Consumação

Um outro recomeço - parte I




Nós nunca sabemos o que estará escrito nas próximas páginas do livro da nossa vida. Não há como prever o que acontecerá no próximo capítulo... E se por um lado essa realidade pode parecer um pouco assustadora, já que nem sempre as surpresas que nos aguardam são aquelas com as quais estivéramos sonhando, por outro, tente imaginar como esta vida seria chata se não fosse assim, se tudo estivesse sob o nosso controle todo o tempo, se não existisse o fator imponderável... Como é bom poder se surpreender, de vez em quando! Principalmente quando temos em mente que “todas as coisas conspiram para o bem daqueles que amam a Deus”...

Este post é para falar de uma extraordinária experiência pessoal minha. A maior de todas. Depois dela, minha vida mudou; eu mudei radicalmente, definitivamente e para sempre. Talvez nem tanto aparentemente, mas uma profunda mudança ocorreu no meu interior, e essa mudança vêm se refletindo aos poucos, em todos os meus atos, nas minhas falas, nos meus gestos... Tenho perfeita consciência de que eu nunca mais voltarei a ser o mesmo de antes.

Eu recebi a dádiva mais preciosa de toda a minha vida. Algo que, direta ou indiretamente, eu esperava desde que me conheço por gente. Algo pelo qual ansiava, que pedia nas minhas orações e balbuciava após as minhas meditações, o que sempre mentalizei ao elevar meus pensamentos a Deus, à Luz, ao Amor divino...

Qual a sensação de se ganhar um prêmio milionário na loteria? Melhor, imagine uma pessoa muito pobre, que viveu toda a sua vida entre abstinências forçadas, frustrações, humilhações, desejos sufocados... De repente essa alma sofredora descobre que de uma hora para outra está rica, milionária, que nunca mais terá que sofrer humilhações nesta vida, que nunca mais precisará passar por privações materiais, não será nunca mais uma devedora e nem se sentirá mais diminuída diante dos arrogantes. - O que eu ganhei me fez e faz sentir algo parecido com isso, porém muito maior. - O que eu recebi foi a confirmação e a consumação de toda a história da minha vida, de tudo que eu contei na primeira fase do ”a Arte das artes”; a conclusão perfeita daquela história, depois de todos esses anos. Aquele menininho de 5 anos que queria encontrar Deus obteve, enfim, o seu prêmio.

Falei que a vida é surpreendente, porque é assim que a minha vida sempre acontece: os grandes momentos da minha existência são sempre muito diferentes daquilo que eu cuidadosamente imaginava. - A Vida costuma me pegar de surpresa, me arrancar impiedosamente do meu mundinho de convicções pré-moldadas e me arremessar, de modo abrupto, absoluto e estonteante, num outro mundo, numa nova realidade... Onde volto a dar de cara com o mesmo Eternamente Novo! - E assim eu renasço, revigorado. E... puxa, se isso não pode ser descrito como nascer de novo, o que poderia?.. Não entendeu nada, até agora? Continue a leitura...


Mais uma convicção que se vai...


Na verdade já há algum tempo (quatro meses e seis dias, para ser exato) que eu venho ensaiando para compartilhar com você, leitor, a maior e mais arrebatadora experiência mística/transcendente que eu já vivi em toda a minha história até aqui. Tenho me sentido ansioso para dividir isso, e esse desejo aumentou e foi se tornando mais forte a cada dia, mas algo me impedia de fazê-lo. Cheguei a deixar algumas dicas, em conversas no espaço para comentários deste blog, e até prometi que falaria sobre isso, mas aguardava o momento de poder fazê-lo, às claras. Os que me conhecem há mais tempo podem ter achado que eu estava fazendo um certo suspense antes de postar. - Tudo bem, eu tenho mania de fazer isso, às vezes; mas não desta vez. - A verdade é que este post demorou bem mais do que eu imaginava, em princípio; e até hoje eu não compreendia o porquê disso, mas essa é mais uma das maravilhas que envolvem a história toda: eu sabia que ainda não era chegada a hora de falar, mas não sabia qual a razão. Até hoje. Porque hoje eu entendi. Entendi tudo. Inclusive a razão da longa espera.

