Desdobramento de "Reino dos Céus"

"Boas reflexões, boa meditação; aos que estiverem dispostos a se dedicar ao tema, uma boa contemplação. Que a Luz os atinja a todos, e inclusive a mim"...

Olá, amigos! Foi com as palavras acima que eu encerrei a postagem "Boas Novas - Reino dos Céus", e devo dizer que agora estou bem satisfeito, porque essa publicação rendeu exatamente os frutos que eu desejava: gerou um bom debate, que leva à reflexão, à meditação e à contemplação das questões colocadas, e assim somos todos auxiliados a encontrar o discernimento através dos nossos próprios esforços.

Nos comentários dessa postagem, o meu amigo e já grande colaborador do Arte das artes, Gugu, nos deixou o seguinte convite:

"Já que este está sendo o assunto do momento, peço licença para divulgar que coloquei um texto que escolhi, falando sobre o Reino de Deus (será uma Revelação, ou uma doutrina?) e da natureza verdadeira do ser humano (quem sou eu?).

O meu intuito, com isto, é só o de proporcionar um outro ponto de vista acerca do assunto. Então podemos seguir pensando, ponderando, dicernindo, buscando..."


Não precisava nem pedir licença, pois a proposta do post foi exatamente essa, e é claro que eu aceitei o convite e fui lá conhecer o texto escolhido pelo meu amigo como a sua abordagem acerca do assunto. Como a postagem de lá derivou da postagem publicada aqui, resolvi trazê-la para a apreciação também por aqui, pois o meu objetivo, com todas as minhas postagens é sempre provocar desdobramentos. - Todos aprendemos desse jeito. - Segue o texto em questão, publicado no blog do Gugu:


"Revelação ou doutrinas?" - por Dárcio Dezolt

A Revelação de Jesus Cristo é transcendental, ou seja, fala do Reino de Deus e da real natureza de todos nós como filhos de Deus, idênticos a Ele. Eis por que sua oração (João 17; 11) é no sentido de que “sejamos todos um”. Ciente de nossa real identidade, disse: “Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.” (Mateus 5; 48).

Que fizeram muitas religiões e doutrinas? Criaram um Jesus Cristo separado, em vez de uno conosco! Se, de um lado, pregam a “comunhão”, de outro, enfatizam a separatividade, considerando-o diferente e superior a todos nós, julgando-nos “pela carne”, materialmente! Uma contradição absurda! E que atua hipnoticamente como crença coletiva há séculos!

Uma gota de água pode entrar “em comunhão com outra”, pois ambas são idênticas em qualidade ou natureza! Óleo e água já são coisas distintas! Você somente “entra em comunhão” com o Pai e com Jesus Cristo ao se contemplar como já sendo de IDÊNTICA NATUREZA, EM UNIDADE!

Observe o que diz a Revelação encontrada em I João 1; 1:

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida. (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada.). O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco, e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra.”

A Verdade ensinada por Cristo é a de que temos um Pai comum: DEUS!. Se você se dispuser a deixar de lado as religiões e doutrinas apagadas, trocando-as pela Revelação, fechará os olhos para o “mundo da matéria” e se verá espiritualmente em Deus, igualzinho a Jesus! Perceberá internamente sua “comunhão real com o Pai”, numa proporção sem limites! Comunhão é comunhão! UNIDADE! Não há meios-termos! Ou VOCÊ é, JÁ, da mesma natureza que Jesus Cristo, e, de Deus, e, portanto, JÁ ESTÁ em “comunhão”, ou está se avaliando “pelas aparências”, negando toda a Revelação iluminada, e se vendo como mortal, mero “filho pródigo” nesta ilusão de mundo!

A Revelação o coloca em “comunhão eterna”, dando-lhe o discernimento da Onipresença! Pai e Filho são a “unidade harmoniosa”. Doutrinas mil complicaram tudo! Que, em nome da Verdade, sejam abandonadas! Cristo não o saturou de “doutrinas”, mas da Revelação de sua Unidade, da Essência Una, da prática do perdão incondicional e do Amor a Deus e ao próximo! E, principalmente, incentivou-o a “buscar o Reino de Deus” em você mesmo, e em “primeiro lugar”. Detenha-se nestes pontos!

“Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.” (Mateus 15; 9)




Bom, muito bom... Assim como a postagem "Reino dos Céus" começou a se desdobrar por aqui, continuou se desdobrando por lá. - Eu vi algumas coisas que entendi como desvirtuação, contidas nesse texto, então registrei esses pontos na forma de um grande comentário, que trascrevo abaixo:


Olha só, eu acho que há um erro de interpretação clássico nesse texto: discordo da afirmação de que "somos iguais a Deus"... Acredito que muitos místicos bem intencionados confundiram algumas coisas e acabaram caindo naquela mesma "cilada" que foi armada para a humanidade desde o princípio (é só um jeito metafórico para tentar explicar...).

