O 'Fator Fé'

Uma breve pausa para um respiro, na nossa série de postagens sobre Jesus e o Cristianismo.

Segundo a ciência, para sobreviver, precisamos obter informações realistas e confiáveis sobre o mundo e não aceitar nada sem provas. Então, por que cremos no invisível?




Nosso cérebro e nossos órgãos dos sentidos estão maravilhosamente adaptados para extrair informações do mundo, mas há ocasiões em que esses dados objetivos são simplesmente ignorados. Por alguma razão, estamos dispostos a acreditar num Ser Supremo Criador que a tudo rege e controla; em seres sobrenaturais que não podemos ver ou tocar; na continuidade de nossas consciências após a morte do nosso corpo físico, que é tudo que podemos entender objetivamente por "nós"... Além disso, sentimos intuitivamente que a morte não é o fim e que, de certo modo, as pessoas amadas que passaram por ela ainda pensam em nós. Por quê, se é tão irracional? Eis o mistério que deu origem à fé em geral e a todas as religiões do mundo.

Sozinha, a ciência não tem como provar ou desmentir essa intuição profunda, mas, apesar de tipos retrógrados como Richard Dawkins, ela já começa a dar sinais de reconhecimento de que tem que haver algo a mais por trás desse fenômeno tão estranho, o que já é uma grande coisa... Ou pelo menos um começo.

Hoje, cientistas tentam entender como a fé humana surgiu, e atualmente existem duas grandes propostas para tentar explicar. Entenda os pontos fortes e fracos de cada uma delas, e... tente não rir.


Efeito colateral

Esta é a mais delirante. A teoria diz que acreditar no invisível seria um subproduto da própria organização da nossa mente. O principal defensor dessa idéia é Justin Barret, o psicólogo que propôs o conceito de HADD (sigla inglesa de “aparelho hiperativo de detecção de agente”). A idéia básica por trás do termo é que a nossa cabeça está adaptada para detectar "agentes" – outros seres do mundo lá fora, como nós, que têm seus próprios interesses e desejos.

Essa capacidade seria essencial para encontrar entidades que todos desejamos, como presas e parceiros, ou para fugir dos seres que nos põem em risco, como predadores e competidores. Seria também importantíssima para a vida social: sem ela, não conseguiríamos imaginar o que uma pessoa está pensando e, se for o caso, antecipar as ações dela. O problema é que, para não deixar passar sinais potencialmente importantes de “agentes” externos, esse detector precisaria ser regulado ao máximo – daí a qualificação de “hiperativo” dada a ele.

Dessa forma, estaríamos fadados a enxergar pensamentos, desejos e vontades em coisas como um computador, um carro... ou a chuva e o Sol. - Daí à crença em entidades sobrenaturais ou na sobrevivência do espírito após a morte, seria um pulo. Outro elemento, nesse caso, seria a incapacidade de conceber a nossa própria não-existência. – "Algo" de nós teria que sobrar para depois da morte. Desse ponto de vista, nosso cérebro dificilmente funcionaria direito sem a presença desse “efeito colateral”.

Caraca! Vai ter imaginação assim... O grande furo dessa teoria é que ela deixa de fora do seu campo de análise toda uma série de claros e inegáveis efeitos benéficos trazidos pelo "fator fé", que hoje não podem mais ser ignorados, por terem sido comprovados empiricamente, em laboratório, como é o caso do efeito placebo e a observável recuperação muito mais rápida de doentes que têm fé em comparação com os de mente puramente racional.


Vantagem adaptativa

Uma teoria que soa mais simpática, apesar de cheia de falhas: o biólogo americano David Sloan Wilson aposta que a fé religiosa pode trazer benefícios diretos a quem a tem. - Até aí, falou o óbvio... - Segundo ele, o principal benefício seria aumentar as chances de sobrevivência e reprodução dos indivíduos com fé em detrimento dos indivíduos sem fé. - Maior chance de reprodução para quem tem fé? Essa parte eu não entendi...

Segundo ele, quem é capaz de acreditar sairia ganhando na seleção natural, de forma que, ao longo de milhares de anos, a capacidade para a crença no sobrenatural se espalharia pela maior parte da população.

As vantagens potenciais são muitas. Do ponto de vista do indivíduo, a fé poderia ser um recurso interessante diante de uma doença ou um ferimento grave, digamos. Afinal, acreditar que a cura é possível ajuda um bocado na recuperação em quase todos os problemas de saúde, - como disse acima, um fato comprovado pela medicina, que o Sr. Wilson reconhece mas não explica. - Práticas como a adivinhação feita por oráculos, por exemplo, após a consulta aos deuses ou espíritos, ajudaria o grupo a não ficar paralisado e indeciso diante de uma crise muito complicada. Prova disso seria o fato de que , ao longo da História, quase todos os exércitos só partiam para a guerra depois de pedir proteção aos céus. Acreditar que forças sobrenaturais estavam ao seu lado deu coragem e coesão a guerreiros de todas as culturas e em todos os tempos. Quem não tivesse esse poderoso reforço moral combatendo junto corria um risco maior de ser derrotado ou de desistir da batalha.

Um dos problemas com essa visão é que ela é controversa para os próprios biólogos. Ela pressupõe que, de alguma forma, a seleção natural age sobre grupos inteiros de pessoas, embora a teoria mais aceita atualmente seja que tal mecanismo promove apenas indivíduos, que sempre estão competindo com outros indivíduos, mesmo que eles sejam seus aliados. - Teoria esta, que, por sua vez, apesar de muito em voga também causa polêmica e encontra rejeição entre acadêmicos, já que não consegue explicar, pra começo de conversa, o altruísmo humano ou o sentimento de compaixão que leva certos indivíduos, em casos extremos, a sacrificarem suas próprias vidas pelo bem de outros, ao invés de vê-los os como "competidores".

Como se vê, apesar de ter sido capaz de nos levar até Marte, a ciência ainda está longe de explicar as questões humanas mais fundamentais. Talvez um dia ela ainda resolva dar as mãos à religião, velhas rusgas do passado sejam esquecidas, e aí, quem sabe não daremos um salto gigantesco em direção ao autoconhecimento.