Porta aberta - parte 2



Quando disse que tenho me sentido "iluminado" ultimamente, não quis dizer que tenho caminhado sobre as águas e nem acalmado tempestades... Também não quer dizer que tenho vivido "nas nuvens", levitando acima do bem e do mal, imune e invulnerável a quaisquer dificuldades deste nosso mundo, 24 horas por dia. - Eu estava me referindo a viver mergulhado num maravilhoso e profundo sentido de paz interior, até em momentos de grandes dificuldades, e sentir a presença de Deus muito, muito próxima a mim, mesmo contra todas as probabilidades: estava me referindo a ver o furacão varrendo tudo ao meu redor e permanecer ali, sereno, olhando tudo sem olhar, vendo além das materialidades, às vezes tendo até que me esforçar para não sorrir, - pois se o fizesse, isso certamente seria interpretado como indiferença ou mesmo escárnio pelas pessoas à minha volta. - Mas não se trata de indiferença nem de escárnio, nem de conformismo ou apatia... Trata-se de certeza, de confiança plena, e o sorriso seria de maravilhamento.

Me encanta perceber como a Graça divina pode conceder paz e serenidade plenas a um ser humano, sem no entanto privá-lo da capacidade de continuar a se maravilhar sempre e cada vez mais com essa mesma Graça! Continuo absolutamente deslumbrado com todos os Sinais que recebo, e esse deslumbramento jamais diminui, ao contrário; quanto mais o tempo passa, mais me sinto vivo e radiante pelo privilégio de interagir com essas realidades. Mas agora há uma diferença: há uma imensa serenidade presente, que permeia tudo... Serenidade essa que eu nunca tinha experimentado e que demorou a chegar, e que pode fazer toda a diferença na vida de um buscador.

Mas os perigos ainda existem, e eu sei que posso tropeçar, que é fácil me desviar desse Caminho; porque é um Caminho realmente estreito. - Antes eu cheguei a achar que fosse "estreito" no sentido de difícil, sacrificado, doloroso... um estreito que implicaria somente dor, sacrifícios constantes, dificuldades sem fim... E imaginava também um estreito do tipo chato, enfadonho, que não permite diversão de espécie alguma, nem aventuras ou experiências novas. Por isso fugi, e muito. Hoje eu vejo que o Caminho Estreito não é assim. Percebo que os sacrifícios a que nos propomos acabam por nos transformar em algo muito melhor, com o passar do tempo. Quando você escolhe se privar de certos prazeres em prol de um objetivo maior, com determinação e uma real disposição para o auto-aperfeiçoamento, depois de um tempo essas privações passam a se converter em prazer, alegria, gratificação dos sentidos... de um modo completamente inesperado e misterioso! É como se certas energias baixas, reprimidas dentro de nós, passassem a se metamorfosear em algo melhor, para enfim florescer de onde estiveram escondidas sob formas luminosas, benéficas, produtivas, agradáveis, prazerosas... Só é preciso persistir, vigiando e orando... (Onde foi que eu já ouvi isso?) Sim, depois de muito titubear, eu escolhi jogar fora o medo e seguir um caminho que exigiu renúncias, só para encontrar uma trilha de prazer e alegria. Aquelas renúncias se tornaram liberdade, uma liberdade tão perfeita e tão plena que eu jamais poderia sonhar existir... Mas, ah! Como é difícil explicar essas coisas! Diria que se trata de tarefa impossível; porque, como já sabem, empreender ou não essa descoberta cabe a cada um.

O resumo do que eu queria mesmo dizer, no começo deste post, é que estar "iluminado" não significa necessariamente ter atingido a perfeição aqui na terra. Significa estar em sintonia com a Luz divina de um modo especial, e perceber que essa Luz interage conosco de modos completamente inesperados, e até, porque não dizer, inusitados. - A Luz divina se comporta sempre de maneira inesperada; ela nunca faz o que "seria de se esperar" dela. E se digo que tenho me sentido iluminado ultimamente, é principalmente porque tenho conseguido superar os meus últimos preconceitos.

Sim, eu ainda carrego preconceitos, como qualquer um de nós. - Mas um dos meus últimos vícios preconceituosos, ultimamente, vinha me incomodando de maneira particular. Antes eu conseguia conviver com esse vício, mas agora ele começava a se tornar insuportável... - Imagino que quando alcançamos uma certa altura no caminho, certos fardos que vínhamos carregando como se fosse "coisa normal" passam a se tornar mais do que incômodos: insuportáveis.

