Pobre de espírito?

"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus..." - Matheus: 5:3


"Pobres de espírito"... Esta é a tradução mais antiga, tradicional e conhecida da primeira bem-aventurança. - Infelizmente. - Porque se trata de uma expressão que, com o passar do tempo, foi perdendo completamente o seu sentido original. Hoje, quando dizemos que "fulano é um pobre de espírito", freqüentemente estamos querendo dizer que se trata de uma pessoa fraca, bruta, insensível... ou alguém de entendimento limitado, sem criatividade. Pobre de espírito, no entendimento popular, acabou por ganhar um significado totalmente oposto ao sentido do Evangelho. E no dicionário Aurélio, a expressão "pobre de espírito" traz a seguinte definição: "Pobre de espírito: Pessoa simplória, ingênua, parva, tola".

Será que o Cristo está nos dizendo que o Reino dos Céus pertence aos insensíveis, limitados? Ou aos simplórios, parvos e tolos??


Algumas traduções posteriores da Bíblia, popularmente menos conhecidas, tentaram resolver o problema mudando a forma do texto para "pobres em espírito". - E já melhorou bastante, assim. - Como eu costumo dizer, na linguagem escrita, até um acento ou uma vírgula são capazes de mudar completamente o sentido de uma frase, quanto mais a troca de uma preposição. Mas... a verdade é que essa forma ainda não tornava possível alcançar completamente o sentido do texto original.

Se fizermos uma breve pesquisa, em qualquer biblioteca teológica, vamos encontrar diversas traduções dos evangelhos. Basicamente, as mais populares no Brasil, por muitos anos, foram três: a que foi feita no século XVIII pelo Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, a do Pe. Matos Soares, de 1930, ambas a partir da Vulgata Latina, e, entre os protestantes, a versão tradicional de João Ferreira de Almeida. - A Vulgata Latina é a antiga tradução feita por S. Jerônimo em fins do Século IV e iníco do século V, como você viu aqui. - Essas são as traduções mais tradicionais e mais conhecidas; e são exatamente as que trazem “Bem aventurados os pobres de espírito...”.

A expressão “pobres de espírito” foi traduzida para o português, assim como para vários outros idiomas, principalmente baseada na tradução do grego existente na Vulgata latina, feita por S. Jerônimo numa época em que os manuscritos mais antigos e confiáveis, hoje disponíveis, ainda não haviam sido encontrados. E esta foi a única tradução conhecida, por séculos, em toda a comunidade cristã ocidental. Isto acabou imprimindo na memória de milhões de pessoas a idéia do Reino dos Céus vindo a ser herdado pelos “pobres de espírito”. Uma concepção que foi passada de geração para geração.

Já a tradução bem mais recente da Editora Vozes, feita sob a coordenação geral do Prof° Dr° Ludovico Garmus, assim como a tradução da Editora Ave Maria, feita para o francês pelos Monges de Maredsous (beneditinos da Bélgica), - a partir dos originais em hebraico e grego, tendo já contado com manuscritos descobertos mais recentemente e publicada somente em 1957, - podem ser consideradas mais confiáveis que as traduções a partir da Vulgata. Veremos que estas traduções dão um significado diferenciado às palavras de Jesus:

“Bem-aventurados os que têm um espírito de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!”

Versão Editora Vozes


“Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!”

Versão da Editora Ave Maria


A chamada tradução “João Ferreira de Almeida Revisada Imprensa Bíblica”, merece destaque. Publicada em 1967, seguiu os mais antigos manuscritos até hoje conhecidos, e por isso goza de boa reputação entre os pesquisadores e estudiosos atuais. A sua transcrição do trecho é a seguinte:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”

Versão João Ferreira de Almeida Revisada Imprensa Bíblica


Interessante... Mas neste caso em particular, não há dúvida de que a melhor maneira para tirarmos as nossas dúvidas é recorrendo ao conteúdo do texto original, em grego. Não poderíamos esperar menos do que isso do Arte das artes ou de qualquer publicação que leve o estudo a sério, certo? Então aí vamos nós. É assim que fica o trecho do capítulo 5 de Matheus, na versão original* em que foi escrito:

"Makárioi oi ptõchoi tõ pneúmati õti aútõn he basileia tõn ouranõn"

Capítulo 5 de Matheus - no grego


O problema aí é que, como ocorre com outras línguas, algumas palavras e expressões do grego têm um significado difícil de traduzir. A questão toda se encerra nas palavras "ptõchoi tõ pneúmati". - "Ptõchoi" vem de "ptóchos", que significa, literalmente, ”mendigo ou mendicante". Ocorre que, como a versão mais conhecida dos textos dos Evangelhos, conforme vimos, foi primeiramente traduzida para o latim, "ptõchoi" virou “pauper”, e daí chegou ao português como “pobre”. Mas o sentido de pobre, no grego, não está na raiz “ptochos”, mas sim em “penia”, que significa pobreza. - Foi daí que surgiu a palavra “penúria”. - “Ptóchos” quer dizer, literalmente, “mendigo ou mendicante", aquele que mendiga ou pede ajuda.

E esta compreensão pode trazer muitas mudanças à nossa percepção, em termos de simbolismo, de metáfora, de parábola... Na tradução mais precisa, o que Jesus diz é “Bem aventurados os que mendigam em espírito”, ou “bem aventurados os que pedem em espírito”. E essa idéia é logo adiante confirmada com “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”, ou seja, a dimensão ética e espiritual sobrepondo-se à mera dimensão física, intestinal. E, mais uma vez, ali, a tradução de “fome” para o termo “peina” não é a mais perfeita, porque essa palavra tanto pode significar “ter fome”, como “ter necessidade de algo”.

