertou sobre as mensagens divulgadas pela internet que exortavam os fiéis de Alá a dar um fim em ambos. - O cineasta acabou degolado na rua pelo fanático islâmico, que ainda fincou uma faca em seu peito com uma carta destinada à escritora. Nela, o assassino condenava os “atos criminosos” cometidos pela autora somali contra o Islã. - Desde então, Ayaan vive sob proteção policial, primeiro na Holanda, onde chegou a conquistar uma cadeira no Parlamento, e agora nos EUA. De lá ela concedeu uma entrevista ao jornal "Estado de São Paulo", em que define o islamismo como “incompatível com os direitos humanos e os valores liberais”.

Estado: Você diz que a mensagem de seu livro é que o Ocidente faz mal em prolongar a dor da transição do Islã para a modernidade, alçando culturas farisaicas à estatura de um estilo de vida alternativo. O Islã é, segundo seu ponto de vista, uma ameaça ao pensamento liberal?

Ayaan: Sim. (...) O mínimo que posso dizer é que a transição do Islã para a modernidade será muito difícil, porque o fundamentalismo religioso é incompatível com os valores democráticos. Ao ameaçar quem não crê na infalibilidade do Alcorão ou do profeta Maomé, os fundamentalistas criam uma cultura que provoca retrocessos a cada geração. O inferno começa quando alguém lembra que o Alcorão foi escrito num contexto e época diferentes e os radicais o acusam de infiel, por refutar as palavras de Deus. Temos de nos livrar dessa idéia de um deus ditador, como já fizeram várias religiões, entre elas o cristianismo.

Estado: A imprensa internacional costuma dizer que você e Theo van Gogh foram longe em sua crítica ao Islã. (...) Você acha que sua defesa da igualdade feminina e a condenação do islamismo não podem atiçar um sentimento racista contra os muçulmanos?

Ayaan: Não, ao contrário. Não defendo a abolição do Islã, nem que os muçulmanos sejam expulsos dos países ocidentais, mas, neste exato momento, milhões de mulheres muçulmanas estão trancadas em casa sem o poder de escolha que eu tenho. Quando alguém me diz que a cultura islâmica está calcada em tolerância, compaixão e liberdade, penso nessas mulheres muçulmanas e como elas farão para viver num mundo moderno. O mundo islâmico está preparado para uma revolução como a do cristianismo na era moderna? Não quando a teologia islâmica proíbe qualquer discussão sobre o Alcorão. Ao admitir que o profeta é infalível, os muçulmanos instituíram uma tirania permanente, renunciando à liberdade.

Estado: No momento em que desembarcou na Holanda, você tomou contato com um sistema moral alternativo, como admite em seu livro, notando que a história filosófica e religiosa ocidentais revelam que o Ocidente progrediu depois de questionar a literabilidade da Bíblia.

Ayaan: Entendo que há a necessidade de um estado laico, distante da ingerência religiosa. (...) Pode-se imaginar outro caminho para a evolução além de dogmas religiosos. A história da humanidade, claro, não é feita apenas de progresso. Avança-se às vezes para retroceder em outras ocasiões. O Islã nos faz retroceder. Eu, pessoalmente, recuso-me a voltar ao sétimo século e sei que muitas outras pessoas nascidas em países muçulmanos dividem a mesma posição.

Estado; Alguns jornalistas americanos gostam de provocá-la dizendo que você comprou a ideologia neoconservadora do American Enterprise Institute. Há mesmo quem diga que você estaria na mesma rota de David Frum, que cunhou a expressão “eixo do mal”, depois usada por Bush. Você acredita num “eixo do mal”?

Ayaan: Primeiro, é preciso dizer que nem todos são conservadores no American Enterprise Institute. Há democratas também. Depois, é preciso lembrar que o instituto nasceu com o propósito de pensar a questão do mercado e influenciar governos, não o de ditar suas políticas externas. Se eu acredito em eixo do mal? Acredito, sim. É só analisar a ameaça das bombas atômicas no caso iraniano, prestes a ser fabricada, ou o caso da Coréia do Norte.

