Saber ou não saber?



"Qual roupa eu devo usar hoje?" - "O que faço com a minha vida?" - O nosso dia-a-dia é feito de pequenas ou grandes perguntas como essas. E pode ser bem interessante notar que as perguntas que fazemos a nós mesmos trazem em si o poder de mudar profundamente nossas vidas...


"Fazer a si mesmo perguntas mais profundas revela novas maneiras de estar no mundo. Traz um sopro de ar fresco. Torna a vida mais alegre. A grande jogada na vida não é saber, mas mergulhar no mistério. "

- Dr. Fred Alan Wolf, Ph.D - físico, escritor e conferencista


Imagine que aterrissasse em sua mesa de centro uma pequena nave espacial contendo o "Livro Universal Sobre Tudo", e você tivesse o direito de fazer uma pergunta. Qual seria ela?

Isso talvez possa parecer bobagem para alguns, mas vale o esforço de imaginação. Pare um instante e pense: qual seria essa pergunta? Pode ser qualquer coisa. Vá em frente e anote-a num diário.

Agora digamos que ultimamente o Livro esteja se sentindo um tanto menosprezado, e por isso lhe dê uma pergunta a mais de brinde. Então pense em alguma coisa sobre a qual você tenha apenas curiosidade. Pode ser o que vai acontecer no final de "Lost"; ou onde você colocou, afinal, aquele objeto que desapareceu como que por encanto, e por mais que você o tenha procurado por toda a casa não consegue encontrar. Algo que simplesmente o deixe curioso. Anote essa pergunta também.

Você sabe como o "Livro Universal Sobre Tudo" se tornou a fonte de todo o conhecimento humano? Fazendo perguntas pra todo mundo e obtendo respostas reais. Por isso, a pergunta que eu tenho a fazer a você (e cuja resposta será acrescentada no Livro) é: Qual é a coisa sobre a qual você tem certeza?

A propósito: o "Livro Universal Sobre Tudo" existe e é provavelmente aquilo que Jung chamou de "Inconsciente Coletivo"; você pode acessá-lo a qualquer momento, fazendo uso dessa ferramenta maravilhosa que está sempre à sua disposíção, chamada consciência...


Grandes perguntas trazem em si o poder de abertura da consciência

Em que situação a nossa sociedade nos estimula a fazer perguntas? Pouquíssimas. No entanto, a maioria das grandes descobertas e revelações preciosas à nossa sociedade foi produto de perguntas.. As perguntas são as precursoras, a causa primária, em todos os ramos do conhecimento humano. O pai da filosofia grega, Sócrates, declarou aos discípulos que o caminho que conduz à Sabedoria poderia ser resumido na questão: "Quem sou eu?" O físico Niels Bohr perguntou: "Como é possível um elétron ir de A para B sem jamais passar entre esses dois pontos?"

Perguntas como essas nos despertam para o que não sabíamos. E de fato são a única forma de se chegar lá - ao outro lado do desconhecido.

Perguntar é um convite à aventura, uma viagem de descobrimento. Partir para uma nova aventura é emocionante; há o profundo encantamento da liberdade, a liberdade de explorar um território novo.

Então, por que não fazemos essas perguntas? Porque perguntar pode abrir a porta para o caos, para o desconhecido e o imprevisível. No momento em que fazemos uma pergunta cuja resposta desconhecemos, despertamos para todas as possibilidades. Será que estamos prontos para receber uma resposta que não gostamos ou com a qual não concordamos? E se a resposta nos deixar desconfortáveis ou nos tirar da área de conforto e segurança que construímos para nós mesmos? E se a resposta não for o que desejamos ouvir?

Para fazer uma pergunta não é preciso ter força. Não é preciso nem mesmo ter uma grande inteligência. Mas é preciso coragem.




O que é uma pergunta grande?

Vejamos o que torna grande uma pergunta. Uma grande pergunta não precisa vir de um livro de filosofia ou tratar das grandes questões da vida. Para você, uma grande pergunta pode ser: "E se eu decidir mudar o ramo da minha vida?" ou "E se eu resolver mudar a minha faculdade e me formar numa outra área?" ou ainda "Devo ouvir aquela 'voz' que me diz que devo me mudar para a China?" Quaisquer uma dessas perguntas, entre milhares de outras, pode mudar a direção da sua vida. Uma grande pergunta é isso: algo que pode mudar a direção da sua vida.

Portanto, mais uma vez, por que não as fazemos? A maioria das pessoas prefere permanecer na segurança do que sabe a procurar desafios. Mesmo se esbarrassem em uma pergunta, provavelmente iriam evitá-la, enfiariam a cabeça na areia, se ocupariam rapidamente com alguma outra coisa.

