Elucubrações psicológicas sobre Mistério e Liberdade...

O post sobre o sétimo princípio essencial da Cabala já está sendo produzido. Mas pretendo concluí-lo e publicá-lo só amanhã ou depois, porque antes de entrar nesse assunto gostaria de compartilhar com vocês o trecho de uma obra literária que tem muito a ver com os assuntos de interesse deste blog. O livro, cuja leitura estou concluindo agora (o trecho em questão eu li ontem à noite e na mesma hora resolvi que o publicaria aqui) é da autoria do Dr. Flávio Gikovate, profissional da psicologia/psiquiatria reconhecido em todo o mundo, e aborda as principais constitutivas da mente humana: consciência, razão, ideais e idealismos, anseios, medos, fé (egoísta e altruísta)... Ao mesmo tempo, retrata a maneira peculiar como os seres humanos se relacionam com as questões fundamentais da vida, desde a curiosidade metafísica da adolescência até as meditações sobre a morte da velhice, passando pelas inúmeras tentativas que fazemos ao longo da nossa existência terrena, num esforço supremo para conciliar o nosso lado racional com as nossas tendências místicas. Tudo a ver com o Arte das artes, repito. Achei particularmente bem interessante como em muitos pontos a opinião de um autor agnóstico e secular é parecida (quando não idêntica) à deste buscador que vos fala. Uma boa leitura para você, porque vale à pena!


A sensação de desamparo existe em todas as pessoas, mas é provável que existam circunstâncias atenuadoras e agravantes desta dor. Acredito que, do ponto de vista psicológico, a grande agravante seria uma capacidade intelectual maior. – Crianças mais inteligentes perguntam mais sobre a origem da vida e das coisas da morte; se satisfazem mal com as respostas que ouvem; são capazes de criar novas perguntas, novos dilemas. Enquanto isso, aquelas de inteligência menor se satisfazem com as respostas usuais e se sentem mais serenas com isto.

Creio também que uma ordem social e familiar mais estável atenue esta sensação na maioria das pessoas, pois as rupturas dos vínculos familiares nunca chegam a se dar de modo completo. Na arcaica estrutura do clã, por exemplo, os jovens gravitavam em torno dos patriarcas por longo tempo. Depois sua descendência fazia o mesmo com eles; desta forma, a vida familiar era muito mais intensa e as pessoas se sentiam mais solidárias e menos solitárias. Da mesma forma, a existência de um soberano (como um rei ou imperador) e de classes sociais estáveis e imutáveis, determinava pontos de segurança e de apoio mais sólidos dos que existem nos tempos atuais. E isto não significa que deveríamos retornar a este tipo de vida familiar e social; apenas nos mostra que as alterações que aconteceram com o passar do tempo realçaram este importante componente da psicologia humana.

Não creio que existam dúvidas de que o enfraquecimento das convicções religiosas tradicionais tenha sido um importante fator para tornar evidente a dor do desamparo; inversamente, me parece provável que a religiosidade como foi exercida – e ainda o é por muitas pessoas – servia aos propósitos de atenuar esta dor. A idéia de um Deus onipresente pode ter surgido como solução para a sensação de solidão do homem, perplexo diante do mundo, se sentindo abandonado e solto na medida em que se torna mais consciente de si mesmo e mais desligado dos pais de uma maneira compulsória e contra a sua vontade. Estas são hipóteses minhas, mas eu afirmo que não se pode usar estas observações como "prova" da inexistência de Deus.

Resumindo, a dor do desamparo seria máxima numa criança extremamente inteligente, com maior capacidade de abstração – coisa que a faz aceitar melhor a separação edipiana – e maior tolerância a frustrações. Porém, os mais intolerantes tratam de fugir rapidamente desta dor através de todos os recursos disponíveis: apego a coisas materiais e empenho em consegui-los a qualquer custo, persistência nos vínculos familiares cuja separação é muito dolorosa, apego às convicções religiosas ou materialistas com pouca reflexão crítica, ligações com ouros seres humanos sob a forma de grupos de amizades e etc. O desamparo é maior ainda quando a vida familiar é conturbada e instável, o mesmo se dando na vida política e, ainda mais grave, também no plano das idéias, situação da qual não há no que se apegar para atenuar o desespero. Talvez porque estejamos vivendo uma época deste tipo é que tal aspecto do homem esteja tão ressaltado, de modo a podermos observá-lo melhor; e isto pode ser o início de um outro modo de reflexão capaz de trazer algum tipo de proposta nova, coisa que só costuma ocorrer quando a condição humana se torna insuportável.

A dor do desamparo surge de modo mais evidente a partir da ruptura edipiana e em decorrência do desenvolvimento da razão, quando o indivíduo pode ficar confuso e cheio de dúvidas a respeito do mundo que o cerca. Mas, de certa forma, creio que é sensação similar à que a criança sente ao nascer, ao se perceber longe do conforto do ventre da mãe, nos primeiros tempos de vida. A sensação é física, profundamente desagradável, ligada a um desconforto difuso – talvez mais localizada na região gástrica. Seria uma espécie de revolta contra o fato de ter nascido, o que vale dizer estar sujeito a todo tipo de desprazer físico. Segundo acredito, porém, a dor do desamparo assume sua expressão máxima através de um processo racional, da reflexão – apesar de que ela persiste sendo sentida como desconforto também físico. Ou seja, se nascer é uma experiência extremamente traumática, muito pior é se perceber que a origem da vida é desconhecida.

E quando me refiro à origem da vida, não estou falando das primeiras curiosidades infantis acerca da reprodução humana, fenômeno que costuma aparecer pelos 5-6 anos de idade. Para estas já temos algumas explicações, ao menos as noções suficientes para saciar a curiosidade de uma criança. A questão é bastante mais complexa e as dúvidas vão crescendo e ganhando a complexidade da razão, conforme ela vai se tornando capaz de perceber a grandeza do Universo, as distâncias entre as estrelas medidas em milhões de anos-luz, os fenômenos da natureza física, mineral, vegetal, animal... Todos recheados de mistérios intrigantes. Afinal de contas, de onde surgiu tudo isto? Para que existem todas estas coisas? Quem as criou? Sempre existiram? O universo é finito ou infinito? Qual o sentido da vida? Estas são as perguntas capazes de atormentar o espírito cada vez mais, desde a infância até a velhice, de uma forma crescente. Sim, porque quanto mais tentamos saber e nos informar, maiores são as dúvidas e os mistérios.




O desconforto da razão são as dúvidas, as perguntas sem resposta. E elas funcionam de modo similar à fome para o corpo. Surge um desejo intenso de resolvê-las com a finalidade de atenuar o sofrimento, agora originado exclusivamente da capacidade racional do homem, perplexo diante da realidade que o cerca. E isto explica o fato de amaioria das pessoas se apegarem às concepções em vigor na sua época, se contentarem superficialmente com elas e tratarem de deixar este tipo de questão de lado e, mais que depressa, se dedicarem às de ordem prática, ligadas ao aprendizado de uma profissão, ganhar a vida, ter prazeres sexuais e afetivos, etc.

Numa reflexão mais acurada, podemos perceber que o grande e dramático evento determinante da dor do desamparo é o fato de que a origem da vida e do Universo é um mistério, e mais, que jamais será decifrado. Todas as sensações físicas infantis similares se reforçam brutalmente através desta constatação intelectual posterior e verdadeira. Quaisquer que fossem os esforços psico-pedagógicos capazes de atenuar este sofrimento físico infantil esbarrariam com o obstáculo intelectual, que é intransponível e definitivo. Com isto fica evidente que o grande e fundamental problema do ser humano não é de natureza psicológica por si, mas sim de tipo filosófico: como existir, como ser, como se comportar uma criatura que tem que aceitar que desconhece sua origem? Como pode o ser humano mais maduro e sábio se sentir amparado se ele não sabe de onde veio?

Sendo a dúvida um desconforto difícil de ser suportado por si e reforçador da dor do desamparo, é evidente que o espírito humano tem se esforçado para encontrar soluções convincentes. A idéia de um Ser criador do universo, da Terra, dos animais e dos homens – um Deus – sempre foi a mais atraente para os nossos ancestrais, perplexos diante do mistério da vida. A idéia é lógica, e até bastante provável, já que a hipótese oposta – que tomou corpo a partir de algumas importantes descobertas da física, astronomia e biologia, importantes mas também bastante superficiais em relação à magnitude do mistério – seria a de que o Universo sempre existiu, que não foi criado, coisa bastante difícil de ser compreendida e sustentada com argumentos.

Já disse que o pensamento materialista, na tentativa de provar a inexistência de um Deus, se vale do fato de que as nossas concepções de Deus são obviamente humanas, e por isso mesmo insuficientes, para provar a sua existência. Usa também certas descobertas científicas sugestivas de que existem indícios de uma evolução causal e espontânea da matéria inanimada para a vida e desta até o homem como "prova" de que tudo se construiu sem a intervenção de uma Força Superior, uma Divindade. Outra vez o raciocínio é primário, pois a descoberta de determinados processos absolutamente não é argumento suficiente para se acreditar que o Universo sempre existiu. Mesmo que se possa demonstrar que a vida pode ter surgido espontaneamente, muitas vezes o que sobram são dúvidas que jamais poderão ser respondidas. A fé no desenvolvimento da ciência é da mesma natureza que a fé em Deus: duas formas, opostas na formulação, para se fugir ao desconforto determinado pela verdade. E a verdade indiscutível é que a origem da vida é um mistério.

Sou tentado a escrever Mistério – com inicial maiúscula – da mesma forma que sempre se escreveu sobre as divindades. A idéia básica seria esta: o homem não é filho de Deus e nem descendente de algum ancestral comum também aos macacos. Ele é fruto de um Mistério original. Sua desgraça e o fascínio de sua vida se alicerçam no fato de que ele tem que existir ignorante acerca de sua origem e, obviamente, do seu destino. Qualquer explicação será precária e apenas terá a finalidade de atenuar o desconforto da dúvida original. O desamparo é sensação natural e obrigatória deste ser, de modo que sua tarefa maior é aprender a conviver com esta dor e não tratar de fugir dela a qualquer custo. E não será bastante provável que uma boa parte da nossa energia nós a gastemos exatamente no sentido de fugir dela a qualquer custo? E não será bastante provável que uma boa parte da nossa energia nóa a gastemos exatamente no sentido de fugir desta verdade?

