Princípio essencial da Kabbalah #8

Nesta postagem abordaremos o próximo princípio essencial da Cabala, o oitavo, que pode ser entendido como uma espécie de confirmação ou uma validação do sétimo e do quarto princípios. Este oitavo princípio afirma que:


O comportamento reativo cria faíscas intensas de luz, mas deixa em seu rastro, por fim, a escuridão.


O que significa isso? Apenas aquilo que todos nós muito provavelmente já tivemos a oportunidade de confirmar pelo menos uma vez em nossas vidas: que quando damos vazão ao ímpeto de algum instinto baixo que nos toma de assalto, como a raiva, a sede de vingança, a inveja ou a luxúria, o resultado é que num primeiro momento até nos sentimos gratificados, como se estivéssemos "fazendo a coisa certa". Mas se ouvimos a nossa consciência, logo em seguida sentiremos um grande vazio, uma sensação de escuridão. Abaixo, dois exemplos de casos reais extraídos da revista de psicologia “Catharsis”, que ilustram à perfeição o significado deste oitavo princípio (os grifos são meus):




Exemplo 1:

“Entrou uma nova estagiária no escritório, uma loura estonteante. Ela é sensual e provocante, e o pior de tudo é que começou a me ‘dar bola’. Todos os meus amigos estão percebendo isso, e eu, que tenho sangue nas veias, comecei a me sentir tentado. Mesmo sendo casado e apaixonado pela minha esposa, mesmo ela me completando em tudo, eu sinto muita atração física pela nova estagiária. É só atração física e nada mais, mas é muito forte. Numa sexta feira os colegas do escritório marcaram um chope para depois do trabalho. A loura também estava nessa, e ela pessoalmente veio me convidar para ir também; eu não resisti e topei. Eu dizia para mim mesmo que nada aconteceria, que seria apenas um bate-papo inocente... Mas eu sabia muito bem que algo de errado poderia acontecer. E aconteceu (...).

Quando chegamos no bar, eu e a loura nos sentamos lado a lado; logo começamos a conversar, nos identificamos bastante, as nossas idéias eram parecidas e ficou claro que a atração física era recíproca. Bebemos talvez mais chopes do que o ideal. Num certo momento, ela pediu uma caipirinha e nós bebemos juntos. Eu comecei a me sentir muito leve e relaxado, era um momento muito gostoso... Resolvi pedir mais outra caipirinha...

Uma coisa leva a outra, e o resultado foi que, depois da happy hour, eu e a estagiária acabamos num motel... Cheguei em casa de madrugada, já arrependido. Eu tinha desligado o celular e minha esposa me esperava acordada e com os olhos inchados de chorar, ela estava muito preocupada (...). Eu dei uma desculpa e fomos dormir brigados.

Agora estou sentindo muito remorso. Na hora em que tudo acontecia, entre eu e a estagiária, de vez em quando a imagem da minha esposa me vinha à mente, mas eu a afastava sempre, porque estava indo tudo tão bem para mim... E naquele momento alguma coisa me dizia que eu merecia me divertir um pouco. Embora eu estivesse consciente o tempo todo que a minha esposa confiava em mim e que ela não merecia aquilo, na hora eu achei que seria preferível me arrepender de algo que eu fiz do que de algo que não fiz.

O que está feito está feito eu não consigo fugir da minha culpa. Depois fiquei me sentindo muito mal por isso, sentindo um grande vazio dentro de mim, como se eu tivesse matado algo muito bonito que existia entre mim e minha esposa. Depois daquela noite eu chegava em casa toda noite e olhava para o rosto dela, que sempre tinha sido tão maravilhosa comigo, e me sentia culpado. O pior é que depois desse dia ela começou a se sentir deprimida sem nenhuma razão. Antes ela me esperava sempre com um grande sorriso no rosto, às vezes com um jantar especial ou alguma surpresa para me fazer quando eu chegasse em casa, algum pequeno presente ou coisa assim. E depois do que aconteceu ela estava sempre triste e falava pouco... É como se estivesse intuindo alguma coisa... O pior é que a tal estagiária gostosa têm se demonstrado disposta a repetir a dose daquela noite. Mas eu não tenho vocação pra canalha e disse a ela que era casado... Ela não sabia disso da primeira vez.

