Profº Mário Sérgio Cortella

Profissão: filósofo


Entrevista no "Programa do Jô" - parte I



Entrevista no "Programa do Jô" - parte II



Filosofando - pequena aula
Entrevista a Jô Soares com enxertos de trechos de obras diversas do autor


Ser filósofo é trabalhar na tentativa de ir além do óbvio. Trabalhar contra a idéia de que as coisas são aquilo que a aparência carrega. A filosofia é uma indagação. Ela lida com os “por quês” e não com os “comos”.

A minha obra é o futuro. Quando você se for, o que é que vai restar? O que você vai deixar?

Dizem os chineses que, no xadrez, após o término do jogo, tanto o rei quanto o peão vão para a mesma caixinha, independente dos resultados obtidos sobre o tabuleiro desta vida.

Mário Quintana teve a mesma idéia que eu e mandou escrever na lápide do seu túmulo: “Eu não estou aqui”. - Agora só me resta mandar escrever, no meu: “Nem eu”.

Quando perguntavam a Mário Quintana porque nunca se casou, ele respondia: "Preferi deixar dezenas de mulheres esperançosas do que uma só desiludida".

Minha mãe, Dona Emília, diz o seguinte: “Se você cuidar direitinho do seu corpo, ele dura a vida inteira”.

Tudo isso é filosofia.


Idade

Uma frase que circula por aí diz que “quanto mais a pessoa vive, mais 'velha' fica”. Isso é uma bobagem, porque nós não nascemos prontos. Se tivéssemos nascido prontos, não haveria como aprender mais nada; não existiria a educação e nem nem aperfeiçoamento humano. - A pessoa não nasce pronta e vai se gastando, isso não acontece com gente. Quem nasce pronto e vai se gastando é utensílio, roupa, eletrodoméstico: fogão, sapato, geladeira, liquidificador... Seres humanos nascem incompletos, não-prontos, e vão se aperfeiçoando ao longo da vida. O “Mário Sérgio Cortella 2008” é minha mais nova e perfeita versão.

A filosofia vêm ganhando novos níveis de reflexão no Brasil. Hoje ela mescla um pouco da moda de se fazer pequenos cursos nessa área e também a parte séria: O nosso modo de vida no dia a dia esgotou um pouco alguns dos modelos de tecnologia, trabalho insano, uma vida acelerada demais... E a filosofia nos traz momentos importantes de indagação, reflexão, que às vezes servem de consolo e às vezes não.

Os latinos têm uma expressão que eu gosto muito que é “gracia”, que significa abençoado, protegido. Mas cuidado, porque é uma tradução do grego “karis”, de onde vêm “carisma”, “carismático”... "Gracia" significa "protegido" e "abençoado". – Dar graça é deixar o mundo protegido, abençoado. Uma pessoa engraçada é alguém que deixa o mundo melhor, alguém que enche o mundo de graça. O contrário de engraçado é desgraçado: vida desgraçada, gente desgraçada... O indivíduo que deixa a vida cheia de graça é aquele que se sente bem. Ser engraçado não é ser ridículo. Uma pessoa engraçada é aquela que faz você se sentir bem.

A filosofia tenta deixar o mundo mais engraçado, mas sem obscurecer as desgraças que temos no nosso cotidiano, pois são parte da realidade. Um filósofo ou uma filósofa se dedica a pensar um pouco. Não é necessariamente capaz de fazer arte, interpretar ou fazer música como fez Wagner, mas é capaz de fazer coisas estupendas. Eu me lembro de um personagem de tiras em quadrinhos chamado "Reizinho". Numa de suas histórias, o Reizinho gritava ao guarda da torre do palácio: “Algum inimigo à vista?” - E o guarda respondia: ”Defina inimigo!?”... O quadrinho seguinte era o Reizinho pensando consigo mesmo: “Nunca coloque um filósofo como sentinela”

O filósofo quer a definição, quer a percepção... Nem sempre ele aceita a acomodação. Quando você coloca água numa caneca ela se conforma à caneca. O filósofo é aquele que gosta de transbordar. Ele quer transbordar e convida todos a transbordarem, ultrapassarem as "bordas" impostas. Ele não se conforma...


"A coisa em si"

Heidegger dizia que nunca viu "a coisa em si". Edmund Husserl, seu antecessor, quando lhe perguntavam: “Como o senhor está?" – Respondia “Estou muito bem. Sinto apenas uma certa dificuldade em ser”... – Uma resposta suficiente.

A coisa que se entende por si mesma é aquela que é óbvia. Ela é evidente por si. Isso foi o que disse Descartes em seu “Discurso do Método”. Mas a coisa que é evidente não é aprazível. O evidente é mais ou menos como colocar braços na Vênus de Milo ou colorizar os primeiros filmes do Chaplin... O evidente é muito desagradável. É como arrumar. A Vênus fica melhor sem os braços. Chaplin é melhor em preto e branco. - Uma das funções da filosofia é desarrumar, desconcertar, desconstruir.