Quem crê em Deus se apazigua, vive conforme o bem, se alimenta do prazer da renúncia e da certeza de uma vida futura melhor. Quem acredita que a vida termina com a morte trata de aproveitá-la da melhor forma possível do ponto de vista dos prazeres carnais e materiais, sempre meio apressado, pois o medo da morte antes do tempo determina este estado, além de desenvolver seu eventual idealismo na direção de ação política. E como é que vive a pessoa que se sabe fruto do Mistério?

Não deixa de ser curioso e perturbador pensar com seriedade que se é filho do Mistério. Que existe ao menos uma coisa maior que o homem: o Mistério acerca de sua origem. Que a partir desta verdade primária, tudo é possível de existir, tudo é tema de interesse e reflexão, nada há de definido ou pré-estabelecido. Nem é verdade que há vida depois da morte e nem que a vida termina com a morte. Tudo é mistério, tudo pode ser pensado. Interessa o progresso da ciência tanto quanto interessa o poema. Pode existir alma de outros mundos que venham nos visitar, e tudo pode ser fruto da fabulação humana. Podem existir – ou não – “discos voadores”. – porque sim e porque não? O conteúdo dos sonhos podem ser de uma natureza que transcenda as experiências já vividas e mesmo conter sabedoria para além daquela que o indivíduo experimentou; ou não.

De repente me apercebo que a idéia – a meu ver indiscutível – de que o homem é filho do Mistério abre uma perspectiva intelectual e de vivências nunca antes proposta. O homem que se aceita como tal, que suporta a dor desta dúvida original e não tenta encontrar uma explicação para ela, se aproxima daquilo que sou tentado a chamar de homem livre. E o medo da liberdade, evento indiscutivelmente existente no ser humano, seria a incapacidade de lidar com a dor e o desespero próprio do desamparo real e característico da espécie. Os outros componentes ligados ao medo de desafeto, de perda de privilégios, etc. – Aos quais estão sujeitas as pessoas que se comportam de um modo diferente do esperado, nada mais são do que casos particulares do medo do desamparo, próprio da solidão à qual supostamente estaria condenado o homem livre.




Do livro Em Busca da Felicidade, obra do Dr. Flavio Gikovate. - Editora Summus, 1981.



Deixe espaço para o "talvez"

Uma meditação para hoje...



um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.

"Que má sorte!" - Disseram eles, solidariamente.

"Talvez", o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.

"Que maravilha!" - Os vizinhos exclamaram.

"Talvez", replicou o velho homem.

No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.

"Que pena...” - disseram.

"Talvez", respondeu o fazendeiro.

No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor. O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:

"Talvez"...



Desdobramento essencial

O post anterior, sobre o sexto princípio essencial da Cabala, resultou num desdobramento maravilhoso via Livro de Mensagens. Eu realmente não esperava que as minhas exposições propositalmente provocativas tivessem consequências tão boas. Meu amigo 'Gugu' nos trouxe uma verdadeira pérola, um comentário que resumiu e demonstrou magistralmente o cerne de uma linha do pensamento humano que muito provavelmente existe desde as nossas origens. - Uma linha filosófica/espiritualista que ganhou muitos nomes com o passar do tempo, mas cuja essência permaneceu sempre a mesma. - Eu não creio que seria capaz de fazer uma exposição mais perfeita a esse respeito, por isso vou publicar a mensagem deixada por ele na íntegra, aqui, seguida da minha réplica. Um diálogo interessante, eu diria, e acho que será uma leitura muito útil. Resolvi fazer isso porque considero realmente importante falar sobre o assunto, e sei que vai facilitar a compreensão sobre algumas das diferenças fundamentais que existem entre algumas das primeiras e principais concepções religiosas da humanidade...


Réplica de Gustavo sobre o 6° princípio essencial da Cabala

No mundo de Deus não existe pessoa sendo atingida por uma bala perdida. É claro que isso pode acontecer aqui no mundo em que vivemos - essas coisas acontecem o tempo todo, - mas eu estou falando de um outro plano, de um outro mundo. "O meu Reino não é deste mundo", e essa é uma afirmação que pode ser vivida por cada ser humano existente, porque Deus não faz concessões: Ele existe no ser de cada homem e mulher nessa face da Terra. Assim, entrar no Reino de Deus é uma questão de esforço pessoal. A pessoa precisa aprender a discernir a Realidade Espiritual em meio a essa tumultuada realidade fenomênica, que é "este mundo". E o Reino que Cristo dizia ser dele não era "deste mundo".

Se eu conseguir entrar neste Reino, isso não significa que todas as pessoas do mundo inteiro ficarão curadas, terão alimentos para comer ou que irão cessar de sofrer. Significa que o meu mundo será transformado, apenas o meu. Porque eu, você, o Mizi, a Fiat, a Cris, o Daniel
(participantes do blog)... todos nós somos uma consciência individualizada. Temos que entender isso pelo menos teoricamente. - É muito importante.

Para dar um exemplo: você está lendo este blog sobre espiritualidade e, no entanto, talvez na própria sala em que você está sentado existe um rádio ou uma televisão que poderiam lhe dar todas as formas de entrenimento: programas de humor, filmes de ação, romance, terror, comédia, etc. Mas você está aqui lendo um blog sobre espiritualidade! Pergunte a dezenas ou milhares de pessoas se alguma coisa no mundo poderia ser mais maçante, sem graça ou desinteressante do que tais assuntos.

Então, por que você gosta de estar aqui? Por que você passa o seu tempo fazendo isso? É porque você está vivendo em um mundo diferente do mundo habitual da maioria das pessoas. Talvez uma citação espiritual, um pensamento espiritual lhe dêem mais prazer do que o filme de cinema mais espetacular. E por que isso? Porque você já não está mais em um mundo onde essas coisas são a medida do seu prazer. Você deixou aquele mundo. Mas muitas pessoas ainda habitam aquele mundo. Percebe, então, que todos nós, por sermos consciências individualizadas, embora compartilhemos do mesmo planeta, todos nós vivemos em "mundos" diferentes?

E cada pessoa que habita um determinado mundo se sintoniza com outras almas, - consciências individualizadas - que também estão sintonizadas naquela mesma 'frequência de vibração'. Pessoas que habitam mundos diferentes são afastadas uma das outras pela vibração de suas próprias frequências. Uma pessoa que vive de forma a pensar que é uma coitada, que não possui significância, automaticamente se sintoniza/adentra um mundo (que estava potencialmente manifestado) em que encontrará pessoas para humilhar e pisar em cima dela. E assim por diante...

Por isso, quando uma pessoa conscientiza o "Reino que não é deste mundo"... em primeiro lugar, a maioria dos relacionamentos dela será com pessoas de mesma frequência vibratória, ou então de frenquências vibratórias parecidas, que estejam próximas uma da outra. No mundo dessas pessoas, nada de ruim acontece à elas: se há uma epidemia na cidade, ela não será infectada, pois ela bem sabe que "no mundo de Deus não existe tal coisa como epidemias". Se houver outras pessoas com quem ela entrar em contato, elas acabam sendo beneficiadas pelo fato da consciência dela ter aprendido a se elevar e habitar a Verdade. Assim, se uma das pessoas doentes entrarem em contato com ela, o Cristo que a habita irá curar (ou seja, normalizar a situação) a pessoa que estava com a epidemia. Assim, a nossa conscientização da Verdade não é capaz de mudar o mundo inteiro, pois há uma lei que respeita o livre arbítrio de cada individualidade existente. Se "B" está numa frequência mais baixa, ele possui o direito de viver o mundo dele. Então, o máximo que dá para fazer é melhorar a situação daqueles que entram em contato com a gente. É assim que funciona.

Então, é por tudo o que foi dito que é extremamente importante que as pessoas saibam quem elas realmente são. Todas as pessoas são "Filhos de Deus", elas são a Vida de Deus se expressando. E dizer isso não é blasfêmia. Se alguém aí aprendeu que Deus e o homem estão separados um do outro, então essa pessoa tem vivido no maior pecado de todos. Separar Deus de si, isso é blasfêmia; significa rejeitar Deus... é uma tremenda desconsideração.

Alguém aí já ouviu falar que Cristo ou Buda passou fome? Que eles não tinham roupas para vestir? Vamos puxar a conversa para uma época mais atual... Será que alguns iluminados do século passado passaram fome, não tinham onde morar ou viviam infelizes na miséria? Jiddu Krishnamurti, U.G. Krishnamurti, Ramana Maharshi, Osho... Todos eles foram supridos de acordo com o que necessitavam para sentirem-se bem nesse mundo. E uma curiosidade: eu li uma vez sobre a história de vida de UG Krishamurti... e esse cara, quando mais novo, passou por uma tremenda dificuldade na vida. Antes ele não tinha nem uma casa pra morar. Ele teve um caso de decepção amorosa na França, onde sua toda sua vida desmoronou, e depois disso foi viver como mendigo no país da Índia. Depois, ele teve um encontro com Ramana Maharshi, e aquele encontro modificou a vida de UG. E depois que ele conquistou a iluminação, as coisas na vida dele começaram a serem supridas como que "por milagre". Mas, na verdade, não foram nada mais do que "acréscimos" que vieram na vida dele, que buscou primeiro o Reino de Deus.

Por isso Cristo disse: "Ide e espalhai o evangelho aos quatro cantos do mundo"... porque o mundo necessita saber e tomar consciência de que "O Reino de Deus é chegado". É um ato de amor ao próximo. Espalhar o evangelho de Jesus, possibilitando assim que todas as pessoas aprendam que elas são 'Filhas de Deus', isso é um tremendo ato de amor para com o próximo. Porque aí, elas podem aprender a entrar em contato com a Vida íntima que habita a fonte, o interior de cada um de nós... e de lá retirar tudo o que é necessário para uma vida/existência feliz aqui na Terra.

A felicidade tem de ser pra já! O Reino de Deus tem de estar sendo nos oferecido agora! Porque nosso ser vive no AGORA. Não existe tal coisa como um Céu esperando por nós lá no fim de nossas vidas. Não é lá no fim que nós estamos. Nós estamos aqui. Nós nunca estaremos lá. Esse "lá" não existe. O Céu só pode estar aqui. Deus só pode estar aqui.