Honestamente, não estou certo se serei capaz de compor esta narrativa da maneira ideal. Porém, sem querer parecer pretensioso ou místico em excesso, sei que os que estiverem prontos, quando estiverem prontos, entenderão. Sinto, espiritualmente (olha que nunca fui de falar assim), que algumas mentes se abrirão ao ler o que vou escrever, que algumas almas poderão chegar mais perto de certas compreensões, por intermédio deste texto, e esta é uma emoção sublime. Entendo agora que alcancei um patamar mais alto na minha busca; encontro-me hoje trilhando sendas mais elevadas do que quando comecei a escrever neste blog. - E não falo isso com orgulho. - Não sou melhor nem pior do que nenhum dos que vêm ler o que escrevo aqui; nem sou diferente. – Sou só um atrevido que ousou bater, e a porta se abriu! Mas sei que ela pode voltar a se fechar, e eu voltar à minha antiga condição, muito facilmente. Basta que eu não cuide de mim, basta deixar de vigiar e orar... E isso me preocupa, porque eu sou relapso por natureza... Desculpem-me por este longo preâmbulo, mas ele era necessário. Agora vamos direto ao assunto...





A experiência começou no dia 20 de abril deste ano, mas só veio a se consumar, por assim dizer, e a fazer completo sentido para mim, hoje, há pouco mais de duas horas, - aproximadamente às 12 horas e 10 minutos (comecei a escrever esta postagem na última quinta-feira, dia 21 de Agosto, às 14h24min: levei quatro dias para concluir esta primeira parte - vide a data no cabeçalho e o horário ao final da postagem).

Mas para contar o que foi a experiência, preciso reafirmar o que eu já disse tantas vezes, no espaço para comentários deste blog e também em e-mails que troco com amigos: que apesar de atualmente exercer a minha busca e a minha espiritualidade como um cristão católico, eu nunca deixei de ter problemas e dificuldades com essa coisa de religião formal. Já declarei que às vezes “brigo” com Jesus, - exatamente quem eu sempre acreditei ter me chamado a posseguir com a minha busca dentro de uma religião específica, às vezes justamente por ter me chamado a este duro caminho. Porque apesar de ter me trazido muita Graça, muitas alegrias e aprendizados preciosíssimos, por vezes sem conta também achei que este caminho não combinava comigo, com a minha personalidade e o meu jeito natural de ser. E as principais razões para isso são as teológicas.

O dia 20 de abril, dia em que tudo começou, foi um domingo ensolarado aqui em São Paulo. Um domingo que parecia comum para mim... Mas, bem, será que eu deveria achar tão comum ou normal viver uma fé com dúvidas, só por achar que é a coisa certa a ser feita? Mais certo não seria agir com 100% de honestidade para comigo mesmo e com todos e assumir as minhas dúvidas e dificuldades? Este era o dilema que eu vivia, e o fato é que já há algumas semanas antes eu vinha atravessando uma fase de profundos questionamentos na minha fé. Não é fácil ser católico... Muitas coisas incomodam um racionalista de boa linhagem como eu. Não sou do tipo que se preocupa com certas posturas papais, dogmas controversos, legislação canônica e esse tipo de coisa, porque a própria Igreja ensina que o mais importante é seguirmos a nossa consciência:

"A unidade do homem tem um órgão: a consciência. Foi uma ousadia de São Paulo afirmar que todos os homens têm a capacidade de escutar a sua consciência, separando assim a questão da salvação da questão do conhecimento e da observância da Lei-Torah, e situando-a no terreno da comum exigência da consciência, em que o Deus único fala e diz a cada um o que é verdadeiramente essencial na Lei: 'Quando as gentes, que não têm lei, cumprem naturalmente as prescrições da Lei, são lei para si mesmos, demonstrando que têm a realidade dessa Lei escrita no seu coração, segundo o testemunho da sua consciência... (Conf. Carta aos Romanos, capítulo 2)."

Papa Bento XVI - "Joseph Ratzinger - uma biografia", Pablo Blanco (Ed. Quadrante)


Captou a mensagem? Como se vê, esse papa está a anos-luz de distância do monstro retrógrado que a mídia e a imprensa anticristã gostam de pintar. Mas, mesmo que a Igreja não dissesse isso, eu continuaria pensando assim, porque eu sei que é assim que as coisas são. Neste exato momento me recordo que esta foi uma das primeiras coisas que o Padre Aldo me disse no dia memorável do meu reencontro com o Cristianismo, que eu contei aqui. - Ele me disse: "A sua consciência e o que diz a Igreja são duas coisas que devem andar sempre juntas. Mas a Igreja, na pessoa do padre, dos teólogos, também erra, às vezes; então, nos casos específicos e pessoais seus, nunca deixe de procurar o que Deus diz à sua consciência, diretamente...".