Muita gente pensa que a tarefa da filosofia serve ao pensamento crítico. Cuidado. O nazismo também tinha seus filósofos, assim como as ditaduras. As idéias de Nietzche no século XIX serviram para sustentar algumas idéias do nazismo, das quais estes se apropriaram. A função central de Nietzche é a de que nós precisamos nos libertar dos deuses e de qualquer idéia de Deus, e de qualquer força externa a nós mesmos e nos apoiar somente naquilo que ele chamava de "super-homem". - Nós, humanos, crendo somente naquilo que nós temos de força. - Essa idéia, o estado nazista, desde 1931, começou a personificar como a força do puro povo ariano. - O verdadeiro super-homem seria o ariano.


"Penso, logo existo"?

Lúcio Costa dizia: "penso, digo que penso, logo existo". A frase de Descartes, de 1640, "penso, logo existo", afirma o pensamento como sendo a base da realidade, mas não da existência como um todo. Eu penso, e a garantia da minha existência é o meu pensamento.

Aliás, Descartes era uma coisa curiosa. Ele só acordava ao meio dia. Ele ia dormir entre 5 e 6 da manhã e só acordava ao meio dia. Sempre. - Ele tinha uma fortuna e podia fazer isso. - A única vez que ele não fez isso foi em 1650, quando foi trabalhar com a rainha Cristina, da Suécia. Ele foi trabalhar em Estocolmo, em Dezembro... muito gelado. A rainha queria aulas de filosofia às 5 da manhã, e lá foi ele dar as aulas às 5 da manhã, debaixo do frio intenso. Na seqüência, em fevereiro, ele morre de pneumonia. Isso prova que nem sempre "Deus ajuda a quem cedo madruga".

Aprendi com Janete, minha esposa, que precisamos ter cuidado ao trabalhar exclusivamente no campo da razão. Claro que quando Descartes vivia, havia também um outro pensador, chamado Pascal, que dizia que "a emoção e a razão precisam ser enfrentadas também pela paixão". - Pascal é um matemático, ele lida com isso.

A razão só não basta. A paixão só não basta. O que funciona é um tipo de vida em que você não se conforme. Em que você seja capaz também, entre outras coisas, de perguntar, de indagar, de sair de dentro. Manoel de Barros dizia que "fazer poesia é voar fora das asas".

Eu também acho que fazer um pouco de filosofia é como fazer arte: Voar fora das asas.


Ética

É o conjunto de valores e princípios que eu e você usamos para decidir as três grandes questões da vida, que são:


"Quero - Devo - Posso"


Quais são os princípios que usamos em nossas vidas?

- Existem coisas que eu quero mas não devo;

- Existem coisas que eu devo mas não posso;

- Existem coisas que eu posso mas não quero.


Quando é que você tem paz de espírito? Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve.

Como se define a ética? Através dos modos, através do exemplo, através de princípios da sociedade, religiosos ou não; através de normatizações...

Há vinte anos, num auditório, algumas pessoas fumariam e outras não. Há dez anos haveria uma placa: "É proibido fumar". Hoje não é mais preciso nenhuma imposição, ninguém fuma por censo comum. Às vezes isso surge como norma. Quando o cinto de segurança passou a ser obrigatório no Brasil, tinha gente que até vestia a camisa do time de futebol Vasco da Gama (que é branca com uma faixa transversal preta) só para enganar o agente da lei, tal a má vontade em obedecer a essa normatização. Hoje, todo mundo entra no carro e automaticamente coloca a faixa, sem nem lembrar da multa. - Isso significa que a ética vai se construindo.

Não existe ninguém "sem ética". O deputado que frauda, rouba, o falso amigo que mente e engana e o patrão que explora seus empregados? Esses têm uma ética contrária à ética da maioria. São "antiéticos". Mas isso ainda é um tipo (deturpado) de ética.


Moral, imoral e amoral

Amoral é alguém incapaz de decidir, escolher e julgar: uma criança até determinada idade; um idoso com síndrome de Alzheimer. Um demente social... Estes são amorais.

Uma pessoa de trinta anos, saudável e consciente, amoral, não existe. Moral é a prática de uma ética. Ética é a concepção dos princípios que eu escolho, Moral é a sua prática.

Eu tenho um princípio ético: não me apoderar do que não me pertence. Meu comportamento moral é se eu roubo ou não. O princípio se traduz numa moral. Uma pessoa amoral é alguém incapaz de decidir, julgar e avaliar. É o que a lei chama de "incapaz".

Quem é imoral? Existem pessoas que consideram, por exemplo, o beijo entre dois homens imoral. - Isso depende da referência de moral da sociedade e da época relacionadas.

Se eu fosse um grego clássico: Sócrates, o principal pensador desse período, era casado com Xantipa e tinha um amado, Alcebíades, um jovem general de 27 anos. Aliás, quando Sócrates morre, está nos braços de Alcebíades. - Xantipa entende isso, lá no século IV aC, como uma coisa normal daquela cultura. Hoje, talvez isso não seria entendido como uma coisa tão perturbadora, mas há 30 anos seria inadmissível.