As coisas que Deus promete são para esta vida mesmo, que estamos vivendo. Porque não existe outra coisa, agora, senão esta vida que estamos vivendo. Por isso, todos temos direito à vivermos exatamente como gostaríamos que a vida fosse. Por exemplo: se eu possuo necessidade de viajar muito, se é isso que me faz feliz, então a providência de Deus irá me providenciar todas essas coisas. Se eu tiver muita necessidade de determinada coisa, que culpa eu tenho disso? Nenhuma, porque esses são desejos que emergem do meu ser de forma natural. É algo que faz parte da Natureza. Faz tão parte da natureza quanto o faz uma planta, uma rocha, ou uma estrela no céu. Precisamos aprender a ver todas as coisas como um Todo. Aliás, o primeiro princípio da Cabala não afirma que nós somos nossos "desejos"? Há algum mal nisso? É claro que não!

Se as necessidades de uma pessoa implicarem em muito dispêndio de dinheiro, ao passo que as de outra pessoa impliquem em gastos mais moderados... provavelmente a maioria dos homens irá olhar para a primeira pessoa e pensar "esse cara tá aí esbanjando dinheiro, enquanto tem um monte de gente por aí precisando", ou seja... É provável essa pessoa acabar sendo julgada. Não estou querendo entrar no mérito da importância de ajudar a quem esteja passando por necessidades. É claro que isso é algo muito importante. Esse conceito de ajudar os necessitados já é mais do que um consenso, todos no mundo concordam com ele. O paradigma que necessita se modificado é: cada pessoa merece passar por esta vida tendo tudo o que for necessário para ser feliz. E que outra forma de felicidade existe senão o saciamento dos nossos desejos? Sim, a Cabala está certa: Somos os nossos desejos. E a felicidade só vem quando conseguimos torná-los realidade, os experimentarmos e finalmente nos tornarmos saciados.

E a Luz de Deus, que é infinita, ilimitada, possui o suficiente para saciar cada um dos Filhos de Deus. Lembrem-se: "É do meu agrado dar-vos o Reino". Isso é do agrado de Deus... porque Deus tem tanto, mas tanto!!! Que a natureza deEle não poderia ser outra senão doar. Assim, pensem no tanto que Deus fica feliz quando nós permitimos que ele se doe a nós! Ele deve sentir uma tremenda realização, quando isso acontece.

Nós estamos aqui para recebermos as dádivas de Deus e compartilhá-las com os outros. Sim, além de recebermos, também temos a necessidade de cumprir o papel de doadores... porque Deus está em nós. Nosso ser também possui a mesma natureza de Deus. Deus é doador. Nós somos receptores e doadores. Como Deus só pode doar... ele criou a gente pra podermos receber dEle. Essa foi a única alternativa que Ele tinha, visto que essa era a única coisa que lhe "faltava". Em princípio, o nosso receber está relacionado à Deus, mas também está relacionado às outras pessoas. Deus dá sua Luz, e nós, que também temos a necessidade de doar, compartilhamos a Sua luz com os outros. No fundo, no fundo, é Deus doa para si mesmo e recebe de si mesmo. Então, todas essas coisas... é tudo devido à Deus. Afinal, só há Deus! Tudo o que existe é para a glória de Deus!




Como eu havia dito, uma explanação muito bem feita. Sou grato por este blog ter atraído mentes assim. Vamos agora à minha resposta:



Resposta de H K Merton

As diferenças entre a minha e a sua visão nunca ficaram tão claras como agora. E isso é muito bom, porque assim podemos dialogar respeitosamente e aprendermos um com o outro, já que somos amigos. Esta é uma oportunidade rara, porque geralmente as pessoas que têm crenças diferentes, quando se põem a discuti-las, acabam se desentendendo... Graças a Deus, creio que já passamos dessa fase, então podemos confrontar nossas diferentes interpretações sem receios. Digo isso porque já aconteceu comigo de perder um amigo por causa de um debate de idéias, o que me deixou perplexo.

Isso posto, vamos lá, como dizia Paulo Apóstolo, "combater o bom combate"...

Com a primeira parte do seu comentário, eu concordo 100%. Eu concordo que no Mundo Divino não existem acidentes nem tragédias, nem doença inesperada nem balas perdidas... Nem nada parecido com isso. Concordo que no mundo em que vivemos essas coisas existem, mas não no Reino de Deus. A minha fé é essa também. Mas (o problema é sempre o 'mas'...)...

Nós estamos, todos nós, aqui e agora, neste mundo falho, limitado e duro! Nós todos vivemos aqui, esta é a nossa realidade objetiva, e não há como fugir disso! Nós não podemos e nem devemos fingir que ela não exista, que não seja como é. Isso seria alienação. - Se cremos em Deus, temos que crer também que estamos aqui por determinação dessa Força maior, a Perfeição absoluta que criou a vida e todo o Universo, com todas as suas galáxias, todos os seus sóis, planetas e estrelas, todos os planos e dimensões que conhecemos e que não conhecemos... E então, se acreditamos que estamos aqui, sujeitos a tantas limitações e dificuldades, por determinação dessa Força Eterna e Perfeita, temos que acreditar, também, que é por uma boa razão!

Se temos que enfrentar obstáculos, há um motivo e um propósito para isso. - Se fosse para vivermos as nossas vidas numa espécie de 'esfera de bem aventurança', eternamente felizes, pairando alheios a toda dor e sofrimento do mundo, como que gravitando num mundo à parte e sem nunca termos que passar por dificuldades, nós não estaríamos aqui! Teríamos ficado no lugar de onde viemos, se é que acreditamos que viemos de Deus.

Quando você diz que os que se interessam por espiritualidade, por exemplo (que são diferentes dos que buscam somente coisas vãs, fúteis ou perversas), vivem como que num "mundo à parte" só seu, atraindo coisas e pessoas semelhantes a eles mesmos... Sim, isso é verdade, e eu concordo que essas pessoas se encontram numa espécie de "nível vibratório" diferente. E, sim, eu também concordo que algumas pessoas têm o Reino de Deus dentro delas, como disse o Mestre: "O Reino está dentro de vós". Concordo mais uma vez, quando você diz que somos consciências individualizadas. Sem dúvida, cada um é um. Por isso, aquilo que eu chamo de Busca, que é a mesma coisa que você chamou de "esforço pessoal para entrar no Reino de Deus", só pode ser individual. A jornada do buscador (que como eu já falei aqui, é uma viagem ao interior de si mesmo) só pode ser solitária. É algo individual, é entre você e você mesmo e entre você e Deus.

Mas isso não significa que essas pessoas, as que estão mais próximas do Reino (e mesmo as que já vivem no Reino) vivam num mundo particular perfeito e maravilhoso onde "nada de ruim acontece a elas"... Isso não quer dizer que não fiquem doentes, como você disse, que não sofram... Há um post muito interessante, escrito por uma das mentes mais geniais do blogverso, no "O Franco Atirador", que fala exatamente sobre isso. Eu já o publiquei no meu outro blog, e seria muito interessante que você o lesse na íntegra, para que ficasse bem claro a que estou me referindo. - Esse texto realmente tem tudo a ver com a nossa conversa. - O tipo de discurso do autor não é muito a "minha cara", soa desrespeitoso e eu não curto essa forma de expressão, mas o sentido é totalmente verdadeiro. O título do post é "O Buda morreu cagando sangue"... (Eu falei que soava desrespeitoso...).

Você perguntou: "Alguém aí já ouviu falar que Cristo ou Buda passou fome? Que eles não tinham roupas para vestir? Vamos puxar a conversa para uma época mais atual... Será que alguns iluminados do século passado passaram fome, não tinham onde morar ou viviam infelizes na miséria?" - Eu respondo: Sem dúvida!! Cristo passou todo tipo de dificuldades básicas, ele viveu como um andarilho e até passou fome, muita fome, tanto que foi tentado a usar o seu poder para transformar pedras em pães! E ele respondeu, em outras palavras, que não tinha vindo até aqui para converter pedras em pães, mas sim para cumprir a sua missão até o fim, ainda que fosse difícil! Captou a mensagem? No fim ele morreu da forma mais terrível que existia na sua época (ou em qualquer outra época, provavelmente), espancado, flagelado, espancado novamente e depois crucificado!!..

Quanto ao post que citei acima, pois bem, é a pura verdade: o Buda morreu defecando sangue, vítima de uma terrível hemorragia nos intestinos, depois de comer carne estragada, num banquete oferecido por um rei. E durante toda a sua vida ele também passou fome, sim, e muita, e se vestiu sempre como um mendigo. E já que você citou J. Krishnamurti, ele morreu canceroso, assim como o próprio Ramana, que você também citou! Shri Yukteswar, outro exemplo, o guru e mestre de Yogananda, considerado um ser iluminado, morreu de um tumor avançado nas costas, que por falta de tratamento médico acabou levando à falência de diversos órgãos internos. Quanto ao Osho, que você incluiu no rol de "iluminados" (eu não concordo em chamá-lo de 'iluminado', você sabe porquê...), ele morreu aidético!

Veja, eu não estou falando de uma opinião, seja a minha própria ou a de alguém; não se trata do que eu acho ou imagino. Estou citando fatos. - A pura realidade objetiva do mundo, este mundo em que vivemos.

Mas, dirá você, tudo isso não desaparece quando se alcança o objetivo? A consciência liberta do ego não deixa para trás todas as limitações humanas? Os filhos de Deus não vivem em eterna paz, saúde, prosperidade e bem aventurança? E eu respondo: NÃO! É um erro supor que a iluminação conduz alguém além da humanidade. Quando muito, ocorre exatamente o contrário. O iluminado é alguém que realizou plenamente a humanidade e que desenvolveu todo o potencial humano que normalmente fica entravado em nós pelas restrições que o ego impõe.

A diferença é que viver no Reino de Deus, aqui mesmo na Terra, faz com que você não se importe mais. Seu ego está aniquilado. Seus desejos, como eu falei no post, são o Desejo de Deus. A Cabala está certa, sim, quando afirma que somos nossos desejos. É exatamente por isso que a mesma Cabala declara que o seu objetivo final é propiciar aos seres humanos o alinhamento dos seus desejos à Vontade de D'us. E a própria Cabala ensina também que esta é a verdadeira realização do homem.