Segunto Zaratustra, o Talmud, o Zohar e a Cabala, a Bíblia, o Alcorão... e uma infinidade de outros livros sagrados e doutrinas ancestrais da humanidade, foi exatamente assim que o mal entrou no nosso plano e as coisas começaram a "despirocar" por aqui: quando o homem começou a acreditar que era igual a Deus. No Gênesis, esta é a proposta exata de Satanás: "Comei dessa árvore, e sereis iguais a Deus"... Já no Apocalipse surge Miguel, o príncipe dos anjos, que clama "Quem pode ser como Deus?"

O fato é que há uma diferença sutil no significado de certas expressões nos Evangelhos, que precisam ser cuidadosamente observados... É o caso da expressão "comunhão", citada no post: estar em comunhão com alguém não quer dizer que você “é” esse alguém, ou que você “é igual” a esse alguém.

Eu vivo numa comunhão maravilhosa com a minha esposa, por exemplo. Nós nos completamos, nos amamos profundamente e fazemos questão de declarar o nosso amor a todo instante... Nós dois nos respeitamos, nos ajudamos, vivemos em cumplicidade, temos gostos, idéias e objetivos parecidos, etc, etc... Mas isso não quer dizer que eu "sou ela" nem que eu "sou igual a ela". - Vivemos numa perfeita comunhão, mas cada um é cada um, cumprindo seu próprio papel: cada um produz a sua própria nota musical na Orquestra Sinfônica Cósmica. É isso que comunhão significa, no sentido bíblico.

O mesmo se dá com as nossas relações com o divino. Estar “em Comunhão" com Deus não significa “ser igual" a Deus, essa interpretação é um erro crasso! Toda busca espiritual começa exatamente do ponto em que nos conscientizamos que não somos auto-suficientes, quando detectamos um vazio dentro de nós mesmos, que grita por ser preenchido... Muitos místicos se referiram a esse "vazio" como o “Ponto Deus”, que já foi identificado inclusive pela ciência no cérebro humano (breve: postagem sobre o tema!).

Eu vejo muita literatura pseudo-mística girando em torno de certos trechos específicos da Bíblia, sempre usados fora do seu real contexto, numa tentativa de justificar idéias panteístas. Pegam-se sempre as mesmas passagens, como aquela em que Jesus diz que "Quem crê em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas..." - Mas esses autores nunca citam a continuação desta mesma frase: "...porque eu vou para o Pai, e farei o que pedirdes em meu nome". Ou seja, ele não está dizendo que podemos fazer as mesmas coisas porque somos iguais a Deus, mas sim que, se pedirmos, ELE fará! São coisas muito diferentes!

Nesse mesmo Evangelho, o mais místico (João), ele continua:


"Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo, de si mesmo, não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós os ramos; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como um ramo, e secará; tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados. Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito."
(João, 15)

Mais claro, impossível! Existem muitas e muitas outras passagens nesse sentido, nos Evangelhos. Jesus deixa muito claro, o tempo todo, que os seres humanos são como
o sal: por ele mesmo não tem valor; mas se misturado e usado na medida certa, se torna a própria essência da vida...

Então, o erro que eu vejo no raciocínio dessa postagem é querer associar essa idéia panteísta de que "tudo é Deus" com a mensagem de Jesus. Nada mais distante da verdade! Jesus nunca disse nada que nem de longe lembrasse essa idéia.

Cada um de nós tem a perfeita liberdade de acreditar no que quiser, de escolher o que seguir e o que rejeitar. Mas desvirtuar as palavras de um mestre, qualquer que seja ele, para adequá-las ao seu ponto de vista, como fazem tantos autores, isso não é honesto, não é coerente; não é a postura de um estudante autêntico. Essa postura é maliciosa, interesseira, contaminada...

O buscador tem que ser puro, investigar com um coração aberto, livre de idéias pré-concebidas, pronto para aceitar a Verdade seja ela qual for. Muitos se esforçam não para encontrar e entender a Verdade, mas sim para confirmar os seus pontos de vista individuais, para se manterem numa certa zona de conforto pessoal. - A partir daí, passam a adaptar tudo o que encontram para justificar as suas crenças. Nesse caminho, distorcer o que disse Jesus é uma prática muito comum... Diria que é a favorita de 10 entre 10 pseudo-místicos e panteístas. E, bem, pra quem estudou realmente a fundo o que Jesus diz nos Evangelhos, certas afirmações são simplesmente ridículas.

