Que sabemos nós?


Gostou do post anterior? Achou interessante? Eu achei. A idéia de que um dia poderemos unir definitivamente o estudo daquilo que chamamos "ciência" ao estudo do que chamamos "espiritualidade", numa só esfera de conhecimento, me encanta. Na minha opinião, esses dois pólos de pesquisa nunca deveriam ter sido separados, simplesmente porque ambos são vitais à vida humana, cada qual ao seu modo. Sim, eu sei que essa união ainda é utopia, mas eu sempre tive uma grande vocação para sonhador.

A verdade é que eu só entrei nesse assunto e publiquei aquela postagem por aqui para iniciar um exercício reflexivo com os leitores do Arte das artes; e o objetivo desse exercício é praticar a nossa consciência de que, em termos de espiritualidade, ao menos cientificamente, quase nada sabemos. Ainda.

Nesse nebuloso terreno, para quase tudo que pensamos descobrir e comprovar com base científica, através de experimentação empírica, algum tempo depois sempre surge algum outro experimento que derruba essa primeira tese e revela um outro lado da moeda. - E isso, ao menos para mim, só torna o Grande Mistério ainda mais fascinante...

Acontece que um outro estudo científico, feito com freiras há apenas dois anos, na Universidade de Montreal, Canadá, coloca em dúvida a existência do "Ponto Deus" no cérebro humano...

Pesquisas envolvendo atividade cerebral e espiritualidade foram muito populares, em especial, nos anos 1990. Foi exatamente nesse período que alguns estudiosos sugeriram pela primeira vez a existência dessa região no cérebro dedicada a manter comunicação com a Divindade, que denominaram "Ponto Deus". Agora, um outro trabalho de pesquisa, encabeçado pelo Dr. Mario Beauregard, apesar de não descartar, reduz a credibilidade dessas conclusões.

O novo estudo da Universidade de Montreal conclui que não existe um único "Ponto Deus" no cérebro humano, porque demonstra que pelo menos uma dezena de diferentes regiões do cérebro é ativada durante a experiência mística. Em outras palavras, descobriu-se que as experiências místicas são mediadas por diversas regiões cerebrais e sistemas normalmente implicados em um grande número de funções (consciência de si mesmo, emoção, representação do corpo...). - O trabalho foi publicado na "Neuroscience Letters".

"O principal objetivo (da experiência) foi identificar os correlatos neurais da experiência mística", declarou Beauregard. "Isso não diminui o valor das experiências anteriores, nem confirma ou desconfirma a existência de Deus".

Pode não confirmar a existência de Deus, mas confirma, empírica e inquestionavelmente (já é um bom começo!) a existência da experiência mística como fenômeno real, e implica a conexão com realidades extrafísicas desconhecidas. O procedimento envolveu quinze irmãs carmelitas, com idades variando entre 23 e 64 anos, que foram submetidas à ressonância magnética funcional do cérebro enquanto tentavam reviver uma experiência mística transcendente. A idéia inicial era realizar a medição enquanto a experiência estivesse acontecendo, mas isso se mostrou complicado...

"Fui forçado a fazer desse jeito porque as freiras não conseguiam 'convocar Deus' à vontade", explicou o Dr. Beauregard, acrescentando que o processo é validado por estudos com atores que mostraram que induzir um certo estado emocional ativa as mesmas regiões do cérebro que realmente viver a emoção.

O estudo demonstrou que pelo menos dez diferentes regiões do cérebro é ativada durante a experiência mística, além da célebre região dos lobos temporais denominada ‘Ponto Deus’.

E o Mistério só aumenta. Isso me lembra uma frase que me foi dita por um místico cujo nome realmente não me lembro:

"A espiritualidade é como uma montanha, que quanto mais subimos, mais distante se torna o pico. Mas o prêmio, o prazer e o aprendizado, não estão no fim da escalada, e sim na escalada em si."


"O Êxtase de Santa Teresa de Ávila" - Gian Lorenzo Bernini


Resumo da ópera. - Agora, se você está pensando: "Afinal de contas, do que importa saber se há ou não um ponto específico em nossos cérebros através do qual nos conectamos com a Divindade?"... Parabéns pela percepção. - Eu respondo: nada! Na prática, realmente não importa absolutamente nada saber isso. - O que realmente importa é entender que a conexão existe. E que para se conectar "A" ao "B", antes de qualquer coisa é preciso considerar que exista o "A" e exista o "B": se a conexão existe, tem que haver o conector e o conectado. Esse é o meu ponto de interesse nesses assuntos, e é por isso que essas pesquisas podem ser úteis aos que buscam aprender a Arte das artes.



Fonte:
Agência Estado



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