Isso é o contrário de dizer que, para quem escolheu o Reino, a vida vai ser apenas alegria e sucessos, prazeres e riquezas. - Esta, aliás, é exatamente a mensagem da nova "indústria da fé" representada por Edir Macedo e Cia Ltda... - Mas o Caminho do Cristo é uma outra coisa completamente diferente, é o Caminho da Cruz. E se você pensar, o Caminho de Buda e o de todos os santos e sábios que já viveram aqui foi o Caminho da Cruz, isto é, o Caminho da renúncia do mundo, da abdicação de tudo que é fugaz e transitório, em nome da Verdade e da Vida verdadeira.

Outra coisa importante a ser esclarecida é que Jesus nunca disse que "todos são filhos de Deus". O que ele disse foi que veio "buscar os seus". Ele também mencionou várias vezes o "príncipe deste mundo", Satanás (conforme João 12:31; 14:30; 16:11; 1ª João 5:19; Efésios 6:12), que também é mencionado pela Cabala. - Claro que isto poderia ser entendido de diversas maneiras, inclusive metaforicamente, e nunca houve consenso a respeito da natureza do mal, assunto que nós já discutimos aqui neste blog mesmo. Mas o ponto importante, nesse caso, é reconhecermos que Jesus afirmou que Bem e Mal existem. Que aqui neste nosso plano atuam forças da Luz e forças das Trevas. Ao ser traído, antes de ser levado pelos guardas, ele afirmou: "Esta é a vossa hora e o poder das trevas" (conforme Lucas 22:52 - 53 ). Entenda bem que eu não estou querendo que você (ou qualquer pessoa) aceite ou concorde com isso. Estou apenas deixando alguns dados concretos: 1) Jesus afirmou que há o Bem e que há também o Mal; 2) afirmou que há alguns neste mundo que lhe pertencem e outros que não, 3) disse que o seu Caminho é um Caminho estreito, seguido por poucos. 4) Ele nunca afirmou que "somos todos filhos de Deus e que por isso podemos ter tudo que quisermos e sermos felizes para sempre neste mundo", nem nada parecido com isso. A partir daí, cabe a cada um de nós tirar conclusões, aceitar ou não o que ele disse.

Mas o que ele disse, disse, e foi bem claro. Não podemos colocar palavras em sua boca para defender um conceito, como fazem muitas religiões de hoje, incluindo aí a Seicho-No-Ie, de onde claramente derivam as suas idéias.

Eu sei que tudo isso parece muito trágico e muito triste, pensar que temos que abandonar tudo em nome de algo que nós nem sabemos direito o que é... E não ter nada de palpável em troca! Mas aí vai o verdadeiro 'Segredo': isso é apenas o que parece à primeira vista! A verdadeira espiritualidade não é assim. Você falou em ser suprido por Deus ou pelo Universo, em ter as suas necessidades atendidas... Nesse momento, eu sou obrigado a deixar o meu testemunho e dizer que essa é a descrição da minha própria vida! Se eu fosse publicar aqui no blog a cada vez que sou abençoado materialmente, seja nas minhas necessidades imediatas ou mesmo em pequenos luxos... Não sobraria espaço pra mais nada!

Eu tenho e sempre tive tudo de que precisei e muito mais, mesmo tendo abandonado tudo em nome da Busca (eu já contei a história toda, na primeira fase deste blog). Lembro-me de que quando 'nos conhecemos', você disse ter ficado com a impressão de que eu me sentia um "iluminado", um "escolhido"... Pois eu digo que é difícil não me sentir assim, às vezes, com tantas maravilhas que acontecem na minha vida!! Sinto a presença de Deus muito, muito próxima, com frequência, no meu dia-a-dia, a ponto de já não me surpreender mais! Mas todas essas satisfações e prazeres, essas alegrias ao longo do Caminho, são apenas detalhes, são consequências, e com cada indivíduo as coisas acontecem de um jeito. E, muito importante: tudo flui a partir do momento em que aceitamos que as dificuldades fazem parte desta vida. De fato, segundo muitos dos maiores místicos que já existiram, é para isso que estamos aqui, para atravessar obstáculos, já que sem eles não há aprendizado. Porém Deus conhece as necessidades de cada um, e nunca nos dá uma carga maior do que possamos suportar. O Caminho é estreito, mas o fardo é leve e o jugo suave. - Bem vindo à Verdade, bem vindo ao mundo dos paradoxos, onde o que parece ser não é, e o que realmente é não parece.

Se alguém pensou que o grande segredo está em atrair coisas boas com a mente, como diz a nova moda vigente no mundinho das ilusões, esqueça. O Segredo real é que a verdadeira riqueza está na renúncia, a alegria e a felicidade perfeitas estão naquilo que à primeira vista pode parecer indesejável e a verdadeira Vida está na morte aparente.



Como eu disse, nesse diálogo foram expostas duas escolas espiritualistas diferentes e importantes na História. Ambas têm validade a título de estudo, mas nenhuma das duas terá qualquer importância para o buscador se ele não pedir primeiro por orientação divina, e se depois não olhar atentamente para dentro de si mesmo. Espero que cada um que venha a ler esta postagem possa avançar na compreensão dessas questões fundamentais na Trilha Espiritual. Muito obrigado, Gustavo. Muito obrigado a todos.



Princípio essencial da Kabbalah #6 - conclusão

Basicamente, o que eu quis salientar no post sobre o sexto princípio essencial da Cabala foi que se trata de uma afirmação controversa. Eu já sabia bem, de vivências anteriores, que representantes de diferentes tradições filosóficas/religiosas têm diferentes opiniões a respeito do assunto. E pudemos observar claramente que este fato foi confirmado aqui. Tivemos manifestações dos mais diversos pontos de vista no nosso Livro de Comentários. Sem citar nomes, para que o foco do assunto permaneça nas idéias (que é o que interessa para a conclusão do post) e não seja desviado para pessoas:

Houve quem defendesse que a questão mais importante não é saber de quem é a culpa dos nossos reveses, que isso seria irrelevante para o nosso aprimoramento espiritual. Em outras palavras, citando textualmente um dos comentários, “não interessa saber de quem é a culpa”, e sim fazermos a nossa parte para melhorar nossas vidas e o mundo, buscando a perfeição o melhor que pudermos. Um ponto de vista.

Houve também quem dissesse que - “...todas as pessoas, coisas, acontecimentos, circunstâncias - tudo! - que acontece em nossas vidas... foram criadas por nossos pensamentos e atitudes”. - Um outro ponto de vista, que não necessariamente contraria o primeiro, mas sim ressalta um outro aspecto contido na mesma questão.

Um terceiro ponto de vista dizia que sim, nós atraímos coisas boas e ruins com nossos pensamentos e atitudes... Mas não tudo. Que algumas coisas têm que acontecer, e existem situações que precisamos atravessar, independente dos nossos pensamentos ou da maneira conforme agimos. Que os percalços e imprevistos em nossas jornadas teriam sua perfeita razão de ser, além do nosso limitado nível de compreensão. Aí sim, surgiu uma contradição entre pontos de vista diferentes.

Um comentário muito interessante deixado por uma amiga afirmou: “TODOS nós passamos por provas e dificuldades na vida que nem sempre tem uma razão de ser, ou seja, aparentemente aos nossos olhos, nós não fomos responsáveis por determinado acontecimento ou fatalidade, mas independente disso, as suas conseqüências tiveram uma finalidade que somente muito tempo depois a gente percebe. Nós somos 'moldados' pelos acontecimentos, muitos deles gerados pela nossa própria ignorância, outros por circunstâncias independentes de nossa vontade”. Muito bem colocado.

Li também a opinião de que os sofrimentos e dificuldades nas nossas vidas nos tornam (nós, seres humanos) mais unidos e também mais fortes.

Também foi dito que, no fim da história, cada um deve encontrar o seu próprio caminho por si, e assim é sempre. Que apenas Deus conhece a vida e a alma de cada um e portanto só Ele pode saber e decidir as experiências que devemos enfrentar em nossas vidas; quais as razões de tudo, e nada é por acaso.

Uma outra amiga registrou uma manifestação quase indignada; na qual afirmou corajosamente e com todas as letras: “Não faço a menor idéia de como o Sr. Roberto poderia não colocar a culpa em alguém pelo evento... Pensar o quê? ‘Não tenho sido muito bom ultimamente então mereço ter meu pé estilhaçado?’ ou ‘Talvez eu tenha sido uma má pessoa em outras vidas?’(supondo que ele acredite na reencarnação) ou "Deveria estar em outro lugar nessa hora, então isso aconteceu como uma punição?’ ou ele poderia sentir-se grato por não ter morrido?” – Achei isso muito, muito bom. Essa participante costuma deixar comentários de uma autenticidade brutal, de onde transpira sinceridade e desejo de aprender, típicos de uma buscadora autêntica e de mente aberta, pronta a jogar tudo que aprendeu para o alto se alguém lhe mostrar que está enganada. Gosto muito disso! Ao final da observação, ela conclui: “Puxa, é realmente, de fundir a cabeça...” – Como eu disse, a postura de alguém que de fato quer aprender, alguém que não se prende a nenhum tipo de crença ou doutrina... Alguém que quer a Verdade, pura e simplesmente, seja qual for.

Por fim, tivemos (do mesmo participante que afirmou que definir a culpa não seria relevante) uma reflexão que associou os princípios essenciais da Cabala aos princípios essenciais ensinados nos Evangelhos de Cristo. Nessa mensagem, foi ressaltada a importância do não-julgamento, do perdão e de agirmos sempre com misericórdia em todas as situações.

Aconselho a leitura dos comentários deste blog, porque o que estou fazendo aqui é um resumo simplificado das idéias que foram lá compartilhadas e também do que eu próprio entendi delas. Mas eu acho que consegui demonstrar o teor essencial dos principais pontos de vista apresentados. Agora, conforme prometido, vou falar o que eu penso sobre o assunto.

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer um fato importante aos meus leitores: não é porque eu estou abordando os princípios essenciais da Cabala que eu precise, em algum nível, concordar com todos eles. Estou abordando o assunto "Cabala" no Arte das artes porque entendo que seja um tópico importante para qualquer “enciclopédia das religiões”, assim como diversos outros que já abordei e ainda pretendo abordar, mesmo que a minha fé pessoal seja completamente diferente ou mesmo contrária a eles. No caso específico da Cabala, entendo que seja uma tradição que traz profundas e úteis reflexões a respeito da vida e da espiritualidade que podem nos auxiliar em nossas próprias buscas. Entretanto, como diz o aviso bem no topo da coluna lateral desta página: “O objetivo das postagens sobre religiões, doutrinas e filosofias espiritualistas é a facilitação do seu estudo, e não a pregação de nenhuma destas”. Posto isso, vamos ao trabalho:


"Nunca coloque a culpa do que lhe acontece em outra pessoa ou em eventos externos”.




