Consumação

Um outro recomeço - conclusão

uma coisa que precisamos definitivamente aprender, se quisermos obter algum progresso em nossa busca pela Verdade: a vida espiritual é dinâmica, e não estática. A caminhada nessa jornada não acontece numa linha reta e constante: estamos sempre encontrando novos desafios pelo caminho. E junto com esses desafios, novas possibilidades de compreensão não param de surgir diante de nós, a cada dia que nasce... Diferentes trechos e tipos de estrada vão surgindo à nossa frente, e mudam sempre, dia após dia. Alguns trechos difíceis parecem se repetir muitas vezes: até aprendermos o que há para ser aprendido por ali e não precisarmos mais passar pelas mesmas dificuldades. Eu conheço muito bem um cara meio maluco que teve que passar várias e várias vezes por certos trechos difíceis, repetidas vezes, até aprender a sua lição... O nome desse maluco é Henrique.

No caminho da busca pela Verdade, há muitas subidas e descidas, e também há trechos planos. Às vezes chove e às vezes faz sol. - Em certos trechos há uma linda luminosidade, enquanto outros são escuros. Às vezes há passarinhos cantando e cachoeiras frescas e límpidas para nos refrescarmos. Em outros trechos nos deparamos com vales espinhosos e topamos com serpentes venenosas.

Aprendi que no caminho da busca pela Verdade não existe essa coisa de “encontrei a Luz e a partir de agora a minha vida será iluminada para sempre”. Esta é a grande aventura da vida, e todos os santos e sábios parecem ter entendido isso; praticamente todos eles se referiram às inconstâncias e irregularidades na Grande Jornada. - Se fosse para vivermos uma vida perene, livre de quaisquer dificuldades, numa eterna, suave e linear rotina de tranqüilidade, não teríamos vindo para este mundo complicado, mas teríamos ficado no lugar de onde viemos, se é que acreditamos que viemos de Deus.

Por isso, é preciso entender que a meditação, a oração, os rituais formais e a própria religião... todas essas coisas são ferramentas necessárias, que deveríamos aprender a utilizar bem nesse percurso, mas não são o fim em si mesmas. Em nossa jornada de aprendizado, a religião, com todas as suas regras, formas e rituais, funciona como uma espécie de sistema de treinamento para a alma. Um treinamento que deve ser contínuo, e que se for observado diligentemente, diariamente, nos tornará mais fortes e aptos a caminhar com desenvoltura cada vez maior nessa difícil estrada. Auto-disciplina faz parte desse treinamento, e até alguma dose de ascetismo pode ser útil, como jejum e abstinência, que funcionam como exercícios de purificação corporal/mental e auxiliam no autocontrole. Através da prática de orações ou recitações mântricas (repetitivas) podemos aprender a controlar as agitações de nossas mentes, colocando um necessário freio na ânsia por satisfazer nossos desejos egóicos desenfreados... Mas a prática do Amor ao próximo é o maior de todos os exercícios.

Estes são os pontos básicos essenciais de tudo que aprendi até hoje em em minha busca. Mas por que comecei esta postagem falando sobre tudo isso? Porque o final da parte anterior dessa série de postagens terminou com uma cara de “e foi feliz para sempre”. E, como disse, já aprendi que isso não existe, em nossa realidade. - Quanto mais cedo entendermos e aceitarmos esse fato, tanto antes no colocaremos prontos a prosseguir com maior proveito neste nosso caminho de aprendizado! - Eu contei a respeito das grandes provações que sofri, das dificuldades, do meu afastamento de Deus e de mim mesmo, dos dias difíceis que enfrentei sem entender porquê, e como finalmente tudo se esclareceu e a Luz ressurgiu dentro de mim, tão repentinamente como havia desaparecido. Mas o que veio depois disso?




Os efeitos da minha Visão continuavam muito presentes e muito vívidos em mim; e agora, finalmente, eu tinha paz para apreciar tudo. Não haviam mais sombras nem pesadelos, e nem escuridão me rodeando ou sentimentos depressivos... Todas as vezes em que me colocava só e em silêncio, as lembranças da minha Visão beatífica afloravam, e eu via novamente aquela luz maravilhosa emanando da Hóstia; sentia novamente o tempo parando à minha volta, e me parecia ouvir uma voz muito suave emanando da luz, que me dizia: “Eu estou aqui. Você me encontrou, aqui...”