Por fim, acabei contando tudo também à minha esposa, porque o peso na consciência estava me matando. Agora estamos separados e eu me encontro numa depressão profunda...”



Desse primeiro exemplo, gostaria de comentar um trechinho que achei muito interessante: "Achei que seria preferível me arrepender de algo que eu fiz do que de algo que eu não fiz". - Ô frasezinha feita maldita, essa! Quantas burradas são cometidas em nome dela... Uma amiga minha acabou grávida e depois se submetendo a um aborto por pensar assim! No processo todo, ela perdeu o cara que amava (a frase foi usada para justificar uma traição ao marido, igualzinho ao exemplo acima), perdeu um bom emprego e a confiança da sua família. E tudo começou com essa maldita frase feita. Eu estava lá, pessoalmente, no dia em que tudo começou e sou testemunha: ela mesma me falou essa frase, textualmente: "Prefiro me arrepender do que eu fiz do que pelo que não fiz"... Bem, ela sem dúvida se arrependeu por ter feito, e isso literalmente acabou com a vida dela, que até hoje sofre com uma depressão que os remédios não curam. Já tentei ajudá-la de diversas maneiras, mas ela nunca mais foi a mesma...


Exemplo 2:

“Meu filho de 15 anos arranjou uma briga na escola. Chegou em casa com o rosto machucado, lábios inchados e um corte no queixo. Quando ele me disse quem tinha feito aquilo, fiquei louco de ódio, porque eu conheço o garoto, que mora no mesmo bairro que nós, e ele é bem maior do que meu filho. Na mesma hora fui até a sua casa e o chamei, aos berros. Logo que o garoto saiu no portão, eu pulei em cima dele, joguei-o no chão e lhe dei uma bela surra. Só quando a mãe dele apareceu na porta e começou a gritar foi que eu saí de cima. Eu sou um cara bem grande (...) e deixei um menino de 16 anos lá, jogado no chão, sangrando e chorando...

Quando cheguei em casa já estava profundamente arrependido, e foi só então que me dei conta que o garoto era na verdade do mesmo tamanho do meu filho. E que ele também já estava com um olho roxo quando eu cheguei lá. Ou seja, o que aconteceu entre os dois meninos foi uma luta justa entre dois adolescentes, que haviam se acertado e na hora que eu resolvi intervir, na verdade já estava tudo bem entre eles. O meu filho até tentou me explicar isso, mas eu quis bancar o pai protetor, e talvez também me afirmar como macho, e fiz algo terrível. Naquela mesma noite a polícia veio até a minha casa e eu fui conduzido até o distrito policial para prestar depoimento... O garoto estava lá, ao lado dos pais dele, e só então eu percebi o quanto o havia machucado. Seu rosto estava praticamente desfigurado. Seu pai, que era meu conhecido, me olhava com uma expressão de pasmo, como quem diz: ‘O que deu em você?’(...).

Naquele momento eu vi o meu próprio filho nos olhos daquele garoto arrebentado, e um remorso enorme tomou conta de mim. Senti vontade de abraçar o menino que eu havia surrado, de lhe pedir perdão e recompensá-lo de algum modo. Lágrimas brotaram nos meus olhos, e o delegado nesse momento me disse: ‘Todo machão igual a você chora quando chega na minha frente. Você não passa de um covarde!’ – O pior é que, naquele momento, eu percebi que ele tinha toda razão. Eu tinha me comportado como um covarde completo, e agora era tarde para desfazer a minha estupidez. Teria que pagar pelo que fiz, mas nada era pior do que o peso da culpa...”



