Consumação

Um outro recomeço - parte III


Depois de vivenciar a experiência que contei nas primeiras partes desta postagem, passei a compreender, completamente, porque os verdadeiros místicos não procuram ser chamados "místicos". - É porque a palavra “mística”, no mundo deturpado em que vivemos, não é suficiente para descrever uma experiência divina e inefável, vivida além dos limites dos nossos sentidos. - Toda palavra se torna um rótulo, por carregar em si mesma certos conceitos pré-estabelecidos, que vão "aderindo" a ela por meio do uso comum. Mas a verdade é que, se “místico” não serve, tampouco alguma outra palavra seria boa o suficiente para descrever o que acontece quando nós, seres humanos, somos convidados a colocar um “pezinho” além deste nosso mundo de prisão... Quando nos é permitida uma pequenina espiadela para além dos feios muros que nos cercam, as palavras perdem o sentido. Por isso, no desespero por me fazer entender, sei que ainda usarei termos como “místico” e outros igualmente imperfeitos.

Quando eu pensava em escrever sobre a minha experiência, para publicar aqui, me ocorriam adjetivos aparentemente contraditórios, como “tremendo", "tranqüilo", "arrasador", "fascinante", "perfeitamente sereno". - O que eu vivi foi tudo isso a um só tempo; e era como se dentro daquela outra realidade esses opostos não se desencontrassem, não se opusessem, mas se completassem formando um só inteiro. – Sei que naquele momento eu era um com a harmonia perfeita, o equilíbrio absoluto. Nadei num oceano infinito de bem-aventurança... E os efeitos dessa vivência permanecem e permanecerão em mim. - Como já disse, nunca mais poderei voltar a ser o que era antes.



Quando eu voltei para casa naquele domingo, compreendia como nunca em minha vida o significado da expressão "andar nas nuvens"... Me lembro de me deitar no sofá e me deixar ficar ali, olhando para o teto, para o nada, desistir de tentar assimilar o que acabara de me acontecer e simplesmente aproveitar o momento. - No instante em que vivia a experiência não tive como sentir nada, era como se não houvesse espaço para sentimentos. Eu simplesmente era. Já disse que não vou tentar explicar, sei que não poderia existir nada mais inútil do que isso. Foi o que disse para Hana, logo depois de contar o que me havia acontecido. Ela ouviu a tudo maravilhada, mas de um jeito natural, como é o seu modo de ser. A fé dela é bem maior do que a minha; ela não é do tipo que precisa de provas.

Vou dizer apenas que durante todo aquele domingo eu existi e me movi como que num êxtase sublime, maravilhoso. - Tudo era harmonia, paz, quietude... O dia foi especial como não poderia deixar de ser. À tarde eu e Hana saímos para um passeio, mas em minha mente estava, todo o tempo, a imagem da Luz beatífica que só eu pude ver. Fui agraciado...

Até o amanhecer do dia seguinte. A segunda feira, 21 de Abril, amanheceu sombria para mim. Acordei estranhamente indisposto, desanimado, sem energia. Levantei-me cansado, como se tivesse passado a noite inteira sob trabalhos forçados. Era feriado. Hana me perguntava se estava tudo bem e eu dizia que sim, achava que seria um mal estar passageiro, que logo me deixaria. Mas eu estava enganado. Fiquei mal durante todo o dia, e a esperada melhora não veio, até o anoitecer.

Dia seguinte. Acordo com uma dor de cabeça enjoada, sensação de tontura e um mal-estar generalizado. Sei que não há nada de errado comigo, fisicamente falando. - Acho que a melhor maneira de descrever o que eu estava sentindo seria com a palavra tristeza. Me sentia simplesmente triste, deprimido, desmotivado. E sem nenhuma razão aparente. Logo agora? Depois de ter vivido uma experiência tão maravilhosa?.. Por quê?

