Princípio essencial da Kabbalah #13

Com muita alegria eu constato que finalmente este nosso "minicurso" a respeito dos 14 princípios essenciais da Cabala está chegando à sua conclusão! Assim se passaram praticamente 4 meses, com postagens sobre outros assuntos intercaladas. Foi uma pesquisa que me deu bastante trabalho e consumiu um longo tempo dos meus dias, das minhas segundas feiras... E desde já eu manifesto os meus mais sinceros desejos de que esta série possa ter sido (e que continue sendo) de auxílio e aprendizado para todos quantos chegarem a este meu humilde espaço virtual, que só existe para ser compartilhado com todos.

Há uma diversidade de formas para se abordar a cada um dos princípios essenciais da Cabala, e se você fizer uma busca na web vai perceber que sobre eles pairam interpretações diversas. Das mais fidedignas às mais delirantes. Das isentas de interpretação até as mais pessoais e distorcidas por doutrinas muito mais recentes. Diferentes autores, adeptos de correntes religiosas diferentes, procuram modelar os princípios cabalistas aquilo que aprenderam em suas próprias escolas. Gostaria de deixar registrado que tudo que eu tenho publicado sobre Cabala, aqui no Arte das artes, é a expressão da sua doutrina tradicional, o mais próximo possível da interpretação "oficial" dos antigos rabinos.

Apresentando agora a abordagem do (sábio) décimo terceiro princípio essencial da Cabala:

"Todas as características negativas que você vê nas outras pessoas são simplesmente um reflexo das suas próprias. Somente consertando a si mesmo você pode mudar os outros."




E eu queria começar a abordar esse princípio contando uma linda história mítica:


"Caim e Abel pararam na beira de um imenso lago. Jamais tinham visto algo semelhante.

'Tem alguém aí dentro', disse Abel, olhando para a água, sem saber que via seu reflexo.

Caim reparou a mesma coisa, e rapidamente levantou seu bastão! A imagem fez a mesma coisa. Caim ficou aguardando o golpe, assustado; sua imagem também.

Abel contemplava calmamente a superfície da água. Sorriu, e a imagem sorriu. Deu uma boa gargalhada, e viu que o outro o imitava.

Quando saíram dali, Caim pensava:

'Como são agressivos os seres que vivem naquele lugar!'.

E Abel dizia para si mesmo:

'Quero voltar lá, porque lá encontrei alguém bonito e com bom humor.'"



- Da coluna de Paulo Coelho.


Esse pequeno e singelo conto resume tão bem o espírito do décimo terceiro princípio essencial da Cabala que eu poderia encerrar a postagem por aqui. Mas eu gostaria de deixar algumas observações que considero também importantes. Como por exemplo ressaltar que hoje, em psicologia, sabe-se que:

# As pessoas costumam duvidar da capacidade dos outros como reflexo das suas próprias fraquezas;

# Os mais irredutíveis homófobos (que têm aversão aos homossexuais) são justamente aqueles que possuem as mais fortes tendências homossexuais dentro de si próprios;

# Os fanáticos religiosos que defendem com agressividade e ataques às convicções alheias as suas próprias "certezas" costumam ser aqueles que mais duvidam, intimamente, daquilo que ensinam;

# Tanto nas relações amorosas quanto nas profissionais, costumamos buscar nos outros o reflexo de nós mesmos;

# A ira aumenta, nos mais facilmente irascíveis, quando vêem nos outros o reflexo de seus defeitos e daquilo que mais repudiam em si próprios...


Mas sem nenhuma dúvida, a parte mais importante, a base primordial dessa máxima cabalística está na sua segunda parte:


"Somente consertando a si mesmo você pode mudar os outros."


Isso diz tudo. - Porque nós não temos nenhuma moral, nenhum direito de querer apontar ou corrigir nos outros os seus defeitos, se também carregamos e demonstramos esses mesmos defeitos. O melhor exemplo que podemos dar a quem quer que seja é através do nosso comportamento, muito mais do que aquilo que tentamos transmitir por meio de nossas palavras. E por essa mesma razão, para tentar mudar qualquer coisa, em qualquer pessoa, é preciso que antes mudemos tudo que está errado em nós mesmos.

