Quem é esse homem, afinal?

Não há história mais contada, de geração em geração, nem mais dissecada nos livros de toda espécie, desde os históricos até os míticos, passando pelos acadêmicos, os fantasiosos, os clássicos, os céticos, os contestadores... Não há história mais reprisada nos filmes, direta ou indiretamente, nem mais retratada nas pinturas, nas esculturas, na música e em toda espécie de artes plásticas... Não há personagem que tenha gerado mais paixão, mais devoção, mais curiosidade. Não há mestre mais citado, não há personalidade mais ardentemente amada pelos devotos nem mais cegamente odiada pelos céticos. Ele se tornou sinônimo de religião e religiosidade; de fé, crença e espiritualidade para bilhões. Reina soberano no inconsciente coletivo da humanidade, com tudo que isso possa envolver de fácil e de (muito) complicado. Não há nada que se possa comparar, em termos de popularidade e influência universal, com a história de Jesus Cristo, nos últimos 2.000 anos de nossa História. E esse interesse e essa atração não demonstram nenhum sinal de esfriamento, ao contrário: as últimas décadas têm nos trazido um renascimento constante e crescente do interesse histórico e religioso pela sua figura.

Jesus Cristo: o polêmico. O rebelde. O agitador. O mais amado pelos crentes e o mais odiado pelos céticos. O Mestre por excelência. Em nome dele, guerras se fizeram, e as mais sublimes obras humanas se produziram; universidades foram construídas, milhares de religiões, seitas e sub-seitas foram fundadas ao redor do planeta... Bem e mal se multiplicaram em torno da sua memória, exatamente como ele havia previsto há dois milênios.


Quando nos propomos a estudar a história do Cristianismo, com todas as suas muitíssimas variantes, por vezes nos sentimos como que perdidos numa densa floresta, ou no meio de um deserto cáustico que parece não ter fim; e sem bússola. A documentação histórica é cheia de furos, os relatos bíblicos e os não bíblicos são confusos, as zonas de sombra se sucedem, existem contradições... Mas há também uma boa notícia: nos últimos anos, têm-se registrado um notável progresso nas pesquisas sobre Jesus.

Antes de qualquer outra coisa, é preciso deixar um ponto muito claro: embora nos últimos tempos você possa ter lido e ouvido falar o contrário centenas de vezes, o fato é que o Jesus que nasceu, viveu e morreu na Palestina, concretamente, num determinado período histórico, e o chamado "Jesus da fé", são uma só e a mesma pessoa. - Sim; nós poderíamos discutir, por exemplo, o que significavam os milagres e maravilhas que ele produzia. Podemos ponderar sobre a natureza desses milagres, se ocorreram literalmente como nos contam os livros do Novo Testamento da Bíblia (e também os apócrifos), de que maneira, o que significavam... Mas é praticamente impossível a qualquer pesquisador de bom senso simplesmente negar que Jesus fazia milagres, porque eles são uma parte essencial daquilo que o tornou tão especial; - tanto ou mais, até, do que a sua própria doutrina. - Querer separar, como pretenderam alguns, o discurso e os ensinamentos de Jesus das maravilhas que ele realizava, suas "obras" palpáveis, seria o mesmo que tentar entender um Bach apenas estudando suas partituras, sem nunca ouvir a sua música. Como disse o próprio Jesus Cristo: "acreditai em mim, ao menos, pelas minhas obras" (João 14:11)... Muitos mestres trouxeram belas palavras, antes e depois de Jesus, mas houve só um Jesus Cristo. Descartar parte da sua história, não considerar a sua obra como um todo, é descartar o que ele trouxe de comprobatório da sua condição especial.

Sobre esse único Jesus, escreveu o alemão Rudolf Bultmann, um dos grandes estudiosos do Novo Testamento do século passado, nos anos 20: "...já não podemos conhecer qualquer coisa sobre a vida e a personalidade de Jesus, uma vez que as primitivas fontes cristãs não demonstram interesse por qualquer das duas coisas, sendo além disso fragmentárias e muitas vezes lendárias, e não existem outras fontes".

Bultmann era pessimista, como se vê, a ponto de depor as armas, no que se refere à pesquisa histórica de Jesus. Compare-se agora sua afirmação com outra mais recente, formulada em 1985 pelo respeitado especialista irlandês E. P. Sanders: "A opinião predominante em nossos dias parece consistir em que podemos conhecer muito bem o que Jesus queria dizer, que podemos saber muito sobre o que ele realmente disse..."