Estado: Você se arrepende de ter feito o filme "Submissão" com Theo van Gogh quando pensa em sua morte ou nas ameaças que você recebeu?

Ayaan: Não. Theo tampouco deu atenção às ameaças, porque preferia morrer a ver seu país transformado pelo medo. Ele dizia: “Ayaan, este é meu país, este é meu filme. Se eu não fizer 'Submissão', estarei morando num país de bárbaros, e não mais na Holanda.”

Estado: Salman Rushdie escreveu um texto que a define como a primeira refugiada da Europa desde o Holocausto, um testemunho único da fraqueza e, ao mesmo tempo, da fortaleza do Ocidente. Como você vê seu futuro e o do mundo?

Ayaan: O Islã foi fundado nos desertos árabes, dentro de uma realidade tribal que nada mais tem a ver com o mundo moderno. É duro ser uma exilada, mas não quero ser uma bandeira ou lutar contra ninguém. Digo apenas que devemos desbloquear nossas mentes. Esta é a minha contribuição para as gerações futuras.


Um trecho do livro:

“O filme que Theo e eu fizemos, “Submissão: Primeira Parte”, fala sobretudo da relação do indivíduo com Alá. No Islã, ao contrário do cristianismo ou do judaísmo, a relação do indivíduo com Deus é de submissão total, de escravo para com o senhor. Para os muçulmanos, adorar a Deus significa obediência total às normas de Maomé e abstinência total de pensamentos e atos que ele declarasse proibidos pelo Alcorão. Para modernizar o Islã e adaptá-lo aos ideais contemporâneos, seria necessário dialogar com Deus e até divergir de algumas regras maometanas. Mas no Islã tal como foi concebido, discordar do profeta é uma insolência. (...) Quando comecei a escrever o roteiro do filme, decidi usar o formato de oração para criar uma espécie de diálogo com Alá. Imaginei uma mulher prostrada...”

Princípio essencial da Kabbalah #7

Apresentando agora o sétimo princípio essencial da Cabala:

"Resistir aos nossos impulsos reativos cria Luz permanente."





Ao meu ver, este é o tipo de princípio espiritualista que funciona na prática, que traz em si um imenso potencial, porque se posto em prática pode se revelar útil a todos, aos que têm e também aos que não têm fé.

Apesar de as desarmonias próximas afetarem a nossa vida doméstica, a desarmonia e as violências mundiais também acabam afetando o Todo, e assim refletindo-se em nossas vidas individuais. A muitos místicos, o Todo parece estar doente, muito doente. A Terra, com a sua fauna e a sua flora e com todos os seus habitantes, está doente, e no mais profundo de nossas consciências nós todos sabemos o por quê. A Mãe Terra adoece nas mesmas proporções em que perdemos os nossos valores éticos e morais e deixamos de observar as nossas ações. E assim praticamos ou admitimos que se pratiquem (o que em termos práticos é a mesma coisa) violências contra nossas florestas, nossos rios, lagos e mares, e contra diversas espécies animais e vegetais e também contra os grupos de seres humanos mais humildes, nações inteiras que se encontram ainda num estágio de desenvolvimento longe do ideal...

E se a desarmonia e a violência, em nível mundial, fazem adoecer a Mãe Terra, será que a nossa desarmonia particular igualmente nos adoece?

Quando alguém perde a paciência, grita e esbraveja, é comum alguém dizer: “Acalme-se, senão você acaba doente!”. Nós todos já dissemos ou ouvimos algo parecido com isso alguma vez na vida. - Este é um exemplo de expressões que demonstram o nosso entendimento instintivo de que há conexões profundas entre o nosso estado mental e o estado de nossos corpos físicos. Afinal, cabeça e corpo fazem parte de um todo que é influenciado principalmente por nossas emoções, isto já comprovado e demonstrado clinicamente. E as nossas emoções negativas, especialmente a raiva, a frustração, o ódio e todas as respostas reativas do nosso ego, são capazes de causar desequilíbrios que podem provocar doenças em nossos corpos e principalmente em nossa psique.