E é nesse ponto que nos questionamos: "Mudar tudo que está errado em nós? Como isso seria possível? Nós não podemos ser perfeitos!" Mas é precisamente nessa contestação que se encerram duas chaves preciosas, não só para a compreensão do 13º princípio, como também para nossas vidas como um todo:

A primeira chave é saber que não é porque entendemos que não podemos ser perfeitos que não devamos tentar! Sim, nós devemos buscar a perfeição, sempre e a todo momento, mesmo que voltemos a tropeçar e a cair, uma vez atrás da outra!




Vejo muitas pessoas "religiosas" justificando comportamentos viciosos altamente prejudiciais, a si mesmos e aos seus próximos, sob a justificativa "não sou perfeito"... Eu me lembro de uma entrevista que assisti na TV, com um jogador de futebol famoso no Brasil, que se declarava evangélico e dedicava sempre os seus gols a Jesus, mas vivia sendo expulso de campo, estava sempre envolvido em brigas com os colegas e intrigas extra-campo... Nessa entrevista para um programa esportivo, quando lhe perguntaram qual a justificativa para esse tipo de comportamento partindo de um evangélico, ele simplesmente respondeu: "Eu sou um ser humano passível de erro. Não sou perfeito. Não é porque sou evangélico que tenho que ser perfeito"...

Bonn-nng! Bonnnnn-nnnn-nng!.. Gongado! Errada a resposta...

Ao contrário do que talvez possa parecer à primeira vista, segundo a tradição cabalista, essa linha de pensamento está completamente equivocada. Será que um evangélico só deve seguir as passagens da Bíblia que lhe convém?? Será que o citado atleta nunca leu a parte dos Evangelhos em que Jesus conclama: "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito!" (Mateus 5:48 )?

Mas nós não conseguimos ser perfeitos! Dirão alguns. E sim, isso talvez seja verdade, partindo do princípio que ser perfeito é nunca se enganar, nunca errar, nunca cometer nenhum deslize nesta vida. E é exatamente aí que entra a segunda chave preciosa:

A perfeição humana passa pelo respeito aos nossos limites humanos. Aceitá-los é sábio. - Se somos humanos limitados, então devemos ser perfeitos dentro dos nossos limites humanos. - Devemos ser perfeitos conforme pudermos. Lute até o fim por atingir a perfeição absoluta (a perfeição do Pai, como disse Jesus), e o que você vai obter será o máximo da perfeição humana. O que você vai conseguir é obter mais produtividade, mais paz, mais Amor, mais alegria, mais harmonia, - no seu lar, nas suas relações humanas, no seu trabalho...

Quando eu tinha meus quatorze anos de idade, escrevi na última página do meu boletim escolar: "Sei que não posso ser perfeito, mas sei que posso tentar".

Eu tinha aprendido um segredo que também a Cabala ensina, muitos anos antes de conhecê-la.

Mas nós não devemos focar a nossa atenção em nossas limitações e sim naquela perfeição almejada, pois nós não devemos nos resignar com as nossas fraquezas e limitações. Estamos aqui para crescer, para aprender, para ir além de nós mesmos e dos nossos limites.

Segundo uma parábola contada pelo Cristo, todos nós recebemos talentos ('talento', na antiguidade, era unidade monetária - uma moeda) antes de vir para cá, e um dia teremos que prestar contas de tudo que recebemos: "O que você fez com os talentos que recebeu?"

Faça o melhor que puder com os seus talentos. Invista-os, faça-os crescer. Multiplique-os! Esta é a nossa meta primeira. Enquanto estiver ocupado fazendo isso, você nem vai ter tempo para julgar os defeitos do seu próximo. Antes disso, você estará influenciando também na mudança dele e de todos para melhor, da melhor maneira que existe: Através do seu exemplo.