O sexto princípio me parece bastante sensato, e segui-lo em nosso dia-a-dia certamente nos fará bem. Se nos acostumarmos a assumir sempre a responsabilidade por tudo que nos acontece e deixarmos de procurar muletas e desculpas para os nossos infortúnios, então seremos capazes de realmente começar a fazer uso do nosso livre arbítrio e “tomarmos as rédeas” do nosso próprio destino; - o que é muitíssimo melhor do que passar a vida entre lamúrias. - Acho que, até aí, ninguém discorda.

Mas porque eu disse que a afirmação deste princípio é potencialmente polêmica? Pra começar, gostaria de dizer que, em outros debates ideológicos dos quais eu participei tendo como tema a questão "até que ponto a responsabilidade pelos eventos em nossas vidas são responsabilidade nossa", os pontos de vista defendidos foram sempre exatamente os mesmos que foram apresentados aqui. Acho isso muito interessante. Sempre há quem diga:

1) ”Não é uma questão de culpa”.

2) “Somos os únicos responsáveis por absolutamente tudo que nos acontece”.

3) “Nós temos o livre arbítrio, mas algumas coisas que nos acontecem não são provocadas por nós, elas fazem parte de um plano maior, que algumas pessoas chamam ‘destino’”.

4) “As dificuldades e sofrimentos em nossa vida têm uma razão de ser. Nós podemos não entender agora, mas um dia entenderemos”.

5) “As dificuldades e sofrimentos inesperados em nossas vidas nos unem e nos tornam mais fortes. Tudo faz parte de um processo de crescimento espiritual para o ser humano”.

6) “Não somos nós que moldamos as nossas vidas, mas sim somos moldados pelas circunstâncias e pelas dificuldades que temos que enfrentar”.

7) “Nós simplesmente não sabemos nada a esse respeito. Todas as afirmações que poderíamos fazer nesse caso seriam nada mais que especulações e ‘achismos’”.

8) “Devemos parar de querer entender essas coisas e simplesmente fazermos a nossa parte o melhor que pudermos. Se usarmos de Amor e misericórdia para com todas as pessoas e seres, sempre, certamente estaremos no caminho correto; e não precisaremos nos preocupar com assuntos como esse, que fogem ao nosso entendimento limitado”.


- Basicamente são essas as conclusões a que sempre se chega, em debates desse tipo. E foram exatamente essas mesmas conclusões, com algumas ligeiras variações, que nós vimos por aqui. Para deixar a minha opinião, vou analisar brevemente cada uma dessas afirmações:

1) “Não se trata de culpa”. Se o sexto princípio afirma que não devemos colocar a culpa do que nos acontece em outras pessoas e nem em fatores externos (por conseqüência afirma que a culpa é sempre nossa), então estamos falando, sim, de culpa. As dificuldades aqui estão na compreensão da forma como o termo “culpa” está sendo usado. Não está se falando de culpa com conotações de julgamento, não se trata de atirar pedras em alguém gritando “culpado, culpado!”. E também não está se afirmando que devemos “nos chicotear” por causa de nossas culpas. - O objetivo não é estimular sentimentos de culpa ou autopunição. - Estamos falando de culpa sim, mas no sentido de responsabilidade.


Ora, sempre que precisarmos resolver um problema ou aperfeiçoar qualquer aspecto de nossas vidas, será de extrema importância saber, antes de tomar qualquer atitude, o que é que está provocando o problema. Em outras palavras, se quisermos resolver, teremos que antes compreender quem (ou o que) está provocando o problema. Somente depois de identificado o "culpado", isto é, o causador de um problema qualquer, é que poderemos começar a pensar em como resolvê-lo.

Então, na raiz do entendimento do sexto princípio essencial da Cabala está a necessidade de se determinar de quem ou do que é a culpa; isto é, a responsabilidade ou a causa dos nossos problemas. E, segundo afirma este mesmo princípio, a culpa é sempre nossa, em qualquer situação. Certo ou errado? Está lançado o desafio.

2) ”Somos os únicos responsáveis por absolutamente tudo o que nos acontece”. É aí que "a coisa começa a pegar. Sim, eu acredito que somos sempre responsáveis pelo que nos acontece. Mas esse “tudo” não pode ser realmente um “tudo” absoluto. Existem (e isso é óbvio) muitos fatores que escapam ao nosso controle.

Aprofundando a questão, eu entendo que no Centro de tudo está Deus. Por isso, quanto mais eu me aproximo de Deus, mais eu me torno de fato responsável por tudo aquilo que me acontece. Se eu estou em Deus, se eu realmente “sou um com Deus”, como preconizou o Cristo, então nada pode me acontecer que não esteja em acordo com a minha vontade, porque a minha vontade será sempre a "Sua Vontade", - o Desígnio Divino que é sempre perfeito. - E assim, tudo que me acontece, de algum modo, é minha escolha. Aí está um grande segredo, e parafraseando o Mestre, quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Mas observem que esta é uma interpretação totalmente diferente, até oposta, daquela que poderia transparecer à primeira vista quando se afirma que “eu sou o único autor da minha vida, sou eu que escolho tudo aquilo que me acontece”, - que poderia soar como uma interpretação antideísta, bem ao gosto de Nietzsche, por exemplo, que rechaçou radicalmente toda e qualquer idéia de Deus que não fosse o próprio ser humano, pretendendo colocar o homem no centro absoluto de tudo: “Deus está morto. O homem é quem decide todas as coisas, a partir de agora. Viva o Super-Homem!” - Friedrich Nietzsche.

Na minha visão, o meu ego não pode comandar meu destino, ao contrário. A única maneira de assumir controle sobre o que me acontece é anular o meu ego.

3) “Nós temos o livre arbítrio sobre os nossos atos, mas algumas coisas que nos acontecem não foram provocadas por nós; elas fazem parte de um plano maior”. Eu concordo com isso. Na verdade, eu encaro o ser humano como uma espécie de “co-criador” do seu próprio destino. Isto é, em parte somos nós que moldamos a nossa realidade, seja diretamente através dos nossos atos e da nossa maneira de ser, seja de uma maneira mais profunda, através do tipo de "energia" que cultivamos dentro de nós e compartilhamos/trocamos com o Cosmo. Sim, eu acredito que a energia dos pensamentos é capaz de atrair coisas boas ou más. Quem de nós não conhece alguém que só reclama o tempo todo, e que quanto mais reclama, mais tragédias acontecem na sua vida? E quanto aos eternos otimistas, que simplesmente acreditam em si, que vão e "fazem acontecer", e acabam quase sempre se dando bem?

Mas isso não anula o fato de que algumas coisas ocorrem alheias ao nosso controle. Não, nós não somos sempre os únicos responsáveis por tudo aquilo que nos acontece, no meu modo de entender.

Nos comentários foi citado também o exemplo de alguém atingido por uma "bala perdida" e eu me lembrei do caso recente de uma adolescente extremamente alegre e de bem com a vida, otimista ao máximo, que foi atingida por uma bala perdida em São Paulo quando saía de uma agência bancária... Mesmo logo após a fatalidade, quando soube que nunca mais andaria, ao ser entrevistada por uma emissora de TV, se mostrava alegre, bem disposta e otimista com relação ao seu futuro. Não há como responsabilizá-la por ter levado aquele tiro! E isso vai nos levar à próxima opinião:

4) “As dificuldades e sofrimentos em nossa vida têm uma razão de ser. Nós podemos não entender agora, mas um dia entenderemos”. Sim. É nisto que a maioria das pessoas de fé acredita. - Tem tudo a ver, por exemplo, com a história mítica sufi de Zadig, que ensina ser uma presunção absurda do ser humano querer julgar os desígnios divinos. Devemos entender que tudo no Universo funciona como um imenso e harmônico relógio, e que cada um de nós é uma como uma pequena mas importante peça, necessária para o perfeito funcionamento do Todo. Se algo aparentemente ruim acontece, há uma razão maior para tal, e essa razão muitas vezes só vai ficar clara muito tempo depois. Esta é uma das grandes maravilhas da vida. E isso me lembra um antigo conto taoísta que está diretamente relacionado com o assunto:

“Um velho fazendeiro trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo. ‘Que má sorte!’, eles disseram solidariamente. ‘Talvez’, o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens. ‘Que maravilhoso!’, os vizinhos exclamaram. ‘Talvez’, replicou o velho homem. No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna. ‘Que pena’, disseram. ‘Talvez’, respondeu o fazendeiro. No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar numa guerra sangrenta. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor. O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente: ‘Talvez’."


5) “As dificuldades e sofrimentos inesperados em nossas vidas nos unem e nos tornam mais fortes. Tudo faz parte de um processo de crescimento espiritual para o ser humano”. Sim. Concordo plenamente com isso e não tenho nada a acrescentar.

6) “Não somos nós que moldamos as nossas vidas, mas sim somos moldados pelas circunstâncias e pelas dificuldades que temos que enfrentar”. Pois é. Isso está em oposição direta à opinião número 2 , mas aí a questão fica muito semelhante a uma charada do tipo: “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. Isto é, somos nós que moldamos a vida ou é a vida que nos molda? Honestamente e pra falar de um jeito bem resumido, eu diria que, segundo a minha experiência de vida, a resposta é: um pouco de cada, e as duas coisas ao mesmo tempo... Mas isso sempre será uma opinião pessoal, até que possamos atingir um estágio de consciência mais ampliado, o que vai implicar em nossa próxima opinião:

7) “Nós simplesmente não sabemos nada a esse respeito. Todas as afirmações que poderíamos fazer nesse caso seriam nada mais que apenas especulações e ‘achismos’”. Sim. Definitivamente aí está um fato. Não há como fugir dele, o máximo que podemos fazer é especular e elucubrar, dizer muitos "eu acho" isso, "eu entendo" aquilo, "eu penso que" seja de tal jeito... Mas no fim da história, tudo isso nos levou à próxima opinião abordada:

8) “Devemos parar de querer entender essas coisas e simplesmente fazermos a nossa parte o melhor que pudermos. Se usarmos senpre de Amor e misericórdia para com todas as pessoas e seres, certamente estaremos no caminho correto, e não precisaremos nos preocupar com assuntos como esse, que fogem ao nosso entendimento limitado”: É aqui que eu tenho vontade de gritar: “Bingo!” Porque esta é, sem dúvida, uma ótima maneira de encerrarmos esta reflexão sobre o sexto princípio essencial da Cabala!


