Eu sou o quê?!



O pequeno debate que surgiu do post "Boas Novas - Reino dos Céus", e que acabou se desdobrando numa outra postagem, me fez perceber que estou devendo aos meus leitores, já há um bom tempo, alguns esclarecimentos acerca de certos pontos que vieram à tona nessa conversa toda.

Independente deste caso em particular, eu considero de fundamental importância que esses debates sejam seguidos de esclarecimentos, sempre que necessário, porque nesse tipo de discussão muita coisa importante que foi dita acaba sendo ignorada, passando em branco, e muita coisa que não foi dita acaba sendo subentendida, gerando confusão... Isso acontece porque todos nós, em maior ou menor grau, lemos e ouvimos as coisas já fundamentados em nossos próprios pontos de vista. Isso é humano, é da nossa natureza.

Há alguns anos eu participei de uma vivência de Análise Transacional que abordou exatamente essa realidade: o palestrante pedia a todos os presentes que fechassem os olhos, e então falava uma palavra simples em voz alta, como "casa". Logo depois inquiria algumas pessoas da assistência, aleatoriamente, e o resultado do teste era sempre muito engraçado: conforme o palestrante fazia perguntas, ficava cada vez mais claro que cada um tinha o seu conceito muito particular e bem diferente a respeito das palavras, mesmo as que aludem a conceitos muito simples, como "casa": alguns imaginaram um sobrado enorme, outros uma casa bem simples, outros visualizaram um romântico casebre às margens de um rio, ao pôr do sol... - teve até um indivíduo que visualizou um prédio de apartamentos, mesmo tendo ouvido claramente a palavra "casa"! - Questionado, esse participante revelou que morava num apartamento, e por isso a palavra "casa" sempre o fazia se lembrar de um prédio, o seu... Quando o palestrante aprofundava um pouco mais as perguntas, íamos descobrindo que alguns visualizaram casas coloridas, nas mais diversas tonalidades e matizes: amarelo, vermelho, azul, verde... E alguns só conseguiam visualizar imagens em preto e branco.

Essa experiência simples é muito reveladora, e se a gente pensar um pouco ela pode ter um sentido muito mais profundo. A verdade é que todos nós, seres humanos, somos preconceituosos em maior ou menor grau. Todos nós temos pré-conceitos formados a respeito das coisas, isto é, carregamos idéias pré-concebidas sobre tudo. É por isso que, às vezes, numa discussão, a gente tenta e tenta explicar alguma coisa e nosso interlocutor não entende, e nós mesmos também não conseguimos entender o sentido do que está sendo dito pelo outro! Você explica de novo e de novo, mas parece que está falando grego!.. Esse é um fenômeno tão comum justamente porque você pode falar em "casa" se referindo a um palácio, mas a outra pessoa pode estar pensando num barraco, e vice-versa... As relações humanas são muito complicadas, e saber se expressar é uma arte muito difícil. - No campo da espiritualidade, por se tratar do subjetivo, essa dificuldade é ainda maior.

A mensagem principal deste post, que eu queria deixar bem clara, é a seguinte: se quisermos avançar em nossas buscas, se quisermos mesmo ampliar as nossas consciências, precisamos nos esforçar para ampliar os nossos conceitos, nos aperfeiçoar cada vez mais na arte de abrir mão dos nossos pré-conceitos, isto é, dos conceitos pré-estabelecidos que carregamos. Eu não estou fora disso e acho que ninguém está...

Voltando ao desenrolar do post, um ponto importante, que eu mais uma vez constatei por aqui, foi que na psique de muita gente existe um grande obstáculo com relação a tudo que eu possa dizer ou manifestar, pelo simples fato de me considerarem "um cristão". A palavra "cristão", na mente de muitos, não sem razão, remete a uma figura muito distante da minha realidade particular.

Na concepção de muita gente, o "cristão" é aquele cara que freqüenta um templo, obedece cegamente ao que diz o sacerdote, segue uma cartilha de regras e não tem como conhecer a Verdade maior, porque está limitado pelas suas crenças. Então, a partir daí, tudo o que eu digo passa a ser instantaneamente interpretado da seguinte maneira: "Lá vem o Henrique com o seu ponto de vista cristão/limitado" - Há um bloqueio que se arma automaticamente, e aí, tudo que eu digo é analisado sob essa lente pré-conceituosa.