Três dias depois, a sensação ruim ainda não tinha passado, mas eu ainda achava que fosse apenas uma indisposição passageira, um período de mal humor normal. Nesse dia, depois de muito relutar, resolvi contar ao padre Marcelo, muito amigo meu, que eu citei na primeira parte desta série de postagens, a respeito da minha visão. Achei que o que eu tinha vivido era importante demais para guardar só para mim, e acho que também queria dividir a experiência com mais alguém. Ter vivido tudo aquilo e não falar nada a outras pessoas me deixava aflito; e acho que eu esperava também que alguém me ajudasse a entender a razão de ser daquela experiência tão grande e marcante.

Naquele dia, antes de sequer tocar no assunto com o padre, no meio de uma outra conversa, ele me disse: "Você sabia que S. Tomé provavelmente não se dava muito bem com São João Evangelista? João parecia ter uma fé muito maior ou mais simples que a de Tomé. Era como se João tivesse um contato direto com Deus, no seu íntimo; ele não precisava de provas. Já Tomé era racionalista e parecia usar mais da mente que do coração. Tomé dava mais valor à razão do às coisas do espírito. Ele duvidou que Jesus tivesse ressuscitado, mesmo tendo presenciado tantas maravilhas que este realizava. Jesus lhe mostrou suas marcas e ele ainda assim precisou tocá-las. Só depois se convenceu. Jesus lhe disse que bem aventurados são os que creram sem precisar ver: 'Põe tua mão aqui e vê as minhas mãos! Estende tua mão e toca o meu lado! Não sejas incrédulo, mas crê!'"

Só então me lembrei da leitura da Missa daquele domingo, o dia da minha visão, que citava Tomé: "Senhor, não sabemos para onde vais. Como poderíamos nós conhecer o caminho?" - Tomé foi um contestador, não há dúvida. Ele precisava de provas, de comprovações, assim como eu. Talvez contestador demais. Pe. Marcelo continuou: "Mesmo assim, segundo a tradição, Tomé se tornou um santo; morreu como um grande líder religioso e mártir, um homem de fé e fiel, como Jesus lhe pediu."

Depois dessa conversa, era como se eu não precisasse falar mais nada com o padre. A razão de tudo estava mais do que clara. Ficou uma questão: sou um agraciado ou um incrédulo, a quem Deus precisa dar provas da sua existência e da sua realidade, para que eu possa crer? Mesmo assim eu contei ao Padre Marcelo, com muita dificuldade, o que havia me acontecido. Depois de ouvir tudo atentamente, ele me disse que acreditava plenamente em tudo, principalmente por ser eu a contar (grande elogio de parte de um outro racionalista). E completou me pedindo que não contasse nada a mais ninguém, porque achava que o que me aconteceu tinha sido somente para mim: uma resposta pessoal, da qual só eu precisava, naquele momento. Falar sobre o assunto indiscriminadamente poderia ser algo bastante complicado, porque é difícil para muita gente aceitar. - Alguns poderiam se voltar contra mim ou então, pior ainda, passar a me idolatrar como alguém especial, importante, iluminado... Mas o fato é que todos tentariam encontrar respostas e explicações, dar suas próprias interpretações a respeito do assunto, o que seria lamentável num caso como esse. Mas disse que, no final, somente eu mesmo poderia entender e encontrar o significado definitivo de tudo, e decidir o que fazer, pois era algo entre eu e Deus. Percebendo que eu estava um pouco agitado, me pediu calma.

Próximo dia: continuo acordando pela manhã com dor de cabeça e náuseas; mais um dia que eu já inicio me sentindo depressivo e sem ânimo. Hana sai para trabalhar bem antes de mim, então estou sozinho em casa. Fico um tempo na cama, me virando para um lado e para outro, sem coragem para levantar e enfrentar o dia. Não consigo entender a razão desse mal estar contínuo, não parece haver nenhum motivo. Achava que depois de receber uma tão grande graça, tudo seria lindo em minha vida, mas o que estava acontecendo se parecia com o oposto de tudo que poderia esperar. Estou ainda ali, perdido em meus pensamentos e lutando contra o sentimento negativo que tenta tomar conta de tudo, quando ouço um ruído estranho bem ao meu lado, como um chiado ou um raspar áspero. Volto-me na direção do som e percebo pelo canto dos olhos um vulto escuro e fugidio, como que a se esconder do meu campo de visão, bem ao meu lado, como um animal à espreita. Pulo da cama, de sobressalto, olhando em volta de mim! Não há nada.