&&&


Para concluir, gostaria apenas de dizer o seguinte: Ainda que eu creia no meu livre arbítrio e na minha capacidade de criar o meu próprio destino, é preciso entendermos que estamos num mundo compartilhado por milhões de outros seres humanos, cada qual com o seu próprio livre-arbítrio e também fazendo uso, conscientemente ou não, da sua própria capacidade de criar o seu próprio destino. Em muitíssimas situações, esses caminhos se cruzam ou se chocam, e aí acontecem os imprevistos e as dificuldades a que nos referimos. O Sr. A usou do seu livre arbítrio e da sua capacidade de criar o seu próprio destino para ter um dia tranquilo hoje. Mas o Sr. B resolveu usar o seu livre arbítrio e a sua capacidade de criar o seu destino para prejudicar o seu próximo hoje. - Acontece que, neste caso, o seu próximo é o Sr. A. - E assim, o Sr. B encontrou o Sr. A e o prejudicou. Como aplicar o sexto princípio da Cabala neste caso? A resposta para essa questão não está em nenhuma estrutura filosófica/religiosa/espiritualista. A resposta está no Princípio Essencial de todas as coisas: Aquilo que chamamos DEUS.


...eu fui escrevendo essa postagem sem uma pré-determinação estabelecida de como seria o desfecho. Fui agrupando as principais opiniões sobre o tema sem nenhuma ordem, apenas fui levantando-as e encaixando uma atrás da outra sem pensar em organizá-las para dar um sentido ou uma conclusão lógica ao texto. Mas, conforme fui escrevendo, percebi que cada um desses tópicos foi se encaixando perfeitamente no seguinte, e a conclusão não poderia ser mais perfeita. Por essas e outras é que eu tenho fé!



O triunfo da Vida!

"Ele não está mais aqui. Ressuscitou, como havia dito!" (Matheus, 28:6)



Jesus, Alegria dos Homens



Handel's Messiah Parte 1



Handel's Messiah Parte 2




Quinta e Sexta-Feira Santas



Durante a refeição, Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Tomai e comei, isto é meu corpo". Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: "Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai". Depois do canto dos Salmos, dirigiram-se eles para o monte das Oliveiras. Disse-lhes então Jesus: "Esta noite serei para todos vós ocasião de queda; porque está escrito: 'Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas'. Mas, depois da minha Ressurreição, eu vos precederei na Galiléia".

Pedro interveio: "Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás". Disse-lhe Jesus: "Em verdade te digo: nesta noite mesma, antes que o galo cante, três vezes me negarás". Respondeu-lhe Pedro: "Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarei!" E todos os outros discípulos diziam-lhe o mesmo. Retirou-se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: "Assentai-vos aqui, enquanto vou orar". E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes, então: "Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo".

Adiantou-se um pouco e, prostrando-se com a face por terra, assim rezou: "Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres".

Foi ter então com os discípulos e os encontrou dormindo. E disse a Pedro: "Então não pudestes vigiar uma hora comigo... Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca".

Afastou-se pela segunda vez e orou, dizendo: "Meu Pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade!".

Voltou ainda e os encontrou novamente dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.

Voltou então para os seus discípulos e disse-lhes: "Dormi agora e repousai! Chegou a hora: o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores"... (...)

Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão de gente armada de espadas e armas, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. O traidor combinara com eles este sinal: "Aquele que eu beijar, é ele. Prendei-o!".

Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse: "Salve, Mestre". E o beijou. Disse-lhe Jesus: "É, então, para isso que vens aqui?" Em seguida, adiantaram-se eles e lançaram mãos em Jesus para prendê-lo.

Mas um dos companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Jesus, no entanto, lhe disse: "Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. Crês que eu não possa invocar meu Pai e que ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos? Mas como se cumpririam então as Escrituras, segundo as quais é preciso que seja assim?"

Depois, voltando-se para a turba, falou: "Saístes armados de espadas e armas para prender-me, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias estava eu sentado entre vós ensinando no templo e não me prendestes". Mas tudo isto aconteceu porque era necessário que se cumprissem os oráculos dos profetas. Então os discípulos o abandonaram e fugiram.

Os que haviam prendido Jesus levaram-no à casa do sumo sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os escribas e os anciãos do povo. Pedro seguia-o de longe, até o pátio do sumo sacerdote. Entrou e sentou-se junto aos criados para ver como terminaria aquilo. Enquanto isso, os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de o levarem à morte. Mas não o conseguiram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas. Por fim, apresentaram-se duas testemunhas, que disseram: "Este homem disse: 'Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias'".

Levantou-se o sumo sacerdote e lhe perguntou: "Nada tens a responder ao que essa gente depõe contra ti?" Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-lhe o sumo sacerdote: "Pelo Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus!?"

Jesus respondeu: "Eu o sou. Contudo, vos digo que doravante vereis o Filho do Homem sentar-se à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu".

A estas palavras, o sumo sacerdote rasgou suas vestes, exclamando: "Que necessidade temos ainda de testemunhas? Acabastes de ouvir a blasfêmia! Qual o vosso parecer?" Eles responderam: "Merece a morte!" Cuspiram-lhe então na face, bateram-lhe com os punhos fechados e deram-lhe tapas, dizendo: "Adivinha, ó Cristo: quem te bateu?".

Enquanto isso, Pedro estava sentado no pátio. Aproximou-se dele uma das servas, dizendo: "Também tu estavas com Jesus, o Galileu". Mas ele negou publicamente, nestes termos: "Não sei o que dizes". Dirigia-se ele para a porta, a fim de sair, quando outra criada o viu e disse aos que lá estavam: "Este homem também estava com Jesus de Nazaré". Pedro, pela segunda vez, negou com juramento: "Eu nem conheço tal homem". Pouco depois, os que ali estavam aproximaram-se de Pedro e disseram: "Sim, tu és daqueles; teu modo de falar te dá a conhecer". Pedro então começou a fazer imprecações, jurando que nem sequer conhecia tal homem. E, neste momento, cantou o galo. Pedro recordou-se do que Jesus lhe dissera: 'Antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes'. E saindo, chorou amargamente.

Então o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Respondeu-lhe Jesus: "Eu tenho falado abertamente ao mundo; eu sempre ensinei nas sinagogas e no templo, onde todos os judeus se congregam, e nada falei em oculto. Por que me perguntas a mim? Pergunta aos que me ouviram o que é que lhes falei; eles sabem o que eu disse".

E, havendo ele dito isso, um dos guardas que ali estavam deu uma bofetada em Jesus, dizendo: "É assim que respondes ao sumo sacerdote?" Respondeu-lhe Jesus: "Se falei mal, mostra-o; mas, se falei bem, por que me bates?"

Então Anás o enviou, manietado, a Caifás, o sumo sacerdote...

...Matheus 26 / João 20


Esta noite de Quinta-Feira Santa é, para mim e para muitos cristãos, uma noite de vigília, de meditação, oração e recolhimento. O Cristo, após ter sido espancado, passou toda esta noite manietado, aguardando com angústia humana a própria morte. Provavelmente passou a noite inteira, já ferido, em pé e pendurado pelos pulsos, como era o tratamento dado aos criminosos na época. Por isso esta é, para nós, uma noite de uma certa tristeza, uma noite para reflexão, embora seja uma tristeza suave, porque sabemos a razão e o resultado deste imenso sacrifício.


A Sexta-Feira Santa é para mim um dia de jejum e silêncio. Foi o dia em que o Cristo entregou sua vida por toda a humanidade. Ele foi espancado, insultado e flagelado. - O "flagellum" romano era um instrumento de tortura semelhante a um chicote, com peças de metal perfurantes presas às pontas de hastes de couro, que retalhava os corpos das suas vítimas. - E, então, novamente espancado, cuspido, insultado e agredido; até a exaustão. Depois teve que carregar a sua própria cruz até praticamente desfalecer, até o local do seu sacrifício. Depois disso, foi cruelmente pregado à uma tosca peça de madeira, e após pedir perdão por aqueles que o assassinavam sem nenhuma justificativa, finalmente entregou seu espírito ao Pai. E o véu do Templo se rompeu de cima abaixo. Estava findo o Antigo Testamento, terminada a Antiga Aliança.

Foi um dia de trevas completas. Aquele foi o momento mais negro que já existiu neste nosso mundo, quando toda esperança daqueles que o seguiam parecia ter se perdido para sempre e que os poderes trevosos haveriam de reinar sobre tudo, dali para a frente.

Para os verdadeiros cristãos, essa data está longe de ser uma ocasião para nos empanturrarmos com bacalhau e bebidas alcoólicas. É um dia de purificação ritual, que deve ser dedicado a um ascetismo leve e consciente.

Em tempos passados, a Igreja incentivava o jejum para todos nesta data. Mas como nem todos o suportavam, foi "liberada" a alimentação normal, de preferência com a abstinência das carnes vermelhas; daí o costume cristão antigo de se comer peixe. Hoje esse costume já não existe para a grande maioria, e o consumo da carne vermelha também é "liberado" sem ressalvas. Os sacerdotes apenas pedem que não se cometam grandes excessos neste dia, pois é uma oportunidade para a reflexão, um dia para se dedicar ao espírito. Infelizmente, o que mais vemos é o oposto disso tudo. Não há mais tempo a ser perdido com as coisas do espírito nem com a introspecção e muito menos com a meditação em coisas desagradáveis como sacrifício e morte. Queremos festa e alegria 365 dias por ano. Um dia de paz e silêncio soa como um pedido absurdo.