A raiva, ou seja, a ação manifestada de nossas fúrias interiores, age como uma descarga energética excessiva e pode se manifestar de várias maneiras: pode ser verbal e pode resultar em agressões e violência direta. Ou podemos tentar "esfriar" a raiva, mantendo-a no baú do inconsciente, esperando um momento adequado para manifestá-la. Muitos fazem isso repetidamente, de maneira fria, calculada e mordaz. Existem dor e frustração envolvidas nesta raiva contida, que acabará por causar doenças de manifestação lenta e interna.

O “esfriamento” da raiva provoca ressentimento. Pessoas que agem assim procurarão analisar de maneira lógica as razões da raiva, achando que, com uma análise fria e racional poderão esconjurar a sua reação animal e instintiva. Mas o esfriamento excessivo pode acabar explodindo num sentido oposto, ou seja, virar ódio e se tornar incontrolável e mais destrutivo do que nunca quando for finalmente manifestado!

O indivíduo também pode querer negar, num primeiro momento, a sensação de frustração e raiva que sente por dentro. Tudo fica bem guardado no subconsciente, e vai se afundando nas profundezas da psique. A pessoa torna-se acabrunhada e depressiva. Mas a raiva vai e volta, como as ondas do mar, e poderá vir à tona como um furacão para destruir tudo o que encontrar pelo caminho, dentro e fora do ser.

O importante nesse caso é entender que somos nós mesmos os responsáveis por "disparar o gatilho" que dá origem à raiva: quando agimos de forma egocêntrica, ou seja, comandados pelo ego (que é influenciado entre outras coisas pelo meio social em que vivemos), estamos apertando o gatilho. Nosso ego representa em parte o aspecto físico e em parte o aspecto psicológico de nossa personalidade. Ele se conecta diretamente com nossos instintos animais, expressando as necessidades e instintos de sobrevivência do nosso corpo físico. Formamos o nosso ego logo na primeira parte da nossa vida, influenciados pelo ambiente em que formos criados. Os pais, (principalmente a mãe), a família, o ambiente doméstico e posteriormente o ambiente social, - a sociedade na qual formamos nossas primeiras noções sociais, - todos são formadores do ego, a nossa auto-imagem. Estamos sempre sob essa influência, nossas vidas inteiras, e ela acabará norteando muitas das nossas escolhas. Somente quando conseguirmos descobrir e desenvolver toda a potencialidade da nossa essência real, dando ouvidos ao que muitos místicos chamaram de “Eu Interior”, é que poderemos fugir dessa influência negativa.

Os cabalistas preconizam que, quando pudermos tomar as rédeas de nossas vidas, escolhendo nossas ações de forma consciente, poderemos escolher puxar ou não o gatilho daquela arma mortal desencadeadora de tantos males físicos e espirituais. Se despejarmos a nossa raiva nos outros somente porque não podemos admitir nossos erros, se precisarmos de um “bode expiatório” para ser objeto da nossa ira e da nossa frustração, então estaremos espalhando negatividade ao nosso redor e influenciando negativamente nosso “campo energético” - o que significa contribuir para a piora do estado geral do Todo.

Mas é fundamental compreender que o fato de "explodirmos" ou nos contermos, exteriorizar ou interiorizar a nossa raiva não irá modificar a nossa essência interior primordial, que continuará negativa. Mesmo a negação pode ser uma arma do medo e abrir certos mecanismos de defesa psíquicos/orgânicos bastante perigosos. A contrapartida é que despejar a raiva em outra pessoa também não recompõe o nosso equilibro, como muitos parecem acreditar.

Segundo a Cabala, para vivermos de forma harmoniosa é necessário estarmos sempre atentos às nossas “formas-pensamento”. Se conseguirmos transmutar o negativo em positivo, dentro de nós mesmos, estaremos no real caminho da autocura. O sentido é: o auto controle que vai nos permitir passarmos de uma condição puramente reativa (na qual apenas reagimos aos acontecimentos) para a liberdade da condição humana proativa (onde somos nós que decidimos as nossas ações – fazemos as nossas escolhas independente de fatores externos) vai depender principalmente da forma como conseguirmos resistir aos nossos impulsos egocêntricos e reativos, para "desengatilhar" essas armas mortais.