Enquanto qualquer pessoa estiver fazendo isso, eu nunca serei totalmente compreendido. As minhas falas podem ser compreendidas em parte, mas será impossível captar os meus pontos de vista no seu sentido mais profundo.

A leitura do "a Arte das artes" ficaria muito mais produtiva se o leitor tentasse esquecer que eu resolvi praticar a minha espiritualidade dentro de uma determinada forma religiosa, e que por isso posso ser considerado um "cristão".

Se prestarem atenção, verão que 99% de tudo que eu falo aqui não se refere a qualquer religião específica. Eu falo sempre de princípios universais, independente dos rótulos. E a palavra "religião", como muitos já sabem, significa "religação com o Divino"; isto é, o Conhecimento do Divino, a Comunhão com o Divino. - Então, num sentido mais profundo, religião singnifica Trilha Espiritual. E o Caminho do verdadeiro buscador é um só, independente da forma. - O que não quer dizer que todos os caminhos são iguais, mas que a Verdade é uma só, e se manifesta de diferentes maneiras, nas diferentes formas. Eu já falei isso muitas vezes por aqui.

Mas então, sendo assim, porque eu resolvi que passaria a exercer minhas práticas espirituais dentro de uma forma específica? Já expliquei de que maneira aconteceu, mas não como. Por que decidi seguir Jesus Cristo? Porque adotei uma via formal? Qual a minha concepção de Jesus?




Da mesma maneira que quando ouvem a palavra "casa" alguns podem imaginar um casebre e outros até mesmo um prédio, o nome Jesus Cristo remete cada indivíduo a um "lugar" diferente. Para alguns, Jesus é uma imagem de gesso. Para outros, um homem misterioso retratado numa bela pintura renascentista. Para certas pessoas Jesus é uma espécie de hippie ou "easy rider"/motoqueiro selvagem (vi uma pintura retratando Jesus como 'easy rider', de jeans surrado, camiseta branca e jaqueta de couro, uma medalhinha com o símbolo do superman no pescoço... eu achei muito legal!..), ou um revolucionário político, ou um yogue.... Para outros, ainda, Jesus é o Universo, ou Deus, o que complica mais ainda a conversa... O dia em que eu souber definir Deus eu falo para vocês.

Mas eu ainda não respondi a "pergunta de um milhão de dólares": quem é o Jesus Cristo que me cativou, que tomou conta de tudo em mim, que me sacudiu e me fez ver certas realidades antes invisíveis? Quem é esse, em quem passei a basear a minha vida e a minha busca, a partir do momento em que o encontrei? A questão é que essa pergunta não faz nenhum sentido, bem lá no fundo, porque já sei que por mais que eu explique, ninguém vai conseguir "captar" a minha resposta, que é só minha. - O que eu acho que posso, e devo fazer (já passou da hora), é tentar derrubar de uma vez por todas essa imagem distorcida que tanta gente têm de mim. Lá vai...

Para mim, a tentativa de definir, esgotar ou resumir a Verdade, seja sob a forma de "cristianismo" ou qualquer outro "ismo" que se possa imaginar, é um completo absurdo em si mesma. O "cristianismo", como definição total e final da Verdade, só poderia fazer algum sentido num desses casos:

1) Se o Cristo a que estivermos nos referindo não for somente aquela figura cabeluda e barbuda retratada nas imagens e nas pinturas. Eu digo que algumas dessas imagens podem até ser muito belas, digo que elas têm o seu valor e o seu significado, mas são simplesmente uma piada (e de mau gosto) se comparadas com a Consciência Crística a que eu me refiro quando falo no Cristo;

2)
Se pensarmos no Jesus retratado na Bíblia, que também é uma imagem imperfeita; porque a Bíblia é um livro escrito por homens, e como todo livro, ainda que seja um livro sagrado, é limitada. - E a própria Bíblia afirma isso(!), - O que não quer dizer que aquilo que os Evangelhos nos contam a respeito do Cristo não seja verdadeiro, mas sim que apenas conhecer os Evangelhos não representa a totalidade da experiência que buscamos e de que precisamos.

