Cristianismo: fontes documentais #3

As fontes documentais primárias do Cristianismo dividem-se em: 1) Manuscritos Gregos, 2) Antigas Versões e 3) Citações Patrísticas, feitas por autores cristãos antigos.

"Patristic Testimony" - arte medieval

Manuscritos gregos

São aproximadamente 5500, classificados de acordo com o material e o estilo da escrita: papiros, unciais e minúsculos.

Papiros

São conhecidos 96 papiros, escritos em uncial até o século IV. A maioria são fragmentos de códices. São os manuscritos mais antigos conhecidos do Novo Testamento.

Unciais

São os manuscritos feitos em pergaminho quando o papiro caiu em desuso, no século IV, e utilizados até o século XI, ou seja, durante sete séculos. A escrita manteve o mesmo padrão dos papiros, tornando-se apenas um pouco maior.

Minúsculos

São manuscritos que carecem de valor crítico; são importantes apenas como testemunhas da história medieval do texto do Novo Testamento. Foram documentos preparados em escrita minúscula, entre os séculos IX e XVI, quando começaram a surgir textos gregos impressos.

Lecionários

Os cristãos herdaram uma prática comum entre os judeus: ler textos bíblicos nas reuniões de culto em unidades adequadas ao calendário anual ou à ordem eclesiástica. Nesta prática eles usavam (e ainda usam) os chamados lecionários. Alguns apresentavam lições completas para cada dia da semana, outros só para sábados, domingos e/ou dias santificados. Provavelmente os lecionários surgiram no fim do século III ou início do século IV.

Óstracos

Na Antiguidade, ainda podemos encontrar um outro tipo de material, o óstraco: fragmentos de jarro quebrado ou louça contendo frases curtas, escritas com objetos pontiagudos. Representam a literatura de uma classe que não podia comprar o papiro ou que não considerava tal escrita importante o suficiente para justificar a sua compra.

Talismãs

São fontes preparadas como talismãs ou amuletos, em madeira, cerâmica, papiro ou pergaminho. Contêm partes do Texto Sagrado. - Mas este parecia não ser um costume comum, pois são conhecidos apenas nove talismãs do Novo Testamento.


Antigas versões

A segunda fonte mais importante para chegarmos à verdade última dos autores do Novo Testamento são as antigas versões. Surgidas em decorrência do crescimento do Cristianismo, que se espalhava pelo mundo grego, as versões surgem para aqueles que não dominavam a língua grega. Os manuscritos mais antigos não ultrapassem o início do século IV ou, quando muito, o final do III. O texto que evidenciam representa um estágio de desenvolvimento provavelmente anterior ao final do século II, daí o grande valor dessas versões para a crítica textual, - elas proporcionam incicações importantes a respeito do texto grego de que foram traduzidas.

Siríaca

Provavelmente, as primeiras traduções do Novo Testamento foram feitas em siríaco, língua falada na Mesopotâmia, na Síria e em partes da Palestina, com algumas diferenças dialetais, por volta do ano 150. A tradução surgiu da necessidade de leitura de pessoas que tinham dificuldade com o grego.

Latina

São conhecidas duas versões: a Antiga Latina, traduções feitas até o século IV, e a Vulgata Latina, feita por São Jerônimo no final do século IV e início do V. Presume-se que as traduções latinas começaram no norte da África, em Cartago, que era um dos centros da cultura romana, provavelmente no final do século II. Outras traduções começaram a surgir em países europeus em que o grego estava em declínio, sendo superado pelo latim. Portanto, a Antiga Latina está dividida em duas famílias ou grupos de traduções: a africana, mais antiga e mais livre em relação à original, e a européia. Ambas se consistem em uma nova tradução. Alguns têm pensado numa terceira família, a italiana, provavelmente surgida no século IV para amenizar as diferenças entre as outras duas traduções. Todavia, a maioria dos críticos não aceita essa tríplice divisão, eles argumentam que a "terceira família" representa apenas uma forma da Vulgata.

Com tantas traduções é inevitável um maior número de divergências textuais. Agostinho já falava nas dúvidas que as inúmeras traduções provocavam. Jerônimo foi designado pelo Papa Damaso, em 383, a rever toda a Bíblia Latina. No ano seguinte, a revisão dos Evangelhos ficou pronta, onde as variações eram maiores. Jerônimo procurou eliminar as adições e harmonizações presentes nas versões latinas e fez alterações em 3.500 lugares. Em 405, toda a Bíblia ficou pronta e só muito lentamente foi conquistando prioridade, até que nos séculos VIII e IX impôs-se de modo quase universal, embora a Antiga Latina continuasse sendo copiada e usada até por volta do século XIII. O título honorífico de “Vulgata” ('comum' ou 'de uso público') foi dado pela primeira vez no final da Idade Média. Ela acabou se oficializando como a Bíblia cristã oficial no Concílio de Trento, em 1546.

Copta

O copta significa o último estágio da língua egípcia antiga. No início do Cristianismo ela consistia em meia dúzia de dialetos e era escrita em unciais gregos com outras letras. O Cristianismo entra com facilidade nessa região graças às colônias judaicas ali existentes, principalmente em Alexandria. Portanto, foi ali, longe da influência do grego, que se fez necessária a primeira tradução copta do Novo Testamento, no início do século III.

Outras versões

Há um número grande de outras versões antigas, como a Gótica, a Armênia, a Etíope, a Geórgica, a Nubiana, a Arábica e a Eslava, mas de menor importância para a crítica textual, por não haverem sido traduzidas diretamente do texto grego. A Armênia, conhecida como “a rainha das versões”, por sua beleza e exatidão, é que preserva o maior número delas: cerca de 1300!


Citações patrísticas

As citações patrísticas ou dos "Pais da Igreja" (antigos escritores cristãos) representam o terceiro grupo de fontes documentais para o estudo crítico do Novo Testamento: citações encontradas nos comentários, sermões, cartas e outros trabalhos dos antigos cristãos, especialmente os situados até os séculos IV ou V. É importante perceber que são tantas as citações que poderíamos reconstituir quase todo o Novo Testamento através delas, mesmo sem os manuscritos gregos e versões. Somente com Orígenes, por exemplo, isso quase já seria possível.

O problema das citações é que a maioria delas foi feita de memória; são inexatas, portanto. Contudo, são importantes por evidenciarem o texto antigo, do qual pouco testemunho de manuscrito existe, e também por demonstrar as primeiras tendências que influenciaram o desenvolvimento histórico do texto neotestamentário. Em quase todos os casos podem ser datadas e localizadas geograficamente, permitindo também que se verifique a data e a procedência geográfica dos manuscritos. As citações dos Pais da Igreja representam um auxílio valioso para a reconstituição da história primitiva do texto do Novo Testamento e, por conseguinte, de sua mais antiga forma textual acessível.



Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Tradução de Belchior Cornélio da Silva. Petrópolis : Vozes, 1973;
McDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredicto. Volume 2. São Paulo : Candeia, 1992;
Novo Testamento: nova versão internacional. São Paulo : Sociedade Bíblica Internacional, 2000;
Novum testamentum graece et latine. Aparatu critico instuctum edidit Augustinus Merk. Editio octava. Roma : Sumptibus Pontificii Instituti Biblici, 1957
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