Seria muito interessante se nos lembrássemos disso a cada vez que estivéssemos a um passo de perdermos a paciência com o nosso próximo. Fazendo desse exercício um ato de Amor universal, ajudaremos também a curar o TODO.




Resumo: resistir aos nossos impulsos reativos com cada vez mais freqüência fatalmente vai nos conduzir a um novo patamar de consciência. A dedicação firme e constante a essa prática, diariamente, leva a uma evolução gradual e constante em direção à proatividade. Reatividade ou proatividade tem muito a ver com hábito. Alguém que costuma gritar (reação) toda vez que é contrariado, vai continuar gritando sempre, até que decida que gritar não é uma atitude muito madura. Se ele começar a se esforçar em contra-argumentar ao invés de gritar, e se a cada nova situação de contrariedade ele se lembrar disso, aos poucos o antigo hábito de gritar será substituído pelo novo hábito de contra-argumentar. Isto é proatividade - a diferença entre apenas reagir a acontecimentos que fogem do nosso controle e agir segundo uma escolha pessoal, determinada pela opção por algo que se escolheu como adequado e bom. Não é engolir a raiva. Não se trata de se reprimir, mas sim de saber observar-se e não sair do seu nível vibracional normal (de serenidade, por exemplo) por conta de circunstâncias externas. O clássico conto zen-budista do lendário espadachim idoso é um exemplo perfeito de comportamento proativo:

Perto de Edo (antigo nome da cidade de Tóquio) vivia um grande samurai, já idoso, que amava ensinar sua filosofia para os jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ele ainda era capaz de derrotar qualquer adversário com a espada. Certa tarde, um jovem guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de grande habilidade para contra-atacar em qualquer pequena brecha da investida do oponente, agia com velocidade fulminante. Esta sua técnica nunca havia falhado até então, tornando-o um espadachim imbatível.

Este impaciente guerreiro, conhecendo a reputação do velho samurai, procurou-o para derrotá-lo, e aumentar assim a sua fama de ronim (guerreiro errante) invencível. Todos os estudantes do velho samurai manifestaram-se contra a idéia, mas o honrado sensei aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e logo que os dois se puseram frente a frente, o jovem espadachim rapidamente começou a insultar o ancião. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seus trajes, gritou-lhe todos os insultos conhecidos - ofendeu inclusive seus ancestrais. Durante horas fez de tudo para provocá-lo, mas o velho samurai permaneceu impassível. E assim continuaram por toda a tarde...

Ao final do dia e com o sol já se pondo, o impetuoso guerreiro retirou-se, sentindo-se exausto e humilhado. Mas alguns alunos, desapontados pelo fato de o seu mestre ter aceito tantos insultos e provocações, perguntaram: "Como o senhor pôde suportar tanta indignidade ? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar covardia diante de todos nós?

Então o velho espadachim perguntou a eles:
"Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?" - "A quem tentou entregá-lo" - responderam eles. "O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos - concluiu o ancião - "Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carrega consigo".


Ainda que a abordagem que eu tenha escolhido neste post tenha sido pragmática, sem dúvida alguma existiriam infinitas outras maneiras de abordar a importância deste princípio e o significado de se criar Luz permanente em nossas vidas, inclusive sob uma perspectiva mais mística. No entanto, sabemos que o nosso comportamento objetivo e a nossa via concreta de conduta, incluindo o nosso modo de pensar e a nossa postura mental, a longo prazo se tornam a própria “imagem” do espírito.

Não reaja. Resista e crie Luz! Eis o sentido final do sétimo princípio essencial da Cabala.


Sobre reatividade e proatividade eu falei anteriormente aqui.

Fontes:
Kabbalah Centre;
Rabino Yehuda Berg;
Profª Graziella Marraccini.