Só posso deixar aqui o meu testemunho de que observar jejum e meditação de tempos em tempos, ainda que seja apenas num dia por ano, como agora faço às Sextas-Feiras Santas, é para mim extremamente gratificante. Num dia como esses Thomas Merton colheu um belo "fruto do silêncio": viveu uma das experiências mais transformadoras da sua vida. - O dia 18 de Março deste ano marcou o 50º aniversário da “epifania” de Thomas Merton na esquina das ruas Fourth e Walnut, em Louisville (EUA):

“Em Louisville, em uma esquina de Fourth e Walnut, no centro comercial da cidade, fui subitamente tomado pela consciência de que eu amava todas aquelas pessoas, que elas eram minhas e eu era delas, que não poderíamos ser estranhos uns aos outros, embora fôssemos totalmente desconhecidos. (...) Tenho a imensa alegria de ser humano, de pertencer a uma espécie na qual o próprio Deus se encarnou. Como se os pesares e a estupidez da condição humana pudessem me esmagar agora que percebo o que todos nós somos. Ah, se todo mundo pudesse dar-se conta disto! Mas isto não pode ser explicado. Não há como dizer às pessoas que todas elas andam pelo mundo brilhando como o sol!”

- Thomas Merton, em "Conjectures of a Guilty Bystander" (no Brasil: 'Reflexões de Um Espectador Culpado', Editora Vozes).

Princípio essencial da Kabbalah #6

"Nunca coloque a culpa do que lhe acontece em outra pessoa ou em eventos externos."

Este é básico. É um daqueles princípios essenciais tão essenciais que poderíamos ter a impressão de que todo mundo já o conhece, que todos já sabem disso. E talvez até muita gente já saiba, mesmo. Mas tem sempre aquela história da enorme diferença que existe entre o “saber” intelectual e a profunda e real compreensão a respeito de qualquer assunto... E essa realidade é ainda mais inevitável quando se tratam das questões espirituais. Exemplo: todo mundo até “sabe” que é preciso amar o próximo. Mas entender a necessidade do Amor e querer aprender a amar verdadeiramente, bem, isso não é assim tão comum, certo? Todo mundo também até “sabe” que deste mundo não levaremos nada, que o dinheiro não compra nossa saúde, e que por isso deveríamos nos cuidar melhor e dar valor às coisas simples da vida. No entanto, na prática, o que vemos é o ser humano cada vez mais escravo do dinheiro num mundo dominado pelo capitalismo selvagem e mais pessoas adoecendo por conta de preocupações exageradas com luxos materiais desnecessários. Por que isso acontece? Porque “saber” alguma coisa apenas no intelecto é diferente de saber integralmente, saber de fato.

Mas eu resolvi que a abordagem do princípio de hoje será diferente. Até porque este sexto princípio da Cabala é um dos mais polêmicos que vamos estudar nessa série. - O assunto envolve toda uma gama de questões bem mais profundas do que possamos enxergar à primeira vista.




"Nunca coloque a culpa do que lhe acontece em outra pessoa ou em eventos externos"... - Provavelmente todos concordariam que somos responsáveis pela maioria das coisas que nos acontecem. Isto é, se eu me atiro da janela do nono andar, é quase certo que vou me estatelar no piso lá embaixo. E se eu enfio o meu dedo na tomada... Mas, até que ponto nós somos sempre responsáveis por tudo aquilo que nos acontece? Onde começa a influência do ambiente e das pessoas/circunstâncias que nos cercam sobre o que somos e fazemos, e assim, direta ou indiretamente, sobre o que nos acontece?

Visualização reflexiva: Uma mulher sai de casa para o trabalho. No caminho, o pneu do seu carro fura. Ela então tem que descer do automóvel, para trocar o pneu ou tentar pedir ajuda. Acontece que o pneu furou quando ela passava por uma área pouco movimentada e perigosa, e assim, acabou sendo assaltada. A mulher foi culpada pelo que aconteceu? Ou ela foi uma vítima? Segundo o princípio que estamos estudando, tudo o que nos acontece e de nossa responsabilidade, foi causado por nós mesmos. Então poderíamos especular muitas questões a respeito desse exemplo hipotético.

1) Por que os pneus do carro furaram? Estavam gastos? Bem, então ela deveria ter sido mais atenta; se tivesse tomado mais cuidado, isso não teria acontecido. = Nesse caso, a responsabilidade pelo infortúnio foi da mulher.

2) Mas suponhamos que o pneu tenha furado por ela ter passado em cima de um prego jogado na pista, o que teria sido impossível à mulher ver ou prever. Assim ela não teria como evitar o que aconteceu. = Então ela não foi culpada.

3) Indo um pouco mais fundo no nosso exercício de reflexão, ainda poderíamos argumentar que se ela tivesse tomado um caminho mais seguro para o trabalho, ainda que mais longo, ao invés de ficar passando numa área erma, o assalto não teria acontecido, ainda que o pneu tivesse furado. = Culpa da mulher.

4) Por outro lado, assaltos acontecem em qualquer lugar, hoje em dia, muitas vezes até mesmo diante de delegacias de polícia, o que implica dizer que, ter feito outro caminho não necessariamente significaria segurança. = Culpa da mulher ou das circunstâncias?

Aplicar essas duas linhas de raciocínio opostas, assim nesse caso como em infinitas outras possibilidades, poderia nos levar muito longe, e para cabeças diferentes, haveriam sem dúvida sentenças diferentes. Por isso mesmo, vou apelar para um outro exemplo mais radical:

Visualização reflexiva 2: Manhã de 31 de outubro de 1996. O Sr. Roberto, um pacato morador do bairro do Jabaquara, em São Paulo, cuida tranqüilamente das flores do jardim da sua casa, quando, simplesmente, um enorme avião de passageiros “Fokker 100” da companhia aérea TAM, cai a poucos metros da sua residência, matando instantaneamente três dos seus vizinhos, além dos 96 passageiros. O terrível acidente ocorreu devido a um problema no reverso da turbina, e a gigantesca aeronave caiu em cima das casas do bairro logo após decolar. Sr. Roberto foi atingido por estilhaços em chamas que arremessaram seu corpo a muitos metros de distância. Ele sofreu fratura exposta no tornozelo esquerdo, além de escoriações por todo o corpo. Passou quatorze dias hospitalizado e saiu com seqüelas que até hoje impedem que ele caminhe com a mesma desenvoltura de antes, sem contar o grave trauma psicológico.

Qual a culpa do Sr. Roberto por ter sido atingido por um avião que caiu do céu sem nenhum “aviso prévio”?? Ele poderia ter adivinhado o acidente antes que acontecesse? Que medidas de precaução ele poderia ter tomado para que não precisasse ter que passar por todo esse infortúnio?

As respostas são suas. Até que ponto o sexto princípio essencial da Cabala é válido? Até que ponto pode ser contestado?

Há muito a ser dito sobre este assunto, sem nenhuma dúvida, muitas perguntas a serem feitas e respostas a serem encontradas. Mas são perguntas que só você, leitor, pode fazer, e respostas que só você pode encontrar. Eu tenho as minhas próprias, que por hora prefiro não publicar, por entender que ser tratam de especulações iguais a quaisquer outras. Se você quiser compartilhar as suas próprias especulações comigo, esteja à vontade. Quem sabe assim possamos aprender coisas novas juntos, eu e você? A sua partilha será bem vinda. Este é o máximo que eu posso fazer para explicar o sexto princípio essencial da Cabala.



Evolução do ensino no Brasil


Na semana passada comprei no mercadinho próximo a minha casa um produto que custou R$ 10,75. Dei à balconista R$20,00 e peguei na minha carteira 75 centavos, para evitar receber mais moedas. A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina registradora, aparentemente sem saber o que fazer. Tentei explicar que ela tinha que me dar 10 reais de troco, mas ela não se convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Lágrimas começaram a brotar nos seus olhos enquanto o gerente tentava explicar; mas ela aparentemente continuava sem entender.

Por que estou contando isso?

Porque hoje gostaria de falar um pouco sobre a "evolução" do ensino geral em nosso país, que bem se reflete no conhecimento geral dos rudimentos da matemática. Para que possamos avaliar melhor, podemos observar o nível das questões nos testes que são aplicados em nossas escolas desde a década de 1950, que vêm sofrendo mudanças interessantes com o correr do tempo, mais ou menos assim:


1) Questão de uma prova de matemática do ensino médio em 1950:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo deprodução desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda. Qual foi o lucro do cortador?


2) Questão de uma prova de matemática em 1970:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo deprodução desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda ou R$ 80,00. Qual foi o lucro do cortador?


3) Questão de uma prova de matemática em 1980:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo deprodução desse carro de lenha é R$ 80,00. Qual foi o lucro do cortador?


4) Questão de uma prova de matemática em 1990:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo deprodução desse carro de lenha é R$ 80,00. Escolha a resposta certa, que indica o lucro do cortador:

( _ ) R$ 20,00 ( _ ) R$40,00 ( _ ) R$60,00 ( _ ) R$80,00 ( _ ) R$100,00


5) Questão de uma prova de matemática em 2000:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00. O lucro é de R$ 20,00. Essa afirmação está correta?

( _ ) SIM ( _ ) NÃO


6) Questão de uma prova de matemática em 2008:

Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$100,00. O custo deprodução é R$ 80,00. O lucro do cortador é de (se você souber ler, coloque um X no R$20,00):

( _ ) R$ 20,00 ( _ ) R$40,00 ( _ ) R$60,00 ( _ ) R$80,00 ( _ ) R$100,00


&&& &&& &&&



Engraçado ou triste? A matemática, claro, é só um exemplo. A educação, de modo geral, encontra-se num estado simplesmente caótico em nosso país. Abre-se um abismo imenso não só entre o Brasil e os países desenvolvidos, mas até mesmo entre nós e outros países subdesenvolvidos, que ao contrário de nós estão avançando na área educacional. É preciso um movimento muito acelerado de recuperação da educação no Brasil. E isso só vai acontecer quando a sociedade brasileira entender a educação como uma variável estratégica para o desenvolvimento e exigir do poder público um ensino de resultado. Para complicar a situação ainda mais, os diretores e políticos, as pessoas que realmente pensam a educação por aqui, carregam consigo sempre um forte componente ideológico, o que se torna mais uma difícil barreira. Nas universidades de formação de professores é priorizada a idéia de se criar um "cidadão consciente", engajado neste ou naquele movimento ideológico. Não se formam mais professores que saibam simplesmente alfabetizar ou ensinar o aluno a fazer contas. Esses profissionais, antes de qualquer outra coisa, precisam voltar a ensinar o aluno a ler e escrever corretamente, o que não estamos vendo mais mesmo em nível de faculdade.