O que houve, entre os anos 20 e os 80, que aumentou assim a confiança nas pesquisas? Muita coisa importante aconteceu nesse curto intervalo de tempo: descobertas de manuscritos e sítios arqueológicos, uma nova mentalidade na abordagem do assunto, um rigor crescente. O otimismo que passou a contagiar os especialistas é ilustrado pelo fato de ser farta (e crescente) a produção intelectual no setor. A bibliografia é imensa. Este post se baseia em livros recentes, um desses é "Jesus dentro do Judaísmo", de James H. Charlesworth, professor da Universidade de Princeton e autor de diversas obras sobre o tema. Depois de citar as opiniões acima transcritas, de Bultmann e Sanders, Charlesworth acrescenta, a respeito do avanço das pesquisas: "... o fugidio pano de fundo da vida de Jesus está agora muito mais claro do que era, mesmo há vinte anos".

Estamos agora vivendo num mundo de alta erudição. Há gente capaz de mergulhar num papiro em hebraico ou grego antigo e voltar à tona misturando o resultado com os recursos da moderna antropologia. Poderia-se até dizer que estamos num mundo de obcecados, de estudiosos que consagram suas vidas inteiras a estudar um só assunto, e dos quais se exige, entre outros talentos, a perspicácia de um Sherlock Holmes.

Um bom exemplo para ilustrar o que estou dizendo é o caso da análise do professor Joel B. Green de um versículo que aparece em Matheus e também no pseudo-Evangelho de Pedro, um dos vários evangelhos apócrifos, de confecção considerada tardia, já muito distanciada da morte de Jesus e não reconhecidos pela Igreja. - O versículo refere-se ao momento em que, com Jesus já morto e sepultado, os sacerdotes dizem a Pilatos: "Ordena pois que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia, para que os discípulos não venham roubá-lo e depois digam ao povo: Ele ressuscitou dos mortos" (Mt 27:64). Mais especificamente, a questão envolve um trecho que aparece absolutamente idêntico em Matheus e em Pedro: "...para que os discípulos não venham roubá-lo..." - A questão aí é: quem copiou quem? Matheus copiou Pedro ou Pedro copiou Matheus?

Naturalmente, a dúvida só surgiu por conta de certos especialistas que passaram a sustentar a tese de que, ao contrário de se tratar de um texto tardio, ou seja, já do segundo século depois de Cristo, como em geral ocorre com os apócrifos, o Evangelho de Pedro seria um documento de alto valor, cronologicamente situado talvez ainda à frente dos quatro Evangelhos oficiais ou canônicos, considerados os escritos mais antigos, do início do século I. - Isso poderia significar uma pequena revolução acerca de tudo que conhecemos sobre a história de Jesus.

Bem, então o professor Green pegou aquele fiapo de frase, "para que os discípulos não venham roubá-lo", e se pôs ao trabalho. Descobriu que a palavra "discípulo" é comum em Matheus, que a usa 73 vezes, mais do que qualquer outro dos três evangelistas canônicos. Já no evangelho de Pedro ela não aparece nenhuma outra vez. O verbo "roubar" ('klepto', no original grego) aparece quatro vezes em Mateus e, de novo, nenhuma em Pedro. Enfim, a preposição "para", no sentido de "a fim de" ('mepote', em grego), aparece sete outras vezes em Matheus, e apenas uma outra em Pedro. Conclusão: Bingo! O estilo literário do trecho, é, sem dúvida, de Matheus; é ele a matriz. Pedro copiou-o. Portanto, o Evangelho de Matheus é anterior e mais digno de crédito.


Separar entre a documentação antiga o que tem valor e o que não tem é um dos trabalhos mais difíceis dos pesquisadores. O público leigo em geral têm fascinação pelos evangelhos apócrifos - a fascinação de entrar num território proibido (uuuhh!)... - E eles são fascinantes mesmo, até pelas extravagâncias que, muitas vezes, chegam a conter.

Num dos apócrifos, Jesus é retratado em sua infância como uma espécie de "menino mágico" que faz passarinhos de barro e, depois de bater palmas, os põe a voar(!). Em um outro, Jesus, também quando menino, roga uma maldição e faz cair morta uma criança que o perseguia. Outra cena da infância de Jesus contida nos apócrifos é mais formidável ainda: Jesus quer brincar com um grupo de crianças, mas elas fogem dele e se refugiam numa casa. Jesus chega e pergunta à dona da casa onde estão as crianças. A dona da casa, para protegê-las, diz que ali não tem crianças. - Já que é assim, Jesus ordena então: "Deixa os bodes saírem". A mulher vai abrir a porta do cômodo e descobre o quê? Bodes... Jesus transformara seus desafetos em bodes, para horror da mulher...