Veja, o problema do panteísmo não é afirmar que "somos Deus e Deus somos nós", porque isso, num certo sentido, é verdade. O problema é dizer que Deus é SÓ isso. Essa é apenas uma forma elegante e poética de ateísmo, se você pensar bem. Eles não dizem que “Deus não existe”, mas dizem que não existe Deus a não ser a natureza: eu, você, as nuvens, os cães, os pássaros. – A mesma coisa dita de um modo diferente! - Ora, se eu sou Deus e se não há outro Deus além de mim mesmo, para que serve a oração? Por que Jesus ensinou a orar? Para quem vou orar? Para que serve a meditação, e por que me preocuparia em buscar aperfeiçoamento? Pra que vigiar e orar? Para que servem as práticas espirituais, para que buscar o Amor?? Se eu sou Deus, ora, eu me basto!..

Deus é imanente (está em tudo), mas é também, e principalmente, eu diria, transcendente (está além de tudo que conhecemos). - Aliás, o termo "transcendental", no começo do texto foi usado equivocadamente. - E quando leio afirmações essas, sinto a responsabilidade de deixar o meu testemunho pessoal: em todas as minhas experiências místicas, - e eu tive experiências MUITO intensas MESMO, - eu experimentei a Energia Infinita que fluía de fora para dentro de mim, e que daí se expandia e passava a extravasar o meu próprio ser, de dentro para fora. A experiência e o sentido de uma Força Infinita, incompreensível e EXTERNA, que entra em COMUNHHÃO com o meu interior finito, é inquestionável. E foi somente nesse momento que eu senti o meu próprio eu chegando, aí sim, mais próximo do Infinito, do Cósmico, do Universal.

Há uma centelha divina em cada um de nós. Até poderíamos dizer que somos como "deuses", cada um de nós, num sentido metafísico. Mas afirmar que nós é que somos o único Deus, e que não há outro Deus senão nós mesmos, continua sendo a mesma coisa que sempre foi: blasfêmia e viagem na maionese...



Mas isso não resume tudo.

A questão complicada, aí, é que a percepção trazida pela postagem NÃO está completamente errada. Há alguma verdade nela, e é por isso que existe tanta confusão nesses assuntos. - Sim, somos infinitos, somos divinos, o Reino dos Céus está dentro de nós e a nossa fé pode mover montanhas... Todas essas afirmações são verdadeiras e preciosas!

Mas a confusão começa quando o buscador, deslumbrado com essas percepções, descarta Deus! Ele começa a acreditar que, por ser divino, possuidor de um espírito infinito e glorioso, não precisa mais de Deus, e que Deus só pode ser ele mesmo... Não pode ser mais do que isso! Este sim é um pensamento limitado, da mente dominada pelo ego, que não consegue reconhecer que exista algo maior do que ela mesma.

Esse é o erro primordial, que até “grandes mestres” deste mundo cometeram.

Tudo que estou sugerindo é que se considere o que eu falei aí atrás, e que o buscador se esvazie e peça pela luz do Infinito antes de buscar por orientação. Tem muita gente por aí ensinando a “esvaziar a xícara”, o que é um conselho maravilhoso, mas com a sua própria xícara cheia de idéias pré-concebidas, até a borda. Muitas vezes, no caminho do buscador da Verdade, exatamente o que parece ser, não é, e o que não parece, é.



***


Depois disso, o Gugu mandou um email para o autor do texto com as minhas colocações, e este gentilmente respondeu aos questionamentos. Houveram réplicas e tréplicas, mas eu honestamente achei que a postagem e o primeiro comentário foram o suficiente para expor e representar esses dois pontos de vista diferentes com a clareza necessária. O que veio depois foram tentativas de confirmação dos dois lados, questionamentos quanto a quem está usando a razão, quem "sabe" e quem apenas "acredita", etc. Quem quiser ver tudo, basta visitar o belo blog do Gugu, o "Bem Vindo ao Templo!"

Já agradeci por lá e volto a agradecer aqui ao Gugu e ao Sr. Dárcio pela oportunidade de diálogo produtivo. Todos sabem que eu gosto muito de debater e dialogar sobre temas sagrados, para mim isso é extremamente gratificante. O Gugu é um cara que sabe separar bem o lado pessoal do campo das idéias, isso é uma qualidade rara. A maioria das pessoas que eu conheço se irrita e perde a linha quando confrontada nas questões de fé e crenças. Por isso, a minha amizade com o Gugu nunca ficou comprometida pelas possíveis divergências das nossas visões. Sempre acabamos aprendendo alguma coisa quando somos testados nas nossas convicções, no nosso saber, e isso é bom.

Espero que o diálgo seja de proveito para todos os buscadores. Apreciem, olhem para dentro de si mesmos, tentem compreender com o entendimento da alma. Ou não.



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