Temos uma série de deficiências inacreditáveis, como escolas sem diretor, sem lousa, sem biblioteca e até sem carteiras. Outra questão é a perda de tempo com discussões pedagógicas. É Paulo Freire pra cá, Piaget e Vigotski pra lá, construtivismo, neoconstrutivismo, construtivismo social... O nosso problema não é pedagógico. Essa discussão só faz sentido em países de Primeiro Mundo. Vamos focar esforços para ensinar nossas crianças a ler e escrever na primeira série. Quando tivermos taxa de repetência no ensino médio de 2% ou 3%, aí sim migramos para questões mais sofisticadas. O problema da educação brasileira é uma questão de alocação de recursos, de implantar métodos certos para os lugares certos.

Em termos de porcentagem do PIB, o Brasil gasta em educação uma quantia similar à dos países mais desenvolvidos do planeta. Mas não avançamos porque, na hora de distribuir os recursos, ocorre uma ineficiência brutal, principalmente devido aos altos custos do ensino universitário. Na média, os países em desenvolvimento gastam com um universitário quatro vezes mais do que com um aluno do ensino médio. Isso é muito. Nas nações desenvolvidas, essa proporção cai para 1,7 aluno. Já no Brasil, um universitário custa o mesmo que 15 alunos do ensino médio!! É uma desproporção absurda. O gasto com um universitário público brasileiro é proporcionalmente quatro vezes mais alto do que o com um aluno das melhores universidades do mundo! Não é que falte dinheiro; ele é muito mal gasto. Vai uma montanha de dinheiro indevida para subsidiar os "filhinhos de papai" na universidade pública. E tem muito desperdício, para não falar em corrupção.

Princípio essencial da Kabbalah #5


"No momento de nossa transformação fazemos contato com o Âmbito dos 99%."


Apresentando mais um princípio essencial da Cabala. - O quinto, de um conjunto de 14 aforismos sobre os quais se baseia a tradição mística rabínica. - O que significa este princípio? Bem, antes de qualquer coisa, é preciso já ter entendido o seu segundo princípio essencial, que afirma que a Existência está dividida em duas realidades básicas:

1) O nosso mundo, que na tradição cabalista representa o chamado "Mundo de 1% de Escuridão",

2) O Mundo, Reino ou Âmbito de 99%, constituído de Luz, o chamado Reino de Deus.


Se você não conhece este segundo princípio, leia a explanação aqui.

Falando de modo bastante resumido, para compreender o teor deste quinto princípio essencial importa saber que a Cabala considera a realidade que habitamos (que chama de ‘Mundo do 1%’) como um “mundo”, “reino” ou realidade ilusória e temporária, a qual temos que enfrentar e superar, antes que possamos atingir o nosso desafio maior: o de nos fazermos, em algum nível, dignos do Reino de Deus, - de verdadeira, perfeita e perene Vida.

A partir daí, realmente não é difícil compreender o que quer dizer o quinto princípio em si. Ele afirma que, no momento da nossa Transformação, isto é, a partir do instante em que passa a ocorrer dentro de nós uma real mudança de paradigmas, - o momento do início de uma verdadeira conversão a um novo estilo de vida, do materialista-mundano-limitado para o espiritual-sublime-infinito - que é o momento da descoberta das Realidades Divinas, estamos entrando em contato com o Reino de Deus.

Importante também é saber que o termo “entrar em contato”, dentro desse contexto, não significa necessariamente adquirir algum poder especial ou ter alguma visão supranatural maravilhosa/espetacular do Mundo Divino. Não significa nem mesmo que a partir daquele momento você vai atingir a Paz perfeita e passar a se manter nela para sempre, deixando de sofrer com as dificuldades e provações inerentes a este nosso mundo e à vida humana. Significa, isto sim, que você avançou um passo muito grande e importante em direção à compreensão definitiva da Verdade. Que você atingiu um ponto magno e primordial na sua busca espiritual; um ponto do qual não haverá mais volta, porque agora que você viu e compreendeu a verdadeira natureza da Vida, se tornará impossível fechar os olhos e simplesmente esquecer ou ignorar o que viu. Você foi tocado.

Ainda haverá, sim (sempre há), a opção de negar. Mas, de qualquer maneira, agora você saberá o que está negando. Você sempre saberá, em algum nível muito profundo, que você está negando a Verdade, recusando-a, deixando de assumi-la por medo, e não mais por ignorância, como antes. Você não terá mais a desculpa de não saber...

Óbvio que, após o encontro com a Verdade, apenas os muito covardes pensarão em negá-la. Porque talvez esse encontro não seja agradável ou fácil, como muitos imaginam. Mas ainda assim, se você chegou até esse ponto, muito provavelmente você já está consciente de que esta é a única coisa que realmente importa. Que esta é a saída, esta é a porta, a resposta e a solução que você sempre buscou. Ainda que não seja uma escolha fácil, ainda que o Caminho não seja tão espaçoso, no fundo você sabe que vale à pena.

Estamos falando do momento em que conseguimos chegar mais perto de Deus, e conseqüentemente mais próximos de nós mesmos e também mais próximos da perfeita Liberdade tão almejada.

Então porque, mesmo assim, é dito que essa Transformação não significa a final e definitiva superação dos nossos problemas, ver as nossas dificuldades e limitações humanas transcendidas? Por uma razão muito simples: as dificuldades, dores e limitações, que temos que enfrentar aqui, são parte essencial do nosso aprendizado. São elas, justamente, que nos levarão à esse estado de perfeição tão almejado.

Isso não é negar a possibilidade do auto-aprimoramento humano. Auto-aprimoramento é uma arte. Aperfeiçoar-se dia a dia é como insistir em alguma coisa muito desejada, mesmo que pareça impossível. Conhece aquela historinha da rã que caiu num balde de leite, mas não desistiu da vida e continuou batendo as patinhas? Tanto insistiu, insistiu, que o leite virou manteiga, com o movimento de suas pernas (ou será creme de leite? ou coalhada?) e assim ela pôde sair. Uma coleguinha dela, que caiu no mesmo balde, desanimou, desistiu e se afogou... Para que possamos nos aprimorar, superando nossas falhas e chegando mais próximos do que consideramos ideal, é preciso seguir mais ou menos o mesmo raciocínio: se você tem um vício, uma fraqueza, algo que atrapalha muito, entravando o seu crescimento espiritual e fazendo com que não consiga ser aquilo que gostaria de ser, a preciosa dica é uma só: Persista e resista! Não já caminho fácil quando se trata de eliminar vícios, aprimorar o caráter ou atingir níveis espirituais mais elevados. Este é um outro tema, que deverá ser abordado no estudo do sétimo princípio essencial da Cabala.

Mesmo assim, muito antes de nos tornarmos os grandes homens/mulheres que sonhamos ser, já naquele primeiro momento, quando escolhemos ser, - aquele momento em que decidimos que queríamos encontrar Deus e a Verdade, o momento em que dissemos "basta!" para uma vida oca e sem sentido... Neste precioso momento ocorreu uma Transformação interior no mais profundo do nosso ser. E neste precioso e mágico momento, em algum nível muito sutil e ainda incompreendido por nós, afirma a Cabala que fizemos contato com o que chama de Reino ou Âmbito dos 99% - o Reino de Deus.



Uma oração para hoje, amanhã, depois...

Eu não poderia deixar de publicar aqui no Arte esta belíssima oração que me foi enviada por email por dois amigos - ao mesmo tempo - ambos leitores assíduos do Arte das artes: estou falando de "Mizi" e "Gugu". - Uma verdadeira pérola de um sentimento genuinamente devocional. Fiquem com esta maravilhosa oração/meditação:




"Querido Deus, eu agradeço por este dia. Eu agradeço por ser capaz de ver e ouvir esta manhã. Eu sou abençoado porque Você é o Deus do perdão e da compaixão. Você tem feito muito por mim e continua me abençoando. Perdoe-me neste dia por tudo que eu tenha feito, dito ou pensado que não era agradecimento a Você.

Eu peço agora por Seu perdão. Por favor, mantenha-me a salvo dos perigos e tormentas. Ajude-me a começar este dia com uma nova atitude de gratidão plena. Deixe-me fazer o melhor a cada e todo dia para limpar a minha mente para poder ouví-Lo. Por favor, que minha mente possa aceitar todas as coisas. Não me deixe lamentar e queixar sobre as coisas as quais não tenho controle. E esta é a melhor resposta quando eu estiver além do meu limite.

Eu sei que eu posso orar. Você escuta o meu coração. Continue a me usar para fazer a Sua Obra. Continue a me abençoar para que eu possa ser uma benção para os outros. Mantenha-me forte para que eu possa ajudar os necessitados...

Mantenha-me de pé para que eu possa ter palavras de encorajamento para os outros. Eu oro para todos aqueles que perderam e não conseguem encontrar o Seu caminho. Eu oro para todos aqueles que são oprimidos e mal compreendidos.

Eu oro por todos aqueles que não Lhe conhecem intimamente. Eu oro por todos aqueles que lêem esta mensagem sem compartilhá-la com outros. Eu oro por aqueles que não acreditam.

Mas eu agradeço a Você porque eu acredito que Deus muda as pessoas e as coisas. Eu oro por minhas irmãs e irmãos. Pelas famílias e seus lares. Eu oro pela paz, Amor e alegria em suas casas. Que eles quitem seus débitos e tenham todo alimento que necessitam. Eu oro para que todos os olhos que leiam esta prece não saibam o que é problema, circunstância ou situação maior que Deus. Toda batalha está em Suas Mãos; para Você lutar junto conosco. Eu oro para que estas palavras possam ser recebidas no coração de cada um que as leia."



Amem. Amem.


Pequena observação: talvez algumas pessoas achem que se referir à Divindade usando o pronome "Tu" ou "Vós" seja mais adequado ou respeitoso do que o informal "Você". E eu gostaria de pedir a essas pessoas que não entendessem esta maneira singela, quase infantil (que é a melhor maneira), de se dirigir ao Eterno como algo desrespeitoso, mas sim como um sinal de real intimidade e Amor filial e despojado. Além disso, o termo 'você' deriva de 'Vossa Mercê', forma de tratamento das mais respeitosas, que depois se tornou vosmecê e por fim chegou à forma atual. Mais importante: alguém que não saiba se expressar bem usando a segunda ou a quinta pessoa deixar de rezar por causa disso... Isto sim seria um absurdo completo.