Bem, eu sei e muita gente sabe que nem sempre foi assim, dentro da Igreja... Mas as coisas estão mudando, e para muito melhor. Sacerdotes maravilhosos estão chegando, novos pastores de almas com novas maneiras de entender e exercer a doutrina do Cristo, que é eterna e nunca muda, "mas o nosso jeito de entender e interagir com a Verdade eterna, isto sim muda, evolui sempre! Nós aprendemos e nos aperfeiçoamos através da História, e é assim que tem que ser". - Esta é a fala de um outro padre muito querido por mim, chamado Marcelo A. M. Monge... Esta foi a Igreja pela qual me apaixonei.

Então, alguns questionamentos que sempre vêm à tona quando se fala em catolicismo, principalmente da parte daqueles que não o conhecem por dentro, para mim sempre foram detalhes que nunca me incomodaram em nada. - Os meus problemas com o catolicismo sempre foram outros, muitíssimo mais profundos, relacionados diretamente com aquilo que realmente interessa: o cerne da fé, a central razão de ser da doutrina. Não, eu não acredito em certas coisas e duvido de outras por ter me tornado católico, ao contrário: eu me tornei católico por acreditar em certas coisas e duvidar de outras. A Igreja não me disse como eu deveria pensar, mas foi a minha liberdade de pensamento que me levou até ela. - Continuo tão contestador como sempre fui.

Mas esse mesmo jeito contestador é capaz de criar problemas em todos os lugares. Claro que eu jamais iria aceitar tudo assim, sem mais aquela, mesmo acreditando que o próprio Deus me levou a determinado caminho. E para mim, o maior de todos os exemplos sempre foi a questão da "Presença Real na Eucaristia".

Para quem não sabe, no centro da fé cristã católica está a aceitação de que Jesus Cristo se faz presente, pessoalmente, literalmente, durante a Santa Missa, na hora da Consagração da Hóstia. Naquele momento, segundo a fé católica, aquela casquinha de pão deixa de ser pão para se tornar corpo vivo, humano e divino do próprio Jesus Cristo, não de uma maneira simbólica ou metafórica, mas literal. Isto é o que se chama “Presença Real”... E isto é dogma, ou seja, um princípio de fé absoluto, inquestionável. Se você não acredita nisso, é um direito seu e a Igreja manda não julgar, mas... nesse caso você não pode se considerar um católico.

Difícil, ha? Jesus, o Filho de Deus, "sem o qual nada se fez" (Ev. João 1, 1), desce do Céu para se tornar pão e se doar à humanidade, como forma de nos fortalecer, nos curar espiritualmente, entrando em íntima Comunhão (comum-união) com esses humanos mesquinhos e hipócritas?? Sim, está aí uma questão difícil, muito difícil, ao menos para mim... Eu nunca pude aceitar isso totalmente. Talvez tenha dito que acreditava, algumas vezes, mas lá no fundo... Soava absurdo demais para mim. Porque Jesus, sendo Um com Deus, se limitaria dessa forma?

E, veja, como eu disse, esse é o centro da fé católica, a base de toda a prática, sobre a qual toda a doutrina se apóia. - Depois de muito refletir sobre o assunto, cheguei à conclusão de que toda essa questão deveria ter mesmo muito mais a ver com simbolismos e analogias do que qualquer outra coisa, - mesmo sabendo que esse pensamento representa heresia para os católicos. Mas é que... não está em mim aceitar certas coisas assim (você já sabe disso...).

E uma possível verdade incômoda começou a surgir, bem dentro de mim, e a se fazer presente, cada vez maior e mais inconveniente: talvez eu não fosse assim tão católico quanto imaginara no princípio, afinal de contas. - Mesmo que eu não o quisesse reconhecer; por apego às boas amizades que fiz na Igreja; por causa das maravilhosas e grandiosas obras assistenciais das quais participei e que me tocaram tanto; por amor à beleza da liturgia e às práticas sublimes que tanto me ajudaram, em diversos momentos importantes da minha vida...


Não, não sou eu...


Será? Mas, se era assim, então por que tantos sinais me levaram à este caminho? Seria possível que toda a minha história de vida tivesse culminado num engano? Não. Disso eu tinha certeza. Algo estava muito errado...