Minha cabeça parecia que ia explodir... Tentei orar, mas não podia me concentrar; as palavras saíam como se eu estivesse balbuciando palavras sem sentido, sozinho. Perdendo a minha fé? Como? Tomei um banho, pendurei meu crucifixo no pescoço e saí para o trabalho, tentando não pensar mais naquilo. Mas dentro de mim a pergunta continuava, impossível de calar: "Por quê? Minha fé e a minha relação com Deus deveria estar mais firme e forte do que nunca, mas está acontecendo exatamente o contrário... Sou como Tomé? Como ele conseguiu superar a sua natureza racionalista?"

A partir dos dias que se seguiram, e durante as próximas semanas, sentimentos muito grosseiros tomaram conta de mim, da minha alma, dos meus pensamentos. Por diversas vezes, quando sozinho em casa, parecia-me ver sombras ao meu redor, como a me cercar, minando minhas forças, assustando-me, arrasando a minha paciência. Eu experimentei alta ansiedade, eu tive medo, eu observei apavorado enquanto alguns sentimentos que eu nunca conhecera surgiam e cresciam dentro de mim. - Sentimentos muito ruins. - Eu me vi odiando. Eu me vi sendo tomado de assalto pelos mais baixos instintos humanos, e foram mais fortes do que eu. Eu me vi indefeso, pequeno, acuado, desesperado... Minhas orações pareciam não surtir nenhum efeito... E eu não conseguia meditar ou contemplar, observar tudo "de fora", como sempre costumo fazer nessas horas. Por quê, por quê?... Por que Deus me proporcionaria uma linda graça, para depois permitir que eu me visse mergulhado num mar de sofrimentos, e sem motivo?

Comecei a questionar o porquê da visão. Se foi uma visão beatífica, por que me sobreveio tanto horror depois dela? Estaria eu completamente enganado, a respeito de tudo que sempre considerei como certo? Mas isso não seria possível! Eu sempre acreditei no Amor, acima de tudo. Sempre quis coisas boas, não só para mim, mas para o meu próximo. O que poderia estar errado? Porque esse tormento agora? Exatamente agora que deveria estar me sentindo abençoado e feliz...

O pior é que eu não via esperanças de melhora; eu não conseguia ver a luz no fim do túnel, ao contrário: as trevas aumentavam num crescente que parecia não ter fim...



Noite. Durmo. O sonho é um mergulho horrível, nas mais viscosas profundidades do pavor: "Deus não é Amor", uma voz grita. "Deus só quer o sofrimento e a morte de toda a humanidade. Todos estão perdidos e você está perdido! - Você precisa mudar tudo, precisa mudar tudo agora!.. Mude o seu rumo, mude a sua vida, esqueça as complicações e aproveite a vida, ela é curta"... Trevas à minha volta, eu procuro o rosto de quem me fala. Estou só, à noite, numa casa velha e escura, caindo aos pedaços e com poeira acumulando em todos os cantos. Há uma sombra se movendo por trás de uma porta fechada, mas há uma fresta e por essa fresta eu posso ver um pouco do que há lá dentro. Súbito, um arrepio percorre a minha espinha: sinto a presença do Mal. - É algo palpável, algo que se sente, como sentir alguém que olha fixamente para você num ambiente público. - Mesmo assustado, eu sinto um impulso incontrolável para olhar o que há por trás dessa porta. O terror toma conta de tudo, mas eu olho e já não há mais nada atrás dessa porta velha. - Seja o que for, agora está bem ao meu lado, há algo muito próximo do meu rosto, a menos de um palmo!

Eu solto um berro e acordo no meio da madrugada, sem fôlego, a tempo de ver o pulo de Hana ao meu lado, que apavorada pergunta insistentemente "o que foi?" Mas eu respondo que não foi nada. Ela quer saber sobre o pesadelo, mas eu prefiro não falar nada, porque falar sobre aquilo naquele momento não me parecia uma boa idéia. Eu só queria esquecer, esquecer o horror que acabei de sentir e colocar a minha respiração sob controle. Enxugo o suor gelado na minha testa, no meu pescoço... Só quero ficar em silêncio e tentar esquecer tudo. Olhos arregalados, abajur aceso, uma mão agarrada às mãos de Hana e a outra ao edredom, que eu puxo até o nariz, temendo que o sonho tenha sido mais que sonho, e que algo horrível venha a se materializar ali naquele quarto, bem diante de mim. Tento elevar o meu pensamento a Jesus, o mestre que me chamou a um caminho realmente muito estreito...