Como já disse, aquela foi a vivência mais impactante que eu já tive, em toda a minha vida, a respeito da qual não tenho nenhuma dúvida, simplesmente porque... EU VI! Ninguém me contou, eu não li em nenhum livro e nem assisti num filme. Eu VI e VIVI essa experiência, e isso pode fazer muita diferença na vida de um buscador. - Se alguém me contasse uma história parecida com a minha, antes de eu ter passado por isso, mesmo que fosse alguém em quem eu confiasse muito, primeiro iria cogitar a possibilidade de alucinação; e depois, mesmo se eu viesse a acreditar em tudo, não seria capaz de avaliar o impacto de uma vivência dessas, nem de longe. As consequências diretas de ter vivido uma epifania dessa magnitude, na minha vida, foram muito grandes; e não havia como ser diferente. Algo que percebi foi a minha completa e involuntária mudança de atitude com relação às alegações das outras pessoas. Até então, embora respeitasse, eu não acreditava muito em depoimentos como esse:

Com a palavra, o ex-pastor Sidney Veiga



Antes, eu não acreditaria numa alegação como essas, ou teria muita dificuldade para tanto. Agora eu acreditava perfeita e tranqüilamente, porque eu mesmo tinha vivenciado algo parecido! E a sensação era muito boa, tranquilizante e inspiradora. Mas eu disse que a vida é aprendizado, aperfeiçoamento constante. E só precisa se aperfeiçoar quem ainda não é perfeito. Como eu. E como disse, eu acredito que sempre haverão dúvidas no meio do caminho, enquanto estivermos neste mundo, e cada nova resposta que recebemos faz brotar mais perguntas. Esta é a via do buscador. Agora, era uma outra velha questão que aflorava dentro de mim, mais forte do que nunca: uma questão que trazia perguntas bem incômodas.

Não havia como a experiência maravilhosa que eu vivi não fazer despertar novamente em mim uma antiga questão que eu mesmo já me propusera, uma infinidade de vezes, a respeito da qual já fizera muitas perguntas, aos outros e a mim mesmo, em muitas ocasiões, e que até aquele momento permanecia sem uma resposta definitiva ou que realmente me convencesse. E eu já compreendi que uma dúvida, nas questões da fé, é como uma pedrinha que entra no sapato; não adianta tentar ignorá-la. Enquanto você não se dispuser a se curvar e abaixar para tirar o sapato, ficar descalço e balançar o sapato, jogando a pedra fora, você não vai ter paz. Às vezes a pedra fica encravada em alguma reentrância, alguma costura interna do sapato ou presa na palmilha, e aí você tem que procurar até achá-la, para então se livrar dela. Só então se consegue retomar o passo...

E que dúvida tão incômoda seria essa, de um cara que viveu uma experiência sagrada tão maravilhosa? Bem, é esta: a Sagrada Comunhão da Eucaristia é uma prática exclusivamente católica, certo? Certo. Então, se Jesus está realmente presente na Eucaristia, como eu achava que acabara de confirmar por mim mesmo, e se, como ensina a doutrina, ele realmente se faz presente sob a forma do alimento espiritual que traz a Vida para todos que o buscam... O que seria dos milhões que não conhecem a Sagrada Eucaristia?

Jesus nos resgata através dos Sacramentos, e o maior dos Sacramentos é a Eucaristia. Jesus está presente na Eucaristia, no Pão Consagrado, conforme ensina a Igreja, apesar de todos os gritos de protesto da razão humana e dos racionalimos. - Como ele disse: "Obrigado, Pai, porque revelastes estas coisas aos simples, mas as tornastes ocultas aos doutores e aos sábios"... - Porque um "sábio" não consegue aceitar uma realidade assim tão mística. Para os sábios do nosso mundo, esse tipo de coisa é loucura! Mas agora a minha "sabedoria" tinha sido abalada, e eu não tinha mais dúvidas. Jesus está no Pão Consagrado. - Mas, e quanto aos seguidores sinceros das outras religiões?