Você cresce espiritualmente e os antigos fardos vão se tornando desnecessários, podendo e devendo ser, aos poucos, descartados e deixados para trás. Aquilo que antes eu carregava e achava perfeitamente normal carregar, agora se tornara um peso morto a atrapalhar o meu avanço: assim foi com as vaidades inúteis, com a falsa necessidade de ter coisas inúteis, com a falsa necessidade de certas afirmações sociais... Mas um dos últimos vícios perniciosos que eu ainda carregava comigo, passava desapercebido por todos e também por mim mesmo: o de achar pessoas feias.

Não estou falando de maltratar alguém e nem de considerar alguém inferior ou menos digno(a) por causa da aparência física. Isso eu não faço mais desde os tempos da oitava série. Estou falando é de simplesmente olhar para alguém e julgá-lo(a), classificá-lo(a) em alguma "categoria humana" pré-estabelecida, num nível muito inconsciente, em razão da sua aparência: estou falando de algo que sempre considerei terrível, mas que eu acabava fazendo, inconscientemente, sutilmente, e não sabia como evitar: encontrar feiúra nas pessoas. - E agora, depois de tudo que vivi, achava que isso não era mais admissível para mim. Considerar alguém "feio" era inadmissível, e isso só me fazia sentir pior porque eu me lembrava de certas fases da minha vida e de certos momentos especiais meus em que esse tipo de julgamento não estava lá.

Mas eu uso freqüentemente os principais meios de transporte público da minha cidade, ônibus e metrô, e eu vivo na quarta maior megalópole do planeta Terra: São Paulo, SP, Brasil. - O que não é uma tarefa fácil. São Paulo é uma das maiores cidades do mundo em termos de tamanho, mas com toda a certeza não está entre as melhores em infra-estrutura. Não senhor. Longe disso. - Se você precisar tomar um ônibus no sentido bairro-centro nas primeiras horas da manhã, ou no sentido inverso ao final da tarde, ou se precisar entrar num vagão do metrô da linha leste-oeste em... bom, em qualquer hora do dia, vai entender do que estou falando. E eu faço isso rotineiramente. E se locomover na minha cidade enorme dentro de ônibus e vagões que circulam completamente lotados, abarrotados, entupidos de uma massa compacta de gente pobre e trabalhadora, é uma oportunidade mais que perfeita para encontrar pessoas que estão bem longe dos padrões de beleza estabelecidos. Você encontra gente de todo tipo, de todo jeito, gente que demonstra não estar nem um pouquinho preocupada com a estética. Ou com a higiene. Nem um pouquinho mesmo... E conviver com a feiúra é uma esperiência um pouco diferente para um artista, alguém que valoriza o belo como expressão máxima, algém que vive do belo, pelo belo...

O fato é que ultimamente eu vinha me flagrando até irritado com esse povo, e cada vez que uma pessoa "não tão agradável" subia no ônibus, inconscientemente eu começava a analisar, classificar... me flagrava pensando frases do tipo: "Caramba, custava pelo menos pentear o cabelo?", ou: "Será que esse cara ainda não descobriu que já inventaram um produtinho incrível chamado desodorante?"...

E, bem, mesmo não o fazendo intencionalmente, eu tinha certeza de que essa atitude não estava em harmonia com o estilo de vida que eu tinha escolhido, não condizia com a mensagem que eu tentava vivenciar, em nada... Não era possível me considerar um cara realmente espiritualizado e ficar julgando assim aos meus próximos. Lembrava-me das minhas experiências iniciais na Toca de Assis, lembrava-me de como fiquei maravilhado, de como naqueles momentos a aparência física das pessoas não tinha a menor importância. E, claro, eu sempre falei e continuava afirmando para todos e para mim mesmo que não me importava com o exterior, com a aparência de ninguém. E isso era verdade, sim. - Mas, se eu pensava coisas desagradáveis a respeito das pessoas nas ruas, ainda que apenas intimamente, como poderia me considerar um buscador autêntico? Não sei se ficou claro, talvez isso possa parecer algo insignificante demais para ser mencionado, e esse nem é o tema central deste post, mas... o que estou tentando dizer é que eu simplesmente não queria me conformar com a minha própria hipocrisia em falar uma coisa e pensar outra.