Talvez toda essa passagem fizesse parte da minha jornada, mas agora a Vida estivesse começando a me dar sinais de que finalmente me levaria por outros caminhos, a tomar outros rumos, e se assim fosse, eu não deixaria de fazer o que fosse preciso, como sempre fiz, desde o começo de tudo. Como deixei bem claro na conclusão da primeira fase deste blog, naquela época eu tinha entendido "que Deus quer que eu prossiga com a minha busca dentro do catolicismo...” e também: "Mesmo não sabendo se será para sempre, sinto que encontrei o meu caminho. A partir de hoje, prosseguirei, na minha jornada pessoal, como um católico apostólico romano". Seguem alguns trechos da última postagem daquela fase:

Prosseguirei com a minha busca... - ...não sei se será para sempre... - ...prosseguirei minha jornada pessoal como um católico... - "A minha religião continua sendo a Verdade, sob qualquer forma em que se manifeste. Não pensem que eu algum dia vou me limitar sob qualquer rótulo...

Relendo tudo o que escrevi na época, percebo que era como se eu estivesse entrevendo o que viria a ocorrer, cedo ou tarde; como se eu pudesse prever, de algum modo, que nem tudo estava ainda perfeitamente encaixado.

Católicos "de carteirinha", os que nasceram e cresceram em família católica, e também os não questionadores, aceitam todo tipo de dogma tranquilamente, sem nenhum problema. Até porque o fazem superficialmente: sei até que muitos nem acreditam verdadeiramente em dogmas como o da Presença Real, mas... simplesmente aceitam, seguem a tradição: "Meus avós acreditavam, meus pais acreditam..." Muitos estão acostumados a exercer a sua espiritualidade como católicos, então, este é simplesmente o modo mais fácil para eles, o que dá menos trabalho. Mas eu? Ora, eu simplesmente nunca fui assim! Não eu. Para um questionador racional, algo assim tão místico como o Pão se tornando Deus, para nos sustentar, pode se tornar um grande problema. Para mim, fé e razão têm que caminhar juntas, senão eu não consigo...

Bem, eu estudei e sempre ouvi falar de diversos Milagres que ocorreram, e outros que continuam ocorrendo, envolvendo a Sagrada Eucaristia. - Verdadeiros atestados de autenticidade da Divina Presença na Hóstia Consagrada. Cheguei a publicar um dos casos mais antigos e conhecidos aqui mesmo, por ter sido muito bem e cientificamente estudado, mas depois parei com o assunto (que particularmente acho fascinante) para que este espaço não ficasse parecendo uma casa de pregação. A idéia por aqui sempre foi a de um espaço ecumênico, e já existem diversos sites e blogs católicos muito bem construídos na web, para quem procura esse tipo de leitura e orientação. O meu é para quem está buscando, para quem quer encontrar a Verdade, tenha ele(a) se definido por alguma religião formal ou não, qualquer que seja ela. Como disse o próprio Cristo, “são os doentes que precisam de médico, e não os sãos”. – Isto é, se você já encontrou todas as suas respostas, se você não precisa “curar” mais nenhum aspecto da sua vida; se você já encontrou a perfeita saúde espiritual, isto é, a perfeição, talvez no “a Arte das artes” você não se sinta muito em casa, porque por aqui sempre vai haver contestação. - A única coisa sagrada e intocável aqui é a Verdade, e só ela. Crenças pessoais e concepções humanas estão em segundo plano.

E então, bem, eu sei que entre esses casos de fenômenos supranormais, os populares milagres, envolvendo a Sagrada Eucaristia, há diversos que foram muito bem estudados, analisados exaustivamente à luz da ciência, documentados e comprovados por especialistas céticos de diversas áreas, ao redor do mundo. O Vaticano é extremamente rigoroso e exige todas as provas possíveis e imagináveis, que precisam ser incontestáveis, antes de declarar um Milagre dessa natureza como autêntico. Mas eu, mesmo tendo um conhecimento relativamente substancial a respeito de todas essas questões, sempre me senti um pouco (ou bastante) desconfortável com relação à fé na Presença Real durante a Eucaristia. Portanto, apesar de toda a minha história de vida e de todas as circunstâncias marcantes que me levaram a prosseguir o meu caminho dentro do catolicismo, havia sérios problemas de consciência a serem enfrentados...




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