O que eu não podia entender é o Deus Uno, o Deus absoluto, Criador de tudo o que existe e Fonte da própria Vida, se restringindo a um lugar, ou mesmo a uma forma física, como o pão e o vinho. E porque Ele haveria de escolher uma única religião, para, exclusivamente através dela, se manifestar à humanidade? Que Jesus Cristo, manifestação da Verdade e da Vida neste mundo, tenha ensinado o Caminho a ser seguido, e que esse caminho tenha se tornado uma religião, nada de complicado nisso, porque religião quer dizer "religar-se", e não havia como os seus ensinamentos não serem formalizados, até porque, se não o fossem, seriam irremediavelmente perdidos, para sempre. Mas o que me causava desconforto era pensar no caráter excludente da religião. Sim, porque qualquer religião é sempre exclusivista, mesmo que não pretenda ser; isto é, toda religião exclui.

Se eu não aceito os seus princípios de fé ou dogmas, estou excluído, se eu não cumpro os seus estatutos, estou excluído. E eu já tinha conhecimento suficiente a respeito de religião para saber que o problema, aí, não está nesta ou naquela forma religiosa. Todas as religiões têm seus princípios e regras, todas têm seus próprios dogmas, ainda que não os chamem assim. E dessa forma, se tornam excludentes. Um dogma é um dogma, mesmo que você o chame por outro nome: significa princípio de fé, e todas as religiões os têm, senão não seriam religiões. Um dogma é algo em que você precisa crer para pertencer aquele grupo. Eu já vi, por exemplo, diversas vezes, espíritas criticando católicos por causa dos dogmas, mas eles também têm seus próprios dogmas, ainda que não admitam. - Reencarnação é um dogma, mediunidade é um dogma, psicografia é um dogma, Umbral é dogma, obsessão por espíritos é dogma, evolução do espírito através das muitas encarnações é um dogma, a não existência de milagres no mundo natural é um dogma... Todos estes são princípios de fé, bases religiosas que você precisa partilhar com os outros adeptos, ou então não pode ser considerado um membro daquele grupo; isso é dogma. E é preciso que seja assim, porque este é o único modo de se preservar o conteúdo de uma doutrina.

"Ah, mas os princípios da minha religião você não tem que aceitar assim, você confirma por si mesmo ou não..." - Eu já ouvi muito esse tipo de argumento, mas essa também é a realidade de todas as religiões! Quem vai me dizer que eu não comprovei por mim mesmo que Jesus está presente na Eucaristia? Quem vai me contrariar se eu afirmar que, sim, milagres existem? E o mais curioso de tudo é que eu sei que aqueles que gostariam de me contestar, só poderiam fazê-lo justamente baseados nos dogmas de suas próprias crenças! Mas eu sei o que vi e o que vivi, e isso ninguém pode tirar de mim. Porém, daí a excluir como indigno ou herege alguém que não vivenciou as mesmas coisas que eu, vai uma longa distância...

E eu estou querendo falar sobre exclusão aqui. Repito: toda religião é excludente. Se eu não acredito em reencarnação, estou excluído do hinduísmo. Se eu não acredito em Jesus como Deus, estou excluído do Cristianismo. Se eu não acredito em mediunidade, estou excluído do espiritismo. Se eu não acredito que o homem pode se iluminar e se libertar do mundo fenomênico por seus próprios méritos e esforços, independente da Graça de Deus, estou excluído do budismo. Então, por mais que se afirme o contrário, sim, toda religião é excludente. Elas incluem os que pensam igual, os que assumem e aceitam os seus princípios de fé, mas excluem os que os rejeitam. E quando falo em exclusão nesse contexto, obviamente não estou falando de tratar alguém mal ou jogar pedras em quem disser algo que vá contra o que segue aquele grupo. Embora as coisas já tenham sido assim, hoje há muito mais aceitação e respeito entre as diferenças, porque hoje existem leis universais que obrigam a convivência respeitosa entre todos os seres humanos... Bem, a não ser talvez em algums países islâmicos, onde o apedrejamento dos infiéis ainda acontece, e talvez na Índia, onde os que nascem em castas inferiores são tratados como vermes, por terem sido maus em encarnações passadas...

