Deus, de novo (Once more, with feeling)

Por "Lamed", Do (belíssimo) blog "Anoitan"


Quando você afirma que Deus existe, o que você quer dizer com “Deus” e o que entende por “existir”?

Quando você afirma que Deus não existe, o que você entende por “Deus” e o que quer dizer com “não existir”?

Não é uma filigrana semântica sem importância. Como se pode afirmar ou negar alguma coisa quando não se sabe o que está sendo afirmado ou negado?




Por exemplo, o conceito de Deus existe. Neste sentido, enquanto conceito, seria uma bobagem dizer que Deus não existe - tanto existe que falamos dele o tempo todo, travamos de discussões a guerras em nome dele, matamos ou nos deixamos matar por ele.

Deus enquanto uma realidade psicológica, para aqueles que acreditam nele, também é inegável. Do ponto-de-vista da realidade psíquica, é real tudo o que produz efeitos concretos na psique (positivos ou negativos) e, se você já viu ou sentiu o arrebatamento que a emoção religiosa é capaz de provocar numa pessoa verdadeiramente devota, não tem como negar que a imagem de Deus produz efeitos bastante concretos (positivos ou negativos) na psique.

Suponho, porém, que tanto crentes quanto ateus estejam de acordo: não é do conceito ou da imagem psíquica de Deus que eles falam, mas do suposto referente ao qual se supõe que essa imagem e esse conceito se referem.

(Assim, Sam Harris está errado: há mais coisas em comum entre o crente e o ateu, além da pressuposição tacanha de que, se um deles está certo, o outro está necessariamente errado.)


Jogo a pergunta, mas deixo-a em aberto por enquanto: por que é preciso supor um referente, por que o conceito e a imagem psíquica, bem como os efeitos que eles produzem, não podem se bastar em si mesmos? Por que essa obsessão concretista de achar que uma coisa só é real se for tão real quanto uma cadeira e, já que tocamos no assunto, de onde saiu essa certeza de que a cadeira é real, a convicção indemonstrada e indemonstrável de que ela é algo mais do que um conceito atado a uma imagem psíquica e compartilhado por todas as pessoas, não porque haja um referente real, mas simplesmente porque é assim que o nosso cérebro funciona? E, já que estamos em plena farta distribuição de perguntas, o que leva você a supor que o cérebro também é algo mais do que uma imagem e um conceito soldados um ao outro?

Por exemplo, Papai-do-Céu, sentado em seu trono sobre as nuvens e cercado de anjinhos rechonchudos, cofiando a barba joviana enquanto pondera se manda ou não um dilúvio para afogar esta humanidade perversa - não existe. Mas até aí, a Justiça, como uma mulher de vestido esvoaçante, olhos vendados, espada na mão esquerda e balança na direita, ou vice-versa - também não existe.

A Justiça, assim como a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade (ou, no outro prato da balança, a Nação, o Povo e o Estado) constituem o que alguns filósofos denominam de idéias normativas e que outros pensadores chamam pelo devido nome, ficção reguladora. Isto é, são coisas que não existem da mesma forma que uma cadeira (mas de onde saiu essa certeza de que a cadeira etc?), mas que, ainda assim - ou talvez por causa disso - cumprem uma função importante, a de fornecer um parâmetro contra o qual medimos nosso comportamento ou que usamos para botar alguma ordem nesse galinheiro que é a nossa experiência do mundo.

Suponho, porém, que tanto ateus quanto crentes estejam de acordo: não estão interessados em Deus como idéia normativa ou ficção reguladora, a eles só interessa o Deus-cadeira, no qual os crentes consigam se sentar confortavelmente e que os ateus possam chutar com desenvoltura.

(Assim, ao contrário do que Sam Harris supunha, esse é outro ponto compartilhado por crentes e ateus: enquanto estes chutam o ar, aqueles caem de bunda no chão.)

Não é uma filigrana semântica sem importância. Como se pode afirmar ou negar alguma coisa quando não se sabe o que está sendo afirmado ou negado?

Quando você afirma que Deus não existe, o que você entende por “Deus” e o que quer dizer com “não existir”?

Quando você afirma que Deus existe, o que você quer dizer com “Deus” e o que entende por existir?





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