Vivemos um padrão de comportamento repetitivo, quase um vício do qual não conseguimos (ou não queremos) nos livrar. Para muitos de nós, só uma crise séria poderia suscitar uma das grandes perguntas: uma doença grave, a morte de alguém querido, o fracasso de um negócio ou de um casamento ou alguma coisa parecida com isso. Em momentos assim, grandes perguntas borbulham das profundezas de nosso ser como lava incandescente. Essas perguntas não são exercícios intelectuais, são gritos da alma. "Por que eu?" - "Por que ela?" - "O que eu fiz de errado?" - "Depois disso, vale a pena continuar vivendo?" - "Como Deus permitiu que isso acontecesse?"

Se agora, quando não existe uma crise imediata, conseguíssemos fazer brotar uma paixão assim, que nos levasse a fazer uma grande pergunta sobre nossas vidas, quem sabe o que de bom poderia acontecer?

Como disse o Dr. Wolf, fazer uma grande pergunta pode revelar novas maneiras de estar no mundo. Pode ser um catalisador da transformação. Do crescimento. Da superação. Do progresso.


A alegria das perguntas

Você se lembra de quando tinha 5 anos de idade e vivia perguntando "Por quê"? Depois de um tempo, seus pais devem ter pensado que aquilo era simplesmente para deixá-los loucos, mas você realmente queria saber sobre tudo! O que aconteceu àquela criança de 5 anos?

Você consegue se lembrar da criança de 5 anos que foi? Pode lembrar como era? Isso é importante, porque aos 5 anos você adorava o mistério. Adorava querer saber. Adorava a viagem. Cada dia era repleto de novas descobertas e novas perguntas.

Então, qual a diferença entre aquele tempo e agora? Será que você anda achando que já sabe tudo?

A diversão e a alegria da vida estão na viagem. Em nossa cultura, fomos condicionados a achar inaceitável e mau o "não-saber", a vê-lo como uma espécie de fracasso. Para passar nos testes da vida, temos que saber as respostas. Porém, mesmo quando se trata do conhecimento dos fatos sobre coisas concretas, o que a ciência não sabe ultrapassa infinitamente o que ela sabe. Muitos dos grandes cientistas estudaram o mistério do Universo e da vida em nosso planeta e declaram francamente: "Sabemos pouco. O que mais temos são perguntas". Isso certamente se aplica aos mais extraordinários pensadores que conhecemos. Nas palavras do escritor Terence McKenna:

"Quanto mais brilham as fogueiras do conhecimento, mais a escuridão se revela aos nossos olhos assombrados."

É ainda mais difícil dar uma resposta clara à pergunta: "Qual o significado e o propósito da minha vida?" A resposta a grandes perguntas como essa só pode emergir da viagem que é viver. E só podemos chegar a ela pela estrada do não-saber - ou talvez devamos dizer, do ainda-não-saber. Se sempre julgamos conhecer todas as respostas, como iremos crescer? Como poderemos estar abertos para aprender?


Conta-se que um professor universitário visitou Nan In, o mestre zen, para perguntar sobre o zen. Contudo, em vez de ouvir o mestre, o professor começou a falar sem parar sobre suas próprias certezas e idéias.

Depois de ouvir por um tempo, Nan In serviu o chá. Encheu a xícara do visitante e continuou a despejar o chá. A xícara transbordou, encheu o pires e começou a se derramar sobre a mesa, caindo nas calças do homem e no chão.

"Não está vendo que a xícara já encheu?" - explode o professor. - "Não cabe mais nada aí!"

- "Isso mesmo" - respondeu calmamente Nan In. - "Tal como essa xícara, você está cheio das suas próprias idéias e opiniões a respeito de tudo. Como poderei lhe ensinar qualquer coisa se você não esvaziar a sua xícara primeiro?"



O segredo da verdadeira sabedoria está em abrir espaço dentro de nós mesmos para as grandes perguntas. Quer dizer estar acessível, se recondicionar para poder aceitar, ao menos momentaneamente, o não saber. É daí que surge o verdadeiro conhecimento. E conhecimento não tem a ver com escolha, mas com a busca pela Verdade, onde quer que ela se encontre.

Em se tratando de espiritualidade, devemos entender que a Verdade não está no supermercado. Não devemos nos deixar levar por embalagens bonitas e chamativas. Mantenha o foco na Verdade, independente de qualquer coisa. Independente até de si mesmo. Esse é o único meio de descobri-la.


"A diferença entre o meu eu aos 5 anos e o meu eu hoje é que aos 5 anos eu não tinha feito um grande investimento emocional na idéia de o Universo ser de determinada forma. Estar 'errado' nunca era um problema. Tudo era aprendizagem. Agora fico lembrando a mim mesmo: 'em ciência não existe experiência fracassada. Ter descoberto que o que eu estava testando simplesmente não funciona é na verdade um sucesso!'"

William A. Tiller, Ph.D - físico


"Em verdade lhes digo que se não mudarem e não se fizerem como crianças, de modo algum entrarão no Reino dos Céus. "

Jesus Cristo (Matheus, 18:3)






Adaptado de um trecho do livro 'What the Bleep Do We Know!?: Discovering the Endless Possibilities for Altering Your Everyday Reality', de William Arntz, Betzy Chasse e Mark Vicente (HCI Publisher - 2005).