Mas o problema é que a exclusão está na raiz do próprio conceito que temos de religião, embora não esteja presente na sua idéia original. Por isso mesmo, ao longo dos séculos tantas guerras e atrocidades ocorreram em nome dela: se você acredita em Javé, e eu em Alá, isso é motivo suficiente para eu assassiná-lo sem nenhuma piedade, mesmo que o seu Deus e o meu sejam o mesmo e um só. Eu o mato porque você não faz parte da minha turma. E eu posso explodir um prédio inteiro, ceifando milhares de vidas inocentes, de civis, incluindo crianças e pessoas que não tem nada a ver com a minha ideologia, só para mostrar ao mundo que o meu Deus é mais forte. E se você acha que é bom usar imagens no templo, e eu acho que isso é um pecado, então eu tenho todo o direito de caluniá-lo, chamá-lo de idólatra, de infiel... O que também é um apedrejamento público, só que velado.

Mas então, o que fazer? Fugir de todas as religiões? Evitar pertencer a qualquer uma delas? E eu tinha que me perguntar: se essa for a resposta, - não pertencer a nenhuma religião, - porque tantos sinais me levaram a uma religião formal, e talvez a mais tradicional de todas? Sim, não existe nenhuma religião tão tradicionalista quanto o catolicismo: até o judaísmo tem suas diversas corrrentes divergentes, mas o catolicismo permanece imutável em suas bases de fé desde as suas origens.

Como diz um dos meus leitores, “prefiro não mergulhar completamente num rio, porque assim eu não perco a visão do que acontece fora d'água”. - Boa analogia. Esse rio seria uma religião qualquer. Se você mergulha totalmente num rio, a sua visão de tudo o que acontece do lado de fora fica prejudicada. E existem coisas boas e interessantes acontecendo do lado de fora do rio, sem dúvida nenhuma. Se você fica de fora, consegue ter uma visão periférica, global e universal, de tudo o que acontece. Mas, se por um lado eu entendo esse ponto de vista, e até compartilho dele, nós não podemos deixar de reconhecer que a recíproca também é verdadeira: se eu não mergulho no rio, e se não vou bem fundo nele, nunca vou saber o que há nas suas profundezas; nunca vou saber como ele é de verdade, por dentro, e nem o que ele tem a me oferecer. Ficando sempre de fora, tudo que eu vou ter é uma visão generalizada, e muitas vezes equivocada ou distorcida a respeito do rio. Já ouviram falar no Efeito Paralaxe? Pois é, a água distorce a visão de quem olha de fora... É por isso que, quando você olha alguém dentro de uma piscina, a parte do corpo que fica sob a água parece completamente distorcida... No meu caso, tudo me levou a crer que havia um tesouro maravilhoso guardado para mim bem lá no fundo desse rio, e que eu deveria mergulhar de cabeça nele, para buscar. Eu fui, e vi o Tesouro. Agora restava alcançá-lo.

Bom, acho que os que me acompanham há algum tempo vão compreender se eu disser que não posso negar as minhas experiências, nem o fato incontestável de que a Vida me levou a esse caminho determinado, com Sinais maravilhosos. E que, ao abraçar esse caminho, a minha decisão foi confirmada soberbamente, com Sinais ainda mais inegáveis, que chegaram ao ponto de uma grande revelação visual! Eu não posso e não devo ignorar ou negar esses fatos, porque são reais! São Sinais que fizeram e fazem parte da minha busca, que permearam o todo o meu caminho, desde o princípio, como tentei contar aqui mesmo no Arte das artes.

Então, por que a Vida se manifestaria a mim de um modo tão claro e maravilhoso, não me deixando direito à dúvida, se não fosse este o caminho certo a seguir? E, se estar preso a um caminho definido não é bom, - se é limitador e excludente, porque eu fui levado a isso, quando procurava tão sinceramente, no mais puro e dedicado empenho da minha alma, orando e meditando sobre isso dia e noite, como contei na primeira fase deste blog??

Respostas para essas perguntas, eu tinha só em parte. Sei que, como falei acima, pertencer a uma egrégora e praticar uma forma definida de espiritualidade me dá chão, me serve como bússola ou como lanterna para usar nessa jornada. “Tua Palavra é lâmpada para os meus passos...” (Salmo 119:105)

Perdi a conta de quantas vezes, nas minhas orações e nas minhas meditações, ao longo de toda a minha vida, pedi a Deus: “Revela-te! Mostra-me a Tua Vontade, diz-me aonde Te encontro!” – E agora tinha acontecido! A resposta veio, afinal. Eu tinha a plena convicção de que o mesmo Mestre que me levou a este caminho, agora me havia concedido a imensurável Graça de se revelar a mim dentro deste mesmo caminho. Ele se mostrou, e disse: “Estou aqui”! Ele confirmou a minha fé, me mostrou que eu estava no rumo certo, me fez ver que eu não estava enganado.