Com uma ou outra exceção, os apócrifos são fáceis de descartar. Tratam-se de coletâneas de histórias inventadas altamente fantasiosas, algumas produzidas em meios populares onde a religião ainda mal começava a se separar da feitiçaria. Tarefa muito mais complicada, a que todos os pesquisadores históricos se dão, é tentar discernir, nos Evangelhos Canônicos, o que pode ser considerado realmente testemunho de Jesus e as possíveis elaborações posterioriores. Os canônicos foram escritos a uma distância provavelmente a partir de quarenta anos da morte de Jesus, por autores que possivelmente foram testemunhas oculares de sua vida. Como saber o que é histórico em seus relatos? Além da autoridade óbvia de documentaristas contemporâneos dos fatos que estão narrando, os pesquisadores de hoje utilizam-se de variados critérios. Um deles é o da "múltipla atestação". Quanto mais um episódio ou dito de Jesus for repetido pelos diferentes evangelistas, maior a evidência histórica científica de ser verdadeiro. Outro, mais refinado, é o "critério do embaraço". Se um determinado episódio era embaraçoso para as elucubrações teológicas dos primeiros cristãos, e mesmo assim foi conservado nos Evangelhos, é porque deve ser verdadeiro. Um bom exemplo é o caso do batismo de Jesus por João Batista. - Foi muito difícil explicar às primeiras comunidades cristãs por que o Superior, isto é, Jesus, havia se deixado batizar pelo inferior, isto é, o Batista. - Se apesar da dificuldade teológica em explicar um fato, ele foi conservado nos textos, o episódio é considerado verdadeiro.

O estudo lingüístico, que se viu na comparação entre os textos de Matheus e os atribuídos a Pedro, é outro dos grandes instrumentos que temos para a pesquisa sobre Jesus. Outro ainda está nas descobertas arqueológicas. - E entre elas nenhuma se iguala, em qualidade e fartura, aos chamados "Manuscritos do Mar Morto", um conjunto de papiros achado a partir de 1947 nas cavernas da região de Qumram, no moderno Israel, e que só há pouco tempo foram completamente restaurados e decifrados. - Os Manuscritos do Mar Morto têm servido para muita coisa, nos últimos quarenta anos, inclusive para explorações sensacionalistas. Na verdade, hoje sabe-se bem o que eles são: uma antiga e importante biblioteca. No início dos anos 50, depois da descoberta dos manuscritos, escavações realizadas nas proximidades pelo padre francês Roland de Vaux trouxeram à luz uma construção que, destruída e queimada no ano 68 dC, concluiu-se se tratar de um antigo convento.

A partir daí formou-se consenso entre os especialistas - nas cavernas, os membros da seita de Qumram esconderam a biblioteca desse convento. - Viviam-se os dias tempestuosos da revolta judaica contra o domínio romano que resultaria, no ano 70 da nossa era, na destruição de Jerusalém. Esconder os manuscritos, acondicionados em jarras, na iminência de um ataque romano que realmente viria a varrê-los do mapa, foi a maneira que os membros da seita encontraram de preservar seus documentos para a posteridade.

A seita em questão muito provavelmente é a dos essênios, cujo rastro encontra-se em muitos outros textos da antiguidade. Na biblioteca que eles esconderam nas cavernas há desde livros do Velho Testamento a documentos específicos da seita, como o "Manual de Disciplina", que era seguido por seus membros. Os documentos foram datados de um período que vai do ano 200 aC até 67 dC. Ou seja: muitos deles são contemporâneos de Jesus. Há centenas de textos completos e milhares de fragmentos, que foram pacientemente remontados por uma comissão na qual se misturaram especialistas judeus e cristãos, sob a supervisão do governo israelense. Decepção: apesar de serem documentos da mesma época, não há nenhuma menção a Jesus. Isso não invalida, no entanto, o imenso valor dos textos de Qumram para o conhecimento da época e do ambiente que circundava Jesus.

"Penetrar no mundo dos Manuscritos do Mar Morto equivale a mergulhar no tempo e no ambiente ideológico de Jesus", escreve James H. Charlesworth (autor citado acima). Os textos de Qumram revelam idéias muito próximas às de Jesus.