Isso não quer dizer que a ética é relativa. A moral é que é relativa. A ética pertence a uma época e a um grupo, mas ela traz sempre a tentativa de ser universal. - Como as cartas dos Direitos Humanos: há 40 anos nós estamos discutindo essas questões de 1968. E há 60 anos estamos discutindo a "Declaração Universal dos Direitos do Homem". São tentativas de se chegar a uma ética universal, comum a todos os seres humanos: "toda criança tem que ser respeitada, não pode haver discriminação entre os povos", etc, etc... Esses princípios devem ser preservados? Se a resposta for positiva, não podemos dizer que a ética é uma coisa relativa. Existe uma força muito maior e desconhecida que nos diz que as crianças devem ser respeitadas, que o preconceito não deve ser tolerado e outros princípios básicos como esses.

Como isso se traduz na prática? Esta é uma outra percepção.


Praticidade

O prático nem sempre é o certo. Insanidade da nossa época: uma família que sai de casa no domingo para comer comida caseira! Se isso não é um sinal de insanidade, o que é? Todo mundo se junta e sai de casa para comer comida caseira.

Outra mostra de insanidade: nós temos um tecnologia de comunicação que gerou um nível de incomunicação brutal. - As pessoas estão isoladas, cada uma no seu canto, mergulhadas dentro da tecnologia... O prático nem sempre é o melhor. - Muitas vezes é só o prático. Exemplos: É mais prático fazer "caixa 2" do que trabalhar. É mais prático colar na prova do que ter que estudar.


Querer, Poder, Dever

Quero citar aqui o patrono da cidade de São Paulo, o apóstolo Paulo de Tarso, dos cristãos. Na primeira carta aos coríntios, ele diz que "tudo me é lícito, mas nem tudo me convém". Eu posso fazer qualquer coisa, porque sou livre, mas eu não devo fazer qualquer coisa.

Aliás, os cristãos dizem que Jesus de Nazaré afirmou, e está lá no Evangelho de Marcos, que "de nada adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele perder a sua alma". - É uma frase fortíssima. Seja você um homem que tem religião ou não, tanto faz; a frase é forte. Perder a alma pode ser perder a sua integridade, perder a sua hombridade; é perder a capacidade de ser honesto, digno... Isto é, perder aquilo que nós não vamos levar e que é a única que vai ficar ou não: justamente a nossa identidade.

Paulo, antes de ser Paulo, era Saulo, porque havia uma tradição no judaísmo antigo de que aquele que fosse chamado por Deus mudava seu nome, renascendo para uma nova vida. "Arão" virou "Aarão". Saul ou Saulo era o nome anterior de Paulo. "Paulus", em latim, significa "pequeno". Os romanos tinham o costume de dar nomes segundo características físicas. - Claudius, de Cláudio, em latim, é "aquele que manca": daí vêm os termos "claudicar" e "claudicante". "Mário" vem de Marte, deus romano da guerra. - Paulo ganhou esse nome, que significa pequeno, para que tivesse humildade.

Ele se converte no novo homem, o "nascido de novo", no caminho para Damasco, atual Síria, quando cai do cavalo, literalmente, e no solo têm o que chamou de iluminação. Ali nasceu Paulo, o Pequeno, o humilde...

Ele ensinou bastante, porque tem gente que acha que para crescer é preciso diminuir o outro. Uma pessoa humilde é aquela que para crescer não precisa diminuir o outro. Para as pessoas arrogantes só é possível se elevar diminuindo alguém. E há pessoas inteligentes que crescem junto com o outro. Paulo de Tarso conseguiu fazer isso. Mas a noção de pequeno nem sempre se aplica à humildade.

Encerro com uma frase que eu aprecio intensamente, de um grande homem da renascença francesa, autor da obra prima "Gargantua e Pantagruel", entre outras:


"Conheço muitos que não puderam quando deviam, porque não quiseram quando podiam."
- François Rabelais


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Se você gostou e quer ir mais fundo, assista também à palestra "Família, Escola e Cidadania", da TVAL, em quatro partes:

Parte I >>> Parte II >>> Parte III >>> Parte IV


Mário Sérgio Cortella é filósofo e educador, professor doutor em filosofia pela PUC de São Paulo. Integrante do Comitê de Direitos Humanos da PUC, que faz parte do consórcio universitário PUC-USP-Columbia University. Apresentador do programa “Diálogos Impertinentes”, transmitido pela STV. Autor de diversas obras, entre as quais "Não Nascemos Prontos" e "Qual é a Tua Obra?", e estará lançando um livro de filosofia para crianças na próxima Bienal do Livro de São Paulo, no mês de Agosto, intitulado "O que é a Pergunta?". Segundo ele, as crianças são as que mais perguntam. - Até os 5 anos de idade, quando as colocamos na escola para que não mais perguntem e sejam obrigadas a só responder (às questões dos professores)...