Mas a pergunta permanecia: e quanto à exclusão de todos os outros? Por mais maravilhosa que seja uma doutrina, o que dizer de todos aqueles que não compartilham desta mesma fé? Quando eu concluí a primeira fase deste blog, ao revelar o final da minha busca, - ainda que tenha sido um final parcial, - muita gente não entendeu a minha opção, e mais do que isso, não entedeu o fato de ter optado. Alguns até se indignaram. E eu os entendo! Como já disse, uma opção, neste caso, implica exclusão. - Aí está uma questão que sempre me incomodou muito, e eu não queria deixar passar a oportunidade para afinal desvendá-la. E esse me parecia o momento mais que ideal para buscar entender as coisas que sempre me foram difíceis. Agora que sentia a presença divina mais perto do que nunca, esta era a hora de fazer as perguntas certas e obter respostas definitivas.

Jesus está na Igreja. Sim. Mas como interpretar o “Ninguém vem ao Pai senão por mim”, trecho do Evangelho que tantos usaram, ao longo da história, para tentar convencer a todo o resto do mundo que não existe nenhum outro caminho válido a não ser o Cristianismo, inclusive tentando converter pessoas à força? Era isso que me incomodava, e agora tinha chegado a hora da compreensão de tudo. Agora que eu sentia uma abertura na minha alma e na minha mente tal como nunca antes, este era o momento de aproveitar a oportunidade.

E, sim, a resposta veio.


Templo Imaculada Conceição - Ipiranga, São Paulo


Como já comentei aqui no blog, no começo deste ano me foi confiada a incumbência de escrever o livro que vai contar a história centenária de uma grande Paróquia de São Paulo, a São João Batista do Brás; tarefa que aceitei com muita alegria. Em razão disso, passei os últimos meses fazendo aprofundadas pesquisas no Arquivo Metropolitano da Cúria de São Paulo, transcrevendo os registros históricos que serão a fonte de todo o conteúdo do livro. Bem, o Arquivo fica na Avenida Nazaré, no bairro do Ipiranga, num complexo imobiliário muito bonito, cercado de jardins bem cuidados, com corredores tranqüilos, iluminados pela luz natural. Deste complexo fazem parte também os edifícios da Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção, o Seminário Central do Ipiranga e o belo templo da Paróquia da Imaculada Conceição (foto). Freqüentemente, terminado o trabalho do dia, antes de vir embora, ia à Capela do Santíssimo Sacramento, dentro desse templo, para orar e meditar um pouco.

Eu já vinha pedindo por iluminação sobre o que havia me acontecido, sobre a Visão que tive, sobre o seu significado e tudo o mais. Vinha pedindo por sabedoria, luz, orientação. Vinha pedindo entendimento.

Então, no dia 21 de Agosto, encerrei o meu trabalho no Arquivo mais cedo, ao meio dia, porque na parte da tarde tinha outros compromissos. Lembro-me bem que aquele era o dia da colação de grau da licenciatura de Hana, em letras... Mais um dia que nunca mais vou me esquecer.

Entrei na Capela em torno de meio dia e cinco. Fiquei por um tempo ajoelhado diante do Tabernáculo do Santíssimo, como sempre faço. Depois me sentei; eu não tinha pressa. Sempre que tenho essas pausas no meu dia, aproveito para meditar. Passei um tempo olhando para o Tabernáculo, para a chama das velas... Depois de ter vivido a experiência da Visão, nunca mais pude entrar da mesma maneira que antes numa Capela onde se conserva a Hóstia Consagrada, onde agora sei que há mesmo a Presença Real do Cristo. Tudo é diferente.