Não há dúvida nenhuma de que poderíamos citar milhares de outros exemplos muito parecidos com esses dois, mas acho que já é o suficiente para ilustrar a validade do oitavo princípio essencial da Cabala:

O marido infiel sentia uma grande atração pela "loura fatal". Ela correspondeu ao interesse. Ambos fizeram a ocasião acontecer e ele entrou de cara no que a Cabala chama de “comportamento reativo”. Quando se atirou nos braços da bela loura e saciou os seus desejos até o fim, naquele momento tudo foi muito bom para o rapaz. - Foi empolgante, foi incrível! - Tanto que, mesmo pensando na esposa ele seguiu em frente! Isso é exatamente o que o oitavo princípio chama de uma “faísca intensa de luz”: A sensação de que estamos fazendo o que é certo, ou de que estamos vivendo uma experiência pura e maravilhosa.

Precisamente a mesma coisa acontece no segundo exemplo. Quem de nós nunca foi dominado por uma raiva irracional e, ainda que por poucos instantes, desejou encher aquele chefe idiota de pancada? Quando o pai do rapaz agrediu o colega do seu filho, por um segundo ele deve ter sentido um grande prazer, uma sensação de alívio. Na sua mente, naquele momento distorcida pelo ódio, ele estava fazendo justiça, estava "vingando o coitadinho" do seu filho!

O que o princípio número oito está nos dizendo é exatamente isto: que quando você pára de resistir às tentações desta vida, e resolve reagir a elas, isto é, ceder aos seus instintos, por um momento tudo parece lhe dizer que você está fazendo o certo! Parece haver luz! Mas o que fica depois, é, "por fim, a escuridão". Pode demorar mais ou menos, mas a consequência é sempre a escuridão.

E para me manter em harmonia com a minha consciência, eu não poderia deixar de lembrar a todos os buscadores que isto é exatamente o contrário do que ensinam os “mestres” e “gurus” da nova: praticamente todos eles dizem que você deve se entregar, que você não deve resistir; que se você tem algum desejo, deve se entregar sem se reprimir. E que assim, naturalmente, no tempo devido tudo se resolverá por si mesmo. Ocorre que, nessa levada, milhares de vidas foram e continuam sendo perdidas, vidas de jovens que se entregam aos mais diversos tipos de vício e nunca mais conseguem se libertar. Nada se resolve quando nos entregamos ao comportamento reativo, porque não é isso o que acontece quando largamos mão e abandonamos o bom Caminho. A Verdade nos ensina o oposto disso. Quando deixamos de "resistir", nos tornamos como que barcos à deriva, e embora seja romântico imaginar que seremos levados, sem nenhum esforço de nossa parte, a um porto seguro, o que sempre acontece na prática é que as ondas da vida nos atiram às rochas e nos arrebentamos! - É justamente por isso que viemos a este mundo dotados de um "leme" (que é a nossa consciência) e de um "motor de popa" (que é o nosso poder de escolha, nosso livre arbítrio). Observação: ainda que você acredite em reencarnação e ache que, mesmo que botar tudo a perder nesta vida vai poder recomeçar tudo na próxima... Ainda assim, não se esqueça que a idéia é evolução, e ninguém "evolui" jogando sua vida fora. De qualquer jeito é preciso esforço. Nenhuma hipótese, absolutamente nenhuma, justifica o comportamento reativo. As religiões confirmam esta afirmação.

Além de tudo isso, para compreender este princípio é preciso ter em mente que "Religião" (re-ligare) significa "Religação com o Divino": re-ligação, isto é, voltar a ligar (unir) o que estava desligado (separado). Sem esta base primordial não há religião. E é exatamente por isso que não existe religião sem Deus: o "religar" remete à religação com Deus, o retorno à Fonte. Se o termo "Deus" não parece bom, você pode chamar de "Ser", "Infinito", "Radiante", "Fonte", "Criador", "Eterno", "Pai", "Energia Cósmica"... Mas o sentido será o mesmo, e o fato permanece: se não há Deus, podemos estar falando de filosofia, de psicologia ou alguma outra coisa. Pode ser algo bom, sim, mas não é religião. Assim, todas as religiões autênticas concordam neste oitavo princípio essencial da Cabala.