Acordar nas madrugadas arrepiado, aterrorizado, pensando ouvir vozes e cercado por vultos, virou rotina, nos dias que se seguiram. Passei noites em claro, apavorado, querendo entender porquê. Minha saúde se fragilizou. A situação chegou a um ponto tal que resolvi visitar um médico psiquiatra, a quem pedi calmantes. - Que depois resolvi não tomar. Se aquela era a minha lição, eu aproveitaria a aula até o fim.



Por fim, no dia 24 de Junho, a calma voltou. Era de tarde. Eu não estava recolhido, não estava num lugar calmo e nem numa igreja. Estava simplesmente cuidando da minha vida como sempre. Era uma tarde de sol, que em nada parecia diferente das outras. Eu me lembro de estar andando na rua, correndo atrás de resolver algum problema corriqueiro, cruzando uma esquina do bairro onde moro, quando simplesmente olhei para o céu e vi as nuvens, que estavam muito claras. E raios de sol iridescentes tornando algumas partes das nuvens translúcidas. Um cenário bonito, mas comum e corriqueiro: apenas um céu claro, como vemos em qualquer dia de sol, nada além disso. Mas naquela tarde de sol, quando simplesmente olhei para aquelas nuvens, eu fui tomado por uma onda de deliciosa paz. Uma paz que estivera ausente por muito tempo. Foi uma lufada de tranquilidade tão intensa que eu parei ali mesmo, recostei-me num muro e fiquei simplesmente apreciando, deliciando-me, como se estivesse sendo engolfado num mar de tranquilidade, submerso num morno conforto de segurança e serenidade... Meus olhos estavam semicerrados, e quando dei por mim estava elevando uma oração aos céus, assim, quase inconscientemente. Com fé e alegria imensas. - Aproveitei para me colocar calmo e quieto, em silêncio. E ali, sem mais aquela, no mais profundo da minha breve mas muito profunda meditação, eu entendi tudo.

"Deus nos testa! Tudo que Ele nos dá é para o nosso bem. Às vezes, ele nos dá enigmas difíceis para decifrar. Mas esses enigmas são grandes presentes. São testes..." - Foi o que escrevi num dos meus velhos cadernos de reflexão e meditação, naquele dia... E escrevi mais:

"A vida do buscador é como uma prova, um eterno exame. O carvão só se torna diamante se for exposto à alta pressão e às altas temperaturas..."


Eu me lembro que me sentia completamente fora de mim, quando escrevi isso. Fora de mim de tão sereno. Me sentia, mais uma vez, como que nascendo novamente!

Desde esse dia, a paz voltou à minha vida, triunfante, mais forte e completa do que antes, e nas semanas seguintes experimentei uma harmonia interna totalmente nova. Sentia uma serenidade imensa para resolver as maiores dificuldades em minha vida. Sentia uma energia infinita. Estava mais próximo de Deus. - Como eu achei que seria depois da visão.

Só então entendi que, por razões mais que perfeitas, eu precisei ver as trevas antes de poder contemplar a beleza da luz. Se não tivesse passado pelo vale sombrio, antes, se não tivesse vivido ali e experimentado os seus terrores, não saberia entender nem valorizar a beleza e a maravilha que é estar no pico da montanha.



Mais uma vez eu falhei ao tentar estimar o espaço de que precisaria para publicar este relato completo. Se você é uma pessoa atenta que está se perguntando porque eu falei que toda essa história só viria a fazer completo sentido para mim no dia 21 de Agosto... Bem, eu vou ter que lhe dizer que mais uma vez preciso deixar a conclusão para a próxima postagem. Afinal, esta já está bem grandinha e ainda tenho muito a dizer... Paciência é uma virtude, alguém já disse nos comentários...



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