Faço minhas orações. Estou calmo, e me sentindo muito bem. Fecho meus olhos e entrego a minha meditação ao Deus do Amor. O Silêncio, a Paz e a quietude começam a crescer, dentro de mim, a tomar conta de todo o meu corpo, e mais além, da minha mente. Logo começo a sentir que a energia luminosa extravasa os limites do meu ser, entrando em Comunhão com uma Energia maior, absoluta, que se faz presente de maneira especial naquele Lugar Sagrado. Eu suspiro profundamente, enquanto sinto um sorriso se desenhando involuntariamente em meus lábios. Pensamentos suaves e agradáveis ocupam completamente a minha mente: "Ah, como seria bom se todos soubessem, se todos viessem até a Tua Presença, pedir pelas suas angústias e principalmente agradecer por tudo de bom que já têm, e nem percebem... Do que mais precisamos, a não ser desta Tua Paz?"

Nos períodos meditativos é como se o tempo não existisse, e o que foram minutos podem parecer horas, ou vice-versa. Eu simplesmente me deixei aproveitar o agora, e cada vez que sentia minha atenção fazer menção de voltar às preocupações do mundo, eu repetia minha palavra mântrica sagrada: "Deus Pai, Deus Pai, Deus Pai...". - Há uma linda razão por ter escolhido esta palavra sagrada, que talvez um dia eu conte aqui.



Subitamente, eu senti algo muito parecido com o que senti no dia da minha Visão. A grande calma, uma paz de espírito extrema, um sentimento amoroso que me envolvia completamente, como se o próprio Universo fosse uma mãe carinhosa, me pegando nos braços e me cantando uma doce canção de ninar... Experimentei mais uma vez a sensação de estar fora da realidade objetiva, comum e ordinária do mundo dos afazeres, deveres e tarefas a cumprir... E era como se tudo o que aconteceu na minha vida, desde o momento único da minha Visão, até aquele novo momento único, fosse apenas ilusão, e como se só agora eu estivesse retornando à única Realidade que há. Então, suavemente, uma voz sem tonalidade e nem intensidade, uma voz não audível e não reconhecível, falou direto ao meu espírito:


"Eu Sou o Princípio e o Fim.


Eu estou Aqui, Mas Não Estou Aqui Confinado,


A Minha Verdade é Uma Só, Mas Eu Estou em Toda Parte.


Quem me Busca, Me Alcança.


Eu Sou o Princípio e o Fim"


Digo que ouvi em espírito, porque sei que a "audição" estava totalmente indissociada do meu cérebro. Imediatamente fui arrebatado a um lugar novo e desconhecido, nas profundezas da minha própria alma. Um lugar onde reinam Harmonia e Paz, e, exultante, senti a Compreensão entrando em mim, como água invadindo uma canoa furada. A canoa do meu racionalismo tinha sido avariada de vez! Entendi que o Cristo é a Palavra de Deus aos homens, que se manifesta a todos, de modos diferentes e desconhecidos, e que é por isso que só a ele cabe julgar, individualmente, a cada um de nós. Entendi que a Verdade é gravada nos corações de todos aqueles que a buscam com a total sinceridade das suas almas; aqueles que buscam a Verdade, e não apenas conforto. Entendi também muitas outras coisas, muitas das quais eu já sabia ou tinha ouvido falar, muitas vezes, mas nunca tinha compreendido de uma maneira tão completa, integral e perfeita como naquele instante...

Entendi que, mesmo que as formas e as práticas sejam, sim, ainda necessárias, a verdadeira prática está e precisa ser cultivada dentro de cada um de nós. Estas e muitas outras coisas entendi no mais profundo da minha alma, não usando da minha mente racional e analítica, que eu tão bem afiei durante toda a minha vida, mas com um tipo de compreensão muitíssimo mais profunda, uma compreensão que não pode ser medida, analisada ou explicada. E mesmo assim insisto em compartilhar tudo com você, que me lê agora. Faço isso porque sei que os que estiverem prontos ou empenhados nessa mesma busca, com total sinceridade e transparência de alma, compreenderão.

Depois disso, nesse mesmo dia, eu fui para casa e comecei a escrever esta postagem, em 21 de Agosto, mais ou menos às 14 horas. Ela acabou rendendo quatro partes, que só pude concluir hoje, 19 de Setembro. Foi difícil falar sobre isso, e tentar me fazer entender foi cansativo. Mas era de se esperar, dada a importância do que estou contando. Espero que tudo o que compartilhei com você, ao longo desse tempo, possa ser útil na sua própria busca. Que o auxilie na sua compreensão. É isso que Ele também espera.





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