Havia entre os membros da seita uma acentuada escatologia, por exemplo - isto é, um alerta permanente contra o fim dos tempos, que se considerava iminente. Havia também prescrições para uma total entrega a Deus. Esses e outros traços comuns configuram uma espécie de elo perdido do pensamento judaico entre os tempos do Velho Testamento e o advento da Era Cristã, e sugerem, entre um e outro, uma certa transição. A seita de Qumram também escancara a realidade do judaísmo vibrante e variado dos tempos de Jesus; tão pouco unitário que alguns autores hoje preferem falar em "judaísmos", e não num judaísmo só.

No entusiasmo das primeiras descobertas chegou-se a imaginar um Jesus fortemente influenciado pela doutrina dos essênios, ou mesmo que ele teria sido um membro da seita. - Mas na verdade, tanto quanto semelhanças, há diferenças entre um e outro, e a mais gritante é a atitude perante as regras rituais judaicas de conduta. Os essênios são ainda mais fanáticos que os fariseus na sua observância. E Jesus, como se sabe, agia de modo oposto. Ele disse que o "sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado". - Jesus dava pouca importância ao rigor imobilista com que os ortodoxos mandavam guardar o dia santo, como de resto a todas as outras proibições e imposições rituais. Ou melhor: ele estava aí era para subvertê-las mesmo, num contínuo chamamento para a superioridade da pureza e da devoção interiores, não exteriores. - O real cumprimento da lei.

"O Sermão da Montanha", pintura do dinamarquês Carl Heinrich Bloch

Outra importante descoberta de manuscritos, feita um pouco antes, em 1945, ocorreu no Egito, na região de Nag Hammadi. Entre os 53 documentos ali encontrados, todos em copta, língua falada no Egito nos primeiros anos da cristandade, inclui-se o chamado "Evangelho de Tomé" (assunto a que voltaremos neste blog), uma coleção de 114 ditos de Jesus, enfileirados um atrás do outro, em que alguns vêem a tradução de um original semita talvez muito antigo, embora não haja consenso a respeito.

No setor das ruínas desenterradas ultimamente, é importante citar a "Casa de Cafarnaum", que Charlesworth, entre outros especialistas, está convencido tratar-se da casa de São Pedro referida nos Evangelhos. Além de uma série de coerências históricas e de localização, foram encontrados anzóis num dos seus compartimentos, exatamente um dos instrumentos de trabalho de seu presumível proprietário. "A descoberta é virtualmente inacreditável e sensacional", observa Charlesworth. Nessa casa Jesus hospedou-se e operou milagres, segundo os Evangelhos. Charlesworth enfatiza, extasiado, que com a descoberta da "Casa de Pedro" temos "o mais antigo santuário cristão já desenterrado em qualquer parte do mundo".

Fico por aqui, embora houvesse ainda muito a ser dito em matéria de descobertas como essas. Acrescento apenas que a elas se juntou, nos últimos anos, uma nova e muito produtiva mentalidade: a de analisar Jesus à luz do ambiente, dos documentos e da cultura judaica em que, naturalmente, estava imerso. Algo que, por mais óbvio que fosse, antes não se fazia, por preconceito ou rivalidade religiosa. A soma de tudo isso é promissora. O escritor inglês A. N. Wilson, autor de várias obras relacionadas, chega a afirmar: "O mundo de Jesus tem sido colocado num foco mais preciso por nossa geração do que por qualquer outra geração anterior, desde o ano de 70 da Era Cristã".

O ano 70 dC é o da arrasadora repressão promovida pelos romanos contra os judeus. De alguma forma, fisicamente, o mundo em que Jesus viveu acabou ali. Ao mesmo tempo, segundo prossegue Wilson, a fé católica enveredou por um caminho curioso, caracterizado por muito "pouco interesse nas origens semitas de Jesus e ainda menor no conhecimento destas".

Afinal, quem era Jesus? E por que incomodava tanto a ponto de ser condenado a morrer na cruz? Continue no Arte das artes!..



Fontes e bibliografia:
Arquivo revista
Veja;
Charlesworth, James H - "Jesus dentro do Judaísmo", Imago, RJ, 1992;
Green, Joel B. - Dictionary of Jesus and the Gospels, Scot McKnight Editor, 1992;
Sanders, E. P. - "Jesus and Judaism", London: SCM, 1990;
Paul, Andre - "Os Manuscritos do Mar Morto", Piaget, 2006;
Wilson, A. N. - "Jesus, um Retrato do Homem", Ediouro, 2000;
Site Mucheroni (revisado).