De algum tempo para cá, logo ao despertar, todas as manhãs, ainda na cama eu faço uma pausa para focar toda a minha atenção dentro de mim mesmo e me perguntar: "No que eu posso melhorar hoje?" - E, já fazia um tempo, a resposta vinha sendo: "Preciso voltar a olhar para as pessoas com o mesmo olhar de quando eu tinha 5 anos. Ou o mesmo olhar de quando eu comecei a praticar meditação" - Quando comecei a praticar meditação seriamente, ao encerrar as sessões eu olhava para as pessoas e todos me pareciam lindos! Isso também aconteceu, em intensidade maior, quando eu tive a minha primeira experiência beatífica, que certos amigos dessa época (1994) classificaram como um "Samadhi" (nome que os hindus dão ao estado beatífico da consciência ampliada). E era isso que eu queria retomar: eu precisava voltar a viver naquele estado de pureza, o estado de quem não julga absolutamente ninguém, nem pela aparência e nem por qualquer outra coisa.




E aí, lá estava eu, aquele dia, no Centro Pastoral São José, no bairro do Belém, prestando serviço voluntário, como falei na primeira parte deste post. Entre todas aquelas caixas e sacos plásticos com doações para os desabrigados de Santa Catarina, perdi as contas de quantas vezes fui assim chamado pela Irmã Lúcia, a irmãzinha de caridade superpoderosa que eu mencionei: "Daniel, você poderia me ajudar aqui?", ou: "Daniel, não se esforce tanto, cuidado com a sua coluna", ou ainda: "Daniel, todas as caixas contendo gêneros alimentícios devem ser levadas à sala dois"...

É isso, o meu nome não é Daniel. E eu devo ter corrigido aquela freira pelo menos umas duas dúzias de vezes naquela manhã. E ela deve ter se desculpado umas tantas outras, entre sorrisos: "Eu não sei porque estou te chamando de Daniel. Esse nome não sai da minha cabeça! Qual o seu nome, mesmo?"

Henrique. O meu nome é Henrique. E eu quase fiquei irritado quando tive que repetir o meu nome pra ela pela enésima vez. E por incrível que possa parecer, dali a cinco minutos ela se esquecia e voltava a me chamar de Daniel. Quando o nosso tempo juntos já estava acabando, e ela me chamou uma vez mais de Daniel, finalmente se lembrou que o meu nome não era esse e com um grande sorriso resolveu: "Por que será que eu cismei com 'Daniel'? Mas já que eu não consigo parar de te chamar de Daniel, vamos fazer o seguinte: a partir de agora vou te chamar de 'Daniel Henrique', que tal? Assim eu não esqueço mais!"...

E mandou um largo sorriso de mamãe acolhedora. Eu sorri também e disse que não importava. Daniel é um nome bonito, afinal de contas, acho que mais do que o meu. Nome de anjo? Não, nome de Profeta. E alguns profetas chamados Daniel profetizam de formas estranhas...

Quando o trabalho voluntário no Centro Pastoral terminou, faltavam alguns minutos para as 13 horas. As irmãs de caridade ofereceram a todos os colaboradores voluntários um delicioso lanche preparado com gêneros integrais, do qual eu participei com muito prazer, e depois disso eu fiquei com a minha tarde livre. Achei que o trabalho seria mais demorado, então não programei nada para a tarde. Adoro essas brechas na agenda que me deixam com um tempinho livre para fazer absolutamente nada. É nessas ocasiões que costumo fazer algumas das coisas mais importantes da minha vida. E essa tarde não foi uma exceção.

Resolvi dar um pulo no Shopping Anália Franco, que fica ali perto, para talvez pegar um cineminha, quem sabe? Mas não estava passando nenhum filme que me interessasse. Então, que fazer da minha tarde livre? Essa é fácil! - Direto para o meu ponto favorito em qualquer shopping center: a livraria. Nesse shopping há uma loja Saraiva Mega Store bem bacana, com cadeiras e mesas para se folhear revistas e ler trechos de livros. Logo que entrei parei no balcão de revistas logo à entrada, folheei a "Superinteressante" do mês, com a matéria de capa falando sobre a Bíblia... Sensacionalista como sempre, meias verdades como de costume. "Galileu", "American Scientific", "Vida Simples", "Boa Forma"... Tédio... Vamos aos livros.

E foi nessa hora que eu me lembrei: há algumas semanas, um amigo buscador havia me indicado com certa veemência a leitura de um livro que, segundo ele, foi muito importante e até reprensentou uma confirmação para muitos dos seus conceitos essenciais sobre a vida. Bem, eu confio nesse cara, e se ele dizia, o livro deveria ser bom mesmo; além disso, lá estava eu, no lugar certo, na hora certa... O nome desse meu amigo? Daniel.




Este é um daqueles posts que me dão muito trabalho para concluir. Eu simplesmente não consigo terminar! Será que, por coincidência ou Providência, essa conclusão vai ficar para o dia do Natal? Dou a minha palavra que eu não programei isso...


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