O cristianismo é um meio, não o fim. Quando nos referimos à Verdade além das formas, as definições são inúteis. Mas o Cristo que eu encontrei, e que por ele passei a ser chamado de "cristão" (mesmo desprezando os rótulos), é a Consciência Crística Cósmica! Trata-se de algo muito maior! Estou falando da manifestação divina que permeia o Cosmos e que nos permite entrar em Comunhão com o "Pai" Criador. Estou falando da Energia por meio da qual todas as coisas se fizeram e se fazem; o Verbo Primordial!

O sangue que flui nas minhas veias é esse Cristo. O ar que eu respiro é esse Cristo... É nele que eu me movo e sou! Mas ele não se resume a isso; ele vai além disso; - está dentro e fora de mim. Está em mim, é verdade, mas vai além de mim, e por isso se diz que o Cristo "intercede por nós junto ao Pai". - Por meio dele entramos em Comunhão com a Força Criadora: nos tornamos "Um com o Pai" através da Consciência Crística.

O Cristo a que eu me refiro e a Verdade que eu busco são uma só coisa! Mesmo que a IMAGEM ou a IDÉIA que fazemos do Cristo pudesse ser apagada do nosso mundo, a Divindade Crística permaneceria, porque Ela está presente no Tudo e no Nada, e os buscadores da Verdade continuariam chegando a ela, inexoravelmente. Por isso, o próprio Cristo clama:

"Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim. Todo aquele que é pela Verdade, ouve a minha voz"

Evangelho segundo João, 14,6 / 18,37


Jesus, o Galileu, nascido filho de um carpinteiro, foi a manifestação física da Divindade/Verdade neste nosso plano. O Cristo é tudo em todos. Mas o fato de Cristo "estar em nós" não significa que nós não precisemos buscar essa Comunhão; - e essa percepção não é exclusivamente cristã. Como diz o Mahabharata, o livro sagrado hindu:

"Disse Arjuna (homem): 'Tu és o Brahman Supremo, o último, a suprema morada e o supremo purificador; a Verdade Absoluta e a pessoa divina eterna. Tu és o Deus primordial, transcendental e original, e Tu és a beleza não nascida e todo-penetrante. Todos os grandes sábios proclamam isto ti. (...) Na verdade, só Tu te conheces através da tua potência interna, ó Pessoa Suprema, origem de tudo, Senhor de todos os seres, Deus dos deuses, Senhor do Universo! Por favor, fala-me detalhadamente dos teus poderes divinos, pelos quais penetras todos estes mundos e moras neles. Como devo meditar em Ti? Em que forma deves ser contemplado, ó Bem-Aventurado Senhor?'

Respondeu Krishna(Deus): 'Sim, Eu lhe falarei de Minhas manifestações esplendorosas, mas somente das que são proeminentes, ó Arjuna, pois Minha opulência é ilimitada. Eu sou o Eu, ó Gudãkesa, situado nos corações de todas as criaturas. Eu sou o começo, o meio e o fim de todos os seres. (...) Mas saiba que eu estou em você, mas você não está em mim. Eu sou tudo, mas sou independente. Eu não estou sob a influência dos modos da natureza material. Eles, ao contrário, estão em mim
...

Trechos do capítulo X e outros

Arjuna precisaria se purificar, se aperfeiçoar e colocar o Amor por Deus acima de todas as outras coisas para poder encontrá-lo, para poder perceber essa presença divina dentro dele mesmo. Por isso Arjuna é chamado pelos devotos de "buscador". Essa expressão, "buscador", que eu tanto aprecio, aprendi num templo hindu, o Sahaja Yoga; ela deriva dos textos sagrados hindus, embora também seja comum ao budismo e ao cristianismo... - Olha os "ismos" aí de novo. Difícil não falar neles, quando tentamos nos expressar em termos de espiritualidade. - Repito que importa saber que os "ismos" são formas pelas quais nos conectamos à Verdade, mas não a Verdade em si.


Na esperança de ter conseguido lançar alguma luz sobre essas questões que me perseguem desde a conclusão da primeira fase deste blog, desejo um final de semana cheio de Luz para todos...


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