O “mendigar”, então, simboliza estar necessitado de algo, o ansiar e pedir humildemente por esse algo; representa a consciência de qual é a nossa verdadeira e primeira necessidade. - Nossa única necessidade real. - Daí que o aceitar e se entregar completamente à satisfação dessa necessidade, segundo Jesus, constitui o "Odos", isto é, o Caminho da Libertação. O Divino desce à necessidade humana, ele próprio mostra a trilha, a jornada da Liberdade através do reconhecimento de nossa incompletitude e de nossa ancestral necessidade. - É na humildade do reconhecimento dessa necessidade que o homem se encontra, e não fugindo dela. E, na medida em que se encontra, encontra Deus. Jesus mostra o Caminho, reabre a via; ele foi mal traduzido, mas permaneceu sempre bem compreendido por todo aquele que o busca não somente na dureza da letra, mas dentro do seu próprio coração, usando de sinceridade e total transparência de alma.


A tradução que traz “humildes de espírito”, embora não literal, é das mais precisas. - O adjetivo "humilde", se usado isoladamente, poderia levar à idéia de algúem acanhado e tímido, uma pessoa que não ousa levar as suas idéias e convicções à luz da discussão e nem fazer refletir os seus princípios nas suas atitudes e na sua postura perante a sociedade. Por outro lado, quando ouvimos falar em “humilde de espírito”, fica claro que se está referindo a uma qualidade moral, e não de comportamento social, embora uma coisa transpareça na outra. Os que têm um "espírito de pobre" certamente são humildes, se reconhecem necessitados de ajuda para crescer. Mais que isso, eles sabem que a ajuda de que necessitam é espiritual, pois é nesse aspecto que está a sua pobreza. Pedem a Deus por tal ajuda, ao mesmo tempo em que se esforçam para enriquecer seus espíritos com as virtudes das quais se vêem carentes.

Quem tem um verdadeiro “espírito de pobre” é o humilde em espírito. Um pobre pode aparentar humildade no seu comportamento social, mas internamente ser um revoltado contra a sua condição e contra o seu próximo e, desse modo, não possuir humildade moral. Já os pobres em espírito são os que têm e cultivam um coração humilde. E, quando entendemos que humildade é a palavra chave para entender a primeira das bem-aventuranças, chega o momento de nos fazermos uma outra pergunta, a mais importante:

Que demonstração de humildade poderia ser maior do que colocar uma outra Vontade antes da nossa própria vontade? - Algo que o próprio Cristo demonstraria à perfeição através dos seus atos, muito mais do que com palavras; andando com "pecadores", lavando os pés dos discípulos e chegando ao ponto máximo de entregar a sua vida, numa morte horrível, depois de proferir as palavras: "Pai, se possível, afasta de mim este cálice; não seja feita, porém, a minha vontade, mas sim a Tua."... - Uma excelente proposta para meditação: Pode haver humildade maior do que esta, a de abrir mão da nossa própria vontade?

Se desfazer das nossas vontades e desejos, abrir mão completamente de nossas intenções, nossos sonhos, nossos projetos... em busca da Vontade de Deus. Aí está uma coisa sobre a qual é bem mais fácil falar do que fazer. Todos os "religiosos" que eu conheço, não importando a religião, afirmam com a maior tranquilidade que o mais importante é buscar a Vontade de Deus para as nossas vidas, porque nós mesmos não temos sabedoria para discernir o que é melhor para nós. Mas na vida real, no dia-a-dia, tudo é muito mais complicado. Abrir mão da nossa vontade ou dos nossos desejos é abrir mão de nós mesmos. E aí está a maior e mais perfeita manifestação de humildade que pode haver. - Porque já não somos nós mesmos sem os nossos desejos. Como diz a sabedoria da Cabala: "Nós somos os nossos desejos". Sem eles, não existimos! Então, qual a solução?

A solução e a resposta para esse enigma é também o propósito final de toda a existência humana na Terra: alinhar os nossos desejos e vontades com a Vontade. Esta é a busca. Este é o fim e este é o desafio dos buscadores, desde o princípio. E esta é a consumação e a razão de ser da verdadeira humildade. E também é exatamente aí que "quem cuida guardar a sua vida, a perde; e quem abre mão da sua própria vida, por Amor, a ganha". Assim é a Sabedoria. Assim é o Caminho da Verdade. Bem vindo à verdadeira via proposta por esse tão falado Jesus, chamado o Cristo.


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* Muitos adeptos do nome Yehochua acreditam que Matheus foi escrito em hebraico. Todavia existem certas marcas em Matheus que o caracterizam como um original grego e não hebraico ou aramaico. Por exemplo, Matheus faz uma citação profética de Isaías sobre a Virgem e aplica-a em Jesus: "Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual será chamado EMANUEL, que traduzido é: Deus conosco." (Matheus 1:23) . Isto é o que Isaías havia dito centenas de anos antes de Cristo nascer. Matheus, ao aplicar esta profecia a Cristo, traduz a palavra hebraica "Emanuel". Se Matheus estivesse escrevendo em hebraico para pessoas que compreendiam o hebraico, ele não precisaria traduzir uma palavra de sua própria língua para pessoas familiarizadas com ela. Isso fica mais evidente quando sabemos que Isaías, ao escrever essa profecia em seu livro, a escreveu para leitores de fala hebraica (Isaías 7:14). Ele não dá nenhuma tradução para o nome Emanuel, pois seus leitores judeus sabiam o que significava tal palavra em sua língua natal. Desnecessário seria fazer qualquer explicação. Porque Matheus precisou traduzir essa palavra? Porque quase com certeza seus leitores não eram judeus e nem ele escreveu em hebraico, mas em grego. - Fonte: Ministério CACP.Org.


Tradução "Almeida Revisada Imprensa Bíblica"


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